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Fã de Trump, novo chanceler preocupa ambientalistas, diz mídia estrangeira
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Daniel Buarque

A escolha do embaixador Ernesto Henrique Araújo para ser o ministro das Relações Exteriores do governo de Jair Bolsonaro foi vista internacionalmente como uma indicação de grande alinhamento do Brasil aos EUA, e como uma decisão preocupante para o ambiente global.

Araújo foi descrito pelas reportagens publicadas pelas agências internacionais como um ''fã de Trump'', que deve mudar os rumos da diplomacia brasileira.

''Araújo, diplomata de carreira, é atualmente chefe do departamento dos Estados Unidos e do Canadá do Ministério das Relações Exteriores. No ano passado, ele gerou reações no Ministério das Relações Exteriores com um artigo que afirmava que o Brasil teria a chance de recuperar sua ''alma ocidental'' ao abraçar o nacionalismo de Trump e perseguir seus próprios interesses, em vez de se ligar a blocos de países'', diz reportagem da Reuters.

A admiração pelo presidente dos EUA também foi destacada pela Bloomberg, que se referiu a Araújo como ''Trump-loving diplomat'' (que poderia ser entendido como um seguidor apaixonado do presidente americano). Segundo a agência de economia, a escolha foi o mais recente sinal de rompimento em relação à tradição da política externa brasileira.

Em um artigo publicado na página de opinião da mesma Bloomberg, o colunista Mac Margolis diz que o começo do processo de transição para o governo de Bolsonaro está sendo marcado por tropeços na política externa, e que as declarações do presidente eleito têm criado problemas para a diplomacia do país. Segundo ele, o presidente eleito deveria escolher alguém experiente para ser chanceler, e o primeiro trabalho do novo ministro seria o de educar o presidente sobre diplomacia.

O tom mais crítico em relação à escolha do novo ministro das Relações Exteriores foi publicado em reportagem do jornal britânico ''The Guardian''. Segundo o texto, a indicação de Araújo preocupa ambientalistas em todo o mundo.

''Bolsonaro escolheu um novo ministro das Relações Exteriores que acredita que a mudança climática é parte de uma trama de 'marxistas culturais' para sufocar as economias ocidentais e promover o crescimento da China. (…) Sua nomeação, confirmada por Bolsonaro na quarta-feira, deve causar um arrepio no movimento climático global'', diz o jornal.

''Ernesto Araujo –até agora um funcionário de nível médio que escreve sobre a 'criminalização' da carne vermelha, do petróleo e do sexo heterossexual– se tornará o principal diplomata do maior país da América do Sul, representando 200 milhões de pessoas e a maior e mais biodiversa floresta da Terra, a Amazônia'', complementa.

Segundo o jornal inglês, especialistas em negociações climáticas disseram que a nomeação foi triste para o Brasil e para o mundo. O diplomata, ''que nunca serviu como embaixador no exterior, alega que políticos esquerdistas não identificados sequestraram o ambientalismo para servir como uma ferramenta para a dominação global'', diz.

A questão ambiental tem sido um dos principais fatores citados pelo ''Guardian'' em uma avaliação crítica do presidente eleito do Brasil. Em um editorial publicado após a eleição, o jornal tratou Bolsonaro como um perigo para todo o mundo por conta da sua postura em relação à proteção ambiental.

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Plano de Bolsonaro contra violência é ‘incompleto’, diz think tank dos EUA
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Daniel Buarque

Levado à Presidência em grande parte por conta do seu discurso contra a violência no Brasil, Jair Bolsonaro tem ideias ''incompletas'' sobre como combater a criminalidade do país, diz um artigo publicado pelo think tank americano Brookings Institution.

''O que o futuro presidente Jair Bolsonaro fará para promover sua agenda de combate ao crime no Brasil? Sua retórica dura sobre o crime fez muito para catapultá-lo para a Presidência brasileira. No entanto, suas ideias reais para combater o crime, incluindo dar à polícia e às unidades do Exército maiores prerrogativas para usar a força e empregar o Exército em patrulhas de rua, parecem incompletas, na melhor das hipóteses. Algumas de suas propostas também implicam o uso de medidas extralegais que poderiam ter muita semelhança com as práticas abusivas das políticas policiais do presidente Rodrigo Duterte nas Filipinas, para dar um exemplo indesejável'', explica o pesquisador Michael E. O'Hanlon.

Segundo O’Hanlon, é impossível negar que a criminalidade no Brasil é terrível, e que uma grande mudança nas abordagens da segurança pública é necessária. Para ele, entretanto, é preciso aprender com o que já foi feito em outros países para desenvolver uma estratégia para reduzir a violência no Brasil sem se apegar apenas a práticas abusivas que desrespeitam os direitos humanos.

“Bolsonaro deveria ter em mente os princípios que foram aprendidos na criação de estratégias de sucesso para combater o crime em todo o mundo. Vários são destacados em um estudo de 2017, ‘Protegendo cidades globais: melhores práticas, inovação e o caminho a seguir’”, diz O’Hanlon, que é coautor do texto citado.

A pesquisa examinou uma série de grandes desafios para as cidades do mundo, incluindo ''crime normal'', organizações criminosas transnacionais e cartéis de drogas, terrorismo e desastres em massa. “Nem todos os princípios são igualmente relevantes para os problemas centrais do Brasil atualmente, mas ainda é útil resumir todos eles no caso de a situação evoluir”, diz.

O artigo lista sete caminhos que o Brasil pode trilhar para começar a intensificar a luta contra a violência, incluindo a retomada de um projeto mais refinado de policiamento comunitário, como já tentado no Rio de Janeiro com as UPPs. Segundo O'Hanlon, apesar de os projetos de pacificação no Brasil terem perdido o rumo, o programa teve recursos limitados em termos de policiamento e de programas de apoio social e econômico, e precisa ser melhorado.

O'Hanlon fala ainda de parcerias internacionais, de estratégias contra o crime organizado, de uso de tecnologia, de promoção da coesão social, de parcerias público-privadas e de preparação para eventos com potencial catastrófico.

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Editor de revista americana avalia crítica a Bolsonaro na mídia estrangeira
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Daniel Buarque

O editor da revista ''Americas Quarterly'', Brian Winter

Em um artigo publicado na Folha, o editor da revista ''Americas Quarterly'', Brian Winter, tentou explicar por que a mídia internacional adotou uma postura tão crítica ao presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro.

Desde antes da eleição, o posicionamento de analistas estrangeiros na imprensa internacional tem sido extremamente crítico a Bolsonaro. O ponto de vista externo é de que sua eleição representa uma ameaça à democracia brasileira, ao ambiente global e ao posicionamento internacional no país.

Winter reconhece que o tom adotado pela imprensa estrangeira em relação a Bolsonaro foi muito negativo desde a campanha, e alega que a explicação é complexa, passando pela observação objetiva do que acontece no país, a análise sob uma perspectiva internacional, a tendência ideológica de jornalistas, conhecimento sobre a realidade do país, a maior liberdade do que a imprensa local, e as próprias declarações e posicionamentos do presidente eleito.

Leia o artigo completo na Folha

O editor explica que estudos mostram que muitos jornalistas em todo o mundo têm uma postura mais à esquerda do que a população em geral, mas nega essa seja a principal origem da postura crítica.

''Creio que a maior parte de nossas críticas a Bolsonaro tenham origem não na parcialidade mas sim na parte mais importante do trabalho de um jornalista: a observação.''

''Quando escrevo que a presidência de Bolsonaro pode prejudicar as instituições democráticas ou resultar na morte de mais pessoas inocentes, creio que eu esteja refletindo com precisão suas palavras e ideias, como deve um jornalista.''

Winter rejeita ainda uma acusação frequente no Brasil, de que os correspondetes estrangeiros não conhecem o país, e explica que há uma geração de excelentes jornalistas de outros países cobrindo o Brasil seriamente atualmente.

''O que nos diferencia da mídia brasileira em nossa cobertura de Bolsonaro? Bem, observamos sua ascensão em um contexto mais internacional. Os 10 últimos anos viram o que Larry Diamond, cientista política da Universidade Stanford, define como uma ''recessão democrática'', com deterioração de instituições e direitos na Polônia, Turquia, Indonésia, Venezuela e muitos outros países. As declarações de Bolsonaro sobre fechar o Congresso ou fazer uma limpeza nunca vista na história dos esquerdistas do Brasil parecem se enquadrar a essa tendência mundial. Jornalistas americanos como eu também tendem a ver ecos de Donald Trump — que Bolsonaro admira abertamente e a quem ele imitou.''

Segundo Winter, a imprensa internacional também não sofre pressões políticas e econômicas no Brasil para ter um posicionamento menos crítico ao governo. ''Talvez tenhamos mais liberdade do que alguns de nossos colegas locais. Nas últimas semanas, ouvi queixas diretas de diversos jornalistas brasileiros que afirmam que seus patrões já os estão desencorajando de cobrir Bolsonaro de modo crítico, seja por motivos financeiros, seja por motivos ideológicos.''

Por último, o editor americano ressalta que os ataques de eleitores de Bolsonaro à imprensa estrangeira podem ter origem no desejo de silenciar a observação critica.

''Suspeito que boa parte das críticas à imprensa estrangeira vem do desejo de que calemos a boca, vistamos a camisa do time vitorioso e escrevamos apenas coisas positivas sobre o novo governo. Mas não é isso que os verdadeiros jornalistas —de qualquer nacionalidade— fazem. Como disse Katherine Graham, que foi publisher do jornal 'The Washington Post' na era de Watergate, 'notícia é aquilo que alguém deseja suprimir. O resto é só publicidade'.''

Winter é um dos principais nomes da imprensa internacional a analisar a situação política do Brasil nos últimos anos. Em entrevista ao blog Brasilianismo, em 2016, ele já previa que o país vivia um cenário parecido com o que levou à eleição de Donald Trump nos EUA.

Vice-presidente da Americas Society/Council of the Americas, Winter foi correspondente internacional no Brasil, no México e na Argentina por dez anos e escreveu livros como “Why Soccer Matters” (Por que o futebol importa), escrito com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, “No Lost Causes” (Sem causas perdidas), com o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe e “Long After Midnight” (Muito depois da meia noite). Ele desponta atualmente como uma das principais vozes nos Estados Unidos a analisar e comentar o que acontece no Brasil e na América Latina.

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Importância da democracia é defendida pelo diretor do Brazil Institute
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Daniel Buarque

A palestra inaugural da Faculdade de Ciência Social e Política Pública do King’s College London, na noite de terça-feira (6), em Londres, marcou a importância da defesa da democracia no Brasil.

Apresentada pelo diretor do Brazil Institute da universidade britânica, Anthony Pereira, a “lecture” se debruçou sobre questões relacionadas à violência e segurança no Brasil, mas não deixou de tratar também das preocupações políticas geradas pela eleição presidencial no país.

“Há muitos motivos para se preocupar com o Brasil. Há uma preocupação compreensível sobre o estado da democracia brasileira. Somos um instituto multidisciplinar e discordamos em muitas questões, mas todos concordamos sobre a importância da democracia”, disse Pereira na abertura da palestra.

Intitulada “Os limites da coerção: construção do Estado, policiamento e federalismo no Brasil”, a apresentação analisou a combinação peculiar de características do Estado brasileiro e a persistência de níveis altos de violência no país, apesar da crescente capacidade do Estado nas esferas do desenvolvimento, constitucional e social.

O diretor do Instituto Brasil traçou a história da formação do Estado brasileiro desde o fim do século XIX, defendeu os avanços da democracia nas últimas décadas, mas analisou a forma como a democracia não gerou uma melhora na segurança da população. “O Estado brasileiro é impressionante em muitos sentidos, mas é frágil no controle da violência”, disse.

Segundo Pereira, o Estado brasileiro em certos sentidos pode ser visto como um “leviatã tropical”, o mais poderoso da América Latina, com capacidade impressionante e instituições sofisticadas em muitas áreas, mas ao mesmo tempo não estabelece sua ordem nem oferece segurança em todo o território e coexiste com atores armados não estatais em favelas urbanas, áreas rurais remotas e prisões. “No Brasil, a democracia não melhorou a segurança”, disse.

Ainda assim, Pereira defendeu que o país vem avançando na organização de estruturas que buscam melhorar a segurança de forma democrática, e apontou para a questão da institucionalização do combate à corrupção como central nesse processo. “A Operação Lava Jato é controversa em muitos sentidos, mas é um avanço para o país”, disse.

Sem oferecer uma resposta definitiva, Pereira argumentou que é preciso analisar as formas como o Brasil estruturou o Estado historicamente, e entender como ele se diferencia de outros países em níveis de desenvolvimento parecido, mas que conseguem controlar a violência.

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Bolsonaro deve dar fim ao ‘soft power’ do Brasil, diz pesquisador dos EUA
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Daniel Buarque

A eleição de Jair Bolsonaro deve gerar uma ruptura na política externa tradicional do Brasil, avalia o pesquisador americano Harold Trinkunas em um artigo publicado no site do think tank Brookings (o número um do ranking internacional de instituições pesquisas internacionais deste tipo). Segundo ele, o governo de direita que se iniciará no próximo ano vai  destruir o 'soft power' do Brasil.

“Nas últimas décadas, o Brasil procurou influenciar a ordem internacional confiando fortemente no ‘soft power’ –a capacidade de persuadir outros a se alinharem com suas propostas diplomáticas devido ao apelo do modelo doméstico do Brasil e sua abordagem pacífica para resolver disputas internacionais”, explica Trinkunas.

Foi através do 'soft power' que o Brasil se tornou mais importante internacionalmente durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, mas desde que Dilma Rousseff chegou ao poder o país vinha perdendo parte deste ''poder brando''.

“No entanto, a eleição de Jair Bolsonaro, um congressista de direita de longa data com tendências autoritárias, provavelmente destruirá o que resta do soft power do Brasil no exterior”, avalia.

Para ele, a visão altamente polarizadora do Brasil que o presidente eleito estabeleceu dificilmente atrairá muitos estrangeiros ao país, nem fornecerá novas razões para os parceiros diplomáticos se alinharem com o Brasil.

Além disso, “seu ataque às políticas diplomáticas tradicionais do Brasil reflete a falta de apoio à atual ordem internacional em que, apesar de todas as suas falhas, o Brasil confiou para ampliar sua influência e proteger seus interesses”, diz.

Um outro ponto importante, segundo Trinkunas, é que o desejo de alinhar o Brasil com a política externa do presidente dos EUA, Donald Trump, “significa apostar todas as fichas do Brasil em um instável presidente dos EUA e um establishment da política externa de Washington que tradicionalmente pouco se importava com o Brasil ou seus interesses”.

De acordo com o pesquisador, as opiniões de Bolsonaro provavelmente serão populares entre os governos populistas de direita em todo o mundo, ''mas explicitamente coloridos com racismo, sexismo e homofobia. Embora essas políticas possam atrair sua base em casa, se as reações internacionais a Duterte e Trump servirem de guia, é improvável que as políticas internas de Bolsonaro forneçam uma plataforma para expandir o 'soft power' do Brasil de forma mais ampla''.

Chefe do setor da América Latina no centro de estudos Brookings, em Washington, DC, Trinkunas é um dos autores do livro ''Aspirational Power: Brazil’s Long Road to Global Influence'' (Potência aspiracional — O Brasil na longa estrada para a influência global, em tradução livre). A obra trata das ambições do país em política internacional, avaliando que o Brasil é uma potência emergente que tem tentado usar do soft power, o poder de influência, para ganhar relevância no resto do mundo e buscar revisar aspectos da ordem internacional estabelecida.

Em entrevista ao blog Brasilianismo, em 2016, Trinkunas defendeu que o Brasil não queria influenciar a ordem internacional por se achar mais importante do que era. “Ele realmente acha que a ordem internacional tem aspectos negativos sobre a capacidade de se desenvolver, e quer uma ordem internacional diferente, na qual o Brasil tivesse mais voz, o que aceleraria o desenvolvimento do país”. Segundo ele, o Brasil e o sistema internacional se beneficiariam de uma maior influência do Brasil.

A análise mais recente, sobre a eleição de Bolsonaro, indica uma mudança no perfil da diplomacia brasileira, que passaria a deixar de lado o “poder brando” para buscar um alinhamento maior com os EUA de Trump. Ainda de acordo com Trinkunas, entretanto, o Brasil sempre quis ser uma potência internacional e defendeu uma ordem global diferente da que existe, mas em muitos momentos acabou “dando um passo maior do que a perna”, ou desenvolvendo problemas internos, o que fez o país perder força diplomática.

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Para brasilianistas, Moro em ministério reduz credibilidade da Lava Jato
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Daniel Buarque

A decisão do juiz federal Sergio Moro de aceitar o convite para se tornar ministro da Justiça do governo de Jair Bolsonaro pode abrir espaço para questionamentos sobre a legitimidade e a credibilidade da operação Lava Jato, segundo pesquisadores estrangeiros que estudam a realidade política e a questão da corrupção no Brasil. Para observadores externos, a ida de Moro para o governo ajuda a fortalecer a tese difundida pelo PT de que o combate à corrupção tinha viés partidário.

“A decisão de Moro enfraquece a credibilidade da Lava Jato. Agora é mais difícil dizer que é uma ação imparcial e não política. Moro insistiu em uma entrevista à 'Veja' há alguns anos que não aceitaria uma nomeação política porque isso colocaria em dúvida a integridade da Lava Jato. Evidentemente, sua ambição o levou a esquecer isso”, disse o cientista político Anthony Pereira, diretor do Brazil Institute no King’s College London, em entrevista ao blog Brasilianismo.

A opinião semelhante à de Timothy J. Power, especialista em Brasil e diretor da Oxford School of Global and Area Studies.

“Acredito que, depois de quatro anos de manchetes e avanços na investigação Lava Jato, ao aceitar esse cargo no Ministério da Justiça, o juiz coloca em risco alguns pontos de legitimidade dessas investigações. Então, me surpreende que ele tenha aceitado tão rapidamente esse convite. O PT vive dizendo, desde 2010, que a Justiça é parcial, que as investigações da Lava Jato tinham por objetivo de acabar com as chances eleitorais do partido em 2018”, disse Power em entrevista à BBC News Brasil.

“Havia um obstáculo grande à eleição de Bolsonaro que era a figura do ex-presidente Lula. Ele foi preso e foi um obstáculo removido por ação direta do juiz Moro. E Bolsonaro venceu. Se Haddad perdeu a eleição por 10 pontos, com Lula teria sido mais competitivo. Agora, poucos dias após as eleições, Moro aceita o convite para ser superministro da Justiça. Isso reforça a narrativa do PT de vitimização pela Lava Jato. Então, coloca em risco a legitimidade das investigações e prejudica os juízes e promotores que vão continuar com as apurações”, continuou Power.

Segundo Pereira, o que é especialmente surpreendente sobre a decisão “é que Moro poderia ter garantido a promessa de Bolsonaro de nomeá-lo para o STF em 2020. Nesse caminho, ele teria permanecido como juiz.”

Também em entrevista ao blog Brasilianismo, Matthew M. Taylor, professor da American University, em Washington, DC. chamou o impacto imediato da indicação de Moro por Bolsonaro de “incêndio”.

“No curto prazo, a indicação parece confirmar a narrativa do PT de que o sistema jurídico é enviesado contra o partido”, disse. Além disso, segundo ele, o debate sobre o partidarismo da Lava Jato vai impedir o PT de refletir sobre seus erros e pensar sobre seu papel na política brasileira.

Comemorada pelos eleitores de Bolsonaro, a nomeação de Moro foi recebida com fortes críticas na imprensa internacional, e gerou muitos questionamentos à imparcialidade do próprio Moro e à credibilidade da operação Lava Jato. Para analistas, a ida de Moro ao governo soa problemática, passa a impressão é de que o juiz foi premiado por ajudar Bolsonaro a ser eleito, e parece comprovar acusações de partidarismo que antes poderiam ser vistas como teoria da conspiração.

“Parece um grande erro: são os promotores, não o governo, que deveriam combater a corrupção. E a condenação de Lula por Moro agora parece um ato político”, comentou Michael Reid, da revista “The Economist”, no Twitter.

Em um artigo publicado na revista ''Americas Quarterly'', o editor Brian Winter analisou a decisão de Moro, e diz que ela foi justificada por acreditar em um ''bem maior'' ao país através de reformas no sistema de combate à corrupção. Mesmo assim, o próprio Winter admite que a ida dele ao governo Bolsonaro representa problemas do ponto de vista de percepção da Lava Jato, e muda a operação para sempre.

''Independentemente das intenções reais de Moro, aceitar o cargo tem um custo grande. Ele reescreve irrecuperavelmente a história da Lava Jato, decepciona até mesmo muitos de seus apoiadores e dá munição aos críticos que insistem que a investigação tinha interesses políticos desde o começo. A história mostrará que Moro prendeu o principal rival político de Bolsonaro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e apenas meses depois aceitou um emprego no governo de Bolsonaro'', diz.

''Sim, a sentença de Lula foi confirmada por unanimidade por um tribunal de recursos. Sim, várias outras cortes, incluindo o Supremo Tribunal Federal, rejeitaram moções que poderiam ter libertado Lula. Sim, a Lava Jato levou acusações criminais contra mais de uma dúzia de diferentes partidos políticos em todo o espectro ideológico, não apenas o Partido dos Trabalhadores. Mas as percepções importam, como o próprio Moro observou em entrevista à revista 'Veja' em 2017: 'Não seria apropriado da minha parte me apresentar para qualquer tipo de posição política, porque isso poderia, digamos, colocar em dúvida a integridade de o trabalho que fiz até agora'.''

Apesar da análise crítica sobre o possível impacto da indicação na legitimidade do combate à corrupção no Brasil, os pesquisadores estrangeiros veem a decisão de Jair Bolsonaro de convidar Moro como um acerto político.

“Bolsonaro é um político. Ele diz que não é, mas qualquer político quer chamar para o gabinete os nomes mais aprovados pela população. Poucas personalidades gozam de muita popularidade e é inegável que Moro é um dos nomes mais conhecidos do Judiciário. É natural que seja feita essa sondagem. Então, o que me surpreende não é o convite, é a decisão de Moro de aceitar”, avaliou Power.

Taylor vê a questão de forma parecida: “Moro dá prestígio ao presidente eleito e beneficia o governo de Bolsonaro. Durante a campanha ele divulgou poucas propostas para o combate à corrupção, mas a indicação mostra que esta deve ser uma prioridade”, explicou. “Imagino que Moro tenha aceitado o cargo pela possibilidade de afetar positivamente a luta contra a corrupção.”

Ainda assim, a indicação pode ter um impacto negativo para o próprio Moro, segundo Pereira, do King's College de Londres. “Bolsonaro marca uma grande vitória com isso, mas Moro corre mais risco de o processo todo dar errado para ele. Não está claro que ele será capaz de impedir, como ministro da Justiça, a realização de acordos que diluem as investigações da Lava Jato”, avaliou.

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Eleição marcou ‘morte’ do PSDB, grande partido de centro, diz ‘Economist’
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Daniel Buarque

Análise publicada pela edição mais recente da revista ''The Economist'' trata do que a publicação vê como ''morte do grande partido de centro do Brasil'', o PSDB.

''Apenas dois anos atrás, na sequência do impeachment de Dilma Rousseff, sucessora escolhida de Lula, alguns analistas estavam escrevendo o obituário do PT, culpado pelo colapso e pela corrupção sistemática. Ele sobrevive como a principal oposição a Bolsonaro. Por que o PSDB se tornou a vítima? Como os Clinton e o Blair, ele parece datado. Doria estava certo quando disse ao vencer que o partido 'perdeu o contato com a realidade do Brasil'. Os líderes do partido brigaram entre si. Quando a geração fundadora envelheceu, eles não conseguiram preparar sucessores.''

O fracasso do ''centro'' na política brasileira foi um dos temas mais tratados pela imprensa internacional no processo eleitoral marcado pela polarização.

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Nomeação de Moro gera ‘incêndio’, mas pode dar mais prestígio a Bolsonaro
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Daniel Buarque

A nomeação do juiz federal Sergio Moro para o Ministério da Justiça do governo de Jair Bolsonaro foi recebida com fortes críticas na imprensa internacional, e gerou muitos questionamentos à imparcialidade do próprio Moro e à credibilidade da operação Lava Jato.

Segundo o pesquisador americano Matthew M. Taylor, entretanto, apesar de causar um “incêndio” no curto prazo, a indicação vai aumentar o prestígio de Bolsonaro e pode ser positiva no longo prazo.

Para muitos observadores internacionais, a decisão soa problemática. “Parece um grande erro: são os promotores, não o governo, que deveriam combater a corrupção. E a condenação de Lula por Moro agora parece um ato político”, comentou Michael Reid, da revista “The Economist”, no Twitter.

Outros analistas avaliam que a impressão é de que Moro foi premiado por ajudar Bolsonaro a ser eleito, e que a nomeação parece comprovar acusações de partidarismo que antes poderiam ser vistas como teoria da conspiração.

Segundo Brian Winter, editor-chefe da revista ''Americas Quarterly'', a decisão de Moro é questionável. “Algumas pessoas vão usar isso apenas para destruí-lo –incluindo algumas pessoas que eram fãs dele. É inevitável. A narrativa de um juiz que prendeu Lula e depois conseguiu um emprego no governo de seu oponente será muito atraente para algumas pessoas resistirem. E suspeito que ele saiba disso e suspeito que ele acredite que os benefícios sejam maiores que os riscos ”, disse ao ''Guardian''.

Segundo Winter, a decisão reescreve a história da Lava Jato e dá tremenda munição às pessoas que acreditavam que ela era uma cruzada partidária desde o início. “Eu acredito em Sergio Moro. Eu conheço Sergio Moro. Mas sua decisão hoje torna muito mais difícil defendê-lo politicamente ”, disse Winter.

A avaliação é parecida com a de Taylor,  professor da American University, em Washington, DC. e autor de vários estudos internacionais sobre democracia e corrupção no Brasil. “No curto prazo, a indicação parece confirmar a narrativa do PT de que o sistema jurídico é enviesado contra o partido”, disse. Além disso, segundo ele, o debate sobre o partidarismo da Lava Jato vai impedir o PT de refletir sobre seus erros e pensar sobre seu papel na política brasileira.

Ele admite que de imediato o impacto da indicação deve causar problemas, mas vê possibilidades positivas para o futuro.

“É um nome de peso. Poucos entendem o funcionamento e os mecanismos da corrupção no Brasil, e como combatê-la como Sérgio Moro”, disse Taylor em entrevista ao blog Brasilianismo.

Taylor é autor de livros como ''Corruption and Democracy in Brazil: The Struggle for Accountability'' (Corrupção e democracia no Brasil: a luta por fiscalização), e ''Judging Policy: Courts and Policy Reform in Democratic Brazil'' (Julgando política: Tribunais e reforma política no Brasil democrático). Segundo ele, apesar da primeira reação negativa, Moro tem chances de trabalhar para fortalecer o combate à corrupção no longo prazo. “Ninguém conhece melhor do que Moro os problemas da corrupção no Brasil, e isso pode ajudar no processo de pensar formas de combatê-la”, disse.

“Moro dá prestígio ao presidente eleito e beneficia o governo de Bolsonaro. Durante a campanha ele divulgou poucas propostas para o combate à corrupção, mas a indicação mostra que esta deve ser uma prioridade”, explicou. “Imagino que Moro tenha aceitado o cargo pela possibilidade de afetar positivamente a luta contra a corrupção.”

A própria Lava Jato, avalia, também pode se beneficiar da ida de Moro para o Ministério. Por mais que haja questionamentos agora, diz Taylor, a continuidade da operação pode se mostrar positiva para o funcionamento das instituições brasileiras. “Outros juízes vão ter que assumir a operação, e isso mostra que ela é maior do que Moro.”

Apesar da visão otimista no longo prazo, Taylor ressalta que é preciso avaliar como vai ser o trabalho de Moro e a prioridade que o governo de Bolsonaro realmente vai dar à luta contra a corrupção. “O cenário do início do governo vai envolver muitas prioridades, e é difícil saber o que de fato Moro vai poder fazer”, disse.

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Editorial do “Guardian” diz que eleição de Bolsonaro é perigo para o mundo
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Daniel Buarque

Um editorial publicado pelo jornal britânico “The Guardian” nesta semana classifica como “deprimente” a eleição de um “presidente de extrema-direita” no Brasil e diz que Jair Bolsonaro “representa um perigo claro e real não apenas para seu país, mas também para o planeta”.

O texto de opinião ressalta que o presidente eleito defendeu a ditadura e a tortura no Brasil e falou sobre matar adversários de esquerda, mas alerta que a ameaça vai além do seu país.

“O programa de Bolsonaro, se levado a sério, e suas declarações ambientais, se tomadas literalmente, representam uma ameaça à humanidade. O novo presidente do Brasil toma posse em janeiro com responsabilidade sobre os pulmões do mundo, a Amazônia, e do celeiro mundial, o Cerrado. Ele será capaz de decidir o curso da batalha contra a mudança climática em um momento crítico. Os sinais não são bons”, diz o jornal.

Segundo o “Guardian”, o principal compromisso eleitoral de Bolsonaro era colocar seu governo a favor das grandes corporações agrícolas do Brasil, o que favorece os negócios em detrimento da biodiversidade. “O presidente de extrema-direita eleito também prometeu enfraquecer a aplicação das leis ambientais, enquanto criminaliza o ativismo. É um pacote de medidas que não vai reformar o modelo do capitalismo que está lentamente fervendo a atmosfera, mas acelerar ele.”

O jornal alerta que medidas que acarretem destruição da Amazônia podem gerar reação de investidores da União Europeia, o que também pode ser ruim para a economia brasileira.

“Até agora, o Brasil tem sido uma força moral para o bem ambiental: em grande parte resistindo aos apelos para explorar seus vastos recursos naturais para favorecer investidores, enquanto reúne nações ricas e pobres durante as negociações climáticas. Era o favorito para sediar as próximas negociações climáticas da ONU. Agora, em vez de ajudar, a quarta maior democracia do mundo parece causar danos irreparáveis”, avalia.

Apontado nesta semana como o jornal em que os britânicos mais confiam, segundo uma pesquisa nacional, o “Guardian” assumiu desde antes da eleição uma postura muito crítica em relação a Bolsonaro.

Em abril, bem antes do início oficial da campanha presidencial deste ano, o jornal publicou uma reportagem comparando o então candidato a presidente com Donald Trump, e já o classificou como “perigoso. Meses depois, em um editorial com a opinião da publicação, o jornal voltou à comparação e disse que o brasileiro era “pior do que Trump''. Desde a vitória de Bolsonaro, o jornal tem publicado várias reportagens sobre as definições para o próximo governo e os impactos disso para o Brasil e o resto do mundo.

“Há todos os motivos para pensar que os brasileiros que votaram apressadamente em Bolsonaro se arrependerão”, diz o editorial mais recente.

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Risco à democracia, Bolsonaro é grito de desespero, diz editorial do ‘NYT’
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Daniel Buarque


No primeiro editorial sobre o Brasil publicado desde a eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência, o jornal americano “The New York Times” demonstra um certo alívio pela declaração do presidente eleito de que vai respeitar a Constituição e as regras democráticas do país, mas continua tratando-o como um risco para a democracia.

Segundo o jornal (que antes da eleição publicou editorial chamando Bolsonaro de “escolha triste” do Brasil), a escolha dele deve ser interpretada como um “grito de desespero” de um país mergulhado em problemas. O desgaste da população com escândalos de corrupção, crise econômica e aumento da violência levaram os brasileiros a repudiar a esquerda, o PT e outros partidos tradicionais e a ignorar outras considerações, “como a total falta de preparo de Bolsonaro”.

“Bolsonaro representa um perigo para a democracia do Brasil. Como Trump, ele é uma força polarizadora –ele foi gravemente ferido por uma tentativa de assassinato durante a campanha e, mesmo antes da eleição, a mídia brasileira informou que a polícia estava organizando ataques a universidades, supostamente para impedir a campanha eleitoral. Espera-se que ele nomeie vários ex-generais para seu governo, um movimento preocupante em uma nação com uma história sombria de governo militar”, analisa o conselho editorial do “NYT”.

A análise do jornal classifica a decisão dos eleitores brasileiros como mais um país a entrar no que chama de “temporada global de política de extrema direita: um político marginal com discurso radical de promessa de ordem captura o clima de uma nação que anseia por mudanças, qualquer mudança, e a leva para o palácio presidencial”.

Segundo o ‘New York Times”, “a questão é se as jovens instituições democráticas do Brasil podem resistir a um ataque de extrema direita” e se a oposição terá o “potencial de bloquear as iniciativas mais antidemocráticas de Bolsonaro”.

“A esquerda do Brasil está gravemente ferida, (…) mas a oposição deveria reconhecer a eleição de Bolsonaro como um grito de desespero em vez de uma declaração de guerra, e passar a apoiar as medidas que tratam de problemas do país enquanto bloqueia as que põem em perigo a democracia.”

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