Brasilianismo

Simon Anholt: Discutir impeachment é constrangedor para a imagem do Brasil

Daniel Buarque

impeachment

O consultor britânico Simon Anholt não acredita que um possível impeachment da presidente Dilma Rousseff possa afetar de forma profunda e duradoura a imagem internacional do Brasil. Segundo ele, entretanto, o atual debate sobre o assunto é algo que pode envergonhar o país no cenário mundial, pois o tema “é um pouco constrangedor para uma nação que está tentando se apresentar ao mundo como moderna e civilizada”.

Anholt é o nome mais respeitado entre pesquisadores de Nation Branding e Competitive Identity, áreas de pesquisa acadêmica e de mercado que tratam a imagem internacional de países como se fossem marcas, tentando descobrir o que se pensa sobre cada nação no resto do mundo. Foi ele quem criou o próprios termos que dão nome às pesquisas, escreveu livros importantes para a academia e desenvolveu algumas das mais populares metodologias para medir a reputação de nações no resto do mundo, como o Nation Brands Index – ranking de países mais conhecidos e admirados do mundo (o Brasil tem se mantido estável em 20º lugar entre 50 países avaliados).

O consultor já se debruçou de forma mais atenta sobre o caso do Brasil. Ele vê o país como um exemplo de nações “decorativas, mas pouco úteis”. Isso porque o Brasil é visto como um ''país de festa'' e tem uma boa imagem em questões relacionadas a lazer e diversão, mas uma reputação fraca em assuntos sérios como política e economia.

Em entrevista ao Blog Brasilianismo, ele disse que o atual mau momento do Brasil pode não afetar a imagem do país, e que a única coisa que pode melhorar a imagem internacional do Brasil é a forma como o país afeta a vida das pessoas em outros países

Veja abaixo os principais pontos da entrevista.

Brasilianismo – O Brasil está passando por uma séria instabilidade política, e algumas pessoas estão discutindo a possibilidade de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Que tipo de impacto algo assim tem sobre a imagem internacional do país?

Simon Anholt – Bem, obviamente, é um pouco constrangedor para uma nação que está tentando se apresentar ao mundo como moderna e civilizada, mas duvido que o impacto se tornasse mais profundo ou duradouro.

As pessoas não são estúpidas e sabem que as ações de um indivíduo não dizem nada demais sobre o país como um todo, mesmo que esse indivíduo seja o chefe de Estado.

Além disso, um único episódio isolado, não importa o quão positivo ou negativo, raramente tem qualquer impacto duradouro sobre a reputação de um país.

Brasilianismo – A mídia do resto do mundo tem dado muita atenção aos problemas econômicos por que o Brasil está passando. A economia tem mais importância para a imagem internacional do país do que a política?

Simon Anholt – Ninguém, exceto os investidores profissionais, se preocupa de verdade com o desempenho econômico de outros países.

A única coisa que de fato tem qualquer impacto sobre a imagem internacional do Brasil é o que o país consegue contribuir para a vida das pessoas em outros países.

Quão bem o país serve a sua própria população é, por definição, de pouco interesse para outras populações.

Brasilianismo – A revista ''The Economist'' disse recentemente que o Brasil está em um “atoleiro”. A revista foi em parte responsável por colocar o Brasil no centro das atenções do mundo com uma capa dizendo o país ''decolava''. Chegou ao fim o tempo de o Brasil receber a atenção do mundo e ser visto de forma positiva? O país pode voltar a melhorar sua imagem?

Simon Anholt – Só há um caminho para qualquer país se tornar mais admirado, e isso é tornando-se mais admirável.

O sucesso ou fracasso do Brasil como um país só é realmente diretamente relevante para os brasileiros. Se o Brasil quer que as pessoas de outros países o admirem, então ele tem que fazer algo por eles. Isso significa contribuir ativamente com algo para a humanidade e para o planeta, e não simplesmente gerir seus próprios assuntos.