Brasilianismo

Arquivos de documentos estrangeiros guardam segredos sobre a ditadura

Daniel Buarque

professor João Roberto Martins Filho, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), passou cinco meses realizando pesquisas nos documentos históricos da diplomacia britânica a respeito do que aconteceu no Brasil durante a ditadura.

O estudo foi realizado enquanto ele ocupava uma posição do King’s College London e resultou em importantes revelações sobre a forma de atuação dos militares no poder. A primeira delas foi publicada no livro “Segredos de Estado: O Governo Britânico e a Tortura no Brasil (1969-1976)'' (Ed. Prismas), que revela a conivência do governo em Londres com a tortura no Brasil. No fim de semana, uma reportagem publicada na Folha trouxe mais uma: a ditadura brasileira atuou para abafar uma investigação de corrupção na compra de fragatas (navios de escolta) construídas pelos britânicos nos anos 1970.

Essas revelações ganham peso por conta da importância de arquivos estrangeiros que jogam luz sobre episódios obscuros da história dos anos de regime militar no Brasil. Foi o que aconteceu com a publicação de documentos dos Estados Unidos mostrando que o ex-ditador Ernesto Geisel assumiu a responsabilidade pela decisão de execução de opositores da ditadura –divulgada pelo pesquisador Matias Spektor.

Enquanto o Brasil ainda esconde parte da sua história, os documentos oficiais liberados em outras partes do mundo oferecem indicações de problemas que a ditadura prefere não mostrar. Nos dois casos, os pesquisadores encontraram comprovação de fatos muito relevantes escondida no meio de milhares de informações em centenas de documentos.

Em entrevista a Pedro Bial, Spektor explicou que os historiadores estão batalhando para analisar todos os documentos, mas que isso leva tempo. “Esse documento é o primeiro de uma série que virão à tona a respeito desse tema. Não tenho a menor dúvida”, disse Spektor, que é autor do livro ''Kissinger e o Brasil'' (Ed. Zahar), em que já analisa documentos históricos dos EUA sobre a relação entre os dois países..

De forma semelhante, Martins Filho disse, por exemplo, que teve primeiro contato com a pasta de documentos há dois anos, mas que só agora conseguiu finalizar a análise detalhada dos documentos. “Tem muito historiador que tem documentos que podem ser bombas, mas ninguém teve capacidade de analisar tudo até agora”, disse.

“Quando cheguei em Kew Gardens [onde ficam os arquivos do governo britânico], me preocupei que não houvesse material suficiente para pesquisa, mas dei de cara com essa pasta, que não sei como ninguém havia encontrado. Ela está disponível desde 2008”, disse Martins Filho.

Documentos históricos são analisados também pelo diretor de um dos mais importantes centros de estudos sobre o Brasil nos EUA, na Universidade Brown, James Green. Em uma reportagem da agência Pública, ele explicou que lidera um projeto já digitalizou 35 mil documentos sobre a ditadura no Brasil.

“Eu tenho um projeto que se chama Opening the Archives [Abrindo os Arquivos], com uma meta de ter 100 mil documentos abertos. Já digitalizamos 35 mil documentos até agora: 19 mil já estão disponíveis no site, e vamos subir outros 15 mil até o final do ano. Encontramos mais de mil documentos censurados, vamos pedir a liberação deles ao governo e esperamos que existam novas revelações. Também estamos em busca de arquivos alternativos. Por exemplo, em 1971 o Senado fez um inquérito sobre o envolvimento americano com a polícia brasileira. Os relatórios foram publicados, a declaração da CIA sobre essas operações não foram. A gente vai tentar liberar essa publicação, pois ela está em poder do Senado, não da CIA. Ninguém nunca pediu essa autorização”, disse Green à agência.

Bem antes da atual onda de revelações sobre a ditadura, os arquivos históricos dos Reino Unido também serviram de base para as obras do jornalista e pesquisador Geraldo Cantarino. Ele analisou mais de 70 pastas de documentos da diplomacia britânica sobre o golpe militar de 1964.

Jornalista com mestrado em Documentário para Televisão pelo Goldsmiths College, da Universidade de Londres, Cantarino mora na Inglaterra há duas décadas e é autor de quatro livros sobre o Brasil a partir da ótica externa: ''1964 – A Revolução para inglês ver'', ''Uma ilha chamada Brasil'', ''Segredos da propaganda anticomunista'' e ''A ditadura que o inglês viu'' (todos publicados pela Mauad Editora)

Seus livros oferecem um vislumbre de evidências do tipo de informação que pode ser encontrada nos arquivos diplomáticos no Reino Unido. Segundo sua pesquisa, os despachos são ricos em detalhes e expressões usadas para descrever o Brasil. Os documentos, ele argumenta tocar assuntos muito diferentes e estão no fundo da descrição dos detalhes da vida social, bem como da política e economia.

“É uma história do Brasil contatada, de inglês para inglês ver –e diplomatas costumam ser verdadeiros quando se reportam aos seus chanceleres'', diz.

A pesquisa de Cantarino começou, entretanto, inspirada por um outro livro, sobre períodos anteriores da história do Brasil revelados por documentos estrangeiros. Geneton Moraes Neto e Joel Silveira oferecem essa análise no livro ''Nitroglicerina pura'', sobre documentos secretos do Reino Unido e dos EUA sobre políticos brasileiros.

“Os papeis secretos expõem julgamentos que jamais um embaixador pronunciaria em voz alta, sob pena de causar embaraços diplomáticos, políticos, éticos e, até, jurídicos”, diz Geneton no livro.

Documentos e depoimentos históricos também ajudam a recompor a ditadura brasileira sob a ótica francesa. Em seu livro de memórias sobre o período em que trabalhou como correspondente brasileiro em Paris, Milton Blay fala sobre as revelações do “homem que conheceu de perto três dos quatro presidentes dos anos de chumbo”.

Ele se refere ao general francês Paul Aussaresses, “um criminoso de guerra da Argélia reconvertido em instrutor de oficiais latino-americanos na década de 1970, a quem ensinou a prática da tortura, servindo como adido militar na embaixada da França em Brasília, na pior fase da ditadura brasileira.” Antes de morrer, Aussaresses fez uma série de revelações sobre o modo de operação da tortura no Brasil.

Resta tempo e dedicação de historiadores, jornalistas e pesquisadores para analisar tanta documentação e trazer à luz tudo o que continua escondido desde os repressores anos de ditadura no Brasil. Em um momento de crescente tensão sobre a democracia brasileira, a história pode ajudar o país a superar a ascensão de forças autoritárias no país.

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