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Saiba quem foi o embaixador autor da frase ‘o Brasil não é um país sério’

Daniel Buarque

16/10/2017 13h13

O embaixador Carlos Alves de Souza, que atuou representando o Brasil no exterior até os anos 1960, pode até não ter o nome muito conhecido no país. Mas é dele a autoria de uma das frases mais reconhecidas e repetidas por milhões de brasileiros: "O país não é um país sério".

Atribuída equivocadamente ao ex-presidente francês Charles de Gaulle, a frase nunca foi dita pelo general, segundo Souza, e é de autoria do próprio embaixador, que conta como ela surgiu em sua autobiografia, "Um Embaixador em Tempos de Crise", de 1979.

E apesar de ter se tornado um "mantra" sobre a cultura do país, Souza diz no livro que não se arrependeu da sua opinião, e que vê até mais problemas no Brasil.

"Na minha vivência de mais de 50 anos nos meios militares, diplomáticos, políticos e sociais, cheguei a suas conclusões melancólicas. A primeira é a de que a argila, da qual foi feita o brasileiro, não é de boa qualidade. E a outra, em que foi acertada minha frase, atribuída ao general De Gaulle: 'Le Brésil n'est pas un pays sérieux'", diz, ao encerrar o livro.

Souza serviu na Europa por muitos anos. Recebeu medalha de ouro pelos 50 anos de trabalhos prestados ao serviço público do país em 1966, quando também se aposentou.

Ele começou trabalhando como encarregado de negócios do Brasil em Montevidéu, em 1925, e em seguida atuou dentro do Brasil. Em 1929, tornou-se encarregado de negócios do Brasil em Paris, chefe do serviço de passaportes, encarregado de negócios em Viena, primeiro secretário em Viena (1934), no México (1935). Depois, foi embaixador em Havana (1945-1949), em Roma (1950-1956), em Paris (1956-1964) e em Londres (1964-1966)

Um dos momentos mais marcantes do livro é quando ele narra sua atuação como ministro plenipotenciário em Belgrado, entre 1939 e 1941, quando acompanhou o início da Segunda Guerra Mundial na Europa.

Mas o mais interessante é que o embaixador conta sobre a "Guerra da Lagosta" história pouco conhecida que deu origem à frase de que o Brasil não é um país sério. Foi um episódio cheio de desencontros, e que serviu para que Souza consolidasse uma opinião ainda mais negativa sobre o Brasil.

"Nada mais ridículo do que a chamada 'Guerra da Lagosta', que apenas demonstrou a falta de entrosamento da Secretaria de Estado com as Embaixadas e a leviandade dos nossos governantes", conta.

"Os franceses estavam pescando a 30 milhas da costa brasileira, onde constataram haver maior quantidade de lagostas. Tudo isso ignorava a Embaixada do Brasil em Paris. (…) O presidente, provavelmente sem pensar nas consequências do seu ato, deu instruções às autoridades para suspender a licença. (…) A embaixada em Paris continuava tudo ignorando", diz.

Quando pesqueiros franceses foram apreendidos pela Marinha brasileira, Souza ficou sabendo pelo governo francês. "Os jornais franceses não mais falavam no assunto, porém a imprensa brasileira, com rara infelicidade, fazia comentários inverídicos sobre o problema e diziam que a Marinha brasileira tinha dado uma boa lição aos franceses".

Chamado pelo governo para se encontrar com o presidente De Gaulle, Souza conta como surgiu o mal-entendido sobre a autoria da frase.

"Fui avistar-me com o general. Recebeu-me no seu escritório, diante de um bloco de notas, e fez-me sentar à sua frente. Começou fazendo um histórico sobre o caso da lagosta, a permissão do presidente Goulart para a pesca, o sequestro dos pesqueiros, as notícias inverídicas da imprensa brasileira e as críticas a ele e à França."

Depois do encontro, Souza foi a uma recepção na casa do presidente da Assembleia Nacional da França.

"Repentinamente, surgiu diante de mim o jornalista Luiz Edgar de Andrade, hoje editor-chefe da TV Globo. Insistiu para que eu lhe dissesse algo sobre a minha entrevista com o general De Gaulle. Respondi-lhe que não daria nenhuma entrevista. Mas, não poderia deixar de ter uma conversa amistosa com uma pessoa por quem sempre tive a maior consideração. Falei-lhe sobre o tal samba carnavalesco "A Lagosta é nossa", as caricaturas do presidente De Gaulle e terminei a conversa dizendo: Luiz Edgar, 'le Brésil n'est pas un pays sérieux'", conta, no livro.

Segundo o embaixador, foi daí que a frase se popularizou.

"Provavelmente, ele telegrafou ao Brasil não deixando claro se a frase era minha ou do general De Gaulle, com que eu me avistara poucas horas antes desse encontro casual. Luiz Edgar é um homem correto, e estou certo de que o seu telex ao jornal não teve intuitos sensacionalistas. Mas, a frase 'pegou'. É evidente que, sendo hóspede do general De Gaulle, homem difícil, porém muito educado, ele, pela sua formação e temperamento, não pronunciaria frase tão francamente inamistosa em relação ao país do chefe da missão que ele mandara chamar. Eu pronunciei essa frase numa conversa informal com uma pessoa das minhas relações. A história está cheia desses equívocos."

Polêmica

Apesar do reconhecimento da própria responsabilidade do embaixador, que diz que tudo o que é contado no livro estava registrado por escrito, a frase não aparece em jornais brasileiros nos anos 1960, e é mencionada pela primeira vez em algum veículo da grande imprensa nacional anos mais tarde.

Além disso, o jornalista citado pelo embaixador sempre negou que fosse responsável por popularizar a frase. Em uma entrevista disponível no YouTube, ele diz acreditar que o presidente pode realmente ter dito a frase, e que o próprio embaixador a repetia a amigos, o que fez ela se tornar conhecida.

"O meu envolvimento nessa história começa em 1979, quando o embaixador publicou as suas memórias, e tem um capítulo sobre esta frase. Neste capítulo ele me atribui a divulgação da frase. Eu teria mandado ao Jornal do Brasil esta informação, que se espalhou. Acontece que em 1990 eu procurei nos meus arquivos e na coleção do Jornal do Brasil na Biblioteca Nacional este jornal. Acontece que não tem essa informação. Tenho certeza de que não fui eu que mandei essa informação. Como este boato começou a circular? Para mim, é um mistério. Havia a suspeita de que o próprio embaixador Alves de Souza tenha espalhado a história. E é atribuído a mim. Eu acho bastante provável que o De Gaulle tenha dito isso mesmo. O embaixador ao me dar o livro fez uma dedicatória: 'Ao Luis Edgar de Andrade, co-autor da famosa frase'. Na versão dele, ao conversar comigo, ele teria dito a mim 'Le Brésil n'est pas sérieux', e eu fiz confusão, como ele falou em francês, e atribui ao De Gaulle. Na verdade não publiquei. Acho que o embaixador contava a amigos íntimos isso."

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

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