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Deu no ‘Guardian’: Desilusão política faz crescer apoio à direita no Brasil
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Daniel Buarque

Deu no 'Guardian': Desilusão política faz crescer apoio à direita no Brasil

As crises política e econômica deixaram os brasileiros desiludidos. E a desilusão empurrou a população na direção a propostas políticas liberais, evangélicas e de populistas de direita, segundo uma reportagem do jornal britânico ''The Guardian''.

Segundo a publicação, normalmente mais alinhada aos trabalhistas ingleses, grupos conservadores como o MBL estão gerando uma mudança na maré política do Brasil, onde o PT governou por 13 anos.

''O Partido dos trabalhadores, de esquerda, aproveitou 13 anos no topo, mas a recessão, o crime e o desencanto geral levaram muitos brasileiros a se voltar à direita'', explica o ''Guardian''.

O jornal até menciona o deputado Jair Bolsonaro, citado em muitas reportagens estrangeiras sobre o crescimento da direita no Brasil, mas diz que o movimento conservador é mais amplo do que ele.

''Antes era inadmissível uma pessoa se posicionar como de direita –era basicamente um xingamento'', diz um entrevistado pelo jornal. Agora, diz a reportagem, isso mudou, e o apoio a políticas de direita está crescendo.

Este crescimento, explica a reportagem, faz com que haja cada vez menos apoio à democracia e cada vez mais vozes que clamam pela volta dos militares ao poder. ''Os que pedem abertamente a volta da ditadura militar são uma minoria, mas eles parecem estar crescendo'', diz.

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Para cientista política, crise no Brasil se parece com a da Venezuela
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Daniel Buarque

Para cientista política, crises políticas de Brasil e Venezuela se parecem

As imagens de caos em protestos quase diários e a convocação de uma Assembleia Constituinte na Venezuela podem dar a impressão de que o país vive uma situação muito diferente da aparente apatia dos brasileiros diante da sua própria crise. Mas, na opinião da professora de política e relações internacionais da Universidade de Aberdeen, na Escócia, Andrea Oelsner, os dois países vivem situações mais parecidas do que se pensa.

''Por mais diferentes que essas duas crises monumentais possam parecer, elas realmente têm muito em comum, e as semelhanças nos dizem uma ou duas coisas sobre o estado da democracia e da política na América Latina em geral'', diz Oelsner, em artigo publicado no site ''The Conversation''.

Para ela, 30 anos depois do fim das várias ditaduras da América do Sul, a região ainda está lutando para consolidar suas instituições democráticas.

''O Brasil e a Venezuela estão lidando com as consequências da corrupção política maciça e, com isso, as promessas não entregues pela democracia. Ambos sofrem não apenas de funcionários corruptos individuais, nem mesmo de governos corruptos, mas corrupção estrutural permeando seus sistemas políticos de cima para baixo.''

A professora reconhece que a situação da Venezuela é muito mais grave, com mais de cem mortos em protestos muito violentos, mas alega que os dois governos empregaram os militares para tentar conter manifestantes de oposição.

Ela ressalta ainda que, apesar da situação complicada, há sinais de que a era da impunidade pode chegar ao fim. ''Tanto o judiciário brasileiro quanto o venezuelano estão tomando medidas críticas para controlar pelo menos alguns dos excessos de seus governos.''

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Expansão do Brasil no mundo foi ‘ponto fora da curva’, segundo pesquisadora
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Daniel Buarque

A chanceler alemã, Angela Merkel, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (centro) e o presidente norte-americano, Barack Obama (à dir.), conversam durante a cúpula do G20, em Pittsburgh (EUA)

A retração da presença brasileira no cenário global nos últimos anos e o encolhimento da diplomacia do Itamaraty são reflexo de perda de força do Brasil no exterior por conta das crises no país. Esta retração tem causas políticas e econômicas, mas se torna mais perceptível por conta do período de expansão excepcional registrado durante os anos anteriores, especialmente durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva.

A avaliação foi feita pela pesquisadora Mathilde Chatin, que estudou a busca do Brasil pelo status de potência global e sua inserção internacional independente do seu poder militar em seu doutorado, completado no primeiro semestre no King’s College de Londres.

Para ela, a perda de força do Brasil é reflexo de uma retração visível da política externa brasileira no período mais recente em comparação com os anos do governo Lula, mas ela também acredita que o período de expansão é que foi exceção no histórico desta inserção global do país.

A pesquisadora Mathilde Chatin

“O contexto econômico e político que os sucessores enfrentaram foi drasticamente diferente do qual o Presidente Lula beneficiou. Pode ser que aquele período tenha sido um ‘ponto fora da curva’, que se regularizou com seus sucessores – inclusive por falta de interesse em política externa da Presidente Dilma Rousseff e uma diplomacia presidencial menos intensa”, disse.

Leia também: ‘Com Dilma e Temer, o Brasil voltou à normalidade de presidentes medíocres’

As crises políticas e econômicas pelas quais o Brasil passa atualmente afetam o andamento da política externa brasileira e da projeção internacional do país de forma mais ampla, até porque geram cortes no orçamento do Ministério das Relações Exteriores e da Defesa, segundo ela.

Apesar do encolhimento da força brasileira, Chatin defende que o potencial do soft power em colocar o Brasil como potencial emergente no mundo ainda existe. “É a forma mais efetiva para a inserção brasileira'', disse.

Brasilianismo – Como as crises política e econômicas afetam as relações internacionais do Brasil?

Mathilde Chatin – As crises política e econômica afetam o andamento da política externa. Cortes no orçamento do Ministério das Relações Exteriores e da Defesa têm impacto sobre o funcionamento das embaixadas, e diplomatas brasileiros comentam sobre a incapacidade de atender custos básicos (contas e salários) e impedidos de fazer o trabalho regular (atividades, eventos e convites importantes). Afetam também o financiamento de projetos de cooperação para o desenvolvimento, e o financiamento para projetos de defesa em andamento ou planejamento também tem dificuldades.

O Brasil acumulou dívidas com várias organizações internacionais e ultimamente perdeu seu direito a voto na Corte Penal Internacional e a Agência Internacional de Energia Atómica.

Brasilianismo – Acha que pode-se falar em encolhimento da presença do país no mundo nos últimos anos?

Mathilde Chatin – o caso do G20 é um exemplo de grande visibilidade do efeito da crise política sobre as relações internacionais do Brasil, assim como do seu posicionamento hesitante em grandes debates globais onde o papel do país é estrategicamente interessante.

O Presidente teve uma presença desbotada no G20, na Alemanha: não estava no programa porque tinha anunciado o cancelamento da viagem para aquela reunião; não realizou nenhum encontro bilateral, já que lideres interessados em se reunir com Temer remanejaram suas agendas; no meio da crise interna, voltou ao Brasil depois de apenas 30 horas e perdeu o ultimo almoço com seus pares.

O professor Oliver Stuenkel fez uma comparação interessante entre o ano 2009 e aquele G20 no qual a capacidade do Brasil de priorizar sua atuação externa e ajudar a moldar uma transformação profunda do sistema internacional através a emergência de um mundo menos centrado no Ocidente.

Oito anos atrás, o Brasil estava se consolidando como uma potência diplomática global durante as duas primeiras cúpulas presidenciais do G20, até negociar um aumento de sua representação no FMI com os outros BRICs. No mesmo ano, a primeira cúpula presidencial do BRICs ocorreu em Ecaterimburgo, refletindo um deslocamento histórico para as potências emergentes.

Brasilianismo – O governo de Dilma Rousseff foi muito criticado por não priorizar o trabalho da diplomacia brasileira. Temer assumiu com promessa de mudar isso, mas parece não ter conseguido avançar a agenda de política externa do Brasil. Como você avalia esta mudança desde Lula e o momento atual da diplomacia brasileira?

Mathilde Chatin – O Brasil experimentou uma retração visível da sua política externa no período mais recente em comparação com os anos do governo Lula, limitando o poder de atuação do país no contexto internacional.

O contexto econômico e político que os sucessores enfrentaram foi drasticamente diferente do qual o presidente Lula se beneficiou –obriga a dedicar mais intenção as dificuldades domesticas que reduzem severamente os recursos para manter um vigoroso engajamento internacional.

O período do presidente Lula também deu um forte impulso ao objetivo firme de inserir o Brasil no contexto internacional com uma política externa ambiciosa e um passo hiperativo.

Pode ser que aquele período tenha sido um “ponto fora da curva” que se regularizou com seus sucessores –inclusive por falta de interesse em política externa da Presidente Dilma Rousseff e uma diplomacia presidencial menos intensa.

Brasilianismo – O ''soft power'' tem sido usado para compreender a ascensão diplomática do Brasil no mundo no século XXI, mas o Brasil acabou de cair 5 posições (da 24ª para a 29ª) no ranking mais recente de soft power da Portland (soft power 30). O que explica isso?

Mathilde Chatin – Em primeiro lugar, estudiosos estão de acordo sobre o fato de que é difícil medir o poder. Ainda assim, se você olhar aqueles critérios usados pela Portland: um deles é “governo”, então crise política com vários casos de corrupção de grande visibilidade talvez tenha um impacto sobre a imagem do Brasil como ator confiável e deve ter afetado o resultado.

A avaliação também considera “engajamento”, e o menor ativismo internacional (em particular ao nível da diplomacia presidencial) e atuação mais apagada do Brasil no nível global podem ter afetado o resultado.

Brasilianismo – Sem soft power, o que sobraria como forma de o Brasil se colocar como uma potência emergente no mundo?

Mathilde Chatin – o potencial do soft power em colocar o Brasil como potencial emergente no mundo ainda existe e é a forma mais efetiva para aquela inserção brasileira, inclusive valores e princípios que tem defendido no cenário internacional (uso não excessivo da força, busca de soluções diplomáticas e investimento no desenvolvimento, multilateralismo, etc.) e a realidade que é importante demais como membro dos BRICS para ser ignorado em grandes discussões internacionais. O que talvez falte é uma maior afirmação daquele soft power no período mais recente.

Brasilianismo – Acha que este processo de encolhimento pode desfazer as conquistas internacionais do país do início do século?

Mathilde Chatin – Em uma entrevista, o ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores Celso Amorim comentou afirmou que “Brasil não pode desperdiçar seu soft power” e comentou: “Você não pode decepcionar, porque aquilo que você leva dez anos para criar –uma confiança, uma relação– você com um ato pode perder. Depois pode recuperar, mas dá muito trabalho recuperar”. Acho que é um bom resumo do risco.

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‘Com Dilma e Temer, o Brasil voltou à normalidade de presidentes medíocres’
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Daniel Buarque

A presença internacional do Brasil encolheu significativamente nos últimos anos, enquanto o país perdeu prestígio e soft power.

Se isso parece um problema exclusivamente da diplomacia brasileira, o pesquisador Andrés Malamud explica que não, pois trata-se de uma questão muito mais complexa e estrutural: o país tentou ter uma relevância maior do que sua capacidade real permitia.

''A sua retração deve-se parcialmente aos erros na política externa, mas deve-se ainda mais ao fato de o país ter pretendido jogar numa liga maior à permitida por seus recursos materiais'', explicou Malamud em entrevista ao autor deste blog Brasilianismo.

Professor de ciência política da Universidade de Lisboa, Malamud conhece bem este assunto e publicou recentemente um artigo acadêmico sobre a questão: ''Foreign Policy Retreat: Domestic and Systemic Causes of Brazil’s International Rollback'' (Recuo da política externa: Causas domésticas e sistêmicas do retrocesso internacional do Brasil) foi publicado no projeto ''Rising Powers in Global Governance''.

Para o pesquisador, o Brasil até conseguiu se promover em escala global nas décadas de 1990 e 2000 por conta da ação de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, ''presidentes excepcionais'', mas voltou a uma situação medíocre desde que eles deixaram o poder.

''Com Dilma e Temer, o Brasil voltou à normalidade dos presidentes medíocres: daí a perda de imagem internacional e soft power.''

Brasilianismo – Acha que pode-se falar em encolhimento da presença do país no mundo nos últimos anos?

Andrés Malamud – O encolhimento é evidente, não é opinião.

O Brasil tem menos protagonismo, e por vezes até nem participa, em reuniões ou foros de alto nível, mesmo sobre questões nas quais o país já foi um ator relevante (como o ambiente).

No nível regional, a UNASUL (uma criação brasileira) e a CELAC estão paralizadas: nem conseguem reunir para tratar a crise venezuelana.

Brasilianismo – Como as crises política e econômicas afetam as relações internacionais do Brasil?

Andrés Malamud – O Brasil, embora seja grande na América do Sul, é pequeno no mundo: a sua capacidade militar está mais próxima da Colômbia que da Índia (para não falar dos EUA, China ou Rússia). A sua participação no comércio internacional não chega a 1,5% (tendo 3% da população mundial) e o seu desenvolvimento científico e tecnológico é baixo.

O aumento do peso internacional do país foi produto da sua capacidade diplomática, quer profissional quer presidencial. As crises domésticas reduziram essa capacidade.

Brasilianismo – O governo de Dilma Rousseff foi muito criticado por não priorizar o trabalho da diplomacia brasileira. Temer assumiu com promessas de mudar isso, mas parece não ter conseguido avançar a agenda de política externa do Brasil. Como você avalia esta mudança desde Lula e o momento atual da diplomacia brasileira?

Andrés Malamud – Este é o meu ponto de desacordo com muitos críticos: mesmo que a gestão diplomática de Dilma tenha sido incompetente e a de Temer seja inexistente (e são!), o ''encolhimento'' do Brasil é estrutural.

A sua retração deve-se parcialmente aos erros na política externa, mas deve-se ainda mais ao fato de o país ter pretendido jogar numa liga maior à permitida por seus recursos materiais.

Brasilianismo – O soft power tem sido usado para compreender a ascensão diplomática do Brasil no mundo no século XXI, mas o Brasil acabou de cair 5 posições (da 24ª para a 29ª) no ranking mais recente de soft power da Portland (Soft Power 30). O que explica isso?

Andrés Malamud – O Brasil teve, durante 16 anos, dois presidentes excepcionais: FHC e Lula. A Argentina, por exemplo, há décadas que não tem nenhum dessa hierarquia, ainda menos dois. Com Dilma e Temer, o Brasil voltou à normalidade dos presidentes medíocres: daí a perda de imagem internacional e soft power.

Brasilianismo – Sem soft power, o que sobraria como forma de o Brasil se colocar como uma potência emergente no mundo?

Andrés Malamud – O Brasil é uma potência emergente por causa da sua demografia: com uma população grande (a quinta do mundo) e ainda jovem (ainda tem bastante mais trabalhadores do que pensionados), a sua participação nos fluxos internacionais ainda vai crescer. O que não é certo é que consiga influenciar muito na gestão desses fluxos.

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Deu na ‘Folha’: Brasil perde soft power e diplomacia fica sem prestígio
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Daniel Buarque

Reportagem publicada na edição de domingo da ''Folha de S.Paulo'' analisa a perda de de prestígio da política externa brasileira.

Na chamada diplomacia do prestígio, o Brasil está à frente apenas da Turquia, recém-convulsionada por uma tentativa de golpe de Estado e que assiste às investidas autoritárias do presidente Recep Tayyip Erdogan.

A edição 2017 do estudo ''The Soft Power 30'', realizado pela consultoria britânica Portland e divulgado na última semana, aponta que o Brasil caiu cinco posições no ranking em relação a 2016, ocupando hoje o 29º e penúltimo lugar.

A análise leva em conta a capacidade de persuasão de um país no cenário global.

Desde a publicação da primeira edição do estudo, em 2015, o Brasil só perde terreno –foi ultrapassado por países como China, Polônia, República Tcheca e Hungria.

O cenário condiz com o encolhimento da política externa brasileira nos últimos anos, iniciado ainda sob Dilma Rousseff e catalisado pela crise política que engolfa o governo de Michel Temer –que, há quase um ano, ao assumir a Presidência de fato, prometera priorizar a área.

''Não vejo estratégia alguma. O Brasil em matéria de política internacional está cumprindo tabela'', afirma à Folha Celso Amorim, que chefiou o Ministério das Relações Exteriores de 2003 a 2010, no governo Lula.

Leia a reportagem completa na Folha

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Reforma da CLT cria insegurança sem garantir mais empregos, diz acadêmica
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Daniel Buarque

A forte oposição e os protestos contra a reforma trabalhista aprovada pelo governo de Michel Temer surpreenderam observadores internacionais menos familiarizados com o contexto brasileiro. Apesar de haver motivo para ceticismo quanto à flexibilização aprovada na mudança da lei, para a pesquisadora Marieke Riethof, da Universidade de Liverpool, a atual polarização política no país e a interpretação de que o presidente não tem legitimidade fortaleceram esta reação negativa.

“Idealmente, todos os trabalhadores devem receber uma melhor proteção, mas a realidade é que a maioria dos países está se movendo para contratos de trabalho flexíveis”, disse Riethof, em entrevista ao blog Brasilianismo.

Leia também: Se CLT funcionasse, Brasil seria melhor país para trabalhar, diz americano

A pesquisadora Marieke Riethof, da Universidade de Liverpool

Doutora em ciência política e relações internacionais pela Universidade de Amsterdam, Riethof fez sua pesquisa acadêmica sobre as estratégias dos movimentos trabalhistas no Brasil em um contexto regional, bem como a trajetória histórica desses movimentos.

Segundo ela, reforma trabalhista do Brasil flexibiliza os direitos e aumenta a insegurança dos empregados sem haver nenhuma garantia de que aumentará o número de empregos.

Em sua avaliação, as tendências recentes mostram que o crescimento econômico tem mais relação com a redução do desemprego do que as leis trabalhistas

Na entrevista, ela explica que apesar de haver esta tendência internacional rumo à flexibilização, combinar reformas com uma deterioração dos direitos trabalhistas significa que os eventuais efeitos positivos podem ser cancelados pelos efeitos negativos.

Brasilianismo – A reforma trabalhista brasileira foi aprovada enquanto as antigas leis trabalhistas eram criticadas pelo governo como sendo desatualizadas e superprotetoras. Enquanto isso, defensores da reforma argumentam que mudar a CLT ajudará a combater o desemprego. O que você acha disso? As reformas eram realmente necessárias?

Marieke Riethof – O nível de proteção para os trabalhadores brasileiros no setor formal era tradicionalmente alto, com proteções que tornavam mais difícil a demissão de pessoas. Ao mesmo tempo, também é sabido que muitos brasileiros que trabalham fora do setor formal não se beneficiaram dessa proteção ou representação sindical. Idealmente, as reformas trabalhistas ampliariam esses direitos trabalhistas e a representação sindical a esses grupos, mas o objetivo do governo atual é claramente tornar a regulamentação do trabalho mais flexível da perspectiva dos empregadores, para que eles possam lidar com a crise econômica.

As atuais reformas flexibilizam os direitos trabalhistas, facilitando a terceirização e aumentando o limite de horas trabalhadas, entre outras medidas. A desvantagem é, naturalmente, que a flexibilidade para os empregadores significa que a insegurança no emprego aumenta no contexto de uma profunda e prolongada recessão.

As tendências recentes no mercado de trabalho brasileiro desde o início dos anos 2000 mostram que os altos níveis de crescimento econômico entre meados e finais dos anos 2000 desempenharam um papel muito importante no aumento do emprego. Por mais que as reformas trabalhistas possam facilitar aos empregadores a demitir e ajustar a força de trabalho, não é certo se essas medidas aumentarão o número de empregos disponíveis para os brasileiros.

Brasilianismo – A oposição ao governo, por outro lado, está lutando contra a reforma e argumentou que ela tira direitos dos trabalhadores. Você acha que esta reforma pode ser favorável aos empregadores? Os trabalhadores têm algo a ganhar com isso?

Marieke Riethof – Os sindicatos têm razão em ser muito céticos sobre essas reformas e, para entender sua abordagem atual, é importante avaliar as atitudes sindicais em relação ao CLT no passado. Devido à recessão econômica na década de 1990 e consequentes perdas de empregos, os sindicatos estavam na defensiva, o que enfraqueceu sua capacidade de desafiar essas mudanças.

Na minha pesquisa sobre as estratégias políticas dos sindicatos no Brasil, descobri que os sindicatos foram fortemente divididos desde o final da década de 1970 sobre a necessidade de reformar as leis sindicais, particularmente sobre a contribuição sindical, a adesão voluntária e a permissão para que vários sindicatos representem trabalhadores. Para os sindicatos que apoiam uma reforma das leis sindicais, a abolição do imposto sindical pode ser benéfica. Esta questão também foi fundamental para as propostas infrutíferas de reforma trabalhista sob o segundo governo de Lula, que eram igualmente questionadas. No entanto, combinar reformas sindicais com uma deterioração dos direitos trabalhistas significa que os eventuais efeitos positivos de tornar voluntária a associação são cancelados pelos efeitos negativos.

Há ecos das reformas trabalhistas dos anos 90 introduzidas na proposta de Michel Temer, que em grande medida aprofunda as reformas anteriores. Reformas significativas já aconteceram na década de 1990 sob Fernando Henrique Cardoso, cujas reformas tornaram flexíveis os contratos de trabalho, horários variáveis ​​e simplificação de formas de pagamento. A terceirização também se tornou prática mais fácil e comum em empresas que buscavam reduzir custos trabalhistas através de uma força de trabalho mais flexível. As reformas foram parcialmente baseadas em práticas que já estavam acontecendo em vários setores econômicos e empresas em que os sindicatos conseguiram negociar flexibilidade em troca de proteção ao trabalho. O contexto econômico das reformas trabalhistas deste ano é semelhante no sentido de que o Brasil está sofrendo uma profunda recessão, mas em termos políticos esse governo é muito mais fraco e os protestos dos movimentos sociais e dos sindicatos contra as reformas trabalhistas foram muito mais fortes nos últimos anos. Outra dimensão do debate é que esses manifestantes não consideram o governo legítimo, incluindo as reformas trabalhistas, sociais e ambientais atualmente em discussão.

Brasilianismo – Quando comparados a países como EUA e Reino Unido, as leis trabalhistas brasileiras realmente estão mais focadas em proteger os trabalhadores. A França, por outro lado, também tem muita proteção para os trabalhadores e também está discutindo reformas. Mudanças como essas são necessárias no mundo contemporâneo?

Marieke Riethof – Idealmente, todos os trabalhadores devem receber uma melhor proteção, mas a realidade é que a maioria dos países está se movendo para contratos de trabalho flexíveis. No Reino Unido, o debate centrou-se na chamada ''economia gig'' promovida por empresas como Uber. As pessoas que trabalham para a Uber são autônomas e não têm os mesmos benefícios que os funcionários, como a seguridade social, a licença por doença e a representação sindical. Em 2016, os motoristas da Uber na Inglaterra e no País de Gales ganharam na justiça e agora são considerados empregados, o que significa que eles se qualificam para o salário mínimo e outros benefícios. No entanto, com o mercado de trabalho com uma pressão severa, as pessoas provavelmente buscarão esses empregos para ganhar renda, mesmo que isso seja difícil de alcançar. Grande parte do debate depende, portanto, de saber se os trabalhadores independentes podem alcançar melhores direitos, mas também que os direitos dos funcionários não sejam prejudicados pela terceirização.

Brasilianismo – Qual a situação do Brasil neste debate de trabalho global?

Marieke Riethof – Esses debates têm fortes ecos no caso brasileiro, onde você pode ver divisões similares no mercado de trabalho e tentativas de criar empregos formais menos protegidos. Os protestos contra reformas trabalhistas são mais intensos no Brasil do que em outros lugares. No Reino Unido, por exemplo, não houve manifestações em massa e os protestos geralmente ocorrem em setores particulares. O que provavelmente é surpreendente para muitos observadores que não estão familiarizados com o contexto brasileiro é o quão forte é a oposição às propostas de reforma do trabalho. Minha impressão é que essa oposição não se concentrou apenas nas reformas trabalhistas, mas também no contexto político, que fortaleceu os protestos em relação aos anos 90 e 2000.

Brasilianismo – A Organização Internacional do Trabalho criticou a reforma argumentando que ela violava as convenções internacionais. A proposta é criticada por não dar voz aos movimentos sociais e trabalhistas.

Marieke Riethof – Os sindicatos brasileiros –e a CUT em particular– tiveram fortes conexões com a OIT desde a década de 1980. A natureza da OIT como uma organização que une sindicatos, governos e empregadores significa que promove a consulta de sindicatos em propostas de reforma. Apesar dos problemas encontrados nas reformas trabalhistas no âmbito do segundo governo Lula, o esforço generalizado de consulta foi considerado essencial para a criação de apoio e consenso sobre as reformas. Neste caso, o movimento social e a oposição trabalhista ao governo de Temer tornariam essa consulta quase impossível.

Brasilianismo – Os movimentos trabalhistas do Brasil perdem relevância política?

Marieke Riethof – Não há dúvida de que seu papel mudou consideravelmente desde o final da década de 1970 e 1980 até hoje. Particularmente sob os governos do PT, os sindicatos pareciam se esforçar para conciliar a influência que adquiriram com uma postura crítica em relação ao governo. Também podemos ver este problema no debate sobre as reformas trabalhistas, quando surgiram fortes divisões entre sindicatos, que não poderiam ser resolvidas. No entanto, apesar dessas questões, os sindicatos se tornaram mais proeminentes nos protestos e sua oposição ao governo de Temer e as reformas trabalhistas os uniram em grande parte. Nesse contexto, eles poderão recuperar algumas das suas forças econômicas e políticas anteriores, embora o contexto econômico seja muito desafiador.

Brasilianismo – Em um artigo de abril de 2016, você escreveu que o impeachment da Dilma Rousseff significaria entrar em anos de caos político no país. Um ano depois de ela deixar a Presidência, estamos vendo uma probabilidade crescente de que Michel Temer também possa ser derrubado. O debate sobre a reforma do trabalho também foi marcado pelo caos. Este é o novo normal para a política brasileira. Existe uma maneira para o país sair desse caos?

Marieke Riethof – Ao escrever esse artigo, eu ainda não estava plenamente consciente de como o escândalo de corrupção evoluiria e como isso paralisaria o processo político. Parece que Michel Temer está interessado em acelerar uma série de reformas polêmicas, mas também enfrenta uma diminuição do apoio no Congresso. Os partidos políticos e os principais candidatos presidenciais estão claramente olhado para a frente pensando em suas chances nas eleições de 2018 (e até mesmo nas eleições de 2022 e 2026) então eles possam estar relutantes em se associar a reformas altamente impopulares. Os protestos mostram altos níveis de polarização política e as pesquisas de opinião continuam a mostrar que os brasileiros rejeitam e desconfiam da maioria dos políticos. Este contexto político torna difícil imaginar que qualquer um dos candidatos tenha apoio popular suficiente, apoio do Congresso e, o mais importante, legitimidade para dirigir o país de forma efetiva e justa.

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Desânimo político no Brasil favorece Bolsonaro, diz analista americano
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Daniel Buarque

Fatiga com escândalos políticos beneficia Bolsonaro, diz analista americano

A apatia da população brasileira, mergulhada em um aparente ciclo interminável de escândalos políticos, tem chamado muito a atenção de observadores estrangeiros.

A mídia internacional tem tratado com surpresa da falta de protestos contra o governo de Michel Temer. E analistas já responsabilizaram a perplexidade e o desgosto dos brasileiros em relação à classe política, bem como a exaustão do povo que vê uma longa sequência de problemas no país.

''A raiva se foi. Agora, os brasileiros estão apenas cansados. Da recessão que não acaba, dos escândalos de corrupção que também não, dos políticos que não oferecem uma visão ou esperança de qualquer coisa diferente'', avalia Brian Winter, editor da revista ''Americas Quarterly'', que publicou seu texto sobre o desânimo nacional.

Ex-correspondente no país, vice-presidente da Americas Society/Council of the Americas e autor de quatro livros sobre a América do Sul, Winter compara o clima de protestos em escândalos anteriores com o que se vê atualmente no Brasil, e indica o crescimento da apatia da população.

O problema disso, avalia, é que quem está conseguindo se fortalecer em um cenário de descrédito dos políticos é o deputado Jair Bolsonaro, mesmo que ''muitos insistam que sua visão é extrema demais para o país''.

Segundo ele, o país pode enfrentar um cenário parecido com o dos EUA com a vitória de Donald Trump.

''Neste inverno brasileiro de descontentes, há um único político que é aplaudido em aeroportos, cujos apoiadores falam com convicção e fervor quase religiosos'', diz, sobre Bolsonaro.

Em uma entrevista ao blog Brasilianismo, no ano passado, Winter já falava desse contexto favorável à ascensão de líderes populistas no país, e questionava a ausência de novos nomes na política brasileira. segundo ele, era crescente o risco de o Brasil ceder ao autoritarismo.

''Os mesmos fatores que criaram o fenômeno Donald Trump estão presentes no Brasil. Exceto que, no Brasil, as coisas estão bem piores. É fácil ver este processo que vemos agora, de guerra de poderes, levar ao aparecimento de um líder autoritário em 2018'', disse.

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Crise empurra Brasil de volta a passado de pobreza e fome, diz ‘Guardian’
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Daniel Buarque

Apenas três anos depois de conseguir sair do mapa da fome das Nações Unidas, o Brasil se afunda em uma grave crise econômica, começa a empobrecer e corre risco de voltar a fazer parte desta estatística da ONU, diz uma reportagem do jornal britânico ''The Guardian''.

''Desemprego e instabilidade social ameaçam um indesejável retorno ao passado em um país que já foi visto como modelo para economias emergentes, mas é afetado pela recessão'', diz a publicação.

''Este deveria ser o passado do Brasil'', explica o ''Guardian'' falando dos avanços conquistados pelo país neste século graças ao boom das commodities e a políticas sociais bem-sucedidas. Ainda assim, com a crise, ''os pobres estão ficando mais pobres''.

Além da crise, diz o jornal, as medidas de austeridade implementadas pelo governo de Michel Temer podem tornar ainda difícil a vida de populações mais pobres.

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Condenação danificou imagem de Lula no resto do mundo, diz biógrafo inglês
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Daniel Buarque

A condenação a nove anos de prisão por corrupção já danificou a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no resto do mundo, avaliou o pesquisador britânico Richard Bourne em entrevista ao serviço brasileiro da rede BBC.

''Isso já teve um sério impacto dentro do Brasil e internacionalmente. Muito da imagem que ele tinha já está danificado. É triste'', disse.

Considerando que o ex-presidente deixou o governo pouco depois de ter sido chamado de político mais popular do mundo pelo ex-presidente americano Barack Obama, o dano na imagem tem um impacto importante para ele.

Autor da biografia ''Lula of Brazil'' (Lula do Brasil), Bourne admite que o ex-presidente não tenha feito o suficiente para evitar a corrupção no seu governo, e não acha que a condenação seja apenas perseguição política, como argumenta sua defesa, mas diz também não acreditar que Lula tenha sido chefe de uma quadrilha de corrupção.

''Eu não imaginava Lula como esse chefe de um grande esquema de corrupção, como foi sugerido. Isso não quer dizer que eu não ache que ele possa ter se beneficiado de alguma forma, mas essa ideia de que ele era esse grande manipulador, como dizem os procuradores, não parecia provável.''

Para o biógrafo, mesmo que consiga evitar a prisão, o ex-presidente não deveria ser candidato novamente em 2018. ''Se Lula conseguir ficar fora da prisão, faria mais sentido que usasse seu carisma para apoiar um candidato que valesse a pena, talvez alguém mais talentoso do que Dilma.''

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Deu na ‘Science’: Cortes de orçamento são ‘bomba’ nas ciências brasileiras
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Daniel Buarque

Os cortes no orçamento do governo para pesquisas científicas ameaçam os estudos de astronomia desenvolvidos no país, colocam em risco a presença brasileira em observatórios de qualidade e podem afetar até mesmo a capacidade do Brasil de prever eventos climáticos.

O diagnóstico faz parte de reportagem publicada na revista ''Science'', focada em temas relacionados a pesquisas científicas pelo mundo.

Segundo a publicação, o Brasil vive uma situação ''dramática'', com cortes de mais de 40% nos valores destinados a pesquisas científicas e com perspectiva de ver tudo piorar ainda mais em 2018.

A revista entrevistou o presidente da Academia Brasileira de Ciências, no Rio de Janeiro, Luiz Davidovich, que diz que os cortes orçamentários são como uma ''bomba atômica'', e que vão deixar um legado de destruição para gerações futuras.

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