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Blog do Brasilianismo

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Chico Mendes ajudou o mundo a conhecer a luta pela preservação da Amazônia

Daniel Buarque

13/02/2019 14h00

"É impossível falar de florestas no Acre sem mencionar o herói local do estado, o seringueiro, líder sindical e defensor da Amazônia Chico Mendes". Assim dizia um texto de uma série de reportagens publicadas pelo jornal britânico The Guardian em 2013, sobre os 25 anos da morte de Mendes. Segundo o jornal, Mendes deixou um legado de exploração sustentável da Amazônia.

Apesar de ter sido classificado como "irrelevante" pelo ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente), a atuação de Mendes e sua morte tiveram grande repercussão internacional nos anos 1980 e ajudaram o mundo a conhecer a luta pela preservação da Amazônia –o que permanece importante e atual. Segundo a jornalista britânica Sue Branford, essa visibilidade levou a pressão sobre o governo brasileiro e impulsionou medidas de proteção ambiental que duram até hoje.

"Dizer que ele é irrelevante reflete ignorância sobre o movimento ambiental, que é forte no Brasil e mesmo no exterior", disse Branford em entrevista ao blog Brasilianismo. "Ele ainda é um símbolo da luta pela proteção da Amazônia. Muita gente lembra dele e sabe sobre sua luta."

Branford é uma das correspondentes internacionais de maior experiência em coberturas sobre o país, e conhece bem a realidade brasileira. Além de centenas de reportagens na mídia internacional, ela também é autora de livros como "Last Frontier: Fighting Over Land in the Amazon" (A última fronteira: a luta por terra na Amazônia) e "Cutting the Wire: The Story of the Landless Movement in Brazil" (Cortando o fio: A história do movimento dos sem-terra no Brasil).

Em uma conversa um dia depois de voltar de mais uma viagem pela Amazônia, enquanto produzia reportagens sobre a floresta para o site Mongabay, a jornalista contou que viajou com Mendes pelo Acre em 1986, e que ele já falava sobre as ameaças à sua vida. Para ela, o clima de ameaça a ativistas na região atual está pior por conta da eleição de Jair Bolsonaro, e lembra o período em que atuou como correspondente internacional no Brasil durante a ditadura militar.

Leia a entrevista completa abaixo

Brasilianismo – O que achou sobre a declaração de que Chico Mendes não é importante?
Sue Branford – Dizer que Chico Mendes é irrelevante é não entender a história da Amazônia e as conquistas que ele ajudou a levar para a região. Isso reflete um entendimento equivocado e uma falta de conhecimento sobre a história da luta ambiental na Amazônia e sobre a importância de proteger a região. Dizer que ele é irrelevante reflete ignorância sobre o movimento ambiental, que é forte no Brasil e mesmo no exterior.

Brasilianismo – Você escreveu sobre a atuação de Mendes, qual acha que foi a importância dele para o mundo?
Sue Branford – Eu o conheci e viajei com ele pelo Acre em 1986. Lembrei muito dele durante minha última viagem pela Amazônia, pois ele recebia muitas ameaças de morte. Sempre que parávamos em algum lugar para comer, por exemplo, ele sempre se sentava de costas para a parede, para poder ver quem entrava no local. Ele já dizia que sabia que seria assassinado. E dizia que não queria morrer, porque achava que podia fazer mais pela região estando vivo do que morrendo. O que acabou não sendo totalmente correto. Sua morte teve uma imensa repercussão internacional na época, e acho que isso ajudou a criar pressão sobre o Brasil e levou o governo a criar reservas extrativistas para seringueiros. Esse tipo de pressão internacional voltou a ser registrado quando Dorothy Stang foi morta em 2005. A repercussão desses casos no exterior levou o Brasil a agir para dar uma resposta ao mundo. Isso acabou tendo uma grande importância para a conservação da Amazônia e para as pessoas da região.

Brasilianismo – Como ele era visto internacionalmente enquanto estava vivo?
Sue Branford – Ele era muito conhecido em todo o mundo antes de ser assassinado, e havia viajado para falar sobre a Amazônia. Sua morte teve um imenso impacto em todo o mundo, e muita gente ainda lembra dele. Ele foi muito importante para fazer as pessoas em todo o mundo conhecerem a luta por terra que havia na Amazônia. Ele conseguiu juntar o movimento popular, o movimento político e o movimento ambiental. Ele percebeu que havia essa preocupação internacional sobre o ambiente, e foi muito inteligente ao juntar isso com a luta dos seringueiros. Sua morte teve um impacto importante para este movimento.

Além disso, ele conseguiu mostrar para pessoas de todo o mundo que havia gente na Amazônia, e que a luta não era apenas para proteger uma terra intocada. Ele mostrou que muita gente vivia na Amazônia, e que era preciso ajudar essas pessoas a protegerem suas terras e a floresta. Ele mostrou que os interesses das populações locais, de indígenas, eram alinhados com os da proteção ambiental. Chico mendes foi muito importante em criar este tipo de alianças com ambientalistas no Brasil e no mundo.

Brasilianismo – Você disse que ele ainda é lembrado no exterior. De que forma isso acontece?
Sue Branford – Ele ainda é um símbolo da luta pela proteção da Amazônia. Muita gente lembra dele e sabe sobre sua luta. Ele é um tema importante em cursos universitários sobre a proteção ambiental e a luta por terra da Amazônia, e além disso foram escritos muito livros sobre ele.

Brasilianismo – Você estava no Brasil até esta semana. O que achou da situação da região?
Sue Branford – Estive fazendo uma viagem para escrever reportagens sobre a Amazônia. As coisas estão complicadas. A maior preocupação é o que está acontecendo no nível de base, pois muitos apoiadores de Bolsonaro passaram a se sentir mais poderosos e a confiar ainda mais na impunidade, então há um aumento nas ameaças de mortes a ativistas.

É um período difícil para o Brasil. Eu comecei a trabalhar no Brasil durante a ditadura, e em alguns sentidos as coisas agora são até piores, pois Bolsonaro foi eleito democraticamente, então tem muito apoio de partes da população. As pessoas estão sendo ameaçadas. Conversei com uma mulher que trabalha em uma pequena cidade no Pará, e ela contou que alguns dias atrás recebeu um envelope com duas balas dentro. O sentimento é de que agora é possível ameaçar as populações locais e não há nenhuma reação do governo. As populações locais se sentem sem nenhuma força política. Vai ser um período difícil para elas.

Brasilianismo – A questão ambiental tem sido uma das maiores preocupações internacionais em torno da eleição de Bolsonaro. Acha que esta preocupação pode gerar alguma pressão sobre o governo?
Sue Branford – Mesmo que o governo não tenha uma preocupação com esta pressão internacional, o agronegócio se importa com isso. As empresas que compram produção brasileira de soja, por exemplo, não querem ser associadas com destruição ambiental. Este é o tipo de pressão que vai funcionar, com importadores de produtos agrícolas brasileiros cobrando que o governo tome medidas para reduzir a destruição da Amazônia e a violência contra os ativistas. Não acho que o governo se preocupe com a região, mas ele vai defender os interesses do agronegócio, que quer manter relações comerciais com o resto do mundo.

Brasilianismo – Sua reportagem mais recente fala sobre "Amazônia em risco". Quão preocupado o mundo deve realmente ficar em relação à forma como o novo governo lida com a Amazônia?
Sue Branford – Acho que há motivo para ficar muito preocupado. A Amazônia está no limite da sua sobrevivência. Minha reportagem mais recente fala sobre projetos de infraestrutura na região. É importante evitar desmatamento em projetos deste tipo, o que é muito difícil de garantir, e acaba levando a grandes mudanças ambientais, mesmo que esta não seja a intenção. O desmatamento já vinha em alta, e agora grileiros e madeireiros sentiram que a vitória de Bolsonaro vai liberar eles para fazer o que quiserem sem medo de punição. Tudo o que havia sido conquistado em termos de limitar o desmatamento está sendo perdido.

Durante a minha viagem foi possível ver que há um movimento grande de exploração da terra, era possível ouvir motosserras em uso, e os moradores locais estão reclamando do aumento do desmatamento. E justo quando o mundo todo está se dando conta sobre a importância da proteção do ambiente, ainda ver o Brasil permitindo este tipo de destruição, é muito preocupante. Parece uma missão suicida, de empurrar o mundo para um ponto sem retorno em termos de mudança climática. E muita gente, mesmo no Brasil, parece não saber o que está acontecendo.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.