Brasilianismo

Crise tem paralelo com 1964, diz pesquisador da ditadura sob ótica inglesa

Daniel Buarque

O livro mais recente de Geraldo Cantarino, que fala sobre a imagem do Brasil na diplomacia inglesa

O livro mais recente de Geraldo Cantarino, que fala sobre a imagem do Brasil na diplomacia inglesa

A crise política e o processo de desestabilização do governo Dilma Rousseff têm um paralelo histórico perigoso. Cinco décadas antes, uma crise política parecida (apesar do contexto diferente) derrubava o presidente João Goulart e iniciava 21 anos de ditadura no país.

“Em ambos os momentos, é possível perceber articulações de forças políticas de oposição ao governo e o apoio de setores da sociedade, inclusive da imprensa, por uma mudança radical, que testa a resistência das instituições democráticas”, avalia o pesquisador brasileiro Geraldo Cantarino, que faz uma ressalva importante: “São momentos com características diferentes e com um intervalo de 51 anos entre eles”.

O jornalista e pesquisador brasileiro Geraldo Cantarino

O jornalista e pesquisador brasileiro Geraldo Cantarino

Jornalista com mestrado em Documentário para Televisão pelo Goldsmiths College, da Universidade de Londres, Cantarino mora na Inglaterra há duas décadas e é autor de quatro livros sobre o Brasil a partir da ótica externa: ''1964 – A Revolução para inglês ver'', ''Uma ilha chamada Brasil'', ''Segredos da propaganda anticomunista'' e ''A ditadura que o inglês viu'' (todos publicados pela Mauad Editora).

As obras foram escritas após uma pesquisa independente nos arquivos históricos de comunicações diplomáticas dos ingleses sobre o Brasil – material que era considerado secreto, mas que foi sendo disponibilizado pouco há pouco. Agora ele começou uma abordagem mais acadêmica do tema e é doutorando no Brazil Institute do King’s College de Londres. Sua pesquisa atual aborda as relações Brasil-Grã-Bretanha durante o período da ditadura militar no Brasil.

Apesar da vasta experiência como pesquisador sob o ponto de vista internacional, ele não se considera um brasilianista, e prefere continuar se posicionando como um jornalista brasileiro que realiza pesquisa acadêmica.

Na entrevista abaixo, concedida por e-mail, Cantarino fala sobre suas pesquisas e a imagem do Brasil no Reino Unido durante a ditadura e atualmente. Segundo ele, hoje em dia o Brasil é visto de uma forma mais rica e variada pelos ingleses, indo além do tradicional estereótipo de praia, futebol e carnaval: “Se tentarmos resumir, talvez a imagem seria essa, múltipla. Um país com enormes possibilidades, mas também com enormes problemas.”

 Brasilianismo – Sua pesquisa resultou em três livros sobre a visão inglesa a respeito da ditadura no Brasil. De que forma pode-se resumir esta interpretação estrangeira de um momento tão crítico da política brasileira? Como os britânicos viram o golpe e a ditadura?

Geraldo Cantarino – É sempre muito importante analisar o golpe e a ditadura como momentos distintos. São fenômenos da história ainda recente do país com características próprias, mas que possuem, claro, uma associação entre si. O golpe não pressupôs um regime que ficaria no poder por 21 anos. Assim como muitos setores da sociedade brasileira, inclusive grande parte da imprensa, o embaixador britânico no Brasil em 1964, Sir Leslie Fry, viu com bons olhos a intervenção militar. Em um relatório de 6 de abril de 1964 ao Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido, Fry escreveu: “Estou certo de que a maioria dos brasileiros está aliviada com o desaparecimento do Sr. Goulart e de seu séquito, composto apenas de extremistas e oportunistas. O país, como um todo, estava cansado de sua administração vacilante e cada vez mais preocupado com sua propensão indigna a demonstrações de esquerda.”

Cinco anos depois, em 15 de maio de 1969, o embaixador britânico no Brasil, Sir John Russell, enviou a Londres um documento intitulado “O declínio e a queda da democracia no Brasil: governo militar e um presidente prisioneiro” – uma referência ao general Arthur da Costa e Silva – com a seguinte visão: “A história, penso eu, irá dizer que, no interesse a longo prazo do Brasil, a Revolução de 1964 foi benéfica e até necessária. A outra alternativa seria certamente um desastre. (…) Porém, começo a ter agora uma sensação desagradável de que o expurgo foi longe demais e continua muito longo.”

Brasilianismo – Que outros elementos da imagem do Brasil você encontrou em sua pesquisa, além das questões políticas relacionadas à ditadura? Estereótipos sobre futebol e carnaval, por exemplo, estavam presentes nesse material diplomático que você estudou?

Cantarino – Sim, por exemplo, seis meses depois de chegar ao Rio de Janeiro, o embaixador Sir John Russell enviou ao ministro das Relações Exteriores George Brown, em 18 de maio de 1967, suas primeiras impressões do Brasil. Para o embaixador, a explicação para a aparentemente ilimitada docilidade do povo brasileiro, considerado “alegre e simpático”, poderia estar em três elementos, três válvulas de escape:

“Em primeiro lugar, as praias. Imagine, Vossa Excelência, um grande oceano azul de águas mornas estourando na areia branca entre Euston e Shepherd’s Bush [bairros de Londres em direções opostas], e os habitantes de Bloomsbury e Marylebone, Paddington e Notting Hill [áreas residenciais de classe média alta] perambulando alegremente pelas ruas em suas roupas de banho, sob um sol escaldante, a caminho de seu mergulho diário. Além disso, você tem algo como um permanente clima de férias que faz com que os desconfortos desta cidade se tornem toleráveis para esse formigueiro populacional. As praias são o principal substituto para a revolução. (Elas também afogam muita gente diariamente).

 Em segundo lugar, futebol. Até mesmo os ousados e transgressores Beatles talvez sintam uma salutar compulsão de humildade diante de um deus negro como o Pelé, de renome continental. Para as massas, o futebol substituiu a religião. É uma obsessão nacional. E agradeço todos os dias por não termos sido nós que eliminamos o Brasil da Copa do Mundo [de 1966].

E, por fim, o carnaval. E o melhor de todos é o carnaval. É o escape da massa, aberto durante quatro delirantes dias todos os anos. Mas eu já mencionei o carnaval num despacho recente. Portanto, nada mais sobre isso aqui.”

Brasilianismo – Seu trabalho, assim como o do professor americano James Green, mostra que houve uma mudança na interpretação estrangeira a respeito da ditadura no Brasil – de um apoio ao golpe a uma crítica à repressão. Mas no Brasil é comum pensar que as potências internacionais sempre apoiaram os militares. Há um erro nessa forma de pensar a imagem internacional da ditadura? 

Cantarino – Esse é um terreno delicado da diplomacia internacional. O governo britânico, por exemplo, esquivava-se de tecer comentários sobre alegações de repressão no Brasil, alegando que assuntos internos eram de responsabilidade do governo brasileiro. Esse silêncio transmitia uma ideia de neutralidade, mantinha aberto o canal diplomático e permitia a criação de oportunidades de negócios entre os dois países. Entretanto, isso não significa que não existissem vozes na Grã-Bretanha de críticas à repressão. No Parlamento Britânico, por exemplo, o deputado trabalhista Stan Newens presidia o Liberation Brazil Committee (Comitê de Libertação do Brasil), que organizava manifestações e editava material sobre a repressão no Brasil e América Latina. Em carta ao subsecretário do Exterior Ted Rowlands, que havia feito uma declaração na Câmara dos Comuns defendendo a visita de estado do presidente Geisel a Londres em 1976, Newens apresentou um histórico da situação do Brasil para justificar sua reprovação ao convite.

“A repressão produziu uma resposta sob a forma de terrorismo por parte das guerrilhas urbanas, que, por sua vez, provocou o contraterrorismo numa escala estarrecedora. Como consequência, a violência contrainsurgente foi institucionalizada em um grau incomparável, com ‘esquadrões da morte’ caçando supostos subversivos, tortura, prisão e execução ilegal de prisioneiros políticos. Os mais terríveis abusos de direitos humanos tornaram-se lugar-comum. Em vários momentos, a Comissão de Justiça e Paz do Vaticano, a Comissão Internacional de Juristas, a Anistia Internacional e outras organizações relataram a péssima situação no Brasil. (…)

É claro que o presidente Geisel não é pessoalmente responsável por tudo isso, mas o regime é. Democratas e humanistas brasileiros, incluindo, por exemplo, os principais líderes da Igreja brasileira, com o apoio de um enorme número de padres, têm denunciado crimes como o assassinato de Vladimir Herzog, mesmo diante das ameaças oficiais. Eles, certamente, merecem muito mais de um governo trabalhista britânico do que entreter e honrar o chefe de Estado de um país onde tais crimes têm sido tolerados.”

Brasilianismo – Durante sua pesquisa, algo da interpretação britânica da ditadura o surpreendeu, como brasileiro acostumado a ver o regime militar pela ótica nacional?

Cantarino – Sim, a questão da luta armada. Na visão britânica, essa opção estratégica de resistência ao regime militar, que dividiu inclusive a esquerda na época, produziu ações criminosas, provocou mortes e, por sua vez, acabou  contribuindo para o aumento da repressão e o endurecimento do regime. Essa é uma crítica que irá gerar sempre muita discussão.

Brasilianismo – O Brasil vive um forte e permanente movimento de revisão da pesquisa histórica a respeito da ditadura. Do seu ponto de vista em Londres, é possível entender de que forma o passado da ditadura é interpretado pelos ingleses atualmente? 

Cantarino – Não sei, não saberia dizer como os ingleses hoje veem o período da ditadura. O foco da minha pesquisa é a documentação diplomática de 1964-1985.

Brasilianismo – A partir da sua análise de documentos históricos e da sua experiência por mais de 15 anos em Londres, como você acha que a imagem do Brasil no Reino Unido mudou ao longo do tempo? Que imagem acha que o Brasil tem hoje para os ingleses?

Cantarino – Essa é uma pergunta muito complexa e abrangente. Só mesmo realizando uma pesquisa de opinião pública para se ter uma ideia mais precisa da imagem do Brasil para os ingleses. Acho que existem várias imagens do Brasil para diferentes setores da sociedade britânica. Tem o Brasil do carnaval, da festa e do futebol. O Brasil tropical. O Brasil fashion. O Brasil da beleza. O Brasil grande, que tem uma Amazônia inteira. O Brasil como destino de férias, como lugar paradisíaco. O Brasil do imenso litoral e das praias do Nordeste. O Brasil das grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. O Brasil da cultura, da música, da literatura, do cinema, da comida, da religião, do povo caloroso. O Brasil como país emergente e com possibilidades de negócios e investimentos. O Brasil do Ciência sem Fronteiras, que trouxe milhares de estudantes para a Grã-Bretanha. Mas tem também outros Brasis. O Brasil da corrupção crônica. O Brasil da burocracia e do “jeitinho brasileiro”. O Brasil dos impostos. O Brasil da violência urbana e rural em níveis alarmantes. O Brasil das drogas e do crime organizado. O Brasil das chacinas. O Brasil da pobreza e das desigualdades sociais. O Brasil das crianças de rua. O Brasil da favela. O Brasil do descaso com a população indígena. O Brasil do desmatamento. O Brasil de projetos com forte oposição de ambientalistas, como a usina hidrelétrica de Belo Monte. Se tentarmos resumir, talvez a imagem seria essa, múltipla. Um país com enormes possibilidades, mas também com enormes problemas.

Brasilianismo – O Brasil está passando por uma crise política e econômica, e há uma impressão internacional de caos e falta de liderança política – como você menciona que era o caso também em 1963, antes do golpe. Em sua opinião, o que há de semelhante e o que há de diferente entre a forma como o Brasil é visto nesses dois momentos – Antes do golpe e hoje?

Cantarino – São momentos com características diferentes e com um intervalo de 51 anos entre eles. Não saberia como comparar sobre a forma como o Brasil é visto nesses dois momentos. Entretanto, se fosse para eu traçar um paralelo,  chamaria a atenção para o processo de desestabilização do governo. Isso ocorreu durante a gestão de João Goulart e está acontecendo agora também com a presidente Dilma Rousseff. Em ambos os momentos, é possível perceber articulações de forças políticas de oposição ao governo e o apoio de setores da sociedade, inclusive da imprensa, por uma mudança radical, que testa a resistência das instituições democráticas.

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