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Blog do Brasilianismo

Como o cinema fez do Brasil a capital da fuga e do abrigo à contravenção

Daniel Buarque

19/02/2018 04h50

Reportagem do tabloide britânico 'The Sun' sobre jovem filmada fazendo sexo; ela diz que quer fugir para o Brasil

A reação de uma jovem filmada fazendo sexo em um supermercado de Norwich, na Inglaterra, foi de querer fugir da fama repentina em sua cidade. "Acho que vou me mudar para o Brasil para me afastar de tudo isso", disse, em entrevista publicada pelo tabloide "The Sun".

O país não tem nada a ver com o caso, e a jovem não tem aparentemente nenhuma relação com o Brasil, mas ainda assim foi o lugar escolhido para a "fuga".

A declaração é reveladora sobre a imagem internacional do Brasil. Há décadas, o país se consolidou na mente de muitos americanos e europeus como o destino clássico para a fuga. E isso foi em grande parte construído pelo cinema.

Uma pesquisa realizada por Tunico Amâncio, e publicada no livro "O Brasil dos Gringos: Imagens no Cinema", de 2000, analisa o quanto o país é usado no cinema estrangeiro como uma referência para o maior destino de fugas internacionais.

O livro é uma das principais referências para entender como o Brasil aparece representado no cinema internacional, e como isso se relaciona com a imagem externa do país. Segundo Amâncio, o Brasil uma função dramática específica no cinema estrangeiro, a acolhida de fugitivos de todas as nacionalidades.

"Nos filmes estrangeiros, quase não se foge para Lima, nem para Buenos Aires, muito menos para Assunção. Foge-se mesmo é para o Rio de Janeiro, capital sul-americana do abrigo à contravenção internacional, a se considerar o volume de filmes estrangeiros com esta perspectiva narrativa", diz Amâncio.

Segundo o pesquisador, foge-se para o Brasil pelas mais variadas razões, "sempre em busca de um abrigo legal à sombra de nossas palmeiras, ao som de nossa música, na contemplação de nossas mulatas. Foge-se para um país 'sem fé, nem lei, nem rei' exalando exotismo."

O livro cita uma série de filmes em que importantes personagens usam o Brasil como destino de sua fuga. Obras alemãs, francesas, italianas e, naturalmente, americanas –desde os anos 1930 até exemplos mais recentes– tratam o país como um símbolo dessa fuga final. É assim que o país aparece em "Crown, o Magnífico", em "O Conformista", em "Liebelei, uma História de Amor", em "Nada Além de Problemas", em "Loucos e Nervosos" e dezenas de outros, lista o livro.

Em sua coluna no "New York Times", a jornalista brasileira Vanessa Barbara também apresentou, em 2015, um levantamento de obras mais recentes do cinema que usam o Brasil como cenário de fuga.

"Uma sabedoria conhecida há muito tempos em Hollywood diz que, se você roubou um banco ou vendeu segredos de guerra para o inimigo, ou mesmo se tiver desviado fundos de alguma empresa, você deve fazer as malas e se mudar para o Brasil", diz.

A jornalista traça registros do Brasil como cenário de fuga desde os anos 1950, e analisa como isso pode ter começado a ser usado influenciado pelo fato de que o país não tinha acordo de extradição com os EUA até os anos 1960.

Barbara não cita a pesquisa de Amâncio, mas se refere ao documentário "Olhar Estrangeiro", de Lucia Murat, que é baseado no livro "O Brasil dos Gringos.

"Em geral, o impulso para ir ao Brasil não é nem justificado, nem motivado especificamente. Raramente um personagem explicita o porquê dessa escolha como opção de escape da lei ou de qualquer outro agente reparador. O recurso ao Brasil como etapa final de uma fuga é uma espécie de deus-ex-machina, um expediente fácil que permite à solução dramática uma certa dose de eficiência. Afinal de contas os filmes raramente explicam por que se foge tanto para o Brasil", diz Amâncio.

Dos incontáveis exemplos do cinema, a imagem do Brasil como destino de fuga se consolidou a ponto de virar a referência de uma jovem exposta em uma pequena cidade inglesa. Por mais que ela talvez sequer saiba o que há no Brasil, onde é o país, e como é a vida lá, a reputação como lugar da fuga a faz citar o destino como uma opção natural.

Em uma reportagem de 2015, a rede britânica BBC disse que o Brasil estava tentando se livrar dessa fama internacional. Segundo ela, o país teria se tornado conhecido como um destino seguro para fugitivos graças aos casos de Ronald Biggs (que assaltou um trem no Reino Unido) e do médico nazista Joseph Mengele. Agora, o governo estaria atuando para extraditar rapidamente criminosos estrangeiros, dizia a BBC.

O Olhar Estrangeiro – Lúcia Murat from Leandro Rocha on Vimeo.

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Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.

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