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‘Forbes’: Crise na Presidência do Brasil prova que tudo sempre pode piorar
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Daniel Buarque

'Forbes': Crise na Presidência do Brasil prova que tudo sempre pode piorar

A revista de economia ''Forbes'' diz que a atual crise política no Brasil, com a denúncia de corrupção contra o presidente Michel Temer, é a prova de uma das mais duras lições de vida: ''Tudo sempre pode piorar com o tempo''.

''O Brasil está passando por sua pior crise política desde o fim da ditadura'', diz. ''É preciso estar preparado para o pior'', complementa.

Leia também: Denúncia pressiona Presidência ‘raquítica’ de Temer, diz mídia estrangeira 

Um dos problemas, segundo a reportagem, é que o campo político do país está aberto, e todos estão com ''lama da cabeça aos pés''. Isso cria um impasse: ''Quem vai, e quem pode governar o Brasil?''

''Se alguém pudesse identificar um tempo específico entre as idades das trevas e o renascimento, então eu diria que é onde o Brasil está agora'', diz a revista, citando um analista de risco da Arko Advice.

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Denúncia pressiona Presidência ‘raquítica’ de Temer, diz mídia estrangeira
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Daniel Buarque

Acusação aumenta pressão sobre Presidência 'raquítica' de Temer, diz mídia estrangeira

A notícia sobre a denúncia criminal de corrupção contra o presidente Michel Temer ganhou destaque nas principais publicações da imprensa internacional. Segundo a interpretação dominante na mídia estrangeira, a acusação aumenta a pressão sobre uma Presidência enfraquecida, ''raquítica'', e amplia a crise política nacional. Ainda assim, os principais analistas em outros países veem chances de Temer reverter a acusação com apoio da Câmara.

''A probabilidade de ele ficar no poder é de 70%'', diz uma reportagem do jornal francês ''Le Monde'', citando a agência de análises de risco Eurasia.

''Habituado às negociações de bastidores, Michel Temer conta com o apoio de uma parte significativa do Congresso. De acordo com o site de monitoramento Congresso em Foco, ele tem entre 240 e 250 deputados leais a ele. É muito mais do que os 172 votos necessários para interromper a acusação da Justiça'', explica.

Ainda assim, tanto o jornal francês quanto o resto da imprensa internacional destacam que o governo Temer está perdendo legitimidade, e que a pressão popular sobre os congressistas, que serão avaliados pelo voto no próximo ano, pode mudar o cenário político nacional.

''Revelada apenas alguns dias depois de uma pesquisa mostrar sua aprovação em 7% –a mais baixa de qualquer presidente brasileiro em quase 30 anos– a acusação aumentou a pressão sobre a presidência raquítica de Temer, que foi mergulhada em uma crise política'', diz o ''New York Times''.

O jornal diz que analistas acreditam que o presidente tem chances de escapar do julgamento do Congresso, mas que as eleições do próximo ano podem fazer com que parlamentares se voltem contra Temer para tentar salvar o próprio pescoço.

O ''Washington Post'' publicou uma reportagem da agência de notícias Associated Press indicando que a acusação contra Temer aprofunda a crise política no Brasil. O jornal destaca que o presidente brasileiro é o primeiro na história do país a lidar com uma acusação assim.

''Os aliados de Temer estão divididos entre se devem continuar a apoiar o líder sitiado ou abandoná-lo por medo de que a associação possa ser tóxica durante as eleições do próximo ano'', diz, ecoando o ''NYT''.

A rede árabe Al Jazeera também publicou reportagem sobre a acusação e deu destaque para o fato de Temer ser ''um dos presidentes mais impopulares da história recente no país''.

''Em um outro sinal da posição de enfraquecimento de Temer, uma figura importante em sua coalizão governante, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, pediu sua renúncia'', diz.

''Ainda é muito cedo para prever se o presidente pode sobreviver às acusações de corrupção contra ele. Se não, a questão real será saber se quem suceder ele será diferente'', diz a Al Jazeera, citando um analista que crítica o sistema político do país.

Segundo o jornal britânico ''The Guardian'', entretanto, apesar de Temer ainda ter força política suficiente para resistir à acusação, a Justiça brasileira está fechando o cerco como num jogo de xadrez, que pode acabar derrotando o presidente.

''Como todo o Congresso vai tentar reeleição no próximo ano, muitos dizem que, se a indignação do público crescer, será difícil manter o apoio a Temer'', diz.

O jornal italiano ''La Repubblica'' chama a acusação de ''bomba política'', e diz que ela compromete de modo irreparável a imagem da política brasileira.

''O Brasil está novamente à beira da crise política e institucional mais grave da sua história recente'', diz, lembrando que Temer foi um dos líderes no processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Apesar de o tom crítico à política brasileira ser dominante na cobertura da imprensa internacional sobre as acusações contra Temer, ainda há analistas vendo o caso como um reflexo positivo da luta contra a corrupção.

É o caso do jornal de economia ''Wall Street Journal'', que diz que a acusação é uma nova fase nesse processo contra corrupção política no país.

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Artigo de think tank americano diz que Brasil vive Estado de exceção
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Daniel Buarque

Artigo de think tank americano diz que Brasil vive estado de exceção

O impeachment de Dilma Rousseff e a ascensão ao poder de Michel Temer como presidente do Brasil criaram uma situação análoga a um ''Estado de exceção'' semelhante ao que governou o Brasil a partir de 1964, segundo um artigo publicado pelo site do think tank americano Council on Hemispheric Affairs (Coha).

''O Brasil tem uma longa história de rupturas democráticas e crises econômicas, mas desde que a presidente democraticamente eleita Dilma Rousseff foi ilegalmente deposta em 31 de agosto de 2016, o país tem assistido a uma maior deterioração do estado de direito e da legitimidade democrática em todos os ramos do governo'', defende o texto, em inglês, assinado pelas pesquisadoras Aline Piva e Liliana Muscarella.

O artigo assume que o impeachment foi um ''golpe'' e diz que ele foi parte de uma manobra coordenada pela mídia e pelas elites com ajuda do Judiciário para tirar o Partido dos Trabalhadores do poder.

Desde a saída de Dilma, argumenta, o governo tem se mantido no poder de forma tênue com ajuda de uma ''constante deterioração das instituições brasileiras, criando um estado de coisas com pouca semelhança com a democracia'', diz, indicando que isso gera uma ação violenta contra as vozes da oposição.

''Esta dinâmica pode ser classificada como um 'estado de exceção' não convencional –um com muitas semelhanças com a ditadura militar iniciada em 1964.''

Com sede em Washington, DC., o Coha foi fundado em 1975 e faz um contraponto mais à esquerda dos think tanks americanos mais populares, como o Instituto Brookings e o Council on Foreign Relations –apesar de esta postura política não ser declarada ou oficial pelo instituto, que diz defender apenas a democracia e condenar regimes autoritários.

Desde o início do processo de impeachment contra Dilma, a maioria dos textos publicados pelo think tank tinham um tom crítico à saída dela do poder. A análise do Coha indicava riscos de tensão e democracia, mas um artigo publicado ali dizia que a instabilidade do país ia além do impeachment.

Sem fins lucrativos, o centro de pesquisas se propõe a promover interesses comuns do hemisfério e aumentar a visibilidade de assuntos regionais, além de aumentar a importância das relações inter-americanas e incentivar o desenvolvimento de uma relação construtiva entre os EUA e o resto do continente.

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Condenado, Palocci já foi a cara do sucesso econômico do Brasil no mundo
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Daniel Buarque

Condenado, Palocci já foi a cara do sucesso econômico do Brasil no mundo (Rodolfo Buhrer/Reuters)

Preso desde setembro do ano passado e agora condenado a 12 anos de prisão, o ex-ministro Antonio Palocci por muito tempo foi associado no exterior ao sucesso econômico do Brasil durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Um dos principais exemplos disso é um perfil dele publicado pelo jornal americano ''The New York Times'' em 2004, em que Palocci é apresentado como o médico responsável pela saúde econômica do Brasil.

''O senhor Palocci, um médico do interior agrícola do Brasil e ex-trotskista, é o primeiro a admitir que sabia pouco sobre os meandros da política fiscal quando se tornou ministro da Fazenda do país. Agora, depois de um curso intensivo, de falar com investidores, acadêmicos economistas e de quase dois anos de o trabalho, ele dirige a expansão econômica mais robusta do Brasil em uma década'', dizia o jornal.

O texto explicava que a valorização das commodities vendidas pelo Brasil empurravam a economia do país e faziam com que Palocci conseguisse impor sua agenda mesmo aos seus correligionários mais de esquerda.

''A onda de boas notícias econômicas solidificaram a reputação de Palocci como o membro mais influente do governo Lula'', diz o jornal, explicando que a posição antes era ocupada por José Dirceu, que discordava da política econômica de Palocci.

''Ao aderir a políticas de austeridade monetária e fiscal diantes da feroz oposição dos membros do Partido dos Trabalhadores, Palocci deu passos significativos na limpeza das finanças públicas notoriamente instáveis do Brasil'', dizia o ''NYT''.

As quedas de Palocci no governo Lula e, depois, no de Dilma, bem como seus problemas com a Justiça, foram bem acompanhadas pela imprensa internacional, que mudou o tom em relação ao ex-ministro. Ainda assim, para as publicações internacionais, Palocci dava um rosto ao que era visto como o sucesso econômico conquistado pelo governo Lula –algo que depois seria assumido pelo então presidente do Banco Central, hoje ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e que seria contraposta à crítica ferrenha à política econômica ''intervencionista'' de Guido Mantega.

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Brasileiros mais caros da história do futebol inglês custaram R$ 1,7 bilhão
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Daniel Buarque

Brasileiros mais caros que já atuaram no futebol inglês custaram 1,7 bilhão

Os contratos dos 20 jogadores brasileiros mais caros que já atuaram no futebol inglês custaram, juntos, o equivalente a R$ 1,77 bilhão (416 milhões de libras).

O cálculo foi feito com base no ranking dos atletas brasileiros com maiores contratos já assinados com a primeira divisão da Inglaterra divulgado pelo site ''Talk Sport''. A publicação diz que o Chelsea está tentando contratar o lateral Alex Sandro por 61 milhões de libras (R$ 259 milhões), no que se tornaria o maior contrato já assinado com um brasileiro naquele país.

Três jogadores contratados pelo Manchester City encabeçam a lista: Ederson Moraes (contratado neste ano por 35 milhões de libras), Fernandinho (contratado em 2013 por 34 milhões de libras) e Robinho (contratado em 2008 por 32,5 milhões de libras).

Na média, cada um dos 20 maiores contratos custou o equivalente a R$ 88,5 milhões.

A lista não leva em consideração a inflação entre 2007 e 2017, período em que foram assinados os 20 maiores contratos com brasileiros no país.

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‘Pow-ge-kay-ju’: Jornal inglês celebra o pão de queijo brasileiro
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Daniel Buarque

'The Guardian' celebra o pão de queijo

''Pow-ge-kay-ju''. Assim o jornal britânico ''The Guardian'' ensina a pronunciar o nome do salgadinho que diz estar presente em quase todos os eventos no Brasil, o pão de queijo.

''Pequenas bolas de queijo douradas com uma casquinha crocante e um centro leve, com sabor suavemente ácido. eles são similares ao gougère francês, mas naturalmente sem glúten'', explica a reportagem.

O texto trata da origem do pãozinho de queijo, explicando que ele surgiu em Minas Gerais a partir de costumes indígenas de aproveitar a mandioca tradicional do território brasileiro em combinação com a produção de queijo e leite na região. A reportagem também avisa aos leitores sobre o festival de gastronomia de Tiradentes, que acontece em agosto em MG.

''Está disponível o dia inteiro e normalmente é vendido em bares, mas o melhor é comer no café da manhã, recém-saído do forno, acompanhado de uma xícara de café brasileiro'', diz.

O pão de queijo sempre aparece em listas de comidas brasileiras citadas em jornais estrangeiros. Ele também foi mencionado recentemente em publicações inglesas graças à inauguração de uma barraquinha que começou a vender desses salgados em Londres. A revista ''Time Out'' chamou ele de ''bolinhas de queijo brasileiras''.

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Federação de consumidores dos EUA comemora suspensão de carne brasileira
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Daniel Buarque

Reportagem Deutsche Welle fala sobre os impactos da suspensão da carne brasileira sobre a imagem do país

A suspensão de importação de carnes brasileiras pelos EUA foi comemorada por associações de consumidores do país. Preocupados com a qualidade dos alimentos vendidos aos americanos, grupos como o Safe Food Coalition defendem que o governo dos EUA imponha exigências de sistemas de inspeção mais fortes à indústria brasileira de alimentos.

''Membros da Safe Food Coalition estão aplaudindo a decisão do Departamento de Agricultura dos EUA de suspender a importação de carne fresca brasileira'', diz um comunicado divulgado pela Federação de Consumidores dos EUA.

Segundo o comunicado, o governo ''deve fazer uma reavaliação completa dos sistemas de inspeção do Brasil para garantir aos consumidores que o país não está exportando ameaças à segurança alimentar'', diz.

A organização cita casos anteriores de problemas com alimentos importados do Brasil e diz que ''há dúvidas sobre se o sistema de segurança alimentar do Brasil satisfaz os padrões de equivalência dos EUA''.

''Membros da Safe Food Coalition têm esperança de que o governo vai usar esta suspensão como uma oportunidade para revisar se as inspeções de segurança alimentar do Brasil são equivalentes antes que seja tarde demais e os consumidores americanos comecem a adoecer'', complementa.

A suspensão de importação de carnes brasileira também foi tema de uma reportagem da agência de notícias Reuters, que avaliou o impacto da decisão dos EUA nas churrascarias brasileiras nos EUA. Segundo a agência, a suspensão não criou problemas porque a maioria dos restaurantes brasileiros no país usam carne americana em sua cozinha.

Uma reportagem publicada pela rede alemã Deutsche Welle também tratou da suspensão de carnes brasileiras, explicando que o país agora se esforça para salvar sua imagem. Desde que a suspensão foi anunciada, os impactos dela sobre a reputação do Brasil e de seus produtos são uma das questões mais sérias até mesmo para o governo, que teme que a decisão americana tenha impacto em outros países.

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Ser brasilianista é pensar com sotaque e sem colonialismo, diz pesquisador
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Daniel Buarque

Página da Associação de Estudos Brasileiros, Brasa

Especialistas em ''estudos brasileiros'' em universidades de todo o mundo, pesquisadores estrangeiros são citados frequentemente na mídia nacional como ''brasilianistas''. Apesar da autoridade intelectual automaticamente ligada ao termo, entretanto, muitos dos próprios estudiosos que se classificam assim não sabem exatamente o que significa a palavra ''brasilianista'', e o que é exatamente essa área de pesquisa acadêmica chamada de ''estudos brasileiros''.

Um desses brasilianistas em ''crise de identidade'', o pesquisador Vinicius Mariano de Carvalho se debruçou sobre este tema em um artigo publicado recentemente na revista acadêmica ''Brasiliana''.

''É interessante ver a reação das pessoas, sejam acadêmicas ou não, quando me perguntam o que faço e eu respondo que dou aulas de estudos brasileiros. Uma segunda pergunta quase sempre se segue a esta resposta: 'mas o que é isso?'' E o momento da surpresa vem em seguida, quando digo que eu não sei exatamente o que é, mas que é esta pergunta que me atrai à área'', diz Carvalho na começo do artigo.

Brasileiro e professor do Instituto Brasil do King’s College de Londres, um departamento multidisciplinar voltado a estudos sobre o país, Carvalho é especialista em temas relacionados a segurança pública e violência.

Ele questiona a definição do dicionário Houaiss, que diz que brasilianista é “estrangeiro especializado em assuntos brasileiros”. Seu texto trata da evolução histórica do uso do termo para buscar seus conceitos, e cita um estudo que define a área de pesquisas como''thought with accent'', algo como ''pensamento com sotaque''.

O pesquisador brasileiro Vinicius Mariano de Carvalho, do King's College London

“Não entendo brasilianista como alguém que estuda o Brasil, enquanto objeto, mas que estuda o mundo desde uma perspectiva brasileira”, diz.

Em entrevista ao blog Brasilianismo, Carvalho explicou um pouco melhor sua avaliação do significado de brasilianista. Ele defende ainda que brasileiros podem ser brasilianistas tanto quanto estrangeiros e levanta uma discussão muito enriquecedora, mas evita traçar uma conclusão excessivamente limitadora do significado da palavra.

“Para mim, o brasilianista é aquele que procura incluir vozes críticas e hermenêuticas nascidas desta experiência chamada Brasil e que foram silenciadas por imposições coloniais de pensamento (que estão ainda extremamente fortes e ativas na academia, muitas até mesmo ‘travestidas em pele de cordeiro’)”, diz.

Brasilianismo – Seu artigo chama a área de pesquisas e estudos brasileiros, da qual fazem parte os brasilianistas, de ''pensamento com sotaque'', o que quer dizer com isso?

Vinicius Mariano de Carvalho – Tiro esta ideia e expressão da introdução do livro da Teresa Caldeira que cito no artigo. Ela, nesta introdução, menciona a luta que é de exprimir-se em uma língua que não é sua, o inglês, e o quanto isso é relevante na sua maneira de pensar. Comparando com o sotaque que temos quando falamos outras línguas, ela faz a analogia com o pensar com sotaque, quando o fazemos também em outra língua. É como uma apropriação interessante de um modo de pensar, que já não é mais em português, nem tampouco totalmente em inglês.

Acho que nós, brasilianistas, sendo brasileiros expressando em outra língua, ou estrangeiros expressando-se em português, estão neste processo dinâmico, criativo, penoso e fecundador de expressar-se com sotaque, sem estar em busca de um purismo epistemológico, mas capaz de, por causa do sotaque, fazer soar as ideias com modulações inovadoras e provocadoras.

Brasilianismo – A mídia brasileira costuma se referir a brasilianista como qualquer acadêmico estrangeiro que estuda o Brasil. O quanto essa interpretação está errada?

Vinicius Mariano de Carvalho – Bom, a mídia, em qualquer lugar do mundo, gosta de criar categorias (e nós acadêmicos também). Eu, sendo brasileiro, me considero brasilianista porque me ocupo de promover este pensar com sotaque. Não entendo brasilianista como alguém que estuda o Brasil, enquanto objeto, mas que estuda o mundo desde uma perspectiva brasileira. E o pode fazer na literatura, na política, nas artes, na antropologia, na ciência, em qualquer área do saber.

Não vejo o Brasil como meu objeto de estudo, mas como um ambiente sócio-historico-cultural que me provoca questionamentos epistemológicos e ontológicos que, em diálogo com outras tradições críticas, podem provocar um ‘sotaque’ na maneira como olhamos para nossos objetos de estudos.

Dito isso, sei que a mídia e a academia vão começar a me chamar de ‘brasilianista’ (e já está fazendo) como se fosse o meu rótulo. O que acho também um tanto quanto curioso. Somos, em todas as universidades do mundo, mais e mais provocados a ser interdisciplinares, mas continuamos subordinados as nossas disciplinas. Parece-me que ao dizer-me brasilianista, estou na verdade aceitando que para se fazer estudos de área desta maneira, eu preciso começar a questionar esses rótulos. Mas isso é conversa longa demais

Brasilianismo – Você é brasileiro e se define como brasilianista. A existência de brasileiros entre os brasilianistas é algo novo?

Vinicius Mariano de Carvalho – Como rótulo talvez seja. No entanto, me parece que desde o momento em que acadêmicos brasileiros começaram a buscar uma inserção mais crítica em um contexto global, construindo um aparato crítico e hermenêutico em diálogo com outras tradições, mas incorporando percepções ontológicas, cosmológicas e epistemológicas resultantes deste espaço sócio-histórico-cultural chamado Brasil –em outras palavras, ‘pensar com sotaque’, provocar um pensamento com sotaque em um outro– já temos brasilianistas brasileiros.

Brasilianismo – O que diferencia um brasilianista de um pesquisador brasileiro em uma universidade brasileira estudando temas relacionados ao país?

Vinicius Mariano de Carvalho – De novo, se a questão é estudar temas relacionados ao país, estamos novamente colocando o Brasil como objeto. O que me parece curioso, no entanto, é que, muitas vezes, brasileiros, em universidades brasileiras, estudando temas brasileiros, se valem de um aparato crítico puramente eurocêntrico, como se somente pudéssemos fornecer o objeto. Parece-me que continua-se a estabelecer uma hierarquização na qual ideias eurocêntricas são mais afeitas a explicar um fenômeno. A mim, me parece ainda um certo colonialismo intelectual. Como digo no meu artigo, me parece que precisamos de uma versão brasileira do “Orientalismo” do Edward Said.

Para falar a verdade, não estou defendendo uma posição de que se deve ou não identificar-se como brasilianista e quais os critérios para se considerar alguém brasilianista ou não. Só me parece que é preciso abrir os olhos para uma multiplicidade de ontologias e hermenêuticas nascidas na forja disso que chamamos Brasil.

Chamando-se ou não brasilianista, um pesquisador como Eduardo Viveiros de Castro provocou um “pensar com sotaque” no ambiente acadêmico que ocorreu não porque este antropólogo objetificou indígenas, mas porque formulou no ambiente acadêmico uma epistemologia e ontologia de matriz indígenas e com isso provocou um repensar teórico muito profundo.

O debate, a meu ver, é como lidamos com subordinações e colonialismos na academia, no nosso modo de pensar o mundo e não só o Brasil. Para mim, o brasilianista é aquele que procura incluir vozes críticas e hermenêuticas nascidas desta experiência chamada Brasil e que foram silenciadas por imposições coloniais de pensamento (que estão ainda extremamente fortes e ativas na academia, muitas até mesmo “travestidas em pele de cordeiro”)

Neste sentido, muitos daqueles que são chamados de brasilianistas –os tais estrangeiros que estudam o Brasil– não seriam tão brasilianistas assim, se já chegam com a teoria pronta e só falta buscar a empiria no Brasil. Não é a nacionalidade que faz o brasilianista. A nacionalidade não é por si um critério para se definir quem faz estudos brasileiros.

Brasilianismo – Que contribuição a área de pesquisas em ''estudos brasileiros'' em universidade no exterior pode trazer para o Brasil?

Vinicius Mariano de Carvalho – Talvez promovendo de fato um pensamento crítico a partir do Brasil em universidades fora do Brasil. Talvez até mesmo as universidades brasileiras podem contribuir com isso, com mais pesquisa em estudos brasileiros, epistemologicamente falando.

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Prefeitura de SP transformou Cracolândia em zona de combate, diz ‘LA Times’
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Daniel Buarque

Ação da prefeitura transformou Cracolândia em 'zona de combate', diz 'LA Times'

A região da Cracolância, em São Paulo, foi transformada em uma zona de combate durante a ação da prefeitura de João Doria para ''limpar a região'', segundo uma reportagem publicada pelo jornal americano ''Los Angeles Times''.

A reportagem usa um tom crítico para descrever os esforços da nova administração na região, mesmo com uma linguagem que não ataca diretamente a prefeitura.

O jornal diz que grupos de direitos humanos denunciaram tratamento ''desumano'' das pessoas que estavam no local, descreve que Doria declarou que ''o fim de Cracolândia'', mas completa explicando que o local ainda existe.

Por outro lado, o jornal e elenca dados positivos do programa Braços Abertos, da gestão anterior, que foi ''desmontado'' por Doria.

Em uma finalização mais uma vez crítica à ação, o jornal diz: ''Três semanas após a primeira ação, a polícia voltou ao local para acabar com o uso de drogas na nova Cracolândia. Eles não usaram a mesma força física, mas viciados foram forçados a desmontar barracas e entregar cobertores no que foi a noite mais fria do ano''.

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Jornal venezuelano denuncia uso de armas brasileiras pela repressão no país
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Daniel Buarque

Jornal venezuelano denuncia uso de armas brasileiras pela repressão no país

Armas produzidas por uma empresa brasileira estão sendo usadas continuamente para reprimir manifestantes que protestam contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela, denuncia uma reportagem publicada pelo jornal local ''El Universal''.

A revelação foi feita pelo periódico um dia após a morte de mais um manifestante em Caracas. Segundo a publicação, entre 67 pessoas (dados do Ministério Público) e 91 pessoas (dados de várias ONGs) foram mortas desde abril em mais de 80 dias de protestos na Venezuela. Essas manifestações sofrem forte repressão da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e da Polícia Nacional Bolivariana (PNB).

''Empresa brasileira Condor tem fornecido bombas de gás lacrimogêneo à Venezuela desde 2012. Estas compras transformaram a Venezuela em seu quarto maior cliente em volume e quantidade de compras. A mercadoria adquirida foi usada para dispersar protestos pacíficos na Venezuela'', diz a reportagem.

A empresa brasileira Condor Non-Lethal Technologies, com sede no Rio de Janeiro, reconheceu, em reportagem da agência de notícias Associated Press, que está fornecendo gás lacrimogêneo às forças de segurança venezuelanas. Depois que líderes da oposição apresentaram um documento demonstrando a compra de latas de gás lacrimogêneo pelas Forças Armadas, a Condor confirmou que está cumprindo dois contratos no país.

Segundo o ''El Universal'', semanas atrás o presidente Michel Temer havia suspendido o envio de uma compra de mais de 150 mil bombas da Condor pelo governo de Maduro, mas a empresa disse que não recebeu uma ordem para suspender as vendas.

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