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Rejeição da ‘Economist’ a Bolsonaro reflete busca liberal por estabilidade
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Daniel Buarque

Em meio à radical polarização da política brasileira às vésperas da eleição presidencial, o posicionamento crítico da revista “The Economist” à candidatura de Jair Bolsonaro levou a uma situação em que eleitores de esquerda se alinham ao que diz a tradicional publicação liberal, enquanto fãs do capitão reformado passaram a acusar de comunista a “bíblia o capitalismo”.

Os interesses da revista ao dizer que Bolsonaro seria um “presidente desastroso” refletem algo que vai além do que pensam os eleitores brasileiros: uma uma preferência da publicação pelo apoio à construção de cenários estáveis para o investidor estrangeiro. “A eleição de Bolsonaro tem sido considerada por ela um fator de instabilidade”, explicou ao blog Brasilianismo a cientista política Camila Maria Risso Sales.

Sales conhece bem a linha editorial da publicação de economia sobre o Brasil. Ela é autora da tese de doutorado ''O Brasil na 'Economist': Pensando a influência do perfil político-ideológico da revista na formação da imagem internacional do país'' (clique aqui para baixar a tese completa), defendida na Universidade Federal de São Carlos em 2016, em que analisou a histórica dos textos da publicação sobre o Brasil.

Leia também: Crítica a Bolsonaro, ‘Economist’ é liberal e também pediu saída de Dilma

Segundo sua pesquisa acadêmica, o Brasil sempre esteve presente entre os assuntos considerados relevantes pela “Economist”. “A posição político-ideológica da revista foi identificada a partir de duas ideias básicas: a defesa do liberalismo econômico conjugado com certo conservadorismo político. A forma como o Brasil foi noticiado e interpretado refletiu esse posicionamento”, diz sua tese.

Na entrevista abaixo, concedida no fim de semana após a publicação da revista que em sua capa chama Bolsonaro de “ameaça”, Sales explicou que o que faz a “Economist” se posicionar contra a candidatura do deputado pode ser depositado em dois fatores: problemas que sua vitória pode trazer para a já difícil governabilidade, e a defesa de valores liberais, sempre muito caros à publicação.

“A 'Economist' sempre sustentou valores liberais na economia, nasce com esse propósito. O olhar da revista é conduzido, portanto, pelo liberalismo político e econômico e por posturas conservadoras quanto a preservação dos direitos de propriedade, do Estado mínimo e do livre comércio”, diz a tese de Sales. “A revista tem um diapasão, que seriam as regras do livre mercado. Ela exalta o país quando este se aproxima delas e o deprecia se há afastamento.”

Brasilianismo – O que representa esta rejeição da “Economist” à candidatura de Jair Bolsonaro?
Camila Maria Risso Sales – A rejeição da ‘Economist’ a Bolsonaro era esperada. A revista tem uma preferência pelo apoio à construção de cenários estáveis para o investidor estrangeiro. A eleição de Bolsonaro tem sido considerada por ela um fator de instabilidade.

Brasilianismo – Fãs de Bolsonaro já acusam a economist de ser ''comunista''. Que interesses a 'Economist' pode ter contra a eleição de Bolsonaro?
Camila Maria Risso Sales – A revista é a mais tradicional e importante publicação liberal do mundo. O que faz a publicação se posicionar contra a candidatura do deputado pode ser depositado em dois fatores: primeiro os problemas que sua vitória pode trazer para a já difícil governabilidade, a sustentação de Bolsonaro no legislativo será muito frágil segundo a ‘Economist’.

O segundo fator tem a ver com a defesa de valores liberais, sempre muito caros à publicação. O candidato, que tem, segundo ela um discurso de defesa de um conservadorismo social aliado a um liberalismo econômico, ataca valores da ordem liberal, especialmente aqueles relacionados à liberdade individual.

Brasilianismo – Quanto este posicionamento representa a opinião do mercado internacional?
Camila Maria Risso Sales – É difícil dizer, mas não há dúvidas que a revista é uma voz desse mercado.

Brasilianismo – A revista já publicou pelo menos duas grandes reportagens dizendo que Bolsonaro seria um presidente “desastroso”. Já houve na história uma rejeição tão grande da revista a algum outro nome da política do Brasil?
Camila Maria Risso Sales – Não. A revista sempre se posicionou sobre as eleições brasileiras, sempre recomendou voto nos candidatos que ela considerava mais alinhados ao seu perfil político-ideológico, mas nunca se posicionou contra um candidato dessa maneira, pelo menos não com tanto destaque. Em 1989, considerava que uma vitória das forças de esquerda, ou com Lula ou com Brizola, pudesse gerar instabilidade e via com melhores olhos a candidatura de Collor, apesar de naquele momento se apresentar pessimista com qualquer possibilidade.

Brasilianismo – A “Economist” ataca ele agora, mas qual o posicionamento dela em geral durante a ditadura no Brasil?
Camila Maria Risso Sales – O deputado Jair Bolsonaro foi mencionado pela primeira vez na revista em 2000. Nesse artigo, a revista tratava das relações civis-militares e do descontentamento das Forças Armadas com o então presidente Fernando Henrique Cardoso. A revista cita uma frase de Bolsonaro em que ele diz que Fernando Henrique Cardoso deveria ser morto por trair o país fazendo as privatizações. Mas quanto ao posicionamento da revista na ditadura militar podemos dizer que foi bastante pragmático e sempre teve a tendência de atrelar uma cobertura mais positiva do país ao cenário econômico, desconsiderando, em alguma medida a política. Se a economia ia bem, a ausência de democracia importava menos.

Hoje a ‘Economist’ considera o Bolsonaro uma ameaça populista à democracia, mas certamente está levando em conta a potencialidade de desestabilização ainda maior da economia que ele pode trazer.

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Crítica a Bolsonaro, ‘Economist’ é liberal e também pediu saída de Dilma
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Daniel Buarque

Capa da ''Economist'' chama Bolsonaro de ameaça

A edição mais recente da revista “The Economist” reitera um forte ataque à candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência. Além de chamar o candidato direitista de “ameaça”, a revista tem argumentado que ele seria um presidente desastroso para o Brasil.

Em editorial publicado nesta quinta-feira (20) com o título ''Jair Bolsonaro, a última ameaça da América Latina'', a revista analisa o momento atual do Brasil e afirma que ''a economia é um desastre, as finanças públicas estão sob pressão e a política está completamente podre''. Isso impulsionaria o candidato, mesmo que ele não seja visto como o nome ideal para resolver estes problemas.

A “Economist” é uma das publicações mais respeitadas do mundo, e pode ser vista ao mesmo tempo como um reflexo e uma referência para o pensamento das elites política e econômica do Ocidente. Apesar da postura muito crítica a Bolsonaro, ela tem uma linha editorial muito próxima do pensamento do mercado internacional, e bem longe da esquerda política.

“Para a revista importa estabilidade”, explica a socióloga Camila Maria Risso Sales, que fez seu doutorado sobre o histórico da cobertura que a revista faz sobre o Brasil. “A visão da ‘Economist’ é mais positiva sobre o Brasil se a política econômica do país se aproxima mais do viés liberal defendido pela revista”, disse a pesquisadora, em entrevista concedida ao blog Brasilianismo em 2016.

Um exemplo claro disso é a postura adotada pela publicação durante o governo de Dilma Rousseff. Em março de 2016, antes do impeachment, a “Economist'' assumiu a defesa do fim do governo de Dilma. Segundo um editorial, a presidente havia se tornado inapta a governar, e deveria renunciar.

A derrubada do governo Dilma foi foco de várias reportagens e editoriais da publicação, que demonstrou uma postura com nuances a respeito da decisão.

Por um lado, a revista argumentou que a renúncia era uma saída melhor para a política brasileira e rejeitou a ideia de que o impeachment poderia ser comparado a um golpe de Estado. Por outro lado, um texto publicado após a saída de Dilma criticava o processo e dizia que tratava-se de um “jeitinho para burlar a Constituição”.

Com ataques a ambos os lados da polarização brasileira, a postura da “Economist” é de crítica mais ampla ao sistema político do país, que é fonte de instabilidades. Em vários dos textos em que analisa a crise dos últimos anos, a revista chama o sistema político brasileiro de excessivamente fragmentado, o que gera cacofonia de vozes e ideologias. O ideal, diz, seria uma reforma de toda a política do país.

A melhor forma de entender o que a “Economist” pensa é entender o modelo liberal de política econômica. Segundo Sales, a publicação alterna historicamente sua cobertura sobre o Brasil em momentos entusiasmo e de decepção dependendo do rumo tomado pela política econômica adotada pelo governo brasileiro.

“A 'Economist' alterna momentos entusiasmo e de decepção com o Brasil. Isso aconteceu em diversos momentos, em governos diferentes. O segundo governo Lula foi, por exemplo, um momento em que o noticiário era muito positivo. A gestão de Dilma Rousseff não foi vista com tanto otimismo”, complementou Sales.

Após a saída de Dilma, A revista escreveu vários textos mais favoráveis ao cenário político brasileiro, apoiando as reformas propostas pelo governo de Michel Temer, mas o otimismo do passado não voltou. A considerar as análises sobre a candidatura de Bolsonaro e sua liderança nas pesquisas, o pessimismo pode dominar por mais tempo.

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Falta de noção dos brasileiros sobre a realidade afeta o processo eleitoral
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Daniel Buarque

Resultado da pesquisa sobre percepção equivocada mostra que Brasil é o segundo país com menos noção da realidade

A defesa que alguns brasileiros fazem da ideia equivocada de que o nazismo foi um movimento de esquerda, mesmo depois de a Embaixada da Alemanha negar a informação e reafirmar o óbvio (que o nazismo era de direita), é uma prova do nível de desinformação que prolifera no país às vésperas da eleição presidencial. Os brasileiros não têm muita noção sobre a própria realidade, e isso pode afetar o comportamento dos eleitores na hora de escolher o próximo presidente.

O Brasil é o segundo país do mundo em que as pessoas mais têm a percepção equivocada sobre a realidade – o que já foi chamado de “índice de ignorância”. A informação é de uma pesquisa de 2017 realizada em 38 nações para avaliar o conhecimento geral e a interpretação que as pessoas fazem sobre o país em que vivem.

O estudo está sendo publicado agora como o livro “The Perils of Perception: Why we’re wrong about nearly everything” (Os perigos da percepção: Por que estamos errados sobre quase tudo), que analisa a forma como as pessoas desenvolvem sua noção sobre realidade.

“Tudo indica que o Brasil não tem uma uma percepção muito correta da realidade”, disse o ex-diretor de pesquisas do Ipsos Mori, Bobby Duffy, autor do livro, em entrevista ao blog Brasilianismo.

Segundo ele, o problema não é exatamente ignorância, mas o fato de que as pessoas acreditam ativamente em coisas factualmente erradas, têm uma percepção equivocada da realidade (chamada “misperception” em inglês). Segundo o livro, é possível ver uma correlação entre o nível de certeza que a pessoa tem sobre sua avaliação e o de percepção equivocada da realidade. Quanto mais certas as pessoas acham que estão sobre um determinado tema, mais alta a chance de ela estar errada.

“A questão não é falta de conhecimento, mas de que as pessoas acham que estão certas, mesmo que não estejam. São duas coisas diferentes. Percepções erradas são mais difíceis de lidar do que ignorância. Quando as pessoas não têm conhecimento sobre algo, elas podem ser ensinadas. É mais difícil convencer pessoas que acham que sabem algo que na verdade está errado. Mudar a percepção das pessoas é mais difícil”, explicou,

Na entrevista, ele diz que isso pode ter efeitos na política, influenciando o processo eleitoral e favorecendo candidatos com propostas mais extremistas, que se beneficiam da desinformação e do medo muitas vezes gerados por estas percepções equivocadas.

''A percepção da realidade é importante para a política, e a percepção errada pode ter impactos políticos. Isso ficou muito evidente no extremismo em torno da campanha que levou à eleição de Donald Trump, nos EUA, e no plebiscito do ''brexit'' no Reino Unido. As campanhas usaram questões emocionais e exageraram a exploração de preocupações das pessoas, sem se apegar a fatos. A percepção errada da realidade é uma ferramenta dessas campanhas políticas'', disse.

Segundo Duffy, que vai se tornar diretor do instituto de política do King’s College London neste mês, os brasileiros realmente estão entre os que mais têm percepções erradas sobre o país, o que tem relação tanto com o baixo nível da educação no Brasil quanto com a cultura de reação emocional dos brasileiros. Mesmo sem querer se apegar a estereótipos, o pesquisador diz que emoção afeta o pensamento racional e factual sobre a realidade, e que isso pode explicar os equívocos do Brasil.

Um ponto central na discussão sobre percepções equivocadas, diz, é a necessidade de educação da população para escapar de notícias falsas. Uma nova e inédita pesquisa global da Ipsos divulgada na próxima semana mostra que o Brasil é o líder entre os países onde as pessoas admitem que já acreditaram em notícias que depois descobriram ser falsas.

Segundo a pesquisa, em todo o mundo 65% dos entrevistados acham que outras pessoas vivem em bolhas na internet, mas que só 34% acreditam que eles próprios vivem em bolhas. Além disso, 58% acham que sabem identificar notícias falsas. Seis em cada dez entrevistados no mundo acham que as outras pessoas não se interessam mais por fatos, e acreditam apenas no que querem.

Leia abaixo a entrevista completa

Brasilianismo – Qual é a situação do Brasil em comparação com outros países quando falamos de percepção equivocada da realidade?
Bobby Duffy – O Brasil está muito mal. Na nossa pesquisa mais recente, de 2017, o Brasil era o segundo pior na lista de países com maior percepção errada da realidade. Só a África do Sul era pior. E, mesmo no ano anterior, o Brasil já aparecia mal, em sexto na lista com 40 países. Tudo indica que o Brasil não tem uma uma percepção muito correta da realidade. Eu acho que é um dado muito deprimente, especialmente porque a pesquisa é feita pela internet, então seria de se esperar que o público que respondeu à entrevista no Brasil seria formado em sua maior parte por pessoas da classe média, que deveriam ter uma compreensão melhor da realidade. O que achamos, na verdade, é que elas não têm noção da realidade.

A percepção das pessoas é muito marcada pela expectativa de que o mundo seja parecido com a realidade delas, o que não é verdade. As pessoas pensam que quem elas são e quem são os amigos delas representam o país inteiro, o que não é verdade.

Os brasileiros erram muito na sua interpretação da realidade, e um dado que se destaca nisso é a percepção deles sobre a gravidez na adolescência, por exemplo. Questionados sobre qual a proporção de adolescentes que engravidam a cada ano, os brasileiros erram feio. Por mais que a taxa seja alta, de 6,7% (quando a média global é de 2%), a resposta dos brasileiros na entrevista foi em média 48%. Isso é uma loucura, a ideia de uma em cada duas adolescentes engravidam por ano. As pessoas parecem se basear em opiniões emocionais, e generalizam demais casos que são na verdade bem mais raros. As pessoas acham que é um problema muito pior do que se esperava.

Brasilianismo – É comum achar que a percepção equivocada da realidade está associada à baixa qualidade da educação no país. Acha que isso faz sentido? O que faz com que a percepção dos brasileiros seja tão equivocada?
Bobby Duffy – Não minimizaria o papel da educação na percepção errada da realidade. Faz sentido associar uma coisa à outra. Não conseguimos encontrar um padrão muito definitivo em nível nacional que explique exatamente o que causa a noção errada da realidade, mas há uma relação clara entre o nível de educação e a noção da realidade no nível individual. Quanto mais educadas as pessoas que respondem à pesquisa, melhores as respostas e maior a noção do que as pessoas com menos educação. Isso vale para quase todas as perguntas. A educação não é a única resposta, e muito da percepção errada vem de uma reação mais emocional do que racional às perguntas, mas a educação tem peso, sim.

O estudo indica que não estamos falando de ignorância. Não é uma questão de falta de conhecimento, mas é uma forma de pensar. O que tentamos indicar é que precisamos incluir nas escolas ensino de capacidade de leitura crítica de textos e notícias. A forma como as pessoas se informam atualmente é muito diferente de como era no passado, e as crianças não estão sendo preparadas para lidar com isso, para separar notícias reais de notícias falsas. É preciso garantir que os jovens saibam ler as informações e questionar o que leem. A educação é importante e quanto mais bem educadas as pessoas são melhor a capacidade delas de interpretar a realidade.

Brasilianismo – Sua análise trata muito da relação entre a expressão emocional das pessoas em um país e a percepção equivocada da realidade. Por que isso?
Bobby Duffy – Pessoas que expressam suas emoções com facilidade e rapidez respondem às perguntas não com base em fatos, mas com base no que pensam sobre a realidade e em como querem mostrar isso, o que muitas vezes é marcado por erros. Não tenho um dado que prove como isso acontece no Brasil, mas a minha impressão com base na experiência de visitar o país é de que essa expressão emocional é mais marcante nos brasileiros do que em pessoas da Suécia e da Alemanha, por exemplo. Isso é importante, mesmo que não seja nosso objetivo entrar em questões de estereótipos nacionais, por exemplo.

Brasilianismo – Como a percepção equivocada da realidade pode influenciar as eleições no Brasil?
Bobby Duffy – A percepção da realidade é importante para a política, e a percepção errada pode ter impactos políticos. Isso ficou muito evidente no extremismo em torno da campanha que levou à eleição de Donald Trump, nos EUA, e no plebiscito do ''brexit'' no Reino Unido. As campanhas usaram questões emocionais e exageraram a exploração de preocupações das pessoas, sem se apegar a fatos. A percepção errada da realidade é uma ferramenta dessas campanhas políticas.

A política sempre usou isso, mas agora as coisas são diferentes por conta das mudanças na tecnologia, que permite que essas mensagens sejam desenhadas de forma a atingir mais pessoas de forma individual, o que passa a ter muito mais força. As pessoas estão sendo expostas a informações capazes de convencê-las independente de serem verdade ou não. Isso é um risco para a política. A democracia demanda uma esfera pública que abra espaço para debates em torno dos mesmos fatos e informações, os políticos precisam falar de forma pública, mas os discursos estão cada vez mais individualizados e direcionados a o que as pessoas querem ouvir. Isso é um risco para a política.

Brasilianismo – Como a sociedade pode lidar com isso?
Bobby Duffy – Leis e regulamentações não são suficientes, pois a tecnologia está mudando muito rapidamente. Precisamos nos armar com capacidade de pensar de forma crítica para evitar a desinformação. É impossível criar legislação para controlar o que é verdade e o que não é verdade, e isso cria preocupação sobre o controle do que pode ou não ser dito, o que é um erro. É um equilíbrio difícil de alcançar.

Brasilianismo – Seu livro diz que, quanto mais as pessoas demonstram confiança em suas respostas, mais erradas elas estão. Pode-se falar que o momento atual é de desapego aos fatos? Como mudar isso?
Bobby Duffy – É incrivelmente difícil lutar contra informações equivocadas que ganham vida própria, como a ideia de que vacinas causam autismo, por exemplo. Mesmo que toda a evidência científica seja em contrário, a reação das pessoas ao que veem como uma ameaça é puramente emocional. Isso é um problema real. A imprensa tem responsabilidade ao dar voz a movimentos que não têm muita base científica, mas que acabam ganhando espaço por serem a voz contraditória ao que diz a ciência.

Brasilianismo – Até dois anos atrás o ranking de países com percepção mais equivocada da realidade era chamado de ''índice de ignorância'', mas agora você diferencia entre ignorância e percepção errada. O que levou a essa mudança? Pode-se dizer que um é pior do que o outro?
Bobby Duffy – Estamos trabalhando o assunto há uma década, mas continuamos aprendendo a melhor forma de tratar isso. No começo usávamos a expressão ''índice de ignorância'' basicamente porque ela soava melhor. O problema é que ela não é muito precisa. A questão não é falta de conhecimento, mas que que elas acham que estão certas, mesmo que não estejam. São duas coisas diferentes. Percepções erradas são mais difíceis de lidar do que ignorância. Quando as pessoas não têm conhecimento sobre algo, elas podem ser ensinadas. É mais difícil convencer pessoas que acham que sabem algo que na verdade está errado. Mudar a percepção das pessoas é mais difícil

Por outro lado, entender a percepção errada das pessoas sobre a realidade é importante pois nos permite conhecer quais são as preocupações reais das pessoas. Quanto maior a preocupação com um tema, mais exagerada vai ser a percepção das pessoas em relação a ele. Nesse sentido, as percepções equivocadas são mais úteis para entender como as pessoas veem a realidade.

Brasilianismo – Que tipo de impacto a percepção equivocada pode ter para os países. Países em que as pessoas têm uma noção maior da realidade têm vantagens sobre os que têm percepção errada?
Bobby Duffy – Não temos um dado muito claro para responder isso de forma simples. Não parece haver uma correlação direta entre estar correto ou errado sobre a realidade e níveis de felicidade, por exemplo. Isso é algo que devemos pensar mais adiante. O ranking é muito misturado, com países que têm situação muito diferente, mas que podem ter níveis de percepção errada parecidos. Há tantas variáveis envolvidas, que achar as correlações é difícil.

Do ponto de vista individual, a sensação de que as coisas estão piorando no mundo não faz bem às pessoas. Essa é uma percepção dominante em muitos países, e então é importante mudar esta ideia e mostrar que na verdade as coisas no mundo estão melhorando.

Brasilianismo – Como fazer isso no caso do Brasil, país que realmente enfrenta um momento mais difícil atualmente do que no passado, com crise política, pior recessão da história, aumento da violência e vários problemas sociais?
Bobby Duffy – Sim, claro que nem tudo está indo bem no mundo e que há lugares que passam por situações que realmente estão indo mal. Isso cria um ambiente perigoso para as percepções das pessoas que se torna ainda pior.

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Em novo clipe, Paul McCartney mostra a sua imagem do Brasil
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Daniel Buarque

A imagem de uma mulher de biquíni na praia –um dos estereótipos mais clássicos do Brasil nos olhos do resto do mundo– abre o clipe mais novo de Paul McCartney, de ''Back in Brazil'', em que ele canta sobre o país que conheceu em repetidas viagens em turnê nos últimos anos.

A canção é parte do novo disco, ''Egypt Station''. Sua letra trata da vida no país onde uma garota ''sonha com um futuro melhor'', onde ''as noites são para dançar e os dias são para o sol''.

O clipe conta a história da garota citada na letra, em Salvador, se divertindo e indo a um show do próprio McCartney, que a chama para subir no palco e dançar com ele.

Apesar da imagem clichê do começo do clipe, o vídeo até que pega leve no uso de estereótipos do país. A exposição de poucas imagens exageradamente marcadas como cartões postais e a escolha de Salvador (em vez do Rio de Janeiro, usada mais tradicionalmente por músicos estrangeiros) ajuda a dar um ar até simpático ao olhar dele sobre o Brasil.

''Back in Brazil'' foi considerada a música ''mais estranha'' e mais ''fresca'' do novo disco pela revista ''Rolling Stone''. Segundo a publicação, o ex-beatle tocou nove instrumentos diferentes na sua gravação, que foi uma das que deu mais trabalho no novo disco.

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Na Bloomberg, mercado rejeita medo de vitória de Haddad: não é bicho-papão
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Daniel Buarque

Poucos dias depois do anúncio oficial de que Fernando Haddad substituiu o ex-presidente Lula como candidato do PT à Presidência, e de pesquisas mostrarem seu crescimento na intenção de votos, a agência de economia Bloomberg publicou uma reportagem rejeitando que investidores tenham medo de uma vitória dele.

''Sucessor de Lula pode não ser o bicho-papão que investidores brasileiros temem'', diz o título da reportagem, que destaca ainda que Haddad manteve o orçamento de São Paulo equilibrado quando foi prefeito, e que ele não era a primeira opção de Lula para a Presidência.

A reportagem diz que Haddad vai precisar agir como Lula em 2002 e convencer o mercado de que não é uma ameaça. Não vai ser tão fácil quanto na primeira vez, complementa o texto, mas o aceno é de que não é impossível.

''Antes de ser eleito em 2002, Lula buscou acalmar os temores dos investidores com sua famosa “Carta ao Povo Brasileiro”. Mas, se Haddad quiser conquistar mercados, terá que agir rápido e usar mais do que palavras'', diz o texto.

Analistas ouvidos pela agência descrevem Haddad como pragmático e menos ligado à ideologia do PT, mas fazem a ressalva de que ele vai ter dificuldade em contornar os interesses do partido e do próprio Lula.

O aceno do mercado na agência parece ainda mais importante considerando que foi publicado dias depois de a revista ''Forbes'' alegar que Wall Street já tem dúvidas sobre a viabilidade de seus dois candidatos prefereidos –Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro– conseguirem ser eleitos.

Pode ainda ser interpretado como um aviso de que os investidores se mostram abertos a conversas com Haddad, caso ele se coloque como um ''moderado''.

Além disso, a ausência de citações a Ciro Gomes na reportagem da Bloomberg pode indicar que ele, sim, é visto como o ''bicho-papão'' do mercado, e que os investidores de fato preferem conversar e apoiar Haddad do que ver Ciro chegar ao segundo turno contra Bolsonaro.

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Na mídia estrangeira, disputa eleitoral começa realmente após saída de Lula
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Daniel Buarque

Esperado há semanas, o anúncio da desistência da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência do Brasil foi visto no exterior como o verdadeiro começo da campanha eleitoral no país.

Esta ideia estava explícita no título da reportagem da agência Associated Press, publicada por veículos como o jornal ''Washington Post'' e a rede de TV ABC: ''Corrida no Brasil começa a sério com Lula fora da chapa do partido''.

Logo após o anúncio oficial da troca de candidato a presidente pelo PT, jornais internacionais como o ''Wall Street Journal'', ''The Guardian'' e outros destacaram que, Lula “saiu do caminho”, “abandonou a corrida”, “jogou a toalha”.

Em quase todas as reportagens, a mídia estrangeira relembrou a tentativa de candidatura de Lula, condenado por corrupção, mas preferido da maioria dos eleitores, segundo pesquisas de intenção de voto. A grande dúvida a partir de agora é sobre a capacidade dele de repassar seus votos a Haddad em menos de um mês.

O ex-prefeito de São Paulo também teve sua carreira política analisada pelos imprensa internacional. Segundo o ''Financial Times'', Haddad é visto como um moderado, e tem se encontrado com investidores internacionais, mas o mercado tem uma grande rejeição à política econômica do PT.

''Advogado, economista e filósofo de São Paulo com pouco reconhecimento eleitoral fora do sul mais rico do Brasil, Haddad está entrando nas eleições mais imprevisíveis do país desde o retorno da democracia há mais de três décadas'', diz o jornal.

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‘Forbes’ diz que mercado duvida cada vez mais de vitória de Bolsonaro
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Daniel Buarque

Depois de ver a dificuldade de Geraldo Alckmin, seu candidato favorito, em decolar nas pesquisas de intenção de voto, e de aceitar Jair Bolsonaro como sua alternativa preferida à Presidência, o mercado internacional tem cada vez mais dúvidas de que o candidato de extrema-direita possa ser eleito no Brasil, segundo um artigo publicado no site da revista de economia ''Forbes''.

Investidores acreditam que o deputado chegue ao segundo turno, mas pode ser derrotado. ''As pesquisas dão pouca evidência de que ele possa superar a rejeição de cerca de 44%'', diz a publicação.

Esta percepção sobre a dificuldade dos candidatos mais favoráveis ao mercado, diz a revista, explica a reação negativa da Bolsa e do câmbio à pesquisa mais recente, que mostra Bolsonaro sendo derrotado por todos os opositores no segundo turno.

Segundo a ''Forbes'', Fernando Haddad, que se tornou o candidato do PT, é considerado uma opção mais ao centro do que Ciro Gomes, que é visto como mais esquerdista. ''Bolsonaro contra Haddad ou Ciro representaria uma chance maior de vitória da esquerda'', avalia.

''Fãs de Bolsonaro devem torcer para uma vitória do PT no primeiro turno, se quiserem que a classe executiva apoie seu candidato'', diz a revista.

Nas últimas semanas, enquanto a campanha eleitoral brasileira ganha força, a imprensa financeira do resto do mundo avalia a situação do país e a busca por um presidente ''salvador'' para sua economia. Desde antes do início da campanha, Alckmin era visto como o preferido dos investidores, mas a falta de apoio dos eleitores fez com que crescesse a preocupação do mercado com o futuro das reformas econômicas no país.

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Analistas veem aumento da radicalização política após ataque a Bolsonaro
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Daniel Buarque

''A política no Brasil é um negócio perigoso'', diz um artigo publicado na revista de política internacional ''Foreign Policy'' sobre o ataque a Jair Bolsonaro e a situação do Brasil a um mês da eleição presidencial.

Segundo a publicação, em um país polarizado onde mais de uma centena de políticos foram assassinados em uma década, a radicalização deve crescer ainda mais depois que Bolsonaro foi esfaqueado.

''Quer ele ganhe ou perda, a campanha de Bolsonaro e o ataque contra ele vai mudar a política brasileira'', diz a revista. ''Ele incorpora a política da raiva que varreu o Brasil'', explica.

A percepção do aumento da radicalização política do Brasil também foi o tema do quadro ''A Cara do Brasil'' no programa Revista CBN.

Segundo o artigo na ''Foreign Policy'', a crescente insatisfação dos brasileiros com as instituições políticas do país levou à situação atual, e pode se tornar ainda pior. ''Bolsonaro pode simbolizar o radicalismo hoje, mas é possível que ele pareça mediano nas próximas décadas''.

O texto é escrito pelo professor de política e relações internacionais da FGV Eduardo Mello.

O tom dele é parecido com o do diretor do Instituto Brazil do Wilson Center, nos Estados Unidos. Segundo Paulo Sotero, o ataque contra Bolsonaro ''envenenou'' a corrida eleitoral, que agora entra em um terreno novo e desconhecido.

No site da rede de TV americana CNN, Samantha Vinograd, ex-membro do Conselho de Segurança Nacional de Barack Obama, excreve que a democracia brasileira está literalmente sob ataque.

O Brasil é um país onde a violência política é constante, explica. Após o atentado contra Bolsonaro, diz, ''este tipo de violência pode continuar até as eleições presidenciais em outubro, um presságio de uma tendência perigosa no maior país da América do Sul'', diz.

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Em editorial, “Le Monde” diz que Brasil perdeu o controle do seu destino
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Daniel Buarque


Em um editorial publicado neste fim de semana, o jornal francês ''Le Monde'' analisa a situação do Brasil a um mês da eleição presidencial e fala do que chama de ''naufrágio de uma nação''. Segundo o texto de opinião do jornal, o país ''parece ter perdido o controle do seu destino''.

''Tudo contribui para isso. Uma sociedade que se sente abandonada. As balas perdidas que atingem as crianças dos bairros pobres nas mãos das gangues. Representantes da sociedade civil assassinados em plena luz do dia. Uma classe política tão angustiante quanto envelhecida, minada pela corrupção. Nesse contexto deletério, o incêndio que assolou o Museu Nacional do Rio, em 2 de setembro, apareceu como símbolo do descuido do Estado. Alguns falam sobre o suicídio de uma nação. A aparência é essa.''

A Radio França Internacional publicou um resumo em português do editorial. No texto, o ''Monde'' trata do ataque contra Jair Bolsonaro e diz que o caso pode ser visto como ''mais uma ameaça à jovem democracia brasileira'' e que a campanha eleitoral ''pode se radicalizar ainda mais''.

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Ataque a Bolsonaro oficializa tempo de caos e violência política no Brasil
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Daniel Buarque

Visto de fora, o Brasil parece ter entrado oficialmente na temporada de insanidade política pré-eleitoral após o ataque a faca contra o candidato Jair Bolsonaro.

Em um texto publicado na quarta-feira (5), o jornal americano ''The Washington Post'' dizia que era preciso estar preparado para o ''caos'' na eleição brasileira em outubro. Um dia depois, o candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto sofreu um atentado a faca, ampliando ainda mais a sensação de incerteza e preocupação que tem marcado observadores externos sobre a política brasileira.

Para quem vê o país de fora, o caos já chegou.

No Twitter, uma correspondente internacional no Brasil resumiu a situação do país: “Então, na próxima semana, os dois candidatos à Presidência mais populares na eleição do Brasil vão fazer campanha de uma cela na cadeia e de uma cama de hospital'', disse. Segundo ela, esta eleição está muito caótica, ''mesmo para o Brasil”.

O site de notícias australiano 9 News oficializou a percepção externa sobre a abertura da nova realidade do Brasil: ''Eleição presidencial brasileira jogada no caos após líder nas pesquisas ser esfaqueado em campanha'', diz.

Destaque em tempo real no “New York Times”, conforme relato do colunista Nelson de Sá, da Folha, o ataque Bolsonaro está em quase todas as principais publicações internacionais na manhã desta sexta. Foi a principal notícia no resumo enviado pela manhã pelo jornal britânico ''The Guardian'' a seus leitores.

Além de relatar o ocorrido e explicar quem Bolsonaro é e seu apelo em meio à crise política no Brasil, o ''Guardian'' já cita um cientista político brasileiro que analisa os possíveis impactos do ataque na eleição –o ataque ''praticamente garante Bolsonaro no segundo turno'', diz.

Com uma reportagem da agência de notícias Associated Press, a rede conservadora de TV americana Fox News também já discute os possíveis efeitos eleitorais do ataque: ''Pode mudar a corrida''. Para partidários do candidato, diz, o ataque pode ajudar a empurrá-lo à vitória.

Se não é possível prever exatamente o impacto eleitoral do atentado contra Bolsonaro, a cobertura internacional sobre o ataque serve para dar ainda mais visibilidade ao candidato, que já é um dos temas mais frequentes na imprensa estrangeira ao tratar da escolha do próximo presidente.

Em geral, a avaliação estrangeira tem sido muito crítica ao candidato. Chamado de ''ameaça à democracia'' pela revista ''The Economist'', Bolsonaro é frequentemente comparado aos presidentes dos EUA, Donald Trump, e das Filipinas, Rodrigo Duterte, ambos criticados por posturas autoritárias no governo.

Chamado por ''Trump tropical'' pelo “Guardian”, ou “Trump do Brasil” em muitas das reportagens sobre o ataque desta semana, Bolsonaro é descrito como um polêmico candidato de extrema-direita, defensor da ditadura militar que diz que a polícia deve matar suspeitos.

O ataque também expôs ainda mais ao mundo a profunda polarização política do Brasil –reflexo da raiva pública em relação a anos crise e de escândalos de corrupção– e o risco de escalada da violência motivada por esta divisão política.

Tema já frequente de quase toda a cobertura estrangeira, a divisão do país parece ainda mais radical. A AP também destaca que o episódio não é isolado, e que este ano registrou outros casos de violência política no país –com destaque para a morte da vereadora Marielle Franco e para os disparos a bala contra a caravana do ex-presidente Lula. O crescimento da violência política no Brasil teve destaque também no “NYT”

No fim de abril deste ano, a repetição de casos absurdos de ataques motivados pela polarização política parecia já ter criado uma aceitação de que o país agora é assim –e o noticiário internacional reflete isso com cada vez menos surpresa. O Brasil é cada vez mais visto como um país afundado em uma nova realidade na qual o caos social e a violência política viraram algo normal, incapazes de chocar.

Por mais que o assassinato de Marielle, em março, tenha sido marcante para o resto do mundo, o ataque a tiros contra a caravana que levava o ex-presidente Lula no Paraná já indicava que o país estava sendo visto como “despedaçado”, conforme descreveu o jornal francês “Le Monde”.

O absurdo, a violência política, tem virado tão frequente que parece estar se tornando algo normal, comum, parte da realidade brasileira e da imagem do país no resto do mundo. O caos impera.

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