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Senadores dos EUA defendem tratar fogo na Amazônia como crise de segurança

Daniel Buarque

05/09/2019 09h25

Um artigo escrito por dois senadores dos Estados Unidos e publicado no site de opinião da rede NBC defende que o Congresso norte-americano tome atitudes para combater a destruição da Floresta Amazônica.

De acordo com Brian Schatz (senador pelo Havaí) e Chris Murphy (senador por Connecticut), o presidente Donald Trump preferiu manter sua amizade com Jair Bolsonaro a lutar contra os incêndios, e é preciso agir para evitar uma "catástrofe climática". Se o presidente não quiser tomar uma atitude, dizem, o Senado o fará.

Entre as ações propostas, os senadores incluem a ideia de considerar a destruição da floresta como uma questão de segurança para os EUA.

"Primeiro, devemos deixar claro que os incêndios no Brasil são uma crise de segurança nacional e que estamos dispostos a pausar aspectos de nosso relacionamento bilateral com o Brasil até que o governo deles tome medidas para controlá-los, juntamente com os fazendeiros e madeireiros que supostamente estão começando os incêndios. Nada sobre o nosso relacionamento com o Brasil deve ser tratado com normalidade até Bolsonaro tomar medidas significativas para acabar com os incêndios e proteger a Amazônia", defendem os senadores.

A sugestão segue a linha já defendida por alguns analistas americanos que indicam que a ameaça climática pode ser vista como um risco ao país. A percepção de que a relação entre os incêndios na Amazônia e o aquecimento global permitem ver o fogo na floresta brasileira como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos tem ganhado força nos debates públicos, o que abre uma situação pouco confortável para o Brasil.

Desde início da crise das queimadas na floresta, também vem ganhando força o discurso que abre questionamentos sobre a soberania brasileira da floresta e discutem formas de pressionar o Brasil a assumir uma postura mais séria para proteger o ambiente.

"A soberania do Brasil sobre a floresta tropical é única entre as nações, e não se deve esperar que ele assuma a responsabilidade de preservar esse ecossistema crucial por conta própria. No futuro, se o governo de Bolsonaro se comprometer a levar a sério a conservação, devemos estar prontos para ajudar o Brasil a desenvolver sua economia e oferecer oportunidades aos brasileiros comuns que não dependem da destruição da Amazônia", argumentam os senadores no artigo.

Schatz e Murphy falam ainda sobre interromper discussões a respeito de acordo comercial entre EUA e Brasil e sobre possíveis sanções contra produtos de áreas desmatadas.

"Essa é uma crise existencial e precisamos começar a tratá-la como tal", defendem.

Antes do artigo dos senadores, a ideia de relacionar o fogo na floresta com a segurança americana já vinha ganhando espaço na imprensa dos EUA.

O primeiro texto assim ganhou destaque em julho na revista The New Republic. O analista Tyler Bellstrom dizia que os EUA deveriam passar a ver o Brasil como uma ameaça existencial maior do que o Irã e a China, tradicionalmente vistos como maior risco da atualidade pelos EUA, por conta do desmatamento crescente.

Um mês depois, um artigo publicado pela revista The Atlantic escalou o tom. O jornalista e escritor Franklin Foer alegava que o incêndio da floresta deve ser tratado pelo resto do mundo como uma ameaça maior do que as armas de destruição de massa.

Em seguida, o almirante aposentado da Marinha dos EUA James Stavridis, colunista da agência de economia Bloomberg, argumentou que o aquecimento global torna o clima menos previsível e gera tempestades destruidoras. Além disso, completa, a elevação do nível do mar é uma ameaça à Marinha americana.

"Os americanos precisam entender como essas crescentes nuvens de fumaça sobre a Amazônia são uma ameaça direta à nossa segurança nacional", escreveu.

Estes textos se juntam a uma série de análises internacionais que se alinham à postura do presidente francês Emmanuel Macron e abrem espaço para questionamentos sobre a soberania brasileira da Amazônia. O tema vem ganhando força na mídia estrangeira enquanto são debatidas formas de pressionar o governo brasileiro a assumir responsabilidade pela proteção da floresta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.