Brasilianismo

Sem candidato forte, mercado se preocupa com eleição e flerta com Bolsonaro

Daniel Buarque

Faltando menos de seis meses para as eleições presidenciais do Brasil, o mercado internacional começa a ficar preocupado com a falta de alternativas no cenário político do país. Reportagens publicadas nesta semana em alguns dos principais veículos de economia do mundo evidenciam a tensão dos investidores, que já começam até a aceitar opções extremas para defender seus interesses.

A ausência de um ''Macron brasileiro'', referência ao reformista presidente francês, e a falta de força da candidatura de Geraldo Alckmin –apontado como preferido do mercado, mas estagnado nas pesquisas de intenção de voto– dão o cenário da preocupação.

''Os investidores estão estressados demais em relação ao Brasil'', diz o título de um texto publicado no site da ''Forbes''. Segundo o texto, o mercado começa a se preparar para uma possível vitória de algum candidato que não continue as reformas na economia do país.

''Na média, investidores estão muito mais pessimistas em relação às eleições de outubro do que otimistas'', continua.

O tom é uma inversão do que ocorria até os primeiros meses deste ano. Mesmo que as pesquisas mostrassem a falta de força de um candidato ''de centro'' e ''reformista'', como o mercado prefere, os analistas continuavam apostando de forma otimista na eleição de um presidente favorecesse o mercado.

O ''Macron brasileiro'' apareceria em algum momento, diziam as publicações internacionais de finanças até o fim do ano passado.

Agora o enquadramento é outro. Parece ser a última chance de impulsionar a campanha do candidato apontado como preferido: Geraldo Alckmin. Em reportagens nessa semana, a agência de economia Bloomberg destaca esse movimento.

''O candidato que favorece os mercados não vai vencer sozinho'', diz o título de um dos textos, uma entrevista com o ex-prefeito de São Paulo João Doria. ''O ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin precisa de toda ajuda que puder ter, particularmente a do presidente Michel Temer, para passar ao segundo turno das eleições'', diz, citando Doria.

''A performance sem brilho de Alckmin nas pesquisas está deixando investidores nervosos na disputa que se aproxima entre o esquerdista Ciro Gomes e o deputado de extrema-direita Jair Bolsonaro. Nomes de centro comprometidos em levar adiante os planos econômicos de Temer até agora fracassaram na tentativa de atrair eleitores em uma eleição marcada por forte sentimento anti-establishment'', complementa a publicação.

Uma outra mudança que se percebe na cobertura mais recente do cenário político a partir da ótica do mercado é uma maior aceitação de um candidato extremista que defenda seus interesses.

Enquanto até um ano atrás o mercado via a possível disputa entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Bolsonaro como um pesadelo, agora ele já começa a flertar com o extremista de direita de olho na votação que se aproxima.

''Ninguém quer dizer isso em voz alta, mas Bolsonaro está ganhando apoio'' do mercado, diz a Bloomberg. Segundo a agência, ''ele é vulgar, ofensivo e altamente popular entre os investidores no Brasil''.

A Bloomberg relata um encontro entre o pré-candidato e alguns dos principais nomes do mercado financeiro, em São Paulo. O texto compara a situação de Bolsonaro com a de Trump na eleição americana de 2016, e diz que os motivos para o apoio não são muito claros.

''O que é curioso na recepção calorosa que Bolsonaro recebe em círculos de investidores é que não é muito claro o que sua eleição significaria para os mercados'', diz. ''As mensagens cruzadas criaram um certo grau de confusão entre investidores. Ainda assim, eles parecem inclinados a abraçar sua candidatura em parte como desejo de se ligar a alguém que eles acreditem ser capaz de garantir que o PT não volte ao poder menos de três anos após o impeachment de Dilma Rousseff.''

Em aproximadamente seis meses percebe-se uma mudança no cenário, e a falta de força da candidatura de Alckmin ou outro candidato de centro começa a levar o mercado a ver o candidato antes percebido como ''pesadelo'' como uma alternativa viável contra a esquerda. Se nada mudar no cenário das pesquisas nos próximos meses e Alckmin realmente não conseguir superar Bolsonaro, é de se esperar que o mercado esteja se preparando para apoiar a vitória de Bolsonaro, ''vulgar e ofensivo'', mas defensor dos seus interesses.

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