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Blog do Brasilianismo

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Amazônia é tema de editoriais críticos pelo mundo; WSJ defende Bolsonaro

Daniel Buarque

26/08/2019 07h56

Menos de uma semana depois de os incêndios na Amazônia se tornarem um dos principais assuntos nas manchetes dos jornais internacionais, retratando o Brasil em chamas, e de as primeiras análises responsabilizarem o governo do presidente Jair Bolsonaro pelo descontrole na destruição da floresta, o tema ganhou espaço nos textos editoriais e de opinião da imprensa estrangeira.

Na maior parte das publicações, o tom adotado continua sendo de forte crítica ao presidente e à postura do governo em relação ao ambiente desde a eleição do ano passado, mas a intensidade da crítica e o foco da análise se tornaram mais variados.

Pela primeira vez, aparecem veículos que adotam um tom mais favorável ao governo. O jornal de economia The Wall Street Journal, por exemplo, defende que o Bolsonaro está conseguindo avançar com sua política econômica, e que o desenvolvimento pode ser a melhor forma de proteger a floresta.

Um dos pontos centrais para muitos desses veículos é tentar explicar por que a crise atual na floresta é tão importante –o que é fortemente associado ao discurso do governo em relação ao ambiente e à preocupação internacional com tentar evitar que a destruição ultrapasse o limite de recuperação da floresta.

Além disso, é frequente a discussão sobre as formas pelas quais o mundo pode pressionar o Brasil a proteger a floresta e ajudar o país a combater sua destruição.

Veja abaixo alguns dos principais editoriais sobre a Amazônia publicados na imprensa internacional nos últimos dias.

Le Monde

O jornal francês Le Monde foi uma dos primeiros veículos da imprensa internacional a publicar um editorial analisando a questão dos incêndios na floresta no Brasil. Segundo a publicação, a Amazônia deve ser vista como "um bem comum universal".

"A alarmante multiplicação de incêndios na Floresta Amazônica não diz respeito apenas ao Brasil, que abriga 60% dela, mas a todo o planeta, porque faz parte do desarranjo global do sistema climático", diz.

O texto de opinião do jornal argumenta que na disputa entre o argumento francês sobre a importância universal da floresta e o argumento brasileiro sobre a posse soberana da floresta, "as consequências da destruição gradual da Floresta Amazônica para o resto dos habitantes do mundo claramente dão razão aos países europeus". "Bolsonaro deve, portanto, aceitar esta responsabilidade internacional", defende.

The Observer

A edição deste fim de semana do jornal inglês The Observer (do mesmo grupo do Guardian) analisa a situação da floresta e a crise internacional em torno dos incêndios. Segundo a publicação, "a destruição da floresta tropical que estamos testemunhando reverberará muito além das fronteiras do Brasil nas próximas décadas".

O editorial critica a política de Bolsonaro para a Amazônia e associa sua eleição ao aumento do desmatamento da floresta. O texto também defende a importância de ações internacionais para pressionar o Brasil e ajudar o país no combate à destruição.

"Fortalecer as nações menos afluentes em ações por meio de acordos comerciais não é, por si só, suficiente. Os países mais ricos da Europa precisam fazer muito mais quando se trata de arrecadar recursos adequados para a conservação no exterior, uma área de gastos que os governos acharam fácil demais economizar."

"A retórica ambiental é barata. Somente os próximos meses dirão se os líderes europeus estão preparados para tomar as medidas necessárias para apoiar os brasileiros que estão lutando para proteger a Amazônia e o papel único que desempenha na proteção de um planeta biodiverso e sustentável para as futuras gerações."

O Guardian também publicou um texto da jornalista brasileira Eliane Brum denunciando a "forma predatória de política chamada bolsonarismo", cujo projeto é "criar mais devastação na Floresta Amazônica de forma metódica e rápida".

The New York Times

O jornal americano The New York Times não publicou um editorial com a opinião do próprio veículo sobre a crise na Amazônia, mas publicou um texto de opinião da colunista brasileira Vanessa Barbara que critica o presidente Jair Bolsonaro.

"Tem sido doloroso ver o país queimar, literal e figurativamente, sob Bolsonaro. Neste momento, os brasileiros sentem uma dor coletiva e perplexa por tudo o que perdemos –não apenas como cidadãos brasileiros, mas como humanos", diz.

New Statesman

A revista americana New Statesman publicou um artigo de opinião de Julia Blunck atacando duramente o presidente brasileiro e argumentando que "o mundo tem o poder de fazer Bolsonaro pagar por sua destruição da Amazônia".

"A melhor arma contra o presidente de extrema-direita é afetar a economia brasileira", diz.

"O Brasil nunca se viu como um vilão no cenário mundial. Pelo contrário, havia uma boa vontade geral em torno da imagem brasileira no exterior. Isso escondeu uma certa escuridão permanente na alma do país. Apesar de sempre concordar com a ação coletiva contra as mudanças climáticas, o Brasil nunca teve um histórico perfeito de preservação ambiental. Mesmo no seu melhor, o país procurou manter um perigoso equilíbrio entre os interesses do poderoso lobby do agronegócio e as preocupações verdes. A eleição de Bolsonaro, de extrema-direita, em 2018 expôs a atitude desdenhosa da maioria dos brasileiros em relação à Amazônia e seus povos indígenas: este é um homem que nunca disfarçou seu desprezo pelos ativistas verdes e tem um prazer quase sádico em zombar do preocupações de cientistas e celebridades."

The Atlantic

A revista americana The Atlantic publicou uma análise da destruição da floresta acusando Bolsonaro de acelerar a crise e explicando que, se for destruída, a Amazônia não pode mais ser recuperada.

Os incêndios, diz, são "um símbolo da indiferença da humanidade em relação à desordem ambiental, incluindo as mudanças climáticas".

Segundo o texto, as queimadas são mais importantes atualmente por conta da mudança do governo brasileiro no início do ano. "Jair Bolsonaro, um populista de extrema-direita que abertamente ansiava pelo passado autoritário de seu país, tomou posse como presidente. Durante sua campanha, ele prometeu enfraquecer as proteções ambientais da Amazônia –que foram eficazes na redução do desmatamento nas últimas duas décadas– e abrir a floresta tropical para o desenvolvimento econômico", explica.

The Wall Street Journal

O Wall Street Journal foi uma das poucas grandes publicações internacionais a publicar um contraponto à crítica generalizada contra o Brasil por conta das queimadas na Amazônia.

Um artigo da colunista Mary Anastasia O'Grady argumenta que os incêndios na Amazônia são causado especialmente por secas, e que a política de Bolsonaro para o desenvolvimento econômico tem o potencial de ajudar a floresta mais do que discursos vazios.

"Bolsonaro tornou-se o principal alvo dos especialistas progressistas de todo o mundo por algumas de suas declarações sobre o meio ambiente. Enquanto os incêndios se acirram na Floresta Amazônica, em grande parte por causa da seca, ele está sendo culpado pelo afrouxamento da aplicação das leis de conservação. Mas a abertura e a modernização da economia farão muito mais para proteger a floresta do que os governos socialistas de antes de Bolsonaro", diz.

Esta não é a primeira vez que o WSJ segue na contramão da crítica geral da imprensa estrangeira a Bolsonaro. Desde antes da eleição, quando o então candidato era alvo de grande rejeição no resto do mundo, o jornal de economia já tratava a escolha dele para a presidência sem alarmismo. Enquanto a ampla maioria dos veículos da imprensa estrangeira tratou a vitória de Bolsonaro nas eleições como uma ameaça para a democracia do Brasil, o WSJ publicou um editorial que poderia ser interpretado como positivo, alegando que a candidatura dele trata de "drenar o pântano", expressão usada por Trump em 2016 como crítica ao sistema político.

No início deste ano, o jornal também apontou Bolsonaro como "o maior vencedor de 2018" em todo o mundo.

Bloomberg View

O colunista da agência de economia Bloomberg Mac Margolis também adotou um tom menos crítico em relação ao Brasil, mas com foco voltado aos fazendeiros, e não ao governo. Para ele, responsabilizar as pessoas que usam o território da Amazônia para fins econômicos não ajuda a proteger a floresta.

"Os produtores brasileiros precisam de incentivos, não apenas penas, para conter o desmatamento", explica.

"Embora haja todas as razões para tratar os infratores severamente, salvar a floresta exige mais. Para conter o desmatamento, honrar o compromisso ambicioso de cortar mais de um terço dos gases causadores do efeito estufa em relação aos níveis de 2005 até 2030 e cumprir as cláusulas verdes do acordo comercial do Mercosul com a União Europeia, o Brasil deveria plantar mais incentivos, não acenar mais ameaças", avalia.

"Isso significa tratar fazendeiros e, sim, pecuaristas mais como interessados na Amazônia do que como predadores", complementa.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.