Mariana piorou imagem de Dilma no mundo; Brumadinho testa a de Bolsonaro
As toneladas de lama tóxica derramadas pelo rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, em 2015, tiveram um efeito que foi além da tragédia humana e ambiental –uma das piores da história. O caso expôs ao mundo com holofotes mais fortes os problemas políticos enfrentados pelo país, que já estava mergulhado em uma profunda crise econômica e via a pressão crescer contra o governo. As intensas críticas à resposta da então presidente Dilma Rousseff ao caso serviram para piorar ainda mais sua imagem internacional, que já estava abalada.
O caso de 2015 foi um dos assuntos relacionados ao Brasil com maior evidência global naquele ano, se juntando ao panorama de turbulências políticas e econômicas que já haviam levado a revista The Economist a colocar em sua capa a ideia do Brasil afundando na lama de um atoleiro.
A falta de ação do governo mostrou que o Brasil não tinha líder, argumentava um artigo publicado pelo site de opinião da agência de notícias de economia Bloomberg. "Sabemos o que deu errado depois do desastre. A resposta do governo federal ao fiasco, ou a falta de resposta, é um caso de estudo sobre o que não fazer. Por dias, enquanto equipes de resgate buscavam sobreviventes, as autoridades do governo do Brasil não disseram quase nada", dizia o texto do colunista Mac Margolis.
As imagens após o rompimento da barragem serviam como uma analogia à ideia de que o próprio governo estava mergulhado em lama tóxica, segundo uma análise publicada à época na revista norte-americana The Nation. Para a publicação, historicamente ligada à esquerda global, as cenas do rio de lama tóxica ilustravam o capítulo final na história da ascensão e queda do PT no poder do Brasil.
O tom geral adotado pela mídia estrangeira sobre o caso era de que o rompimento da barragem poderia ter sido evitado, que a busca pelos responsáveis precisava ser levada adiante de forma eficiente, mas que a resposta do governo foi caótica.
Pouco mais de três anos depois, o novo desastre com uma barragem da Vale, em Brumadinho, o tom inicial de analistas fora do Brasil é de que o país não aprendeu a lição com a tragédia anterior, e foi incapaz de evitar um novo desastre. Apesar de haver um posicionamento crítico contra a Vale, a repetição de problemas com a mineração põe em xeque a política brasileira de licenciamento ambiental e fiscalização de mineradoras.
Mas isso não significou uma crítica imediata ao novo governo, empossado menos de um mês antes. O caso tem sido analisado externamente desde o começo por seu possível impacto político, ainda assim, e a tragédia tem sido avaliada como o primeiro grande teste do presidente Jair Bolsonaro.
"Esta vai ser a primeira oportunidade real de saber como vai ser o governo de Bolsonaro", disse a cientista política americana Kathryn Hochstetler, professora de desenvolvimento internacional da London School of Economics, em entrevista ao blog Brasilianismo.
A ideia apareceu em várias das centenas de reportagens publicadas pela imprensa estrangeira a respeito da tragédia, com grande atenção à reação do governo. Isso se dá especialmente por conta do tom já muito crítico adotado na imprensa internacional em relação a ele, e por causa das declarações de Bolsonaro durante a campanha e após sua eleição a respeito de regulamentações ambientais. Em dezembro, o então presidente eleito declarou que pretendia revogar regulamentações em todos os setores do país. "Só servem para arrecadação e entraves de desenvolvimento, sem nenhum retorno prático ao cidadão", afirmou.
"Para Bolsonaro, que sobrevoou a zona do desastre apenas 24 horas depois de voltar do Fórum Econômico Mundial, o acidente proporcionou um teste inicial de liderança. A raiva popular complicará os planos que ele divulgou em Davos para melhorar o clima de negócios do país ao reduzir a burocracia e privatizar as empresas estatais. (…) Acima de tudo, o presidente enfrentará um desafio mais duro para alcançar as ambições que ele sugeriu durante a campanha presidencial do ano passado para liberar todo o potencial de mineração do país, relaxando as salvaguardas ambientais e permitindo mais operações na floresta amazônica", diz o jornal de economia.
Apesar de ainda não haver uma análise externa mais detalhada da reação do governo ao caso de Brumadinho, a imprensa internacional deu bastante destaque à prisão de três funcionários da Vale diretamente envolvidos e responsáveis pela mina e seu licenciamento, o que indica uma atenção maior no Brasil à busca por responsáveis –mas não é diretamente ligado à atuação do presidente.
"Sabemos o que ele disse durante a campanha, defendendo a aceleração do licenciamento, e sabemos que logo no começo do governo ele tomou medidas que reduziram as proteções ambientais, mas acho que a tragédia de Brumadinho vai ser o evento mais informativo para sabermos como ele vai governar, e saber se ele consegue aprender com as lições de um caso assim. Acho difícil que alguém possa ver este episódio e achar que está tudo bem. Ele parece estar levando o caso muito a sério, e foi à região imediatamente. Não sei o que ele vai fazer, mas acho que o comportamento dele vai nos dizer muito sobre como vai ser seu governo", avaliou Hochstetler.
ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}
Ocorreu um erro ao carregar os comentários.
Por favor, tente novamente mais tarde.
{{comments.total}} Comentário
{{comments.total}} Comentários
Seja o primeiro a comentar
Essa discussão está encerrada
Não é possivel enviar novos comentários.
Essa área é exclusiva para você, assinante, ler e comentar.
Só assinantes do UOL podem comentar
Ainda não é assinante? Assine já.
Se você já é assinante do UOL, faça seu login.
O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Reserve um tempo para ler as Regras de Uso para comentários.