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Bolsonaro é granada humana contra política do Brasil, diz ‘Financial Times’
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Daniel Buarque

O sentimento de ''raiva'' em relação à classe política do país resume o humor da população brasileira às vésperas de uma eleição decisiva, diz um artigo de opinião publicado pelo jornal de economia ''Financial Times''. O clima de insatisfação generalizada pode fortalecer um movimento antidemocrático e levar o Brasil a reviver o que parece um ''destino trágico'', avalia.

Segundo o ''FT'', o Brasil tem uma tradição de ressurgimento desse tipo de movimento, o que pode indicar um risco maior à democracia brasileira hoje.

''O mau humor não é novidade em um país que a cada 30 ou 40 anos rasga as regras de repente e recria seu Estado e instituições, geralmente através de golpes militares. Desde que o Brasil se tornou uma república em 1889 por meio de um golpe, o país teve pelo menos três ditaduras militares e civis'', resume o jornal.

O ''FT relembra que a última vez em que isso aconteceu foi em 1964, quando os militares tomaram o poder por duas décadas, e indica que esse movimento hoje pode impulsionar a candidatura de Jair Bolsonaro, que é descrito como ''um deputado famoso por declarações consideradas ofensivas a mulheres, negros e gays, e cujo gesto favorito é uma pistola com os dedos''.

Para o jornal, um dos motivos de muitos brasileiros apoiarem o candidato da extrema-direita é para ''jogar uma bomba no que veem como uma classe política inepta e corrupta''.

''Para um eleitorado raivoso, o inflamável Bolsonaro pode ser o candidato perfeito –uma granada humana sem o pino, pronta para ser jogada contra o moribundo sistema político do Brasil.''

O artigo admite que analistas têm minimizado o risco de uma intervenção militar, ou mesmo de uma vitória de Bolsonaro, e que muitos ainda esperam que algum candidato de centro (e cita Geraldo Alckmin) tenha chances de crescer, mas faz uma ressalva baseada na situação da democracia no mundo. ''Quem viveu o 'brexit' e a eleição de Donald Trump sabe o quanto analistas conseguem se equivocar'', diz.

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Brasil não passaria nem da primeira fase em Copa do Mundo da Democracia
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Daniel Buarque

Um dos países favoritos na disputa no futebol, segundo as principais simulações esportivas, o Brasil não passaria nem da primeira fase se a disputa da Copa do Mundo fosse em torno do funcionamento da sua democracia.

Segundo o Democracy World Cup, uma simulação com base em informações retiradas de índices que avaliam a consolidação da democracia e da economia de mercado em mais de cem países, o Brasil seria desclassificado após sofrer duas derrotas e empatar o terceiro jogo da fase de grupos.

A avaliação foi feita pela fundação alemã Bertelsmann, que adaptou o seus estudos sobre democracias de todo o mundo e simulou cada partida da Copa em torno da situação política de cada país.

Segundo a simulação, o Brasil começaria a Copa tomando uma goleada de 5 a 0 da Suíça, perderia em seguida de 3 a 0 da Costa Rica e ganharia seu único ponto do torneio no empate em 1 a 1 com a Sérvia. A Suíça seria o primeiro lugar do grupo, com três vitórias, 14 gols marcados e nenhum tomado.

''Submetemos os 32 países participantes da Copa a um rigoroso teste de democracia'', diz a página especial do Bertelsmann Stiftung sobre a simulação.  Cada nação foi comparada a partir de dados do Índice de Transformação (BTI) e dos Indicadores de Governança Sustentável (SGI). Os países da Copa foram avaliados em cinco áreas centrais: Eleições, liberdade de expressão, proteção dos direitos civis, inclusão social e prevenção da corrupção. O placar de todos os jogos da primeira fase foram simulados com base nesses estudos. Quanto mais democrático o país, maior a chance de ele ganhar a disputa.

Além das simulações das disputas da Copa, o Bertelsmann também divulgou relatórios específicos sobre a situação política e econômica de cada um dos países participantes. No caso do Brasil, o país recebeu uma nota 7,29 e aparece em número 22 no ranking de 129 nações. Os índices do país relacionados a política e governo foram os que receberam pior avaliação.

''O período em análise foi caracterizado pela mais séria crise política e econômica desde o retorno do Brasil à democracia, com um dos maiores escândalos de corrupção da história do Brasil'', diz o relatório.

Segundo o estudo, um dos problemas mais graves do país atualmente é a polarização na sociedade brasileira. ''Essa polarização é basicamente o resultado de reformas iniciadas pelos antigos governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Muitos dos ricos se tornaram ainda mais ricos, enquanto muitos dos pobres ascenderam ao que no Brasil é chamado de “nova classe média”. Quanto mais a crise política e econômica se intensificou nos últimos anos, mais divisões regionais e sociais apareceram.''

Os resultados do estudo geral da fundação alemã, publicados em março deste ano, indicam que a crise política, a polarização, o esgotamento do atual modelo partidário, o impeachment de Dilma Rousseff e a crescente desconfiança da população brasileira com o sistema democrático contribuíram para a queda do Brasil no Índice de Transformação (BTI).

A lista completa avaliou 129 países. Quando analisada apenas a saúde democrática, a nota concedida ao Brasil decresceu de 8,1 em 2016 para 7,7. Dessa forma, acabou ultrapassado por países como Bulgária e Argentina e empatou com a Sérvia. Nesse quesito, o Brasil caiu da 19ª para 23ª posição. Já no ranking que mede o funcionamento da economia de mercado, a queda foi um pouco menor, de 7,1 em 2016 para 6,9 em 2018.

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Brasil chega à Copa com o melhor time do mundo, diz site de estatísticas
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Daniel Buarque

Segundo um dos sites de jornalismo baseado em estatísticas mais respeitados do mundo, a seleção brasileira é atualmente o melhor time de futebol e chega à Copa do Mundo da Rússia como favorita ao título.

O resultado do Soccer Power Index, do site FiveThirtyEight, indica que o Brasil superou as dificuldades encontradas desde a derrota para a Alemanha na Copa passada, e chega com força ao campeonato.

O FiveThirtyEight foi fundado por Nate Silver, estatístico que ficou famoso por suas previsões eleitorais nos Estados Unidos. Nos últimos anos, o portal passou a se dedicar também a esportes, e desenvolveu uma metodologia de análise de futebol, que indica o favoritismo brasileiro.

''As eliminatórias da Conmebol são as mais difíceis de todos os torneios classificatórios regionais, e o Brasil passou com pouca dificuldade. A Seleção é a equipe com melhor defesa do mundo por uma margem significativa'', diz a avaliação publicada nas vésperas do torneio na Rússia.

A avaliação detalhada do FiveThirtyEight se junta a vários outros modelos de análise que tentam prever o resultado da Copa. O colunista Nelson de Sá, da Folha, compilou algumas dessas análises na edição desta quarta (13):

''Usando '200 mil modelos estatísticos', recorrendo a 'desenvolvimentos recentes' em inteligência artificial para 'extrair dados de características das equipes e dos jogadores', o banco de investimentos Goldman Sachs soltou relatório de 48 páginas com as suas previsões para a Copa. 'Todo esse trabalho para concluir que o Brasil vai vencer e —choque de horror!— a Inglaterra vai perder nas quartas para a Alemanha?', ironizou o inglês Financial Times.''

''O que o jornal chama de 'temporada de bobagens' dos mercados financeiros, pré-Copa, começou há três semanas com o banco suíço UBS antecipando vitória alemã. E se espalhou às vésperas da abertura.''

''O japonês Nomura arrisca uma final entre França e Espanha, com Brasil em terceiro''. (…) ''O holandês ING crava Espanha''. (…) ''O alemão Commerzbank aposta na Alemanha.''

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Reforma do G7 poderia incluir Brasil e Índia, defende analista dos EUA
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Daniel Buarque

O Brasil e a Índia teriam mais direito de fazer parte de uma possível expansão do G7, grupo que reúne as maiores economias do mundo, do que a Rússia. O argumento foi defendido pelo analista americano James Dobbins em um artigo publicado pelo jornal ''USA Today''.

A análise foi publicada depois do clima pesado da última reunião dos líderes do G7, com oposição do presidente dos EUA, Donald Trump, ao resto dos países. Segundo Dobbins, Trump defendeu que a Rússia fosse incluída em futuras reuniões, mas China, Índia e Brasil deveriam ter mais chances de serem convidados.

''As maiores democracias de mercado livre do mundo se encontram anualmente na cúpula desde 1975. O presidente Trump propôs que a Rússia deveria ser incluída em futuras reuniões. Mas a Rússia não parece se qualificar sob nenhuma avaliação'', diz Dobbins.

Para ele, além de um capitalismo corrupto e uma democracia não liberal, a Rússia não é uma das 10 maiores economias do mundo. ''A China, a Índia e o Brasil têm maiores Produtos Internos Brutos, e os dois últimos também são democracias de mercado'', disse, indicando esses como possíveis candidatos em um reforma do grupo.

Dobbins é analista do think tank americano RAND Corporation e foi secretário-adjunto de Estado dos EUA para a Europa. Também é autor do livro ''Foreign Service: Five Décades on Frontlines of American Diplomacy'' (Serviço exterior: cinco décadas nas linhas de frente da diplomacia americana).

No artigo, ele explica que a Rússia chegou a ser acrescentada nessas reuniões em 1997, numa época em que havia esperança de reformas democráticas e econômicas no país, mas que acabou sendo afastada em 2014, depois de invadir a Crimeia. Mesmo sem isso, continua ele, a Rússia ainda não se qualificaria para a reentrada no grupo.

''Se poder bruto e influência fossem os critérios, então a China pareceria o próximo membro. Se a democracia e uma economia aberta fossem a medida, a Índia deveria ser a próxima'', diz.

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Em carta, acadêmicos do Reino Unido dizem que Lula é um preso político
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Daniel Buarque

Um grupo de professores e acadêmicos de universidades do Reino Unido publicou nesta sexta (8) uma carta no jornal ''The Guardian'' protestando contra a manutenção do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na prisão. Segundo eles, Lula é um preso político, e a decisão de mantê-lo assim é uma forma de evitar que ele seja candidato a presidente.

A carta é assinada pelo professor David Treece, do departamento de Espanhol, Português e Estudos Latino Americanos do King’s College London, pelo professor de economia política Alfredo Saad, da SOAS London, pela pesquisadora Fiona Macaulay, palestrante de estudos de desenvolvimento na Bradford University, pelo diretor do Centro de Estudos Brasileiros e Latino-Americanos da universidade Middlesex, Francisco Dominguez, pela geógrafa Yara Evans, do King’s College London, e pela consultora Sayuri Carbonnier.

''Quinta-feira marcou dois meses desde que o ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, foi mandado para a prisão. Há provas contundentes de sua inocência e de que ele foi julgado de forma injusta e preso para negar o seu direito legítimo de se candidatar às eleições presidenciais de outubro, na qual ele atualmente lidera as pesquisas de intenção de voto'', diz a carta.

Na continuação, o texto exige a libertação de Lula para que ele possa concorrer na eleição.

''Especialistas jurídicos no Brasil e em todo o mundo apontaram as irregularidades de seu julgamento e as circunstâncias questionáveis de sua prisão. O comitê de direitos humanos da ONU aceitou a petição dos advogados de Lula para investigar se os direitos humanos de Lula foram violados –a primeira vez que o Brasil foi chamado para prestar contas. Lula é um prisioneiro político e vítima de do uso indevido da lei para fins políticos. Ele deve ser libertado e autorizado a concorrer nas eleições para que os cidadãos brasileiros possam exercer seus direitos democráticos plenos'', finaliza.

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Greve revelou gosto do Brasil por políticas irresponsáveis, diz ‘Economist’
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Daniel Buarque

Uma análise publicada pela revista ''The Economist'' diz que o resultado prático dos dias de caos criados no Brasil pela greve de caminhoneiros que parou o país por quase duas semanas é que ficou evidente que o quanto as reformas estruturais são necessárias para que o Brasil funcione, mas ao mesmo tempo ficou claro que vai ser muito difícil levar qualquer reforma adiante.

''A greve dos motoristas, convocada para protestar contra aumento nos preços dos combustíveis, marca um começo ameaçador da temporada política que culminará nas eleições de outubro. Ela demonstrou o gosto dos brasileiros por políticas irresponsáveis e impulsionou as perspectivas do candidato mais radical da corrida presidencial, Jair Bolsonaro, um ex-capitão do Exército de direita.''

Segundo o texto da revista, a greve pode ser um divisor de águas para as eleições, mas também revelou que o próximo presidente terá dificuldade em aprovar reformas. ''Os motoristas de caminhão tornaram mais urgente que o Brasil eleja um reformador como presidente em outubro. Eles também tornaram isso menos provável'', diz.

A ''Economist'' compara Bolsonaro a Donald Trump e a Rodrigo Duterte, das Filipinas, e diz que ele reflete a insatisfação dos brasileiros com a política do país. Além dele, a revista fala sobre a possibilidade de Ciro Gomes crescer na disputa, e diz que ele ''ocasionalmente soa como um populista''.

Segundo a publicação, entretanto, a esperança do mercado ainda é um crescimento de Geraldo Alckmin, apesar de ele continuar com pouca intenção de voto nas pesquisas.

''Alckmin é o único dos principais candidatos com entusiasmo pelo programa de reformas econômicas iniciado por Michel Temer, que ajudou a tirar o Brasil de sua pior recessão de todos os tempos.''

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Ameaça autoritária à democracia brasileira chama atenção no resto do mundo
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Daniel Buarque

A crise política está levando a uma ascensão do populismo e a uma crescente ameaça à democracia brasileira, o que já chama atenção internacionalmente. O crescimento do apoio ao pré-candidato Jair Bolsonaro e as manifestações a favor de uma intervenção militar no país indicam que o Brasil pode estar mergulhando em uma profunda crise democrática.

Uma análise publicada no jornal francês ''Le Monde'' nesta quarta (6) diz que parte da população do Brasil está tão insatisfeita com a política que se sente atraída pelo autoritarismo de extrema-direita.

Segundo o jornal, a raiva do sistema político no Brasil foi alimentado por escândalos de corrupção e se transformou em ódio visceral. ''Enojada por políticos tradicionais, parte do país é agora tentada pelo autoritarismo'', diz.

O assunto também foi analisado pelo professor Yascha Mounk, de Harvard, uma das principais referências no debate atual sobre a crise da democracia no mundo.

Autor do livro ''The People vs Democracy'', ele tem discutido de que forma a insatisfação das pessoas com a elite política tem fortalecido líderes populistas em vários países, incluindo Donald Trump nos EUA. Em uma entrevista concedida à Folha, Mounk se mostrou familiarizado com o que acontece no Brasil atualmente e analisou a situação da política brasileira às vésperas de uma eleição presidencial crítica, em que um dos candidatos com maior intenção de voto se enquadra neste perfil.

Para Mounk, Bolsonaro representa ''a natureza do populismo''.

''O tipo de político que está destruindo a democracia flerta com líderes autoritários e com momentos de autoritarismo da história. Ele está glorificando a ditadura militar do passado e dizendo que hoje em dia ele é o único que realmente representa o povo, que fala pelos brasileiros comuns. Isso é exatamente a natureza do populismo. Estamos vendo para onde isso leva na Rússia, na Turquia, na Hungria. A deslegitimação de partidos políticos abre espaço para políticos como ele. Isso é muito preocupante.''

Segundo o pesquisador, o que se vê em muitos países, incluindo no Brasil, é um crescente descontentamento com a elite política que existe. É por isso que surgem vozes que falam em intervenção militar e que apoiam candidatos populistas.

''Ainda não estamos em um ponto em que os militares estejam próximos de tomar o poder no Brasil, mas a falta de legitimidade de políticos de esquerda e de direita, e a raiva da população em relação a toda a classe política me deixam muito desconfortável. Isso é motivo para preocupação quanto ao futuro de democracias'', disse.

Segundo o professor, a atual crise do sistema leva justamente a uma situação na qual as pessoas acabam rejeitando o processo político e favorecendo o autoritarismo. Para ele, em uma situação assim, o importante é continuar defendendo as regras da política tradicionais e os direitos individuais.

Além disso, ele defende a educação em história como uma forma de lembrar que o mundo já viveu sob o pesadelo autoritário. ''Atualmente ouço jovens alegando que o sistema não funciona, e que talvez seja hora de tentar algo diferente. É uma mentalidade de se perguntar 'o que temos a perder?'. Para qualquer pessoa que viveu sob ditadura, como no caso do Brasil, ou do fascismo na Europa, ou o comunismo, é bem óbvio o que se tem a perder, e que o autoritarismo deixaria tudo muito pior. A educação histórica é uma parte importante de mudar isso.''

A avaliaçao de Mounk se alinha também a uma análise publicada recentemente na revista ''Americas Quarterly''. Segundo o editor-chefe da publicação, Brian Winter, o Brasil pode acabar abraçando uma alternativa autoritária por meio do voto, sem precisar de uma intervenção violenta dos militares.

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Arquivos de documentos estrangeiros guardam segredos sobre a ditadura
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Daniel Buarque

professor João Roberto Martins Filho, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), passou cinco meses realizando pesquisas nos documentos históricos da diplomacia britânica a respeito do que aconteceu no Brasil durante a ditadura.

O estudo foi realizado enquanto ele ocupava uma posição do King’s College London e resultou em importantes revelações sobre a forma de atuação dos militares no poder. A primeira delas foi publicada no livro “Segredos de Estado: O Governo Britânico e a Tortura no Brasil (1969-1976)'' (Ed. Prismas), que revela a conivência do governo em Londres com a tortura no Brasil. No fim de semana, uma reportagem publicada na Folha trouxe mais uma: a ditadura brasileira atuou para abafar uma investigação de corrupção na compra de fragatas (navios de escolta) construídas pelos britânicos nos anos 1970.

Essas revelações ganham peso por conta da importância de arquivos estrangeiros que jogam luz sobre episódios obscuros da história dos anos de regime militar no Brasil. Foi o que aconteceu com a publicação de documentos dos Estados Unidos mostrando que o ex-ditador Ernesto Geisel assumiu a responsabilidade pela decisão de execução de opositores da ditadura –divulgada pelo pesquisador Matias Spektor.

Enquanto o Brasil ainda esconde parte da sua história, os documentos oficiais liberados em outras partes do mundo oferecem indicações de problemas que a ditadura prefere não mostrar. Nos dois casos, os pesquisadores encontraram comprovação de fatos muito relevantes escondida no meio de milhares de informações em centenas de documentos.

Em entrevista a Pedro Bial, Spektor explicou que os historiadores estão batalhando para analisar todos os documentos, mas que isso leva tempo. “Esse documento é o primeiro de uma série que virão à tona a respeito desse tema. Não tenho a menor dúvida”, disse Spektor, que é autor do livro ''Kissinger e o Brasil'' (Ed. Zahar), em que já analisa documentos históricos dos EUA sobre a relação entre os dois países..

De forma semelhante, Martins Filho disse, por exemplo, que teve primeiro contato com a pasta de documentos há dois anos, mas que só agora conseguiu finalizar a análise detalhada dos documentos. “Tem muito historiador que tem documentos que podem ser bombas, mas ninguém teve capacidade de analisar tudo até agora”, disse.

“Quando cheguei em Kew Gardens [onde ficam os arquivos do governo britânico], me preocupei que não houvesse material suficiente para pesquisa, mas dei de cara com essa pasta, que não sei como ninguém havia encontrado. Ela está disponível desde 2008”, disse Martins Filho.

Documentos históricos são analisados também pelo diretor de um dos mais importantes centros de estudos sobre o Brasil nos EUA, na Universidade Brown, James Green. Em uma reportagem da agência Pública, ele explicou que lidera um projeto já digitalizou 35 mil documentos sobre a ditadura no Brasil.

“Eu tenho um projeto que se chama Opening the Archives [Abrindo os Arquivos], com uma meta de ter 100 mil documentos abertos. Já digitalizamos 35 mil documentos até agora: 19 mil já estão disponíveis no site, e vamos subir outros 15 mil até o final do ano. Encontramos mais de mil documentos censurados, vamos pedir a liberação deles ao governo e esperamos que existam novas revelações. Também estamos em busca de arquivos alternativos. Por exemplo, em 1971 o Senado fez um inquérito sobre o envolvimento americano com a polícia brasileira. Os relatórios foram publicados, a declaração da CIA sobre essas operações não foram. A gente vai tentar liberar essa publicação, pois ela está em poder do Senado, não da CIA. Ninguém nunca pediu essa autorização”, disse Green à agência.

Bem antes da atual onda de revelações sobre a ditadura, os arquivos históricos dos Reino Unido também serviram de base para as obras do jornalista e pesquisador Geraldo Cantarino. Ele analisou mais de 70 pastas de documentos da diplomacia britânica sobre o golpe militar de 1964.

Jornalista com mestrado em Documentário para Televisão pelo Goldsmiths College, da Universidade de Londres, Cantarino mora na Inglaterra há duas décadas e é autor de quatro livros sobre o Brasil a partir da ótica externa: ''1964 – A Revolução para inglês ver'', ''Uma ilha chamada Brasil'', ''Segredos da propaganda anticomunista'' e ''A ditadura que o inglês viu'' (todos publicados pela Mauad Editora)

Seus livros oferecem um vislumbre de evidências do tipo de informação que pode ser encontrada nos arquivos diplomáticos no Reino Unido. Segundo sua pesquisa, os despachos são ricos em detalhes e expressões usadas para descrever o Brasil. Os documentos, ele argumenta tocar assuntos muito diferentes e estão no fundo da descrição dos detalhes da vida social, bem como da política e economia.

“É uma história do Brasil contatada, de inglês para inglês ver –e diplomatas costumam ser verdadeiros quando se reportam aos seus chanceleres'', diz.

A pesquisa de Cantarino começou, entretanto, inspirada por um outro livro, sobre períodos anteriores da história do Brasil revelados por documentos estrangeiros. Geneton Moraes Neto e Joel Silveira oferecem essa análise no livro ''Nitroglicerina pura'', sobre documentos secretos do Reino Unido e dos EUA sobre políticos brasileiros.

“Os papeis secretos expõem julgamentos que jamais um embaixador pronunciaria em voz alta, sob pena de causar embaraços diplomáticos, políticos, éticos e, até, jurídicos”, diz Geneton no livro.

Documentos e depoimentos históricos também ajudam a recompor a ditadura brasileira sob a ótica francesa. Em seu livro de memórias sobre o período em que trabalhou como correspondente brasileiro em Paris, Milton Blay fala sobre as revelações do “homem que conheceu de perto três dos quatro presidentes dos anos de chumbo”.

Ele se refere ao general francês Paul Aussaresses, “um criminoso de guerra da Argélia reconvertido em instrutor de oficiais latino-americanos na década de 1970, a quem ensinou a prática da tortura, servindo como adido militar na embaixada da França em Brasília, na pior fase da ditadura brasileira.” Antes de morrer, Aussaresses fez uma série de revelações sobre o modo de operação da tortura no Brasil.

Resta tempo e dedicação de historiadores, jornalistas e pesquisadores para analisar tanta documentação e trazer à luz tudo o que continua escondido desde os repressores anos de ditadura no Brasil. Em um momento de crescente tensão sobre a democracia brasileira, a história pode ajudar o país a superar a ascensão de forças autoritárias no país.

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Agência dos EUA diz que Brasil não repetirá história de intervenção militar
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Daniel Buarque

''A história não está se repetindo'', e o Brasil não parece seguir o rumo de uma nova intervenção militar na política, apesar de haver um crescimento de vozes a favor de uma ditadura no país.

Esta é a conclusão de um estudo publicado pelo site americano ''Geopolitical Futures'' a respeito da probabilidade de uma virada autoritária no Brasil.

O trabalho avaliou casos da história do Brasil em que os militares tomaram o poder (em 1889, 1930 e 1964) e comparou à situação atual do país. Segundo a análise, mesmo aceitando que haja elementos que poderiam favorecer uma intervenção, algumas características do contexto atual reduzem a probabilidade de uma ditadura. A falta de apoio internacional seria um dos pontos centrais para essa avaliação.

''Todas essas três intervenções militares ocorreram em diferentes períodos da história do Brasil e sob diferentes circunstâncias, mas ainda assim têm algumas coisas em comum'', diz o estudo. Segundo ele, os três exemplos revelam que as intervenções no Brasil têm quatro características:

''Primeiro, uma crise política resulta em um governo extremamente fraco que tem pouco ou nenhum apoio de bases históricas. Em segundo lugar, uma crise econômica ameaça os principais componentes da economia. Terceiro, uma grande parte dos militares, particularmente os oficiais, fica frustrada com o governo, muitas vezes porque os militares foram excluídos dos assuntos do Estado. Em quarto lugar, as forças estrangeiras desempenham algum papel.''

No Brasil de hoje, avalia, os dois primeiros casos (crise econômica e baixa legitimidade política) são verdadeiros. As outras duas características (exclusão dos militares e apoio internacional), entretanto, não são verdadeiras, o que torna a possibilidade de ditadura menos provável.

''As forças armadas não estão sendo negligenciadas ou minadas pelo governo hoje. De fato, nos últimos 25 anos, o governo incluiu oficiais militares no planejamento, debates e políticas nacionais de defesa. Os comentários do general Eduardo Villas Boas sobre a corrupção entre os políticos brasileiros despertaram preocupações de que o Brasil estivesse retrocedendo, mas que ele era capaz de falar sobre uma questão política em si indica que os oficiais militares não são meros observadores da política brasileira, mas também podem ter influência'', diz o estudo.

Quanto à influência externa, o ''Geopolitical Futures'' alega que o maior interesse de potências internacionais é em estabilidade, e que uma intervenção militar criaria muita incerteza sobre o país, criando tensões desnecessárias tanto em política quanto em economia.

''No plano internacional, não há sinais de que governos estrangeiros possam apoiar uma solução militar para a crise no Brasil. Todos os governos da América do Sul hesitam em se envolver militarmente em outros países da região. Mesmo no caso da Venezuela, que está passando por uma crise política e econômica própria, os países da região demoraram a tomar medidas concretas (como cortar os laços comerciais) contra o governo de Nicolas Maduro e estão aplicando apenas sanções moderadas. Países fora da América do Sul, particularmente os Estados Unidos, querem estabilidade no Brasil. Por conta da negociações comerciais com a China e o NAFTA, além das operações militares em curso no Oriente Médio, os EUA já estão sobrecarregados e dificilmente apoiariam uma intervenção militar no Brasil. Fora do Hemisfério Ocidental, um dos relacionamentos mais fortes do Brasil é com a China, que importa recursos naturais do Brasil. Se o governo brasileiro fosse derrubado, isso poderia desestabilizar o país e prejudicar os laços comerciais, fazendo com que Pequim não apoiasse qualquer movimento nessa direção.''

O ''Geopolitical Futures'' é uma publicação voltada a análises de geopolítica global e perspectivas para o futuro do mundo. A revista digital é ligada ao think tank Stratfor, uma agência de inteligência americana dedicada a estudos de política internacional. O posicionamento publicado para o público americano indica que não interessa à elite de política externa dos Estados Unidos que haja uma intervenção deste tipo no Brasil, o que diminuiria as chances de crescer o apoio externo a uma nova ditadura.

Enquanto o debate sobre intervenção cresce no Brasil, é interessante ver um posicionamento assim de fora do país, especialmente considerando que os Estados Unidos foram a principal força por trás do movimento que tomou o poder em 1964. É claro que sempre há a possibilidade do uso de publicações e estudos em atuação de contra-informação, mas a análise aparenta ser feita para consumo interno, indicando ser reflexo dos interesses políticos dos EUA.

A avaliação ganha eco em reportagens analíticas como uma publicada na revista ''Americas Quarterly''. Segundo o editor-chefe da publicação, Brian Winter, o que se viu no Brasil com o aumento de vozes por uma intervenção soa quase inacreditável. ''O que antes era impensável agora está se tornando normal'', diz.

Mesmo admitindo que as vozes a favor de uma intervenção pela força podem ser minoria, ele diz que o tema já chegou à elite da política, que alega que os militares não têm interesse em assumir o poder. O problema maior, segundo Winter, é que o Brasil pode acabar abraçando uma alternativa autoritária por meio do voto, sem precisar de uma intervenção violenta dos militares.

''Na verdade, um golpe tradicional com tanques nas ruas é quase impensável –uma “relíquia do século 20”, como disse um líder militar nesta semana. No século XXI, quando a democracia se deteriora, quase sempre acontece por meio das urnas. Bolsonaro prometeu, se eleito, nomear oficiais militares para cargos importantes no governo, reverter as disposições sobre direitos humanos e dar 'carta branca' às forças de segurança para matar suspeitos de crimes, entre outras medidas. O General Joaquim Silva e Luna, que Temer nomeou como o primeiro ministro da Defesa não-civil do Brasil em fevereiro, disse à 'Bloomberg News' na semana passada que ele recebeu bem a candidatura de Bolsonaro. 'O Brasil está procurando alguém com valores … e eles consideram que as Forças Armadas têm esses atributos', disse ele. Por que se preocupar com um golpe, quando há maneiras mais fáceis de ganhar poder?''

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Falar de intervenção militar é desistir de apresentar país como civilizado
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Daniel Buarque

A descrição publicada por alguns veículos internacionais a respeito do desenrolar da segunda semana de greve de caminhoneiros no Brasil lembra o clima confuso em que foram recebidos os protestos de Junho de 2013. A manifestação por pontos específicos cresceu, saiu do controle, descambou para a irracionalidade e agora já se discute até na imprensa estrangeira assuntos tão disparatados quanto a possibilidade de uma intervenção militar na política. A mera inclusão deste tema no debate indica que o Brasil abdicou de se apresentar ao mundo como nação civilizada.

''O que começou como uma greve na semana passada contra o aumento do preço dos combustíveis se transformou agora em reclamações antigas sobre a baixa qualidade dos serviços públicos, os altos custos de vida e a corrupção na política'', explica uma reportagem publicada no site da Al Jazeera.

Assim como em 2013, o movimento que começou pequeno, cresceu, se transformou e saiu do controle dos principais grupos políticos do país, na visão de analistas estrangeiros.

''A greve confundiu tanto a esquerda quanto a direita em um clima político ferozmente polarizado'', avalia reportagem do jornal britânico ''The Guardian''. O periódico também usa analogia semelhante à da rede árabe sobre o protesto que começou pequeno e acabou saindo do controle (o correspondente Sam Cowie participou da cobertura dos dois veículos).

Fora de controle, os manifestantes agora tentam derrubar o governo de Michel Temer, segundo o título da Al Jazeera. O Brasil agora enfrenta pedidos de volta da ditadura militar, diz o título do ''Guardian''.

''Com as forças armadas enviadas para desfazer os bloqueios nas rodovias do país, um grupo cada vez mais barulhento de manifestantes radicais está pedindo que eles assumam o poder'', diz a agência de economia Bloomberg.

''O assunto é profundamente controverso no Brasil, que viveu sob uma ditadura militar por 21 anos, nos quais centenas de oponentes do regime foram executados e milhares mais torturados'', diz o jornal inglês.

''O número daqueles que defendem a volta da ditadura cresceu por conta dos repetidos escândalos de corrupção'', explica a reportagem.

Apesar de o pedido por ditadura soar insensato, o ''Guardian'' citou o presidente Temer alegando que não há chances de intervenção militar e entrevistou um cientista político brasileiro que diz que a maioria dos cidadãos do país prefere esperar pelas eleições de outubro.

Ainda assim, a chegada à imprensa estrangeira de um assunto tão absurdo quanto o pedido por ditadura evidencia o quanto o avanço de ideias reacionárias que deveriam ficar de fora da política têm ganhado força.

Até agora, o discurso radical e sem sentido deste tipo era ofuscado pelo debate político real, e o simples fato de que se discute o tema é uma legitimação da voz de pessoas que defendem o fim da liberdade –o que precisa ser combatido em nome do respeito à democracia brasileira. Ditadura e intervenção militar não deveriam sequer serem mencionados em qualquer debate político em um país sério.

Em 2015, avaliando o início da discussão sobre impeachment da presidente Dilma Rousseff, o consultor britânico Simon Anholt, especialista em imagem internacional de países, dizia que a situação era ''constrangedora para uma nação que está tentando se apresentar ao mundo como moderna e civilizada''. Ao incluir em qualquer discussão atual pedidos por intervenção militar e ditadura, pode-se dizer que o constrangimento ultrapassou todas as barreiras, e o país desistiu de ser apresentado como civilizado.

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