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Bolsonaro alimenta desconfiança externa ao abrir 'dia do ditador' na ONU

Daniel Buarque

24/09/2019 16h19

As primeiras avaliações internacionais sobre o discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, adotaram um tom crítico. Para observadores externos, o presidente não conseguiu reduzir a desconfiança externa e, em vez de ser conciliador, adotou um tom combativo que abriu o que chegou a ser chamado de "dia do ditador" na ONU.

O jornal francês Le Monde foi a primeira publicação estrangeira a se debruçar em detalhes sobre a fala do brasileiro, que chamou de confusa e cheia de digressões.

Segundo a reportagem publicada, Bolsonaro rompeu com a tradição de buscar consenso que marcou décadas de discursos brasileiros na ONU. Além disso, diz que ele usou inverdades para partir para o ataque.

"O tom foi dado. A 74ª Assembléia Geral da ONU mostra a realidade de um mundo em que 'democracias iliberais', 'democraduras' e líderes populistas de todos os tipos estão em ascensão", diz o Monde.

A avaliação ecoa reportagem publicada antes mesmo do discurso de Bolsonaro pelo site americano Politico. A página apresentou o dia de discursos na ONU como "O dia do ditador", com uma foto do presidente brasileiro.

"O presidente Donald Trump inicia a sessão principal da Assembléia Geral das Nações Unidas ao lado de uma galeria de ditadores, populistas barulhentos e pretensos autocratas", dizia a reportagem. Bolsonaro é descrito no texto como um populista de direita defensor da ditadura.

"A ordem inicial do discurso na principal reunião diplomática do mundo é uma coincidência e, no entanto, serve como um lembrete vívido do declínio da democracia em todo o mundo", complementa.

Também avaliando o discurso do presidente brasileiro, o jornal britânico The Guardian destacou o ataque de Bolsonaro contra a imprensa internacional pela cobertura crítica das queimadas na Amazônia.

"Com o Brasil lutando para reparar sua imagem no exterior após a crise na Amazônia, alguns observadores esperavam que Bolsonaro fizesse um discurso mais suave na assembleia da ONU. Em vez disso, o presidente do Brasil foi para a ofensiva, iniciando seu discurso com um ataque trumpista ao socialismo e concluindo com uma visão obscura contra os 'sistemas de pensamento ideológico' de esquerda que ele alegou ter invadido escolas, universidades, casas e até almas brasileiras", diz o jornal inglês.

"Bolsonaro lançou uma defesa irritada e conspiratória de seu histórico ambiental, culpando Emmanuel Macron e a mídia 'enganosa' por destacar os incêndios deste ano na Amazônia. Em um discurso combativo de 30 minutos à assembléia geral da ONU, Bolsonaro negou – ao contrário da evidência – que a maior floresta tropical do mundo estava 'sendo devastada ou consumida pelo fogo, como a mídia enganosamente diz'."

No Twitter, o editor da revista Americas Quarterly, Brian Winter, também criticou o discurso do presidente.

"Bolsonaro teve uma oportunidade de ouro para deixar o mundo um pouco mais à vontade –'Sim, temos um problema na Amazônia, estamos cuidando dele, e o problema é nosso'. Em vez disso, ele fez um discurso belicoso consistente com quase tudo o que faz – atacando socialistas."

Segundo reportagem do Huffington Post, o presidente Brasileiro fez um discurso raivoso em que defendeu o desmatamento da Amazônia.

"Apesar de seus repetidos apelos para colocar os negócios acima da ideologia, Bolsonaro mergulhou seu discurso em clichês da era da Guerra Fria", diz.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.