Brasilianismo

Falar de intervenção militar é desistir de apresentar país como civilizado

Daniel Buarque

A descrição publicada por alguns veículos internacionais a respeito do desenrolar da segunda semana de greve de caminhoneiros no Brasil lembra o clima confuso em que foram recebidos os protestos de Junho de 2013. A manifestação por pontos específicos cresceu, saiu do controle, descambou para a irracionalidade e agora já se discute até na imprensa estrangeira assuntos tão disparatados quanto a possibilidade de uma intervenção militar na política. A mera inclusão deste tema no debate indica que o Brasil abdicou de se apresentar ao mundo como nação civilizada.

''O que começou como uma greve na semana passada contra o aumento do preço dos combustíveis se transformou agora em reclamações antigas sobre a baixa qualidade dos serviços públicos, os altos custos de vida e a corrupção na política'', explica uma reportagem publicada no site da Al Jazeera.

Assim como em 2013, o movimento que começou pequeno, cresceu, se transformou e saiu do controle dos principais grupos políticos do país, na visão de analistas estrangeiros.

''A greve confundiu tanto a esquerda quanto a direita em um clima político ferozmente polarizado'', avalia reportagem do jornal britânico ''The Guardian''. O periódico também usa analogia semelhante à da rede árabe sobre o protesto que começou pequeno e acabou saindo do controle (o correspondente Sam Cowie participou da cobertura dos dois veículos).

Fora de controle, os manifestantes agora tentam derrubar o governo de Michel Temer, segundo o título da Al Jazeera. O Brasil agora enfrenta pedidos de volta da ditadura militar, diz o título do ''Guardian''.

''Com as forças armadas enviadas para desfazer os bloqueios nas rodovias do país, um grupo cada vez mais barulhento de manifestantes radicais está pedindo que eles assumam o poder'', diz a agência de economia Bloomberg.

''O assunto é profundamente controverso no Brasil, que viveu sob uma ditadura militar por 21 anos, nos quais centenas de oponentes do regime foram executados e milhares mais torturados'', diz o jornal inglês.

''O número daqueles que defendem a volta da ditadura cresceu por conta dos repetidos escândalos de corrupção'', explica a reportagem.

Apesar de o pedido por ditadura soar insensato, o ''Guardian'' citou o presidente Temer alegando que não há chances de intervenção militar e entrevistou um cientista político brasileiro que diz que a maioria dos cidadãos do país prefere esperar pelas eleições de outubro.

Ainda assim, a chegada à imprensa estrangeira de um assunto tão absurdo quanto o pedido por ditadura evidencia o quanto o avanço de ideias reacionárias que deveriam ficar de fora da política têm ganhado força.

Até agora, o discurso radical e sem sentido deste tipo era ofuscado pelo debate político real, e o simples fato de que se discute o tema é uma legitimação da voz de pessoas que defendem o fim da liberdade –o que precisa ser combatido em nome do respeito à democracia brasileira. Ditadura e intervenção militar não deveriam sequer serem mencionados em qualquer debate político em um país sério.

Em 2015, avaliando o início da discussão sobre impeachment da presidente Dilma Rousseff, o consultor britânico Simon Anholt, especialista em imagem internacional de países, dizia que a situação era ''constrangedora para uma nação que está tentando se apresentar ao mundo como moderna e civilizada''. Ao incluir em qualquer discussão atual pedidos por intervenção militar e ditadura, pode-se dizer que o constrangimento ultrapassou todas as barreiras, e o país desistiu de ser apresentado como civilizado.

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