Brasilianismo

Londres ajudou ditadura a usar tortura ‘científica’ no Brasil, diz pesquisa

Daniel Buarque

Pesquisadores do Instituto Brasil do King's College de Londres costumam defender que ser um “brasilianista” não tem mais muito a ver com nacionalidade, e é uma questão de estado mental e sobre o país e a forma de olhar para ele. A presença de acadêmicos brasileiros que estudam temas relacionados ao Brasil sob a perspectiva internacional seria uma prova disso. Esta tese foi comprovada recentemente durante uma temporada de pesquisas do sociólogo e cientista político brasileiro João Roberto Martins Filho no Instituto em Londres. Foi com um olhar brasilianista que ele encontrou um documento ultra-secreto de agosto de 1971, escrito pelo embaixador britânico no Brasil, que comprovava que os ingleses ajudaram o Brasil a instalar salas de tortura ''científica'' durante a ditadura militar. Mais do que isso, eles usaram presos políticos do Brasil como ''cobaias'' para ações na Irlanda do Norte e até no Iraque.

“Embora a colaboração inglesa com o DOI-CODI do Rio fosse conhecida, ninguém procurou pesquisar o contexto em que ela se deu e suas relações com a história mais ampla da tortura psicológica ou de 'privação sensorial' desenvolvida pelo Exército britânico em suas colônias desde os fins dos anos 1950. Eu procurei preencher essa lacuna e descobri justamente que as instalações do Rio de Janeiro precederam em alguns meses as dos arredores de Belfast e que a 'geladeira' foi usada aqui antes de ser empregada lá”, explicou o professor em entrevista ao blog Brasilianismo.

Martins Filho é especializado em política brasileira com ênfase em teoria da guerra e da estratégia, forças armadas, ditadura militar, governos militares e golpe de 1964. O documento descoberto nos National Archives de Londres serviu de base para um de seus estudos mais recentes, quando se tornou professor titular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Esta análise sobre as boas relações entre a ditadura brasileira e os ingleses ajuda a dar uma perspectiva mais ampla ao que acontecia nas relações do Brasil com o mundo no período – deixando de ver a culpa externa apenas nos Estados Unidos. “A ideia de que tudo que ocorria no Brasil era culpa dos EUA impediu a até mesmo a Anistia Internacional de perceber que a tortura que denunciava no Brasil tinha a participação de unidades do Exército britânico situadas a poucos quilômetros de sua sede em Londres”, explicou.

Leia abaixo a entrevista completa.

Brasilianismo – Sua pesquisa indica que durante a ditadura os ingleses instalaram no Brasil salas de tortura ''científicas''. Como se deu esse processo?

João Roberto Martins Filho – Desde o final de 1979, depoimentos de militares brasileiros referiam-se a um método de tortura empregado no DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro, em salas especiais construídas no começo dos anos 1970. Em seu livro “Tirando o Capuz”, o jornalista e ex-preso político Álvaro Caldas se refere já nas primeiras páginas a essas novas instalações. Vários presos denunciaram em suas audiências nas auditorias militares terem sido torturados numa sala conhecida como “geladeira”. Mas até hoje não havia nenhum documento oficial que confirmasse essas informações.

Brasilianismo – Que métodos de tortura o Brasil ''importou'' dos ingleses, e em que medida eles foram usados durante a ditadura?

João Roberto Martins Filho – Os métodos que ficaram conhecidos em agosto de 1971 na Inglaterra como “as cinco técnicas do Ulster”, porque foram empregadas nessa data em onze presos acusados de pertencer ao Exército Republicano Irlandês (IRA). Essas técnicas consistiam no seguinte: 1) Obrigar os detidos a permanecer em pé contra a parede, com os braços estendidos; 2) Uso de capuz todo o tempo, exceto quando interrogado ou quando sozinho na cela; 3) Privação de sono; 4) Dieta de pão e água; e 5) Um ruído contínuo e monótono numa altura calculada para impedir qualquer comunicação. O interessante é que a “geladeira”, a técnica inglesa mais lembrada pelos presos brasileiros, só foi usada no Ulster em outubro de 1971. Há registro de seu uso aqui já em fins de agosto do mesmo ano.

Brasilianismo – Seu trabalho indica que os brasileiros foram ''cobaias'' dos métodos de tortura dos ingleses. Como isso aconteceu?

João Roberto Martins Filho – Embora a colaboração inglesa com o DOI-CODI do Rio fosse conhecida, ninguém procurou pesquisar o contexto em que ela se deu e suas relações com a história mais ampla da tortura psicológica ou de “privação sensorial” desenvolvida pelo Exército britânico em suas colônias desde os fins dos anos 1950. Eu procurei preencher essa lacuna e descobri justamente que as instalações do Rio de Janeiro precederam em alguns meses as dos arredores de Belfast e a “geladeira” foi usada aqui antes de ser empregada lá. O termo “cobaias do Ulster” foi cunhado pela imprensa londrina em fins de 1972.

Brasilianismo – De que forma esta descoberta altera o que se sabe sobre a repressão política no Brasil durante a ditadura?

João Roberto Martins Filho – Confirma o que já se sabia, com a novidade acima e com a descoberta de um documento ultra-secreto de agosto de 1972, escrito pelo embaixador britânico no Brasil, e que eu descobri nos National Archives de Londres.

Brasilianismo – É do conhecimento público no Brasil que os Estados Unidos colaboraram com a ditadura brasileira e com os métodos de repressão aos presos políticos. Por que não se dá tanta atenção no Brasil à participação dos ingleses nesse processo?

João Roberto Martins Filho – A ideia de que tudo que ocorria no Brasil era culpa dos EUA impediu a até mesmo a Anistia Internacional de perceber que a tortura que denunciava no Brasil tinha a participação de unidades do Exército britânico situadas a poucos quilômetros de sua sede em Londres.

Brasilianismo – Qual era o interesse dos ingleses ao apoiar a ditadura brasileira?
João Roberto Martins Filho – O comércio.

Brasilianismo – Sua pesquisa se baseia em ampla medida em documentos históricos dos britânicos, tornados públicos recentemente. Que revelações esses documentos trouxeram até agora e o que acha que ainda será possível encontrar nesses arquivos?

João Roberto Martins Filho – Já mencionei o documento acima. Falta ainda descobrir documentos brasileiros que confirmem o que já encontrei. Falta ainda encontrar presos políticos que tenham sido torturados na geladeira do DOI-CODI carioca antes de 30 de agosto de 1971.

Brasilianismo – Apesar de os americanos terem ajudado os militares a tomarem o poder e terem ajudado a ensinar tortura aos brasileiros, pesquisadores indicam um afastamento entre os EUA e o Brasil por conta da violenta repressão ao fim do regime militar. Houve algo assim entre os ingleses? De que forma evoluiu a relação política entre britânicos e brasileiros durante a ditadura? E desde então, seria correto falar de influência política dos ingleses no Brasil atual?

João Roberto Martins Filho – Os EUA tiveram uma relação complexa com a ditadura. Em meados dos anos 1970, o presidente Carter colocou em pauta a questão dos direitos humanos no mundo e criou problemas com o presidente Geisel. Quando aos britânicos, não houve tensões, sempre se deram bem com nossa ditadura.

Brasilianismo – O Brasil vive hoje um momento de grande tensão política e social, que chega a ser comparado com os anos pré-golpe. Acredita que haja algum risco de rompimento democrático? De que forma interesses internacionais como o dos britânicos têm relevância atualmente?

João Roberto Martins Filho – Não acho que haja risco de algo semelhante ao que ocorreu em 1964. Quanto aos britânicos, é triste pensar que eles usaram no Iraque as mesmas técnicas que emprestaram ao Brasil depois de 1971.

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