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Blog do Brasilianismo

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Violentas, prisões do Brasil têm imagem internacional de inferno medieval

Daniel Buarque

28/05/2019 12h30

"Bem-vindo à Idade Média".

A frase foi o título de uma reportagem publicada em 2014 pela revista The Economist sobre o sistema prisional brasileiro. Ela resume a imagem que o resto do mundo tem das prisões do Brasil: um verdadeiro inferno usado como forma de vingança. Um lugar sem controle do governo e sem proteção a direitos humanos, onde a violência é constante e a barbárie impera.

O sistema prisional brasileiro voltou a receber atenção da imprensa internacional nesta semana por conta dos novos massacres registrados no Amazonas.

"Os confrontos violentos entre facções rivais em várias prisões no estado do Amazonas, no norte do Brasil, mataram pelo menos 55 pessoas", relata reportagem publicada pelo New York Times. "O surto de violência é o mais recente em um estado onde as quadrilhas de traficantes travaram uma violenta batalha pela supremacia".

"Os assassinatos nas prisões da cidade lembraram o início de 2017, quando mais de 120 presos morreram nas mãos de outros prisioneiros durante várias semanas de confrontos entre membros de gangues criminosas rivais em prisões nos estados do norte. Muitas dessas vítimas tiveram suas cabeças cortadas ou seus corações e intestinos arrancados", diz o texto da agência de notícias Associated Press em jornais como o britânico The Guardian.

Neste caso de 2017, o massacre em Manaus foi o assunto relacionado ao Brasil mais citado no resto do mundo por mais de uma semana. A situação dos presídios brasileiros é destaque frequente no resto do mundo. A imprensa estrangeira e ONGs internacionais publicam reportagens e relatórios regularmente criticando o que chamam de "terror" e situação infernal.

A notícia mais recente também foi publicada em vários veículos da mídia estrangeira. Impressiona, entretanto, o fato de que casos semelhantes se tornaram tão frequentes nos últimos anos que parecem chocar cada vez menos.

Dois anos atrás, o New York Times argumentava que "rebeliões em prisões brasileiras são comuns, mas o episódio de Manaus, que incluiu corpos decapitados atirados contra os muros da penitenciária, está entre os mais sangrentos das últimas décadas."

Antes mesmo disso, em 2016, o site da rede Al Jazeera explicava que "a punição ainda é vista pela sociedade brasileira como uma forma de vingança"."

Um artigo publicado pelo jornal Los Angeles Times em 2014 também ajudou a explicar qual é a imagem das prisões do Brasil no mundo: "A forma como uma sociedade cuida de sua população prisional é um bom índice dos seus valores e da sua civilidade. Uma inspeção cotidiana do sistema penal do Brasil revela uma cultura que beira o sadismo", dizia.

O caso mais recente no Amazonas também dá espaço a discussões sobre o momento atual da política brasileira, com discussões no governo de Jair Bolsonaro sobre ações para tentar combater a violência e discursos criticados por defensores de direitos humanos.

"Os confrontos representam um desafio para o novo presidente de extrema-direita, Jair Bolsonaro, mas também podem dar um impulso a sua aprovação, já que ele é considerado duro contra o crime e já prometeu reprimir as gangues criminosas e a violência nas prisões", diz reportagem da rede de TV CNN.

Esta abordagem contra o crime pode, entretanto, tornar a situação nos presídios ainda mais difícil, diz o New York Times. "A população prisional provavelmente continuará crescendo se os legisladores brasileiros aprovarem projetos de lei de crimes atualmente em vigor e apoiados pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, o que aumentaria as penas para certos crimes".

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.