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'Culpa de Bolsonaro': No exterior, presidente é responsabilizado por fogo

Daniel Buarque

23/08/2019 06h38

A percepção internacional sobre a tentativa do presidente Jair Bolsonaro de responsabilizar ONGs pelos incêndios na Amazônia não funcionou muito bem. O governante aparece como diretamente responsável pelas queimadas em quase toda a intensa cobertura que a imprensa estrangeira está fazendo sobre o caso. Em muitos dos veículos de mídia do resto do mundo, o presidente é citado diretamente como culpado.

Segundo as principais análises publicadas no exterior, Bolsonaro esvaziou agências que trabalhavam com a proteção das florestas e ao mesmo tempo incentivou a exploração econômica das áreas de florestas. A combinação levou ao aumento das queimadas, que são vistas agora como fora de controle e "crise global".

Alguns veículos da imprensa internacional foram bem diretos na responsabilização do presidente:

"Os incêndios na Floresta Amazônica têm origem no desmatamento impulsionado pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro", destacou rede de TV americana MSNBC, que criticou o presidente.

O âncora do canal Chris Hayes analisou as raízes políticas dos incêndios provocados que destroem a floresta amazônica. "O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, desempenhou um papel fundamental no desmatamento que está literalmente alimentando as chamas", diz a MSNBC.

"Culpa de Bolsonaro", diz o título publicado pelo jornal italiano La Repubblica.

"A Amazônia está pegando fogo, e o presidente de extrema-direita do Brasil pode ser o culpado", diz o título do texto publicado pela revista Rolling Stone.

A rede de TV americana NBC publicou em seu site um artigo escrito pelo pesquisador Bill McKibben. O texto responsabiliza diretamente Bolsonaro pelas queimadas na floresta.

"As florestas tropicais da Amazônia estão em chamas. O presidente do Brasil, que parece Trump, Jair Bolsonaro, é o culpado", diz o título de um artigo escrito pelo pesquisador Bill McKibben e publicado no site da rede de TV americana NBC.

"Não é sempre que você pode identificar uma pessoa como a culpada por algo nessa escala, mas a escuridão do meio do dia [em São Paulo] é o resultado direto da eleição de Jair Bolsonaro para a presidência do país no ano passado. Bolsonaro, que disse às pessoas, supostamente ironicamente, chamá-lo de 'Capitão Motosserra', fez campanha com base na teoria de que o desenvolvimento econômico de seu país havia sido limitado pela afeição do mundo pela Amazônia, e deixou claro que quem quisesse cortá-la tinha pouco a temer de sua administração. Ele até demitiu o chefe da agência federal encarregada de monitorar por satélite a extensão do desmatamento, quando descobriu que o desmatamento estava aumentando."

A rede de TV CNN também associou a postura do presidente às queimadas. Bolsonaro "pode ter encorajado madeireiros, fazendeiros e garimpeiros a assumirem o controle de uma área crescente de terra amazônica", diz a CNN.

O jornal de economia Financial Times também acusa Bolsonaro de ter facilitado o aumento do desmatamento da Amazônia.

O jornal francês Le Monde publicou uma reportagem cujo título diz que "a Amazônia paga pela política de Bolsonaro".

Um outro texto publicado pelo jornal cita uma economista que diz que os incêndios são "uma praga sazonal 'amplificada pelas posições de Jair Bolsonaro'. O presidente brasileiro, diz, colocou em prática 'um sistema de enfraquecimento das instituições ambientais' para aproveitar a região.

O site de jornalismo Vox usa um tom semelhante e diz que "a Floresta Amazônica está pegando fogo –e o consenso é que o líder populista de extrema direita do Brasil, Jair Bolsonaro, é o culpado".

"A onda populista de direita é uma ameaça ao clima". Segundo o Vox, "os incêndios na floresta amazônica revelam muito sobre esse movimento político".

O jornal americano Los Angeles Times publicou uma reportagem da agência de notícias Associated Press citando a ONG Anistia Internacional, que também critica o governo.

"A Anistia Internacional diz que falhas do governo brasileiro são responsáveis por incêndios na floresta amazônica."

Além da responsabilização direta do presidente, muitos dos veículos de imprensa estrangeira também criticaram a tentativa de responsabilizar ONGs pelas queimadas.

A revista The Economist, por exemplo, chamou de "ridículas" as acusações do presidente contra ONGs.

"Durante a estação seca da Amazônia, é comum os agricultores colocarem fogo ilegalmente para limpar a terra. O presidente populista do Brasil, Jair Bolsonaro, os encorajou enfraquecendo as agências que reforçam os regulamentos ambientais. Ele acredita que proteger a floresta impede o desenvolvimento econômico. Quando perguntado sobre os incêndios, ele respondeu ridiculamente acusando ONGs ambientais de colocarem fogo para afetar a imagem do seu governo em retaliação por seus cortes em seu financiamento."

Ironia

A crítica ao governo brasileiro na mídia internacional também chega de forma irônica.

O site satírico de humor e notícias fantasiosas The Onion publicou um texto dizendo que "governo brasileiro equipa bombeiros com lança-chamas para combater a imensa floresta amazônica". A sátira diz que o governo é contra a floresta, não contra os incêndios.

Em tom de piada, o Onion diz que Bolsonaro alegou que "o bioma massivo e catastrófico já havia se expandido para mais de 2,1 milhões de milhas quadradas do país e representava ameaças significativas para a população e economia do país".

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.