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Blog do Brasilianismo

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Imagem da economia brasileira sob Bolsonaro oscila com incertezas políticas

Daniel Buarque

21/10/2019 11h33

Na mesma semana em que Paulo Guedes foi escolhido como o ministro das Finanças do ano pela revista inglesa Global Markets, os mesmos mercados internacionais empolgados com a agenda de reformas do país voltou a perceber ameaças por conta de crises internas do governo de Jair Bolsonaro. Numa repetição de um processo que tem marcado a imagem internacional do país desde o início do ano, incertezas políticas geram oscilações no otimismo econômico em relação à economia brasileira.

A evidência mais recente disso podia ser vista numa reportagem do jornal de economia Financial Times na sexta-feira. Segundo a publicação, a briga política entre o presidente e o seu partido ameaça desestabilizar o governo e pode atrapalhar a agenda de reformas econômicas previstas para o país.

O fenômeno, entretanto, é frequente desde antes mesmo da posse de Bolsonaro na Presidência. A cada avanço de reformas como a da Previdência, o mercado comemora e projeta otimismo para o país. A cada nova crise em torno do presidente e suas declarações polêmicas, crescem as preocupações com o andamento da economia.

Logo que Bolsonaro venceu a eleição, enquanto a imprensa tradicional no resto do mundo via com preocupação uma possível ameaça à democracia brasileira, veículos mais ligados ao mercado já davam uma projeção mais otimista.

Publicações como o próprio Financial Times, a agência de economia Bloomberg e especialmente o Wall Street Journal pareciam comemorar a agenda de abertura da economia brasileira, além do forte foco no corte de gastos.

Logo em janeiro, era perceptível o quanto o otimismo em relação a economia era a principal alavanca de notícias positivas no resto do mundo, mesmo enquanto o presidente era duramente criticado por suas declarações.

Menos de dois meses depois do início do novo governo, entretanto, o otimismo já era posto em xeque.

A exoneração do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, em fevereiro, por exemplo, foi vista como uma ameaça às reformas econômicas esperadas do recém-empossado governo.

Em março, nova preocupação por conta da polêmica gerada pela publicação de um vídeo obsceno e de uma pergunta sobre sexo pelo presidente Jair Bolsonaro, no que foi apelidado de "xixi-gate" pelo jornal de economia Financial Times.

Segundo a publicação, este tipo de "guerra cultural" poderia levar o governo brasileiro a tirar o foco das reformas econômicas que o mercado vê como essenciais para o país.

Ainda em março, a preocupação do mercado era tão grande, que a Bloomberg publicou uma reportagem falando do aparente "desmoronamento" do governo.

"Após anos de recessão, escândalos de corrupção e tumultos políticos, o mero pensamento sobre reformas econômicas e hesitações do governo desencadeiam pânico entre os líderes empresariais", dizia a agência de economia.

O fenômeno se repetiu alguns meses depois. Em julho, a aprovação em primeiro turno da reforma da Previdência na Câmara foi recebida com entusiasmo pela imprensa internacional voltada à economia e a investidores estrangeiros.

Menos de uma semana, entretanto, a empolgação foi ofuscada pelo anúncio de Bolsonaro de que pretendia indicar seu filho para a embaixada brasileira em Washington, o que fez o governo ser alvo de uma cobertura crítica e irônica.

Essa oscilação foi tão frequente ao longo deste ano, e cria tanta preocupação em investidores estrangeiros, que a revista Forbes publicou recentemente uma análise alegando que o Brasil está testando a paciência de Wall Street.

Segundo a publicação, investidores estão frustrados com o fato de o presidente não estar dando atenção suficiente à reforma e foca em disputas ideológicas e culturais –uma preocupação frequente de analistas de economia desde o início do governo.

De fato, logo após a vitória de Bolsonaro, a mesma Forbes noticiava que o mercado estava dando um prazo de seis meses para que o novo governo avançasse com a reforma da Previdência, vista como o primeiro grande passo da agenda de reformas na economia.

Em uma entrevista ao blog Brasilianismo, em maio, o professor da universidade de Leiden, Edmund Amann, avaliou que a aprovação da reforma da Previdência é importante não apenas pela economia que gera, mas por conta do seu papel simbólico. A reforma, ele explicou, é como um primeiro desafio do governo, capaz de apontar a viabilidade de Jair Bolsonaro alcançar melhoras para a economia do país e indicar ao mundo se o governo pode ser levado a sério.

Após dez meses, entretanto, a reforma continua sendo debatida e sofrendo ameaças de incertezas políticas, dessa vez por conta das brigas do presidente com o PSL.

Enquanto o presidente Bolsonaro se aproxima de completar seu primeiro ano no poder, a tendência se repete, e tensões políticas continuam sendo vistas no exterior como ameaças ao otimismo econômico.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.