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Blog do Brasilianismo

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Cortar educação é política míope e afeta desenvolvimento, diz especialista

Daniel Buarque

2008-05-20T19:04:00

08/05/2019 04h00

A decisão do governo de Jair Bolsonaro de cortar gastos da educação superior do Brasil é uma política "míope", que não pensa no longo prazo e que pode afetar o desenvolvimento do Brasil, segundo o pesquisador americano Walter W. McMahon.

Professor de economia da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, McMahon é especialista na relação entre investimentos nacionais em educação e resultados no desenvolvimento econômico dos países. Ele é autor de livros como "Higher Learning, Greater Good: The Private and Social Benefits of Higher Education" (Ensino Superior, Bem Maior: Os Benefícios Privados e Sociais do Ensino Superior). Segundo ele, é difícil entender justificativas para cortes em educação, e o dinheiro gasto neste tipo de política deveria ser pensado como um investimento no futuro.

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Em entrevista ao blog Brasilianismo, o pesquisador avaliou que o Brasil já ultrapassou os estágios iniciais de desenvolvimento que requerem investimento apenas na educação básica, e é preciso pensar na formação superior e de doutores. Para ele, o país deveria se espelhar em países como a Coreia do Sul, que alcançaram altos índices de desenvolvimento e alta renda per capita a partir do investimento em educação.

McMahon também criticou o que vê como um erro comum de desvalorização de ciências humanas –como a proposta do governo Bolsonaro de cortar gastos em cursos de sociologia e filosofia. Ele defendeu que investimentos em áreas de humanas também geram benefícios econômicos para o país no longo prazo.

Leia abaixo a entrevista completa.

Brasilianismo – O senhor acha que pode haver algum efeito positivo na economia de verba da educação superior?
Walter W. McMahon – Não. Acho que isso pode ter um efeito muito negativo para o desenvolvimento econômico do Brasil. O Brasil depende muito da formação educacional da sua força de trabalho, da formação de doutores que criam novas ideias e novas tecnologias e adaptam elas. Realizar cortes nisso me parece uma política míope do ponto de vista do desenvolvimento econômico do Brasil.

Brasilianismo – O governo fala em focar os gastos na educação básica. Acha que isso faz sentido? É preciso escolher entre um e outro?
Walter W. McMahon – Sim, isso poderia fazer sentido, caso não houvesse uma educação secundária universal. Antes de um país alcançar a universalidade da educação secundária, é preciso focar nisso em vez de pensar em aumentar investimentos na educação superior. A educação básica universal deve realmente ser alcançada primeiro. Isso é fundamental para ter uma distribuição de renda mais igualitária com o tempo, para que todos possam participar da força de trabalho do país. Sim, faz sentido priorizar isso em estados iniciais de desenvolvimento. Mas o Brasil atualmente com certeza já está bem além dos estados mais básicos de desenvolvimento econômico. O país precisa expandir a sua formação superior de dois anos e de quatro anos.

Brasilianismo – O senhor estuda muito a conexão entre educação e desenvolvimento econômico. Considerando a situação atual do Brasil, que tenta sair de uma longa crise econômica, de que forma acha que a educação poderia ajudar o Brasil a recuperar sua economia?
Walter W. McMahon – Bem, aqui estamos falando do lado da oferta, da capacidade da economia de crescer, expandir e se desenvolver no longo prazo –e não de políticas de estabilização. Dito isso, muito além dos ganhos diretos, que naturalmente se relacionam com a força de trabalho e sua produtividade, há ganhos substanciais trazido pela educação. O efeito é percebido no sentido de uma melhor saúde para a população, o que leva à redução de gastos com saúde pública; há retorno na forma de uma longevidade da população, na forma de melhor saúde infantil. Sem contar os benefícios sociais substanciais. A educação ajuda com as contribuições para o funcionamento das instituições democráticas, para uma maior estabilidade política, a uma redução de taxas de criminalidade, e até mesmo um aumento na coleta de impostos, já que as pessoas com mais educação passam a ganhar mais. Isso também gera economia no sistema da justiça criminal, já que a criminalidade diminui. Há ainda uma imensa contribuição que vem com o aumento de doutorados, que criam novas ideias e formas de adaptar ideias e aplicá-las à realidade. É daí que vem muito do desenvolvimento. E quanto um Estado corta o apoio público a este tipo de formação, os benefícios sociais acabam se perdendo.

Brasilianismo – Seria um erro pensar a educação apenas como um gasto público?
Walter W. McMahon – É preciso ser enfático ao dizer que educação é investimento. É investimento nas habilidades de capital humano de todas as pessoas que se formam, e que passam a usar essas habilidades por até 45 anos na força de trabalho do país. É um investimento de muito longo prazo, mas que tem retornos muito positivos neste longo prazo. No curto prazo o retorno pode ser menor, mas no longo prazo esse investimento tem retornos imensos no desenvolvimento de famílias por gerações e no desenvolvimento do próprio país.

Brasilianismo – O senhor vê alguma razão que possa justificar cortes nos gastos públicos da educação superior?
Walter W. McMahon – Não conheço detalhes da situação atual do Brasil, mas basicamente não. Gasto na educação é um investimento no futuro da nação. Olhe para a Índia, por exemplo, onde Nehru acreditava fortemente na democracia –e a Índia é a democracia mais populosa do mundo– mas ele pensava na educação como uma forma de assistência social para as famílias, como gasto, e não como investimento. Então a Índia não investiu em educação básica, e então por muitos anos o desenvolvimento econômico da Índia foi retardado por isso. O mesmo aconteceu no Paquistão, que não investiu na educação e continua sem se desenvolver. Mas aí podemos olhar para a Coreia do Sul. Eles, sim, investiram em educação. Assim como Taiwan, assim como Singapura, Hong Kong. E em cada um desses países a renda per capita é tão alta quanto a dos Estados Unidos. São países que têm taxas de crescimento muito bem sucedidas e que têm maior igualdade. Esses países primeiro investiram em educação básica e depois em educação superior e isso espalhou os ganhos por toda a população. Então além de ter crescimento econômicos esses países também combateram a desigualdade. Este é o modelo que o Brasil deveria seguir. A desigualdade é muito alta no Brasil, e a melhor forma de reduzir isso é investir em educação básica e em educação superior.

Brasilianismo – O governo brasileiro também tem falado sobre possíveis cortes em gastos com cursos de humanas –especialmente sociologia e filosofia–, que não são vistos como úteis para a sociedade. O que o senhor acha disso?
Walter W. McMahon – Isso é mais um erro. Não é um erro incomum, e vê-se mesmo aqui nos EUA. Mas há benefícios sociais imensos de áreas que não são as ciências físicas, ou de saúde. As ciências sociais são importantes, e ajudam no direito –basta pensar no direito constitucional, por exemplo. Há ainda as contribuições das ciências políticas. Em países que enfrentam instabilidades políticas, onde as instituições democráticas não são muito eficientes, não há desenvolvimento. Basta olhar para muitos países da África, onde não há estabilidade política e onde a pobreza e espalha. Isso não é positivo para um país. É evidente que há contribuições substanciais do que se pode chamar de crescimento de fato da produtividade total. Em outras palavras, a criação de novas ideias e de novas tecnologias e instituições, que são fundamentais para a estabilidade política. Estas áreas de pesquisa têm uma grande contribuição para o desenvolvimento econômico de um país. Não é só engenharia e programas de MBA que contribuem. As ciências sociais e humanas também. Estudar língua e história é muito positivo e oferecem flexibilidade de áreas de trabalho para as pessoas que se formam nessas disciplinas.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Daniel Buarque é jornalista, escritor e fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute do King's College de Londres. É autor de cinco livros, incluindo “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e escreveu o livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners. Nascido no Recife, escreve regularmente para o UOL e já trabalhou como editor-executivo do portal Terra, chefe de reportagem da rádio CBN, pauteiro de Mundo da Folha de S. Paulo e repórter do Valor Econômico e do G1.

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