Brasilianismo

Projeto americano usa arte para enriquecer a imagem internacional do Brasil

Daniel Buarque

Página do 'Newcity Brazil'

Página do 'Newcity Brazil'

Quando visitou o Brasil dois anos atrás, o editor de revista de artes visuais, Brian Hieggelke, encontrou um ambiente cheio de vitalidade artística do qual ele não tinha ouvido falar muito até então. Apesar de próspera, a cena de artes do país estava pouco disponível para quem não fala português, e havia pouco material sobre ela em inglês – Romero Britto não conta, por ser visto mesmo nos EUA mais como um pintor comercial do que um artista sério.

O que, em princípio, dificultava o acesso para estrangeiros, Hieggelke viu como uma grande oportunidade. “Queremos ajudar as pessoas a terem uma compreensão mais profunda da cultura visual do Brasil, que é mais orgânica e local, e vai além das marcas globais escolhidas por museus e feiras de arte”, disse o editor em entrevista ao blog Brasilianismo. Começou a surgir assim a primeira edição da revista digital “Newcity Brazil”, lançada recentemente em sua edição São Paulo e com perspectiva de ter uma edição para o Rio de Janeiro até o próximo ano.

Reportagem sobre a artista Beatriz Milhazes no site 'Newcity Brazil'

Reportagem sobre a artista Beatriz Milhazes no site 'Newcity Brazil'

Segundo Hieggelke, expôr as pessoas à profundidade e à vibração da cultura brasileira pode enriquecer a imagem internacional do Brasil e levá-la além dos estereótipos superficiais.

Leia a entrevista completa abaixo.

Brasilianismo – O Brasil costuma ter sua imagem associada com estereótipos como o turismo, praias, futebol e carnaval. O que você pode me dizer sobre a imagem internacional de artes visuais brasileiras?
Brian Hieggelke – Eu sou de Chicago, e muitas vezes ouvimos que o mundo nos associa a Al Capone e à máfia, e Michael Jordan e os Chicago Bulls. Mas esses são traços menores da identidade da minha cidade, e os estereótipos sobre o Brasil são igualmente superficiais. Existe um amplo movimento global longe dos centros de arte tradicionais como Nova York, Paris e Londres, em uma perspectiva muito mais ampla e global, e o interesse nas artes visuais brasileiras e sul-americanas, está crescendo. Em Chicago, por exemplo, um programa sobre a arquiteta brasileira Lina Bo Bardi foi inaugurado na Fundação Graham, uma de nossas instituições culturais. Há uma retrospectiva da artista colombiana Doris Salcedo, no Museu de Arte Contemporânea, e a Renaissance Society está abrindo uma exposição de outro artista colombiano, Gabriel Sierra, nesse domingo.

Brasilianismo – Como a ''Newcity'' pode ajudar a expandir o potencial do Brasil nas artes visuais?
Brian Hieggelke – Se conseguirmos o que estamos tentando fazer, nós vamos ajudar as pessoas a ter uma compreensão mais profunda da cultura visual do Brasil, que é mais orgânica e local, e vai além das marcas globais escolhidas por museus e feiras de arte. E, expondo as pessoas à profundidade e à vibração da cultura brasileira, a imagem internacional do Brasil pode ficar um pouco mais rica e cheia de nuances.

Brasilianismo – O que você achou da cena artística brasileira quando esteve aqui?
Brian Hieggelke – Eu só dei um mergulho muito raso nessa cena até agora, mas eu estou bastante animado. Desde a arte de rua até as galerias, a Bienal de Arte de São Paulo, há uma vitalidade que me fez querer conhecer mais. Como os Estados Unidos, seu país é uma sociedade grande e cada vez mais pluralista e, consequentemente, tem desafios políticos e históricos, e estes desafios se manifestam na arte. Tem muito que eu quero aprender sobre o Brasil e sua cultura.

Brasilianismo – Que artistas que você acha que são os mais promissores no Brasil atualmente?
Brian Hieggelke – Ainda estou no começo do meu aprendizado para poder destacar artistas emergentes, mas posso dizer-lhe que há grandes “marcas” internacionais. Os Gêmeos, assumem grande foco, Beatriz Milhazes, Vik Muniz, Tunga. Denise Milan tem uma relação especial com Chicago, com uma escultura permanente em nosso lago e teve uma exposição individual no Centro Cultural de Chicago há alguns anos atrás. Ela tem sido muito favorável ao projeto “Newcity Brazil”.

Brasilianismo – Por que a “Newcity” decidiu publicar uma página dedicada a São Paulo e o Brasil?
Brian Hieggelke – Eu estava pensando sobre a forma como a tecnologia estava influenciando a forma como muitos de nós vivemos agora e vamos viver no futuro, e parte desse pensamento foi que ela liberta até mesmo os trabalhadores do ''conhecimento'' da classe média (aqueles de nós que fazem a maior parte do nosso trabalho em um computador) para viver em qualquer lugar que eles queriam. Nesse futuro, acho que as pessoas vão optar por viver em muitos lugares sem mudar de emprego, e a influência da cultura na tomada dessas decisões a respeito de onde passamos nossas vidas será fundamental. Mas a conversa sobre a globalização parecia estar inteiramente focada em economia, em vez de cultura. Então eu pensei que seria interessante tentar mudar a conversa um pouco com a realização da cobertura cultural em outro país (fazendo a cobertura em inglês, como um idioma padrão).

Quando eu visitei o Brasil dois anos atrás, eu rapidamente percebi que era o lugar para tentar isso. É um país maravilhoso, grande, diverso, com uma cena artística próspera, mas pouco disponível em inglês além de guias de turismo. E, igualmente importante, as pessoas que conheci foram as mais generosa e solidária que eu conheci em qualquer lugar. Eu me senti confortável que este trabalho seria um desafio, mas também muito agradável.

Brasilianismo – O artista brasileiro Romero Britto vive nos EUA há anos, e tornou-se um dos principais nomes que representam a arte brasileira no exterior, por mais controverso e criticado que seja seu trabalho. Quanto você acha que seu trabalho está relacionado com a imagem do Brasil nas artes visuais?
Brian Hieggelke – A controvérsia é a moeda mais valiosa no mundo da arte, então eu não acho que isso seja um problema. Britto é visto aqui mais como um artista comercial do que um artista sério. Seu nome não surge com muita frequência quando você discute a arte brasileira nos EUA.

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