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Mudança política é essencial para o Brasil se recuperar, diz economista

Daniel Buarque

03/03/2016 18h45

Notícia sobre PIB do Brasil em reportagem do 'Financial Times'

Notícia sobre PIB do Brasil em reportagem do 'Financial Times'

Sem confiança na economia brasileira, o mercado internacional desistiu de esperar por uma retomada, ou por ações do governo Dilma Rousseff, e agora já aposta em uma mudança política para poder injetar ânimo financeiro no país. A avaliação é do pesquisador de economia da América Latina no banco Barclays Bruno Rovai. Atuando em Nova York, Rovai tem contato direto com estrangeiros interessados no Brasil, e diz que a mudança política é vista como essencial para que o país possa começar a pensar em se recuperar.

"O ponto principal é que qualquer retomada de crescimento econômico depende de uma retomada da confiança dos empresários. Para isso, é preciso ter uma liderança política forte e um governo com capacidade de levar projetos para o Congresso. Cada vez que há uma notícia que aumenta a perspectiva de mudança política, há um rally econômico", explicou Rovai em entrevista ao blog Brasilianismo. "O mercado espera uma mudança de governo, e espera que isso traga mais confiança", disse.

Essa expectativa por mudança pode ajudar a explicar a situação paradoxal vivida pela economia brasileira nesta quinta-feira (3). O anúncio de retração de 3,8% do PIB de 2015 em relação a 2014, o pior resultado em 25 anos, não trouxe pânico à Bolsa. Pelo contrário, no fim da tarde a Bovespa operava em alta de mais de 4,5%, e o dólar estava em queda de 2,27%. O que parecia não fazer sentido no plano econômico ganha uma justificativa na política. O anúncio da retração do PIB se deu junto à divulgação de notícias sobre uma possível delação premiada que mencionaria o envolvimento da presidente Dilma Rousseff em escândalos de corrupção. E esta ameaça à continuidade do governo é que animou os mercados, segundo a avaliação do pesquisador do Barclays. Quanto mais enfraquecida a presidente, maior a chance de impeachment, que passa a ser visto como positivo por investidores estrangeiros.

Segundo Rovai, o resultado do PIB não trouxe impacto negativo para os mercados porque já era esperado, e não surpreendeu. Além de se associar ao noticiário relacionado à possível implicação de Dilma, o diferencial político do PIB é que cria um clima de maior insatisfação dos brasileiros em relação ao clima econômico, o que torna a situação da presidente Dilma Rousseff no poder mais insegura, agradando aos mercados internacionais.

"O PIB ruim deveria trazer piora para a economia, mas a economia está reagindo bem às notícias sobre a recessão", disse Rovai. "O resultado do PIB deixa a presidente mais afastada dos objetivos políticos anunciados por ela. Toda a camada social que a apoiava, começa a se afastar por conta desses resultados negativos, e ela vai ficando cada vez mais isolada", explicou.

O economista disse que ninguém sabe exatamente o que vai acontecer com a política brasileira, mas que o país chegou a um ponto em que a mudança é necessária. "Falamos em mudança de governo porque há diferentes vias para isso, seja renúncia, impeachment ou impugnação do mandato. Não está claro o que vai acontecer, mas a única coisa que é consenso é que qualquer mudança no governo é marginalmente melhor de que o que há hoje", explicou.

O pesquisador do banco estrangeiro deixou claro que uma mudança de governo não garante, por si só, uma retomada da economia, mas é considerada uma condição necessária para qualquer recuperação.

Rovai já tinha dado indicações neste sentido em uma análise enviada a investidores estrangeiros do Barclays. Em sua avaliação, nas últimas semanas, Dilma perdeu três importante fontes de apoio: A prisão de João Santana a deixou sem marketing, o PT parece ter preferido se afastar dela para salvar alguma chance eleitoral em 2018, e, por último, até mesmo os movimentos sociais começaram a abandonar qualquer ligação com a presidente.

"Por isso acreditamos que as chances de impeachment aumentam a cada dia. O noticiário de hoje deixa as chances de mudança de governo ainda maiores. Dilma está isolada", avaliou. "O processo de impeachment já está aberto. As chances disso estão aumentando. Todos os nossos clientes em Nova York já percebem aumento de probabilidade no impeachment, e isso gera interesse em investimento no Brasil", disse.

O posicionamento do economista é um dos mais enfáticos no exterior a favor de mudança de governo. A opinião internacional anda dividida em relação ao debate sobre impeachment no Brasil. Depois de ter uma postura mais consolidada em oposição a qualquer processo para interromper o governo Dilma, algumas vozes estrangeiras começaram a ver como mais provável a saída da presidente.

Em dezembro, uma análise publicada na revista de economia "Fortune" dizia que o impeachment era improvável e, mesmo se acontecesse, não seria bom para o país. Em fevereiro, a rede de economia "Bloomberg" tinha opinião parecida, e dizia que a governante provavelmente iria escapar de um impeachment, mas vai sofrer por um longo tempo junto com a economia brasileira. O cientista político argentino Anibal Pérez Liñan, especialista em processos de impeachment na América Latina, avaliou o momento turbulento e defendeu que Dilma ainda pode ter uma relação forte o suficiente com o Congresso para sobreviver no poder.

A discussão sobre o impeachment, entretanto, deixou a imagem da democracia brasileira mais enfraquecida. O Brasil caiu da 44ª para 51ª posição no ranking de países mais democráticos do mundo da Economist Intelligence Unit, consultoria ligada à revista "The Economist". O problema do país é a incapacidade de igualar "avanços extraordinários na democracia eleitoral" a melhoras na efetividade da política e na cultura política. "O caso mais relevante de 2015, de longe, é o do Brasil, onde a presidente Dilma Rousseff enfrenta a ameaça de impeachment", diz o estudo.

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Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.

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