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PT reabilitou militares que colonizaram base de Bolsonaro, diz pesquisador

Daniel Buarque

17/10/2019 15h18


A notícia de que Jair Bolsonaro ampliou presença de militares em 30 órgãos federais durante seus primeiros nove meses na Presidência, publicada nesta semana pela Folha, parece confirmar uma das primeiras grandes análises sobre o atual governo publicadas em livro no exterior.

De acordo com o pesquisador britânico Perry Anderson, os militares são a principal base de sustentação do presidente brasileiro no poder:

"No tripé de forças que sustentam Bolsonaro, os militares são de longe os mais significativos, fornecendo ao regime sua base mais estável e poderosa. Isso sempre ficou claro pelo grande número e peso dos cargos governamentais que eles ocupam", diz Anderson.

A avaliação é parte do capítulo final do livro "Brazil Apart", recém-publicado no Reino Unido, em que Anderson se debruça sobre a história do país desde a redemocratização, reunindo ensaios em que discute a movimentação política, econômica e social de cada um dos governos que se sucederam desde o fim da ditadura.

O capítulo final da obra, "Parábola", trata do que Anderson descreve como uma volta dos militares ao poder décadas depois do fim do regime militar. Segundo ele, o mais curioso é que esta "ressurreição" da presença de oficiais na política não se deu por conta de uma manobra de Bolsonaro, da direita ou de nenhum dos partidos "conservadores":

"Foi a esquerda, na forma do PT, que conseguiu isso e tem responsabilidade direta pela reabilitação política e pela reentrada no cenário político das forças armadas", diz Anderson no livro.

Para Anderson, a volta dos militares ao poder começou a se formar com a decisão do governo de Luiz Inácio Lula da Silva de fazer o Brasil liderar a Minustah, missão de paz da ONU no Haiti. Lula queria ampliar o prestígio internacional do país e tentar conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU –o que Anderson considera um fracasso.

As Forças Armadas brasileiras, diz o pesquisador no livro, foram as grandes beneficiárias da expedição, conseguindo modernizar seus equipamentos e aprendendo a coordenar ações com administrações civis. "E voltaram para o Brasil redimidos guardiões heróicos de uma pacificação exemplar".

"A colonização do regime Bolsonaro pelas Forças Armadas, retornando quase 50 anos depois de um golpe do qual se orgulham, empresta ao meio século da história brasileira a forma de uma parábola. Em 1964, eles tomaram o poder para remover um presidente que estava disposto a aceitar, como eles viam, mudanças radicais na ordem social. Em 2018, eles intervieram para garantir que um presidente que ainda era muito popular, como eles viam, após alcançar mudanças menos radicais, não pudesse ser reeleito e, em vez disso, um deles, por origem e perspectiva, chegou ao poder", diz Anderson, se referindo à prisão de Lula, impedido de concorrer nas eleições presidenciais do ano passado.

Apesar da comparação entre o atual governo e o regime militar instaurado em 1964, Anderson faz questão de explicar que os dois são bem diferentes, e resultados de "circunstâncias históricas contrastantes".

"Na hora do segundo, não havia exigência para os tanques e torturadores do primeiro, qualquer que seja a nostalgia de Bolsonaro por eles. A democracia há muito se tornara segura para o capital e, dentro dos limites da ordem social estabelecida, a combatividade popular estava em baixa. Uma vez instalado, o novo regime corria mais riscos de suas próprias contradições do que de qualquer oposição organizada a ela."

Escrita em junho deste ano, a avaliação encerra a obra que reúne ensaios produzidos nos momentos de mudanças de governo na história recente do país e contém percepções de Anderson à época. O livro fala do Plano Real e a ascensão de Fernando Henrique Cardoso ao poder, comenta a eleição de Lula e avanços do governo dele, trata do governo Dilma Rousseff, da crise econômica e do impeachment, e finaliza com avaliação da eleição de Bolsonaro e dos seus primeiros meses no governo.

Professor de história e sociologia da Universidade da California, Los Angeles (UCLA), Anderson é um dos principais nomes por trás da revista de esquerda New Left Review. Logo no começo do livro, ele fala sobre a sua relação com o Brasil, "primeiro e único país estrangeiro" em que viveu até chegar aos 50 anos, e que sempre continuou a visitar e a estudar.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

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