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Blog do Brasilianismo

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Solto, Lula consolida imagem de 'salvador' da esquerda contra Bolsonaro

Daniel Buarque

10/11/2019 06h15

A cobertura feita pela imprensa internacional sobre os primeiros passos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva após sua libertação dá sinais sobre a narrativa que se constrói para o futuro da política brasileira –e sobre a importância dele em qualquer cenário para o país. É Lula quem vai liderar a oposição de esquerda do país em um momento de grande polarização, segundo a percepção no exterior.

Após a publicação de relatos mais factuais sobre a decisão do STF e a saída de Lula da prisão, as principais reportagens da mídia estrangeira mostram que o ex-presidente consolidar sua imagem como a principal liderança da esquerda e da oposição ao governo de Jair Bolsonaro.

Lula é descrito por publicações no exterior como o "salvador" do Brasil, como o líder que permite que a esquerda volte a sonhar. Ele se apresenta pronto para disputar com a direita no governo. E ao mesmo tempo ele "aprisiona" o debate político no país.

"A libertação de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente socialista do Brasil, deu um forte impulso aos esquerdistas ressurgentes em toda a América Latina", diz uma reportagem publicada pelo jornal britânico The Times.

O título da reportagem diz que "Libertação de Lula deixa a esquerda sonhar com um Brasil sem Bolsonaro".

"O reaparecimento de Lula, há muito tempo o político mais popular do Brasil, fortaleceu uma oposição enfraquecida por uma série de escândalos de corrupção", continua.

O jornal francês Le Monde segue uma linha semelhante na cobertura do discurso de Lula em São Bernardo do Campo. Segundo o Monde, o ex-presidente se posiciona como o "salvador" do Brasil diante da extrema-direita.

"Para ele, o objetivo nada mais é do que 'salvar' o Brasil contra o 'projeto de ódio' da extrema direita. Em uma linguagem clara, e às vezes simplista, Lula disse que queria 'lutar por um país feliz"', relata o Monde.

O jornal também elogia a capacidade de Lula de dar voz ao movimento de esquerda. "Aos 74 anos, o orador não perdeu a coragem nem a estrela. 'Tenho mais coragem de lutar do que antes', ele diz. O discurso encantou a multidão, jubilante e muitas vezes chorando."

Segundo a agência de notícias Reuters a libertação do ex-presidente fortalece o discurso de oposição ao governo. "Lula atacou no sábado o presidente de direita Jair Bolsonaro por empobrecer os trabalhadores brasileiros e prometeu unir a esquerda para vencer as eleições de 2022", diz.

Se por um lado avaliações publicadas no exterior tratam Lula como "salvador" do movimento de oposição, olhares mais críticos apontam problemas para o futuro político do Brasil com sua libertação.

Para Mac Margolis, colunista da agência de economia Bloomberg, o Brasil voltou a ser prisioneiro político de Lula.

"Seu status de figura pública e de único oráculo da esquerda limita a diversidade política e sufoca novas lideranças. Em um momento em que o círculo governante do Brasil se afastou fortemente à direita e o centro implodiu, a lacuna à esquerda reduz a própria democracia", argumenta o colunista.

Segundo Margolis, o próprio Lula ajudou a empobrecer o campo político da esquerda ao não permitir a ascensão de um substituto convincente para ele.

"Salvador" ou "carcereiro", o ex-presidente é visto de fora como uma liderança importante para a política brasileira, e sua presença no campo polarizado vai ajudar a definir o futuro do país.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.