Brasilianismo

‘Jornadas de junho’ viraram símbolo do fracasso da ascensão do Brasil
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Daniel Buarque

Reportagem do jornal britânico ''The Guardian'' sobre a onda de protestos no Brasil

A onda de protestos que tomou conta do Brasil a partir de junho de 2013 se tornou um importante momento simbólico para a história recente do país. Foi ali que ficou claro que a narrativa de “ascensão” e “sucesso” que havia sido criada até então para o Brasil estava errada, e que as coisas não iam tão bem quanto se imaginava dentro e fora do país.

As narrativas das chamadas “jornadas de junho” no Brasil e no exterior foram o tema de doutorado do pesquisador chileno César Jiménez-Martínez, que concluiu o PhD pela London School of Economics no ano passado. As disputas sobre a imagem dos protestos e do próprio Brasil foram estudadas em detalhes em sua tese “Nationhood, Visibility and the Media: The Struggles for and over the Image of Brazil during the June 2013 Demonstrations” (algo como “nacionalidade, visibilidade e mídia: as lutas por e sobre a imagem do Brasil durante os protestos de junho de 2013”).

O pesquisador chileno César Jiménez-Martínez

Em entrevista ao blog Brasilianismo, Jiménez-Martínez discutiu alguns dos principais pontos da sua pesquisa, como a influência da mídia internacional e o impacto dos protestos na forma como o Brasil é visto no exterior. Segundo ele, a narrativa de sucesso do Brasil deu lugar a uma de decepção, e o clima de ceticismo parece ter passado a dominar a política no país.

Brasilianismo – Quase cinco anos após as “jornadas de junho”, como você acha que esses eventos impactaram na história recente do Brasil?
César Jiménez-Martínez – As “jornadas de junho” se tornaram um símbolo de que a ideia de que o Brasil estava em ascensão e sem problemas não estava correta.

Os observadores interessados no Brasil foram claros em dizer que a economia estava desacelerando, que a política arriscava tornar-se instável e que a Copa do Mundo e as Olimpíadas não seriam a festa para celebrar a ascensão pretendida para o Brasil. No entanto, mesmo aqueles observadores ​​ficaram surpresos com a escala e alcance dos protestos. Pessoalmente, reluto em chamar as jornadas de um movimento, porque elas envolviam muitas agendas diferentes e às vezes contraditórias. Da mesma forma, não coloco os protestos de junho de 2013 na mesma categoria dos protestos de 2015, mesmo que você possa encontrar alguma relação entre elas. Mas, como um correspondente estrangeiro me disse, antes das jornadas de junho, todas as reportagens sobre o Brasil começaram com algumas frases sobre o quanto o país estava crescendo, o quão bem estava a economia e como o país estava se preparando para a Copa do Mundo e Olimpíadas. Após os protestos, essas frases mudaram, e outra narrativa, de dúvidas e crises no Brasil, começou a dominar.

Brasilianismo – Quanto você acha que o clima político gerado pelas jornadas de junho pode afetar as eleições deste ano no país?
César Jiménez-Martínez – Não tenho a certeza de que posso responder a essa pergunta. No entanto, minha impressão é que entre várias pessoas no Brasil e entre os observadores há uma grande decepção.

O período que vai de meados da década de 1990 e até a primeira década do século 21 é cada vez mais visto como um período excepcional, em vez de –como foi pensado– como o início e a consolidação de um período mais estável, próspero e relativamente mais igual para o Brasil. As pessoas me disseram que, apesar de algumas de suas diferenças políticas, por dois ou três dias durante os protestos de 2013 houve uma grande sensação de esperança de que um Brasil melhor seria possível e que o poder estava nas mãos das pessoas, não da classe política. Minha impressão é que hoje em dia uma atitude mais cética prevalece em todo o espectro político.

Brasilianismo – Olhando em retrospecto, o que você acha que foi o impacto geral das ''jornadas de junho'' na imagem do Brasil no resto do mundo?
César Jiménez-Martínez – Eu acho que o primeiro impacto foi de surpresa. Especialistas no Brasil e os próprios manifestantes não podiam prever a escala e alcance que os protestos alcançariam. E a maioria dos grupos que estavam originalmente atrás dos protestos logo perceberam que eles não tinham controle sobre eles. Eu acho que o leitor de jornal ou o espectador de TV no exterior também ficaram surpresos, especialmente porque organizações de mídia estrangeiras enfatizaram o vínculo entre os protestos e a Copa do Mundo. Como um correspondente estrangeiro me disse, parte da reação podia ser resumida como ''por que eles estão protestando? Eles não amam muito futebol lá?”.

Dito isto, por um tempo, os protestos foram vistos sob um prisma positivo e talvez até romântico. O “New York Times”, por exemplo, os chamou de ''despertar social''. Era, novamente, a sensação de que as pessoas estavam ficando mais poderosas, estavam exigindo um país melhor e que talvez os protestos pudessem aprofundar a democracia no Brasil. A maioria dessas opiniões otimistas, no entanto, desapareceu gradualmente, e uma narrativa de decepção começou a dominar, em que o Brasil passou a ser visto como uma decepção. Significativamente, essa é uma narrativa que você pode encontrar em vários relatórios sobre os países BRICS nos últimos dois anos, uma narrativa de que eles não eram capazes de entregar resultados.

Brasilianismo – A sua tese argumenta que não há uma única imagem de uma nação, e há uma luta constante para desenvolver e contestar essas imagens. Como ocorre esse processo?
César Jiménez-Martínez – As imagens nacionais não são um objeto, uma coisa que viaja. As imagens, como vários estudiosos observaram, são relacionais. Você tem pelo menos um observador e alguém que é observado –mesmo que os papéis com frequência mudem. Significativamente, as imagens nacionais simplesmente não emergem do que os governos fazem através de campanhas de “nation branding” ou esforços de diplomacia pública.

As imagens nacionais também são formadas por empresas privadas, filmes e séries de televisão, meios de comunicação, movimentos sociais e assim por diante. Se você perguntar a muitas dessas pessoas, eles dirão que eles não pretendem formar uma imagem de uma nação, mas suas ações contribuem para esse processo. Essas imagens mudam ao longo do tempo. Pense, por exemplo, no fato de que em meados do século 20 o Brasil estava fortemente associado ao café, mas essa associação não é tão forte hoje em dia. E essa é uma mudança que foi produto de toneladas de variáveis ​​políticas, econômicas, culturais e geopolíticas.

Brasilianismo – Sua tese menciona que o Brasil perdeu a oportunidade de promover sua reputação internacional. Com a contínua instabilidade do país, o que seria necessário para que o Brasil voltasse a ter relevância global?
César Jiménez-Martínez – É importante reconhecer que uma série de fatores, nem todos eles sob controle do Brasil, contribuíram para a ideia de que o Brasil estava ''emergindo'' ou ''no auge''. Claro, a economia era um elemento fundamental, mas a estabilidade política também era fundamental, juntamente com os programas sociais que ajudavam as pessoas a sair da pobreza.

Vários correspondentes estrangeiros me disseram que o sucesso econômico era muito importante, mas não era suficiente fazer do Brasil uma história atraente. Também era um sentimento de otimismo, uma história positiva de as pessoas melhorarem. Isso também foi ajudado pelo carisma de Lula. Não importa o que pensemos de sua política, acho que certamente pode-se dizer que ele –com a ajuda de sua equipe– geralmente era bastante bom em se comunicar com a mídia e com o público. Ao mesmo tempo, parte da atratividade do Brasil tinha que ver com o ambiente global. Quando os Estados Unidos e a Europa enfrentaram uma crise financeira no final dos anos 2000, o Brasil deu a impressão de mais ou menos lidar com ela. Isso, sem dúvida, contribuiu para a ideia de que as coisas estavam ''indo bem'' no Brasil. Por isso, não posso dizer que haja uma lista de recomendações para dar às autoridades informando-lhes como restabelecer o Brasil como um país mais relevante.

Brasilianismo – Ao ir para o Brasil e fazer entrevistas no país, o que mais o surpreendeu enquanto estudou esse momento da história recente do Brasil?
César Jiménez-Martínez – Tive uma experiência muito semelhante à da pesquisadora espanhola Esther Solano, que escreveu um livro sobre black blocs. Ela estava frustrada, porque tinha a impressão de que as pessoas estavam dentro bolhas, sem ouvir umas às outras. Entrevistei pessoas do governo, ativistas, correspondentes estrangeiros e jornalistas brasileiros. Alguns deles eram um pouco desdenhosos de algumas pessoas com quem eu estava falando. Alguns jornalistas diziam coisas assim: “como é que você está falando com esses ativistas? Eles não têm nada a dizer''. Alguns ativistas diziam ''como é que você está falando com esse cara no governo? Ele ou ela não tem nada a dizer”, e assim por diante. No entanto, ao ter a chance de falar com eles em profundidade, fiquei realmente surpreso com o fato de que a maioria tinha aspirações semelhantes. Às vezes era frustrante, porque você podia ver que todas essas pessoas diferentes tinham toneladas de coisas em comum. Lembro-me de uma vez em Brasília, eu estava entrevistando uma pessoa trabalhando para o governo. E inesperadamente, um ativista se juntou à conversa. Eu não sabia o que fazer, então deixei-os falar. No final, ambos ficaram felizes por ter tido a chance de trocar opiniões e ouvir o outro, ter finalmente conversado e ouvido.

Brasilianismo – Quão importante foram os meios de comunicação estrangeiros nesse processo? Quanto você acha que eles estão relacionados à formação da imagem internacional do Brasil?
César Jiménez-Martínez – Embora seja vista ou lida apenas por um número limitado de pessoas no Brasil, a mídia estrangeira desempenhou um papel importante na contribuição para formar a narrativa dos protestos. Novamente, entre um grupo de pessoas pequeno e significativo, a mídia estrangeira foi vista como árbitro que confirmou a relevância dos protestos (''olhe, chegou ao 'New York Times'''). Além disso, eles também foram vistos –como alguns veículos alternativos, como a Mídia NINJA– como relativamente mais confiáveis ​​do que algumas das principais mídias nacionais. Essas duas coisas –a mídia como confirmando que algo é importante e a mídia como abertura do debate– não são exclusivas do Brasil.

Claro que também havia alguns jornalistas nacionais fazendo um trabalho incrível, mas no contexto de mídia do Brasil, em que os meios de comunicação nacionais estão fortemente associados a uma parte específica da elite nacional, a mídia estrangeira, com todas as suas limitações, foi vista como outra voz que poderia oferecer uma visão menos vilanizada dos protestos. Dito isto, acho que parte da cobertura internacional os protestos foi um pouco otimista demais, talvez refletindo um pouco as aspirações legítimas de alguns repórteres por um Brasil melhor.

Ao mesmo tempo, era interessante ver como grupos diferentes exploravam a mídia estrangeira no Brasil. Se, por exemplo, “The Economist” disse que o Brasil estava indo bem, as pessoas no governo diziam “olhem, mesmo a ‘Economist’ diz isso”. Da mesma forma, se a “Economist” dissesse que o Brasil não estava indo bem, as pessoas contra o governo diriam ''olhe, até a ‘Economist’ diz isso''. Na verdade, mesmo alguns ativistas tiveram um comportamento semelhante. Novamente, isso não é exclusivo do Brasil e você pode encontrá-lo em vários países em todo o mundo.

Brasilianismo – Quão diferente você acha que a cobertura da mídia estrangeira é para a mídia nacional no Brasil?
César Jiménez-Martínez – A principal diferença que encontrei foi que, no momento das jornadas de junho, a mídia estrangeira começou a cobrir os protestos somente quando eles se sobrepunham com a Copa das Confederações, ou seja, quase duas semanas após os protestos terem começado. Provavelmente por essa razão, eles enfatizaram desde o início o vínculo entre os protestos e o futebol. Essa era uma agenda importante para alguns manifestantes, mas de modo algum era a única. No entanto, essa foi a forma como alguns correspondentes tentaram fazer as pessoas no exterior ''se importarem'' com os protestos. Ao mesmo tempo, a mídia estrangeira não pode dedicar a mesma quantidade de tempo à cobertura do Brasil. O Brasil ''compete'' com histórias de todo o mundo. Apesar dessas limitações, houve alguns correspondentes que fizeram um excelente trabalho e que, novamente, foram capazes de oferecer um relato equilibrado das manifestações e suas implicações para o Brasil.

Brasilianismo – Sua tese explica que, embora muitas pessoas falem sobre mídia estrangeira no Brasil, elas realmente se referem à mídia americana e britânica. Por que você acha que esses países são vistos como mais importantes do que outros?
César Jiménez-Martínez – Isso tem a ver com muitos processos históricos que não são exclusivos do Brasil. No caso brasileiro, que considero um pouco semelhante ao chileno, as elites políticas, econômicas e intelectuais brasileiras historicamente tentaram manter laços amigáveis ​​com grandes potências internacionais, particularmente a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. As razões incluíram sentimentos de insegurança ou isolamento na América do Sul, a busca de mercados e comércio além dessa região e a relevância que o Brasil teve para os interesses comerciais do Reino Unido e dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, em diferentes momentos da história, alguns intelectuais brasileiros alegaram que sua nação estava cultural e politicamente mais próxima desses poderes globais do que de seus vizinhos sul-americanos. Esses processos históricos são manifestados e reforçados através da mídia. Apesar de alguns meios de comunicação e cooperação cultural entre os países BRICS, muitas vezes você acha que as campanhas promocionais são destinadas aos EUA e à Europa Ocidental, e que quando os jornalistas falam sobre como ''a mídia estrangeira'' cobre o Brasil, eles se referem às mídias americana e britânica. Mas, novamente, isso não é exclusivo do Brasil. Com diferentes ênfases e legados históricos, você pode encontrar padrões semelhantes em outros locais.

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Como o cinema fez do Brasil a capital da fuga e do abrigo à contravenção
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Daniel Buarque

Reportagem do tabloide britânico 'The Sun' sobre jovem filmada fazendo sexo; ela diz que quer fugir para o Brasil

A reação de uma jovem filmada fazendo sexo em um supermercado de Norwich, na Inglaterra, foi de querer fugir da fama repentina em sua cidade. ''Acho que vou me mudar para o Brasil para me afastar de tudo isso'', disse, em entrevista publicada pelo tabloide ''The Sun''.

O país não tem nada a ver com o caso, e a jovem não tem aparentemente nenhuma relação com o Brasil, mas ainda assim foi o lugar escolhido para a “fuga”.

A declaração é reveladora sobre a imagem internacional do Brasil. Há décadas, o país se consolidou na mente de muitos americanos e europeus como o destino clássico para a fuga. E isso foi em grande parte construído pelo cinema.

Uma pesquisa realizada por Tunico Amâncio, e publicada no livro “O Brasil dos Gringos: Imagens no Cinema”, de 2000, analisa o quanto o país é usado no cinema estrangeiro como uma referência para o maior destino de fugas internacionais.

O livro é uma das principais referências para entender como o Brasil aparece representado no cinema internacional, e como isso se relaciona com a imagem externa do país. Segundo Amâncio, o Brasil uma função dramática específica no cinema estrangeiro, a acolhida de fugitivos de todas as nacionalidades.

“Nos filmes estrangeiros, quase não se foge para Lima, nem para Buenos Aires, muito menos para Assunção. Foge-se mesmo é para o Rio de Janeiro, capital sul-americana do abrigo à contravenção internacional, a se considerar o volume de filmes estrangeiros com esta perspectiva narrativa”, diz Amâncio.

Segundo o pesquisador, foge-se para o Brasil pelas mais variadas razões, “sempre em busca de um abrigo legal à sombra de nossas palmeiras, ao som de nossa música, na contemplação de nossas mulatas. Foge-se para um país ‘sem fé, nem lei, nem rei’ exalando exotismo.”

O livro cita uma série de filmes em que importantes personagens usam o Brasil como destino de sua fuga. Obras alemãs, francesas, italianas e, naturalmente, americanas –desde os anos 1930 até exemplos mais recentes– tratam o país como um símbolo dessa fuga final. É assim que o país aparece em “Crown, o Magnífico”, em “O Conformista”, em “Liebelei, uma História de Amor”, em “Nada Além de Problemas”, em “Loucos e Nervosos” e dezenas de outros, lista o livro.

Em sua coluna no ''New York Times'', a jornalista brasileira Vanessa Barbara também apresentou, em 2015, um levantamento de obras mais recentes do cinema que usam o Brasil como cenário de fuga.

''Uma sabedoria conhecida há muito tempos em Hollywood diz que, se você roubou um banco ou vendeu segredos de guerra para o inimigo, ou mesmo se tiver desviado fundos de alguma empresa, você deve fazer as malas e se mudar para o Brasil'', diz.

A jornalista traça registros do Brasil como cenário de fuga desde os anos 1950, e analisa como isso pode ter começado a ser usado influenciado pelo fato de que o país não tinha acordo de extradição com os EUA até os anos 1960.

Barbara não cita a pesquisa de Amâncio, mas se refere ao documentário ''Olhar Estrangeiro'', de Lucia Murat, que é baseado no livro ''O Brasil dos Gringos.

“Em geral, o impulso para ir ao Brasil não é nem justificado, nem motivado especificamente. Raramente um personagem explicita o porquê dessa escolha como opção de escape da lei ou de qualquer outro agente reparador. O recurso ao Brasil como etapa final de uma fuga é uma espécie de deus-ex-machina, um expediente fácil que permite à solução dramática uma certa dose de eficiência. Afinal de contas os filmes raramente explicam por que se foge tanto para o Brasil”, diz Amâncio.

Dos incontáveis exemplos do cinema, a imagem do Brasil como destino de fuga se consolidou a ponto de virar a referência de uma jovem exposta em uma pequena cidade inglesa. Por mais que ela talvez sequer saiba o que há no Brasil, onde é o país, e como é a vida lá, a reputação como lugar da fuga a faz citar o destino como uma opção natural.

Em uma reportagem de 2015, a rede britânica BBC disse que o Brasil estava tentando se livrar dessa fama internacional. Segundo ela, o país teria se tornado conhecido como um destino seguro para fugitivos graças aos casos de Ronald Biggs (que assaltou um trem no Reino Unido) e do médico nazista Joseph Mengele. Agora, o governo estaria atuando para extraditar rapidamente criminosos estrangeiros, dizia a BBC.

O Olhar Estrangeiro – Lúcia Murat from Leandro Rocha on Vimeo.

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Com exposição em Nova York, Tarsila representa a arte brasileira nos EUA
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Daniel Buarque

Enquanto tensão política, crise econômica e carnaval têm dominado as atenções da imprensa internacional a respeito do Brasil, um movimento paralelo mostra um lado mais positivo do país. Uma exposição de obras de Tarsila do Amaral em Nova York tem ganhado destaque na mídia americana, que se debruça sobre a importância dela para a arte e para a cultura do Brasil.

Tarsila é tão relevante e famosa que é conhecida apenas por seu primeiro nome no Brasil, destacam a revista ''New Yorker'' e o jornal ''The New York Times'' –é como se ela fosse ''uma estrela do futebol brasileiro'', diz o ''NYT''.

Segundo o jornal, a exposição em Nova York apresenta aos EUA a pintora que forjou o vocabulário da arte moderna no Brasil. A partir dela, ''o Brasil encontrou uma confiança cultural nova, deu adeus à inveja europeia e consumiu influências ocidentais, africanas e indígenas com igual satisfação''.

''Os nova-iorquinos tiveram um curso intensivo de arte brasileira nos últimos meses, entre as geometrias subversivas de Lygia Pape, no Met Breuer e as instalações de Hélio Oiticica, no Whitney. Nenhuma das duas teria sido concebível sem o trabalho pioneiro de Tarsila, que sintetizou o tratamento volumétrico da forma humana, que ela encontrou nos estúdios de Léger e outros em Paris, e a vibrante cultura visual de seu país de origem, em uma arte que ainda parece aberta'', diz a editora da ''New Yorker''.

Com a exposição “Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil”, os EUA passam a ter o primeiro contato em profundidade com a obra de Tarsila, ''a artista mais popular do século passado em seu país natal, mas ainda pouco conhecida nos EUA. Suas pinturas maduras, mostrando corpos grandes em paisagens fluidas e estilizadas provocaram a inclinação moderna do Brasil pela antropofagia'', diz o ''NYT''

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Imprensa estrangeira cita sombra da ditadura e manobra de Temer no Rio
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Daniel Buarque

Reportagem do 'Guardian' sobre a intervenção no Rio

A cobertura da imprensa estrangeira a respeito da decisão do presidente Michel Temer de decretar intervenção na Segurança Pública do Rio de Janeiro evoca sombras do regime militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. A ditadura foi citada em praticamente todas as primeiras reportagens que trataram do tema na mídia internacional.

A reação inicial a respeito do decreto de Temer em outros países é mais relatorial, com poucas análises e pouco aprofundamento sobre o que isso representa para o país e para a democracia. O jornal britânico ''The Guardian'' cita insatisfação nas favelas e possíveis benefícios políticos para Temer, enquanto a agências de notícias falam sobre a pressão dos mercados pela aprovação de reformas no Brasil, o que deve ser deixado de lado temporariamente. Além disso, lembranças das sombras da ditadura ganharam destaque em quase todos os veículos.

''O Brasil voltou a ser uma democracia em 1985, depois de 21 anos de ditadura militar, e a intervenção continua sendo um tema sensível no país'', explica uma reportagem da agência de economia Bloomberg.

O ''Guardian'' ressalta que esta é a primeira vez que uma intervenção assim acontece desde 1988, quando uma nova Constituição deu fim à ditadura.

''Intervenção militar é um assunto pesado para muitos brasileiros, apesar de muitos na extrema direita cada vez mais apoiarem a volta de um governo militar'', diz o jornal inglês.

A agência Associated Press também lembrou o regime militar. ''A decisão é significativa em termos simbólicos e práticos, para a maior nação da América Latina, onde muitos ainda lembram da brutal ditadura militar que governou entre 1964 e 1985'', diz a reportagem.

Além da ditadura, outro ponto frequente é a ideia de que Temer pode estar usando a medida para ganhar força politicamente.

''Muitos viram a decisão como uma forma de desviar a atenção dos problemas políticos'' do governo, dia a AP.

''Há benefícios políticos para o presidente Temer, que apostou o sucesso do seu governo em medidas de austeridade para controlar o déficit brasileiro'', diz o ''Guardian''.

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Para revista, protestos do carnaval deram amostra do que esperar na eleição
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Daniel Buarque

Para revista, protestos do carnaval deram amostra do que esperar na eleição

Quem quiser entender o que está acontecendo no Brasil meses antes de eleições decisivas para a democracia no país precisa olhar para o carnaval que acabou nesta semana, segundo um artigo publicado na revista ''Americas Quarterly''.

''O carnaval não ia ficar imune à profunda frustração dos brasileiros com a elite política'', diz. Ele acabou se transformando numa ''plataforma para misturar alegria e protesto –um sinal das questões que galvanizam os eleitores e das frustrações que conduzem os candidatos anti-establishment''.

O texto assinado pelo editor Brendan O'Boyle se alinha à análise que se tornou mais comum no exterior sobre o carnaval deste ano. Vista de fora, a festa que simboliza o país se tornou o palco de um tema mais sério sobre política e o futuro do Brasil.

Com o país polarizado desde o impeachment de Dilma Rousseff, a população não se vê representada por nenhum dos políticos tradicionais, o que se ampliou nas demonstrações do carnaval.

''Não é uma surpresa que muitos brasileiros se sintam empurrados a falar das questões que os políticos normalmente evitam, como racismo, violência e misoginia'', complementa.

Os protestos políticos do carnaval também foram tema de uma reportagem da revista ''The Economist'', que indica que a falta de força política do presidente Michel Temer dificulta a aprovação de reformas que a publicação defende serem necessárias para o Brasil, como a da Previdência.

Alegando que o Brasil fez um ''desfile a caminho do desastre'' a pesquisa diz que Temer está tentando aprovar as reformas, mas que tem se esforçado mais para evitar sofrer com as acusações de corrupção.

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Política dá tom mais sério à ‘terapia’ da festa símbolo do Brasil no mundo
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Daniel Buarque

Temas políticos dão imagem mais séria à festa-símbolo do Brasil no mundo

Um dos maiores símbolos do Brasil no resto do mundo, o carnaval reforçou aos olhos estrangeiros em 2018 o quanto a política está afetando a vida no país.

Na cobertura internacional feita sobre a festa deste ano, a abordagem sobre temas sérios mudou o tom antes ligado apenas à sensualidade e à fuga da realidade, para criar uma imagem mais séria. Se por um lado o impacto da crise afeta até a maior celebração nacional, por outro também fica evidente que os brasileiros conseguem brincar com tudo, até com suas dificuldades –o que não foge tanto da imagem tradicional do país.

No centro das análises internacionais sobre o carnaval deste ano estão as escolas de samba do Rio de Janeiro e suas críticas à corrupção e ao governo de Michel Temer. Quase todos os grandes veículos da imprensa internacional destacaram os desfiles da Beija Flor e da Paraíso do Tuiuti. Por todo o mundo, a imagem do ''presidente Michel Temer como Drácula'' ajudou a reforçar o tom político dado à festa.

''O carnaval do Rio reencontra sua verve política'', disse o título de uma reportagem do jornal francês ''Le Monde''. ''Desfile de escolas de samba retratam o Brasil problemático como 'monstro''', publicou o britânico ''The Guardian''. Rio faz ''carnaval contra o establishment'', reforçou o alemão ''RP''.

Temas políticos dão imagem mais séria à festa-símbolo do Brasil no mundo

A abordagem mais séria sobre a festa brasileira não ficou só nos desfiles do Rio, entretanto. Antes mesmo do início do carnaval, discussões sobre a luta contra o assédio e a defesa dos direitos das mulheres deram o tom da maior parte da cobertura.

Também foi muito perceptível o quanto foi reduzida no exterior a abordagem estereotipada e sexualizada do carnaval brasileiro. Poucos foram os veículos relevantes da imprensa internacional a explorar as imagens do carnaval de forma clichê em torno da sensualidade das mulheres. Este olhar mais sério e respeitoso a respeito do carnaval no Brasil também diz muito sobre os veículos da imprensa internacional. Em um momento de grande debate global sobre respeito às mulheres, poderia parecer fora do tom explorar apenas a questão da sensualidade do carnaval.

Além de ser uma festa de tom mais político, o carnaval também serviu para dar um alívio aos brasileiros no meio da sua longa crise, segundo uma outra reportagem do ''Guardian''.

''Mais do que nunca, os brasileiros estão buscando se consolar no carnaval: um feriado hedonista de cinco dias em que eles se fantasiam, bebem, brincam, dançam, seduzem e são seduzidos'', explicou o jornal, comparando a festa a uma ''terapia''. Se a ideia era ''esquecer das dificuldades'', entretanto, dessa vez a análise serviu mais para encarar muitos desses problemas do país.

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Sexualidade perde espaço para ‘não é não’ na cobertura do carnaval no mundo
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Daniel Buarque

Sexualidade perde espaço para 'não é não' na cobertura do carnaval no mundo

Domingo de carnaval costumava ser um dia de grande repercussão internacional de imagens cheias de estereótipos de sexualidade da maior festa do Brasil. Não era raro ver os jornais internacionais publicarem galerias inteiras de fotos de mulheres seminuas. Era um dos principais momentos de reforço de clichês sobre o país no resto do mundo.

Em 2018, entretanto, o tom parece ter mudado. Movimentos de defesa dos direitos da mulheres e contra o assédio estão ganhando mais destaque na imprensa estrangeira do que a exploração das fotos sensuais que simbolizavam a festa brasileira.

''Carnaval do Rio começa com samba, blocos e aceno ao movimento #metoo'', diz o título da reportagem do ''New York Times'' sobre o movimento contra o assédio que ganhou espaço na festa que simboliza o Brasil. ''Mulheres no Brasil lançam campanha anti-assédio 'não é não' durante o carnaval'', diz a chamada do ''Los Angeles Times''. ''Mulheres brasileiras dizem ''não é não' no carnaval'', reforça a agência de notícias France Presse.

Dias antes do começo da festa, a agência Associated Press já indicava essa mudança de tom. Em reportagem sobre o carnaval, dizia que a festa estava se tornando um espaço de luta contra o assédio.

Mas talvez mais importante do que os próprios títulos seja uma análise visual da cobertura que a imprensa internacional está fazendo sobre o carnaval. Fotografias de bundas de brasileiras, que costumavam ser o principal símbolo da cobertura do carnaval no exterior, quase não apareceram até agora neste ano.

Neste ano, até agora quase não há fotos apelativas de mulheres seminuas com destaques no resto do mundo. Enquanto antes seria comum usar as imagens sensuais mesmo para ilustrar as reportagens da luta contra o assédio, agora as fotos usadas são coloridas e representativas, mas sem explorar demais a sexualidade.

Até mesmo no tabloide britânico ''Daily Mail'', onde o destaque sempre é o que possa atrair a maior audiência possível, há uma exposição de sexualidade carnavalesca menor do que no passado.

Em uma galeria de fotos publicada no site do jornal neste domingo há foliões, fantasias e carros alegóricos coloridos, uma ou outra mulher, mas nenhum destaque em bundas ou seios.

Reforça o comportamento diferente da mídia internacional o fato de que o único destaque dado a mulheres no carnaval do Brasil na mídia inglesa não é sobre brasileiras. ''A mulher britânica liderando a dança no Brasil'', diz a chamada da rede BBC sobre Samantha Mortner, londrina que se tornou ''musa'' de uma escola de samba no Rio.

Por outro lado, pode ser cedo para comemorar. Ainda é o domingo de carnaval, e ainda haverá muita festa a ser retratada, e possível que a imprensa internacional acabe voltando a explorar as imagens tradicionais ligadas a sexualidade. Mesmo assim, a tendência registrada até o momento parece um passo decisivo para uma imagem diferente do carnaval e do Brasil.

A mudança de geral de tom nesses primeiros dias é muito importante para a avaliação da imagem internacional do Brasil. Os clichês do carnaval e da sensualidade das mulheres do país são alguns dos mais fortes na mente dos estrangeiros, e isso costuma ser reforçado a cada ano. Com uma mudança de foco e uma exposição menor disso na mídia, talvez o país comece a caminhar para mudar um pouco esta reputação internacional.

Além disso, a visibilidade externa de um movimento contra o assédio mostra ao mundo que as mulheres brasileiras não estão dispostas a serem este estereótipo objetificado de sexualidade. As brasileiras dão um importante passo para romper com este clichê sobre o país.

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Como o bumbum brasileiro se tornou um ícone cultural e um símbolo do país
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Daniel Buarque

Como a bunda brasileira se tornou um ícone cultural e um símbolo do país

POR CIARA LONG – do Brazilian Report*

As comemorações de carnaval no Brasil se tornam destaque na imprensa internacional todos os anos, normalmente acompanhadas de fotos de musas da escola de samba com pouco mais do que ornamentos e penas. Mas, de acordo com a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, essa cobertura superficial reforça os estereótipos sobre mulheres brasileiras dentro e fora do país.

''Os estrangeiros têm uma imagem de mulheres brasileiras muito relacionada ao Carnaval'', disse ela, em entrevista ao ''Brazilian Report''. ''Mas os corpos expostos durante o Carnaval são realmente corpos muito esculpidos, perfeitos, curvilíneos. A imagem que os estrangeiros vêem dos brasileiros é um corpo muito exposto, quase nu, principalmente no carnaval.''

O trabalho de Goldenberg, que começou em 2000, originalmente analisava questões relacionadas a casamento, infidelidade e sexualidade. No entanto, suas descobertas levaram-na a se voltar para as atitudes culturais em relação ao corpo de mulheres no Brasil. Os homens em seu estudo inicial disseram que as bundas das mulheres eram o fator mais importante na atração sexual, e as mulheres também as classificaram entre suas características físicas mais importantes.

A obsessão brasileira com a bunda vem de bem antes da pesquisa de Goldenberg. O Brasil ganhou notoriedade internacional pela primeira vez em 1954 com o concurso de beleza Miss Universo. Martha Rocha, a Miss Brasil da época, perdeu o título de Miss Universo por ter quadris duas polegadas maiores do que o concurso permitia.

Mas, dentro do Brasil, a fixação com o derrière perfeito vem de bem antes na história do país. Gilberto Freyre, o antropólogo brasileiro creditado como um dos poucos capazes de explicar algumas das complexas nuances culturais do Brasil, sugeriu que ideias brasileiras em torno de bumbuns perfeitos veem desde colonização.

A bunda como uma obsessão cultural duradoura

Em 1984, Freyre apresentou uma explicação de 26 páginas sobre o que ele chamou de ''preferência nacional''. Os colonizadores portugueses muitas vezes se misturaram à força com mulheres escravizadas de ascendência indígena e africana –muito mais do que os espanhóis no resto da América Latina. Esta idealização cultural de um bumbum mais arredondado se manteve até meados do século 20, quando se tornou um tema de discussão da cultura pop.

No início da década de 1960, alguns dos músicos mais famosos do Brasil se voltaram para a parte traseira das brasileiras para se inspirarem. Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes inventaram a expressão ''latifúndio dorsal'' para descrever a parte traseira feminina ideal –um termo que fala muito sobre o tamanho e os valores atribuídos às bundas das mulheres. Tom Jobim e Vinicius de Moraes também se inspiraram na mesma fonte para o que é indiscutivelmente uma das canções mais famosas do Brasil, ''Garota de Ipanema''.

Nádegas femininas idealizadas se proliferaram na cultura pop brasileira durante a década de 1970. Duas dançarinas em particular, Gretchen e Rita Cadillac, estavam entre as primeiras artistas femininas a conquistar a fama por seus bumbuns, lutando rotineiramente para serem conhecidas como ''Rainha do bumbum do Brasil''.

''A partir de 78, com Gretchen, surgiu a 'bunda music', explorando a sexualidade feminina e indo direto ao ponto'', explicou Rodrigo Faour, autor de ''História sexual da MPB'', em entrevistas à mídia brasileira, dizendo que esse legado perdura na cultura pop até hoje. O recente sucesso do cantor Anitta, ''Vai Malandra'', que tem letra e vídeo centrados nos intrincados movimentos do quadril da artista, é mais uma prova disso: quando foi lançado, em dezembro de 2017, o vídeo recebeu mais de 14 milhões de visualizações nas primeiras 24 horas no YouTube.

A internacionalmente famosa Miss Bumbum é outra manifestação do poder da bunda como símbolo cultural no Brasil. O concurso, cujo único objetivo é julgar as nádegas de mulheres, foi criado em 2011 e catapultou várias mulheres para seus 15 minutos de fama. O Miss Bumbum seleciona uma representante de cada estado brasileiro para competir umas contra as outras pelos votos on-line de seus admiradores. A competição é tão feroz que, em 2017, várias candidatas foram punidas por usar robôs para distorcer os resultados.

A edição de 2018 do Miss Bumbum será a última. ''Eu não quero que o concurso se torne uma piada que não é mais engraçada. Temos de sair enquanto estamos no topo'', disse Cacau Oliver, o criador da competição. A última edição do Miss Bumbum incluirá, pela primeira vez, uma mulher transgênero.

Mulheres brasileiras enfrentam consequências para a saúde

''Vai Malandra'' foi aplaudida nas redes sociais por sua cena de abertura, que se aproximou das nádegas de Anitta e mostrou celulite com ousadia. ''Difícil de colocar em palavras a importância de Anitta para mostrar a celulite no primeiro segundo do vídeo'', dizia um tweet.

No entanto, a indústria de cirurgia plástica em expansão conta outra história. Entre 2012 e 2014, o número de cirurgias de implante de silicone nas nádegas cresceu 547% no Brasil, de acordo com a International Society for Aesthetic Plastic Surgery.

A demanda por técnicas de enchimento que retiram gordura de outra parte do corpo e injetam-na nas nádegas, uma cirurgia desenvolvida pelo Dr. Ivo Pitanguy e apelidada de ''Brazilian Butt Lift'', também cresceu. A cirurgia, que pode dobrar o tamanho da parte traseira da paciente, também encontrou popularidade internacional; A International Society for Aesthetic Plastic Surgery registrou cerca de 320 mil cirurgias desse tipo em 2015.

Apesar da popularidade, o procedimento de preenchimento é arriscado. Mas a advertência do Conselho Federal de Medicina do Brasil (CFM) contra o procedimento não muda muito para as mulheres brasileiras, que continuam buscando a perfeição através da cirurgia plástica, apesar dos riscos para sua saúde. Isso se estende até a áreas mais íntimas, com um aumento de 80% nas cirurgias entre mulheres brasileiras que procuram aperfeiçoar a forma de seus órgãos genitais em 2016.

Enquanto isso, a pressão para alcançar o corpo perfeito tem um peso psicológico para muitas mulheres brasileiras. ''As mulheres brasileiras são as mulheres que mais investem, se preocupam e são mais insatisfeitas com seus próprios corpos'', disse a antropóloga Goldenberg.

Mas, diz Goldenberg, há motivo de esperança. Mesmo em cidades de praia como o Rio, onde a pressão para se divertir em roupas mínimas é alta, as mulheres ainda exibem formas corporais muito mais diversas do que os ideais promovidos pela indústria de beleza e da cirurgia plástica. ''Assim como a brasileira sofre indefinidamente por não ter um corpo que se encaixa no 'perfil' –que a maioria não tem– muitas ainda têm orgulho em mostrar seus corpos'', disse ela. ''A mulher brasileira é um paradoxo''.

*A versão original deste texto foi publicada em inglês pelo ''Brazilian Report'', site produzido por um grupo de jornalistas e pesquisadores que buscam ajudar estrangeiros a entenderem o Brasil

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Contra clichê, agência retrata carnaval como espaço de luta contra assédio
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Daniel Buarque

Antes mesmo do começo de fevereiro, quando começaram as prévias carnavalescas no Brasil, o tabloide britânico ''Daily Mail'' abriu a cobertura internacional sobre a festa brasileira da forma mais tradicional no resto do mundo: ''Começou a festa'', dizia a reportagem (cheia de fotos) cujo grande foco era o fato de que as mulheres tinham ido às ruas com os seios à mostra.

Sempre que se aproxima a folia que é um dos maiores símbolos do país no resto do mundo, a imprensa internacional destaca as imagens cheias de estereótipos de sensualidade e ausência de regras do carnaval brasileiro.

Muito já se pesquisou o assunto, e o quanto os próprios brasileiros e a imprensa nacional realimentam essa imagem externa.

Mas no meio da cobertura recheada de clichês há também espaço para novas movimentações sociais relacionadas ao carnaval e à situação das mulheres no Brasil.

O principal exemplo disso neste ano é uma reportagem da agência Associated Press publicada por alguns dos maiores veículos da imprensa internacional, como o ''Washington Post''. Nela, o carnaval é apresentado como um espaço de luta contra assédio no Brasil.

''O movimento #metoo contra o assédio, que está crescendo nos EUA, ainda não conseguiu conquistar no Brasil, que tem uma das maiores taxas de homicídios do mundo para as mulheres (…). Mas, enquanto os grupos de mulheres dizem que o Brasil tem um longo caminho a percorrer para enfrentar a desigualdade e o machismo arraigados, eles vêem um movimento potencialmente maior no diálogo público sobre o assédio durante o Carnaval e o que as autoridades e várias organizações estão fazendo para reprimir isso'', diz a AP.

Segundo a agência, o país atualmente tem vários grupos de mulheres que fazem festas com temáticas feministas.

''Elas incluem bandas só com mulheres e temas problemáticos que reagem aos papéis tradicionais de gênero e até mesmo se divertem com nomes depreciativos. Em uma recente festa de blocos feministas, centenas de mulheres se vestiram de animais que disseram ter sido chamadas nas ruas: vacas, piranhas, galinhas e cobras, entre outros.''

Segundo a AP, o movimento precisa ser reforçado ainda por um foco maior na luta contra crimes que afetam mulheres. Ainda assim, aponta avanços. ''Mudanças recentes na lei tornaram mais fácil processar os agressores por estupro'', diz.

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Condenação de Lula é melhor do que o pré-sal para a economia, diz ‘WSJ’
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Daniel Buarque

Condenação de Lula é melhor para a economia do que o pré-sal, diz 'Wall Street Journal'

A condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em segunda instância é uma conquista maior para a economia brasileira do que a descoberta do pré-sal ou do que uma grande colheita de soja, segundo um artigo de opinião publicado pelo jornal americano de finanças ''The Wall Street Journal''.

Para o jornal, a confirmação de que Lula não deve ser autorizado a concorrer novamente à Presidência foi celebrada pelos mercados, mas o principal motivo para ver a decisão do TRF-4 como uma ''vitória'' é outro. A condenação ''é um sinal de que o Judiciário está se tornando mais independente e que o estado de direito está amadurecendo. Este é um desenvolvimento muito maior para a economia do que qualquer descoberta de petróleo em águas profundas ou colheita abundante em soja'', diz.

O texto é assinado pela colunista Mary Anastasia O'Grady, que acompanha a economia latino-americana para a a publicação especializada em finanças.

No artigo, ela critica a interpretação defendida pelo PT e por alguns comentaristas (inclusive Mark Weisbrot, autor de texto publicado no ''NYT'') de que a condenação de Lula ocorreu sem provas.

''Os mesmos manipuladores ideológicos que comemoraram a destruição da Venezuela sob Hugo Chávez agora defendem Lula com falsas alegações de que sua condenação é puramente política. Um artigo de janeiro no 'New York Times' afirmou, por exemplo, que foi o testemunho de um único indivíduo que condenou Lula. Isso é falso'', diz.

O texto analisa o processo jurídico que levou à condenação de Lula e argumenta que foram apresentadas evidências para comprovar o envolvimento do ex-presidente em corrupção.

''A evidência mais condenatória foi a troca de mensagens entre executivos da OAS que conspiraram para pagar os subornos. Essas comunicações indicam que o valor do apartamento deveria ser deduzido do total de subornos devidos ao PT'', diz.

Ligado a interesses de mercado e empolgado com os resultados da condenação na Bolsa brasileira, o ''Wall Street Journal'' é a primeira grande publicação da imprensa a tratar o julgamento em segunda instância como uma ''vitória''. A maior parte das análises internacionais até aqui fazia uma interpretação mais conjuntural dos efeitos da decisão da Justiça sobre a política brasileira como um todo em um ano de eleição.

Outras duas publicações muito ligadas a interesses do mercado, como a ''Economist'' e o ''Financial Times'', ambos editados em Londres, publicaram analises muito menos celebratórias da situação brasileira. A ''Economist'' avaliou que a condenação criaria ainda mais incerteza para a economia em um ano de eleição crítica no país, enquando o ''FT'' criticou a empolgação dos mercados e indicou que a condenação ''não engrandece o Brasil''.

Para o ''WSJ'', entretanto, a prova de independência do Judiciário é um resultado positivo e essencial para o futuro do Brasil.

''O estado de direito no Brasil ainda precisa de muito trabalho. Mas, se o STF aderir aos fatos neste caso, ele sinalizará um novo padrão de profissionalismo e independência judicial que não deve ser negligenciado.''

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