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Arquivo : Violência

Cansados da violência, brasileiros põem segurança como prioridade para 2018
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Daniel Buarque

Cansados da violência, brasileiros põem segurança como prioridade para 2018

“A violência no Brasil está fora de controle”, e “os brasileiros parecem tolerar cada vez menos o que está acontecendo”, diz Brian Winter, editor da revista “Americas Quarterly” em um artigo publicado nesta semana.

Em um cenário assim, ele avalia, questões de segurança vão ter tanta importância quanto a economia nas eleições de 2018, e podem definir o próximo presidente do país.

Este cenário, explica o artigo, ajuda a explicar a ascensão de Jair Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto. Por mais que as políticas defendidas pelo deputado sejam criticadas por especialistas, ele é o “único candidato falando abertamente sobre violência”, diz.

“Parece óbvio: Alguém mais no campo dos candidatos a presidente precisa oferecer uma alternativa sã, democrática e com credibilidade –uma estratégia de segurança que respeite os direitos humanos, mas que seja também ambiciosa e ampla o suficiente para reduzir dramaticamente a violência nacionalmente”, defende.

Apesar de parecer evidente, Winter diz que os políticos tradicionais fogem deste debate. Por negação, convenção política e elitismo, os candidatos a presidente preferem evitar tratar da questão da violência como fundamental, o que gera ainda mais frustração entre os eleitores.

“É imoral e em último caso suicida para a classe política continuar a tratar a violência como um problema de outros grupos, ou um tipo de tabu. A crise é severa demais e todas as soluções têm que ser avaliadas, desde que sejam democráticas e respeitem a vida humana”, complementa.

Winter vem se mostrando preocupado com a escalada autoritária do Brasil há bastante tempo. Em uma entrevista ao blog Brasilianismo, ele disse que o país já tem todos os mesmos fatores que levaram à eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

Além disso, ele também vem avaliando questões ligadas a violência no país. “O Brasil é um país muito violento, e tem coisas que parecem normais aqui que não são normais, como carros blindados, muros de 3 metros de altura com cerca eletrificada, a facilidade com que as pessoas são mortas e a falta de julgamento. Sucessivos governos desde o fim da ditadura fracassaram na tentativa em nível federal de controlar a violência. Isso acaba tendo reflexos políticos, pois a insatisfação das pessoas é com a situação de insegurança generalizada em que elas vivem. Não é uma questão fácil de lidar, mas é parte da identidade do que significa ser brasileiro e do que se pensa sobre o país no mundo”, disse então.

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Brasil ‘blinda’ soldados acusados de abusos, diz organização internacional
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Daniel Buarque

Brasil blinda soldados acusados de abusos, diz organização internacional

O Senado brasileiro aprovou uma medida “controversa”, que blinda militares brasileiros contra abusos, diz uma análise do instituto internacional de pesquisa InSight Crime.

O texto trata da aprovação de um projeto que transfere à Justiça Militar a atribuição de julgar integrantes das Forças Armadas que cometerem crimes dolosos contra civis em atividades de garantia de ordem.

Para a InSight Crime, a decisão gera riscos que vão além das questões de direitos humanos.

“A reforma aprovada pelo Senado tem implicações preocupantes para a segurança. Estratégias de segurança militarizada fracassaram em gerar resultados sustentáveis no passado, em parte, por causa de abusos –muitas vezes sem punição– que erodiram a confiança dos cidadãos nas forças de segurança”, diz.

A análise diz ainda que em países em que militares foram chamados para atuar como polícia, o resultado frequentemente é o aumento nos abusos de direitos humanos.

“E quanto os supostos abusos caem sob jurisdição militar, o resultado nada surpreendente é que os soldados acusados raramente enfrentam punições”, diz.

A organização InSight Crime é uma fundação de investigação e análise sobre crime organizado no continente americano. “Buscamos aprofundar e informar o debate sobre crime organizado na região oferecendo ao público reportagens, análises e investigações sobre o assunto e o estado dos esforços para combatê-lo”, diz a apresentação do site do grupo. Criada em 2010, em Medellin, na Colômbia, a Insight Crime tem apoio do centro de estudos latino-americanos da American University, em Washington.

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Guerra de gangues e cofres vazios geram violência no Rio, diz ‘Economist’
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Daniel Buarque

Guerra de gangues e cofres vazios geram violência no Rio, diz ‘Economist’

O Rio de Janeiro enfrenta um momento sombrio na sua vida pós-Olimpíada, diz uma reportagem publicada pela revista “The Economist” em sua edição mais recente.

“Tiroteios nas favelas mataram dezenas de pessoas. Um terço dos adultos entre 18 e 24 anos estão sem emprego. Muitas estruturas da Olimpíada estão abandonadas”, diz. O Rio está “no buraco”, diz um entrevistado da publicação.

Apesar de reconhecer que a Olimpíada foi bem-sucedida e ocorreu sob esquema de segurança, a reportagem aponta os problemas que ocorreram em seguida: “O governo do estado registrou 2.976 homicídios na primeira metade de 2017, um aumento de 14% em relação ao ano anterior”, diz.

O problema, segundo a “Economist”, é que há um “fracasso” na segurança de locais como a Rocinha, por conta de “má administração financeira e azar econômico”.

“Todos no Rio torcem por uma recuperação dos preços do petróleo, o que geraria mais dinheiro para serviços públicos. Mas preços de petróleo são incertos. A paz em bairros como a Rocinha não deveria ser.”

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Militares não estão interessados em intervenção, diz pesquisador alemão
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Daniel Buarque

Forças Armadas não estão interessadas em intervenção ou em governar o país, diz pesquisador alemão

A incursão do Exército contra a escalada da violência na Rocinha, no Rio de Janeiro, os debates sobre o risco de uma intervenção militar na política brasileira e, mais cedo, o encerramento da ação de paz no Haiti (Minustah) colocaram as Forças Armadas em grande evidência no Brasil nas últimas semanas.

Por mais que sejam três questões muito diferentes, elas têm relação umas com as outras e com a situação do Brasil sob grave crise política e econômica e com o aumento da violência em todo o país. Para o pesquisador alemão Christoph Harig, a atenção dada a questões envolvendo militares no Brasil está em parte relacionada à crescente dependência que governo federal desenvolveu em relação às Forças Armadas para a segurança pública, e cria uma situação difícil para a política nacional.

Ainda assim, ele disse não acreditar em grande possibilidade de uma intervenção militar no Brasil. “As pessoas que têm poder de decisão dentro das Forças Armadas não estão interessadas em uma intervenção, e ainda menos em governar o país”, disse, em entrevista ao blog Brasilianismo. Ainda assim, explicou, a forma como as autoridades militares e governamentais estão tratando o tema colocou em evidência alguns problemas nas relações civis-militares do Brasil.

Um dos problemas, diz, é uma visão “paternalista” dessas Forças Armadas, que têm uma autopercepção de se verem como “salvação do país” e garantidoras da pátria. “De acordo com este ponto de vista, tudo o que os militares fizeram foi em benefício do país, e os casos de tortura e abuso eram apenas um mal necessário. Esta perspectiva continua a ser perigosa, pois implica que as Forças Armadas estão acima da lei”, disse.

Harig defendeu recentemente sua tese de doutorado sobre estes temas no King’s College de Londres. Sua pesquisa foi um estudo sociológico sobre a percepção das tropas de Garantia da Lei e da Ordem (GLO, como no caso da Rocinha) e da Minustah.

Segundo ele, a ação no Haiti foi bem sucedida militarmente, mas foi responsável pela morte de civis como “efeito colateral”, o que deveria ser pensado de forma crítica em relação à importação deste tipo de incursão quando se trata de ações de GLO no Brasil, como ocorreu recentemente na Rocinha.

Leia abaixo a entrevista completa concedida pelo pesquisador.

Brasilianismo – Os militares estão envolvidos em algumas das notícias mais importantes no Brasil nas últimas semanas. Vimos o fim da Minustah, a ação para conter a violência na Rocinha e o renovado debate sobre a intervenção militar em Brasília. Quall você acha que é o papel dos militares na política brasileira hoje em dia? Mudou em comparação com o que havia 5 anos atrás?
Christoph Harig – Desde 2010, os governos federais aumentaram continuamente sua dependência dos militares em relação à segurança pública, o que, sem dúvida, aumentou a visibilidade das forças armadas no país.

A Minustah desempenha um certo papel neste processo, pois os políticos parecem ter percebido a utilidade de usar os militares em ambientes urbanos –ou pelo menos a possibilidade de usá-lo para fins de marketing político.

Ao retratar operações no Rio e em outros lugares como uma espécie de “manutenção da paz em casa”, as autoridades estão tentando justificar as operações militares. Ao mesmo tempo, não há sucesso substancial na melhoria do trabalho policial comum.

Tudo isso acontece no contexto da crise econômica brasileira. Embora os militares tenham que lidar com cortes significativos no orçamento e dificilmente conseguem manter suas operações na fronteira, as chamadas para operações de segurança pública estão cada vez mais barulhentas.

Os militares estavam e continuam insatisfeitos com o crescimento das operações de Garantia de Lei e Ordem, mas conseguiram usar seu papel interno como meio conquistar de poder de barganha: quando o governo queria cortar pensões militares, o comandante do Exército usou as ações quase constantes no Rio, os custos adicionais para as Forças Armadas, bem como a carga de trabalho das tropas como motivo para se opor aos cortes.

Brasilianismo – A ideia de uma intervenção militar na democracia tem sido um assunto controverso desde que as pessoas começaram a pedir o impeachment de Dilma Rousseff. Começou com o que era chamado de delírio de algumas pessoas, mas chegamos a um estágio em que as pessoas dentro do Exército falam abertamente sobre isso. Qual você acha que é o risco real de intervenção militar na política hoje? Você acha que os militares têm algum interesse em se envolver na política? Você acha que eles têm a estrutura e a organização para poder governar?
Christoph Harig – Apesar da justificada indignação pelo discurso do general Mourão, ainda considero improvável uma intervenção militar. Eu argumentaria que as pessoas que têm poder de decisão dentro das Forças Armadas não estão interessadas em uma intervenção, e ainda menos em governar o país. No entanto, a forma como as autoridades militares e governamentais trataram o discurso colocou em evidência alguns problemas nas relações civis-militares do Brasil.

Mourão e seus “colegas no alto comando do Exército”, a quem ele se referiu em seu discurso, passaram seus anos formativos de suas carreiras durante o regime militar. Alguns deles (bem como partes consideráveis ​​da sociedade) ainda parecem aderir à interpretação do golpe de 1964 como suposta salvação do Brasil do comunismo. Essa autopercepção problemática dos militares como garantidor da pátria é anterior ao regime de 1964-1985 e pode ser encontrada ao longo da história do Exército. De acordo com este ponto de vista, tudo o que os militares fizeram foi em benefício do país, e os casos de tortura e abuso eram apenas um mal necessário.

Esta perspectiva continua a ser perigosa, pois implica que as Forças Armadas estão acima da lei. Mesmo o comandante do Exército, Villas Boas –um defensor da tradição legalista no Exército que regularmente insiste que os militares não estão interessados ​​em derrubar o governo– recentemente afirmou que os militares teriam o mandato de intervir em um caso de “caos” generalizado. Esta é uma afirmação altamente discutível, que mais uma vez sublinha a falta de aceitação de princípios democráticos.

Nesta visão paternalista, o Brasil parece ser uma democracia pela graça dos militares –que se consideram em posição de escolher se querem ou não manter este arranjo político, caso as coisas não estejam bem. Continua notável que, mais de 30 anos após o fim do último regime militar, o país ainda não tenha conseguido estabelecer uma visão mais apropriada sobre a democracia dentro das forças armadas.

O governo de Michel Temer e, em particular, o ministro da Defesa Raul Jungmann, reagiram timidamente ao discurso de Mourão, o que é uma prova a mais da sua fraqueza.

Se os relatos da imprensa forem verdadeiros, Jungmann queria que Mourão fosse forçado a se aposentar (sua aposentadoria está programada para o próximo ano, de qualquer maneira). Isso, pelo menos, mostraria que tais ameaças golpistas pouco veladas não podem ficar impunes. No entanto, o comandante do Exército, Villas Boas, não quis dar esse passo, argumentou que isso reforçaria o status de Mourão como herói dentro dos militares e entre os civis que apoiam uma intervenção. E reconhecidamente, Villas Boas tem um ponto: Mourão foi removido como chefe do Comando da Área do Sul depois de criticar abertamente o governo Dilma em 2015. E, de fato, manifestantes de extrema-direita desfilaram um boneco inflável de Mourão durante os protestos e alguns até o propuseram como presidente. Forçá-lo a se aposentar certamente contribuiria mais para essa idolatria.

Além disso, o presidente Temer se colocou em uma posição na qual ele dificilmente pode contribuir com a solução. Ocupado com a garantia de sua sobrevivência política em meio a acusações de corrupção, o presidente está disposto a evitar novas tensões com os militares. Temer claramente foi um dos alvos do ataque de Mourão contra “elementos corruptos” na política. Imagine se ele agora condenasse publicamente o general por seu discurso: muitas pessoas o acusariam de vingança pessoal contra alguém que acusou justamente a corrupção generalizada. Os ultraconservadores, como o candidato presidencial Bolsonaro, fariam uso disso facilmente no ataque contra os políticos tradicionais.

Em última análise, é ruim para a democracia que tais considerações prevalecessem sobre os princípios normativos da supremacia civil. A democracia pode prevalecer, mas o episódio prejudicou a autoridade civil sobre os militares. Não punir Mourão constitui um precedente perigoso. Se os generais do serviço ativo podem ameaçar publicamente com a intervenção como “Espada de Dâmocles”, o que mais os oficiais precisam fazer para serem punidos?

Brasilianismo – Com o aumento da violência no Rio, a cidade está assistindo aos últimos momentos do programa de pacificação? É possível saber o que deu errado? Com o envio de militares para conter a violência na Rocinha, você acha que eles têm um papel a desempenhar nesta situação de violência urbana?
Christoph Harig – Eu diria que o programa de pacificação está praticamente morto. A polícia militar do Rio produziu recentemente um relatório no qual eles admitem o fracasso do programa e, basicamente, recomendaram desligar muitas unidades da UPP. Parece que o governo do Rio está menos inclinado a aceitar publicamente isso.

Na realidade, no entanto, o programa só existe em seu nome. Princípios ambiciosos de “policiamento comunitário” foram jogados fora: pintar um caveirão branco e escrever UPP sobre ele não altera o fato de que você está usando um caveirão.

Acho que já se sabe que o programa sempre sofreu com uma falta de investimento em seus componentes sociais, que tem não tiveram volume depois de resultados inicialmente promissores, e esse abuso por oficiais da UPP (como o caso do desaparecimento de Amarildo de Souza na Rocinha) prejudicou a confiança.

O atual desdobramento militar não alterará esta situação sombria. As atuais operações conjuntas de inteligência entre Forças Armadas e policiais parecem sofrer de uma falta de comunicação entre as forças. O Ministério da Defesa e os militares parecem descontentes com a falta de apoio político das autoridades do Rio, o que complicou as relações e, sem dúvida, levou as Forças Armadas a ameaçarem suspender o apoio às autoridades do Rio.

As Forças Armadas também estão conscientes de que suas ocupações anteriores em favelas não levaram a uma melhoria da situação de segurança, já que a provisão subsequente de serviços essenciais através do programa de pacificação nunca ocorreu. Enquanto os governos federal e do Rio alegaram que um aumento no Bolsa Família, bem como alguns programas sociais, acompanhariam as operações militares e policiais conjuntas no Rio, há motivos para duvidar de que isso se materialize.

Brasilianismo – O fim da Minustah foi tratado como uma operação bem sucedida do Exército brasileiro. Você concorda com essa avaliação? Há algo a aprender com essa experiência que pode ser trazida para dentro do país agora que há uma onda de violência no Rio?
Christoph Harig – A maioria dos analistas sugere que as contribuições do Brasil para operações militares em Porto Príncipe foram decisivas para acabar com o domínio de gangues. Em uma missão repleta de mau comportamento por tropas (por exemplo, a epidemia de cólera causada por um contingente nepalês ou as acusações generalizadas de abuso sexual), poucas acusações contra o contingente brasileiro tornaram-se públicas. Do ponto de vista militar, isso pode ser claramente considerado um sucesso.

No entanto, é preciso ter em mente que o sucesso no combate a gangues também resultou na morte de pessoas inocentes –o chamado “dano colateral”. Numa perspectiva estritamente militar, isso dificilmente é evitável, pois sabe-se que o uso da força pode levar à perda de vidas inocentes. Embora o uso apropriado da força por capacetes azuis ainda seja um tema debatido, mandatos recentes sugerem que a manutenção da paz da ONU depende cada vez mais de operações militares robustas para proteger os civis. Recentemente, argumentamos que o Brasil realmente foi um ator central neste desenvolvimento. O exemplo do general Santos Cruz, comandante da força na Minustah durante o período mais crítico da missão, mostra como a implementação de mandatos robustos na Minustah levou a elogios da ONU. Santos Cruz liderou o componente militar da Missão da ONU na República Democrática do Congo, onde supervisionou a “Brigada de Intervenção” –a primeira unidade de “manutenção da paz” da ONU que buscava ativamente combater grupos armados.

Como secretário nacional de segurança pública do Brasil, Santos Cruz é agora responsável pela implementação do plano nacional de segurança pública. Como parte desta estratégia, o Rio atualmente serve como campo de testes para ações conjuntas de militares e policiais. É discutível se a estratégia de eliminação de gangues foi apropriada na manutenção da paz da ONU. No entanto, mesmo que não compartilhe suas preocupações com a imparcialidade da manutenção da paz, há limites para a possível extensão da reimportação de estratégias robustas para a segurança pública.

As conclusões da minha pesquisa de doutorado sugerem que as tropas com experiência no Haiti e as operações de GLO se tornaram cada vez mais frustradas com as regras de engajamento comparativamente restritas durante as operações no Rio. Um dos principais aprendizados da Minustah para muitos soldados e oficiais foi que as gangues podem ser expulsas de uma área quando os militares podem usar a força. Isso, por sua vez, aumentou as expectativas de que eles deveriam ter permissão para fazer o mesmo ao serem implantados no Rio.

No início da operação atual de GLO no Rio, o ministro da Defesa, Jungmann, parecia ter uma abordagem potencialmente mais contundente em mente, pois lembrou a sociedade de debater se estariam dispostos a pagar o preço pelo sucesso militar. Isso implicava que as ações militares “efetivas” contra as gangues provavelmente resultariam em mortes de civis –particularmente considerando que a maior parte das operações ocorria em bairros densamente povoados. Em essência, isso significaria que a vida da população em partes pobres da cidade seria considerada menos valiosa do que em bairros ricos: dificilmente poderia pensar em qualquer situação em que alguém pudesse sugerir que algumas vidas de residentes da Barra da Tijuca ser consideradas o preço que vale a pena pagar pela solução do problema do crime. Por enquanto, parece que as autoridades estão recusando essa abordagem.

Embora a situação de segurança no Rio seja inaceitável, é preciso ter em mente os limites de qualquer abordagem robusta contra gangues. Mesmo os defensores de ataques decisivos devem considerar que os incentivos econômicos para as gangues são diferentes dos encontrados em Porto Príncipe. As gangues do Rio não são motivadas politicamente, mas encontram-se em uma guerra civil sobre o controle do mercado de drogas.

Como a experiência de outros países, como o México, mostrou, a lógica da guerra contra as drogas –prender ou matar traficantes de drogas e desarmar gangues– não levou a resultados sustentáveis. Novos líderes e gangues emergem enquanto a proibição de drogas promete lucros lucrativos em um mercado ilícito. Uma consequência não intencional das autoridades que visam um grupo criminoso seria que eles acabaram apoiando facções rivais. No caso muito improvável de que um grupo fosse desmantelado, as facções restantes lutariam por preencher o vácuo deixado para trás –gerando assim mais miséria para a população nessas áreas. E no caso ainda mais improvável de que as autoridades conseguissem expulsar gangues do Rio, atores externos como o PCC provavelmente assumiriam o lucrativo negócio de drogas.

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Um ano após Olimpíada, mundo vê caos e violência tomarem conta do Rio
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Daniel Buarque

Um ano após Olimpíada, mundo vê caos e violência tomarem conta do Rio

“O Rio de Janeiro está complicado.”

A frase foi dita por um brasilianista, professor em Londres, durante uma conversa privada logo após a abertura do ano acadêmico do doutorado do Brazil Institute do King’s College London, na sexta-feira (22).

Ela foi pronunciada no mesmo momento em que a capital fluminense registrava uma das mais graves ondas de violência, mas se referia à situação da cidade em geral, incluindo a dificuldade de realizar pesquisas acadêmicas, já que o professor acabava de voltar de uma temporada de estudos no Rio.

Apesar de genérica e simples, a definição de “complicado” parece resumir a forma como o resto do mundo vê o Rio de Janeiro um ano após os Jogos Olímpicos. Caos urbano, crise financeira, explosão de violência. Tudo isso enquanto a cidade que é símbolo do Brasil nos olhos dos estrangeiros deveria estar aproveitando o legado do maior evento esportivo do mundo.

Um ano após se tornar principal foco dos holofotes internacionais e de entregar um evento bem acima das expectativas estrangeiras, o Rio de Janeiro é visto como tendo sido tomado pelo caos e pela violência –em um símbolo da gravidade da crise que atinge todo o Brasil.

Bem além da atenção crítica dada ao “legado” dos Jogos quando se completou o primeiro ano desde seu encerramento, este olhar estrangeiro sobre a situação atual é menos temporal, mas mais chocado com o tamanho do problema, com a amplitude da violência.

A insegurança no estado do Rio já vinha recebendo mais atenção especialmente no Reino Unido depois que uma inglesa foi baleada durante viagem de turismo. ”Turistas no Brasil ocasionalmente são atacados quando, por acidente, entram em favelas, que muitas vezes são dominadas por gangues”, dizia uma das reportagens à época, já associando o Rio à violência.

O Rio, disse então o jornal francês ”Le Monde”, vive uma ”guerra não declarada” um ano após a Olimpíada.

Na mídia internacional, os tiroteios nas favelas ao longo da última sexta ganharam atenção especial, com grande destaque dado ao uso de forças militares para tentar conter a violência.

“Depois de uma semana de intensos tiroteios entre gangues rivais e a polícia, o Exército do Brasil foi enviado para cercar a favela da Rocinha, no Rio de Janeiro”, diz reportagem do jornal britânico “The Guardian”.

“Uma cidade repleta de comércio, vielas e pequenas ruas movimentadas, a Rocinha é a maior favela do Brasil. Ela se tornou emblemática do ambicioso programa de pacificação para expulsar traficantes de drogas após uma invasão pelo Exército em 2011. Agora se tornou um outro símbolo da piora da violência da cidade apenas um anos após ela sediar a Olimpíada”, avalia o jornal.

As agências internacionais de notícias também publicaram textos sobre a situação da Rocinha, e a rede BBC publicou uma série de fotos mostrando tanques de guerra sendo usados na ação dos militares.

Os Jogos também foram lembrados pela reportagem publicada pela agência de economia Bloomberg. “A Rocinha, que separa alguns dos bairros mais ricos do Rio, como a Barra da Tijuca, onde a maior parte dos Jogos de 2016 aconteceram, foi marcada pela violência e tiroteios por seis dias consecutivos enquanto a polícia tentava controlar a guerra entre suas quadrilhas rivais que lutam para controlar o tráfico de drogas”, explicou.

Toda avaliação da atual situação da cidade parece tomada por algum choque em relação ao contraste com o que se esperava para o Rio após os Jogos. Esperava-se um legado de bonança, e veio a crise, o aumento da violência.

Em um momento assim, talvez a análise externa mais precisa tenha sido a da jornalista e escritora Juliana Barbassa, em um artigo publicado na revista “Americas Quarterly”. Segundo ela, o objetivo da Olimpíada não era o de melhorar a vida no Rio, mas enriquecer o bolso de poucos.

“O verdadeiro objetivo dos Jogos era desviar toneladas de dinheiro público para bolsos privados através de lucrativos contratos de construção gerados pelo evento”, disse.

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‘Caminho errado’ no Rio deixa turista ferida e imagem do Brasil manchada
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Daniel Buarque

‘Caminho errado’ deixa turista ferida e imagem do Brasil manchada

“Turistas no Brasil ocasionalmente são atacados quando, por acidente, entram em favelas, que muitas vezes são dominadas por gangues”.

A descrição do risco imposto a quem visita o Brasil é parte de uma reportagem da agências de notícias Associated Press, publicada por jornais britânicos como “The Guardian” e “The Independent”, sobre a família de ingleses que foi atacada em Angra dos Reis.

Uma turista do país foi ferida a bala no abdome no incidente, e a imagem do Brasil fica manchada em dezenas de notícias sobre o caso na imprensa estrangeira.

“Mãe britânica leva tiro na frente da sua família durante férias no Brasil quando acidentalmente entrou em uma favela violenta após uma confusão com o idioma”, diz o longo título, um tanto sensacionalista, do tabloide “Daily Mail” sobre o caso.

Outro tabloide, o “Sun” publicou várias fotos do carro em que a família estava, com marcas de tiros.

“O Ministério de Relações Exteriores alerta os turistas de que todas as favelas são ‘áreas perigosas’ devido ao ‘nível de violência nelas'”, diz a publicação.

O ataque contra turistas é um caso que aumenta a repercussão no resto do mundo e reforça imagem internacional de violência no Rio.

As principais publicações internacionais já vinham publicando reportagens sobre o aumento da criminalidade no Rio de janeiro, e agora aproximam a notícia do leitor estrangeiro.

O Rio, diz o jornal francês “Le Monde”, vive uma “guerra não declarada” um ano após a Olimpíada.

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Deu na ‘Economist’: Uso do Exército como polícia cria riscos para o Brasil
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Daniel Buarque

Deu na ‘Economist’: Uso do Exército como polícia cria riscos para o Brasil

Em um país violento, mas sem inimigos externos, e com um Exército de mais de 300 mil soldados, o Brasil tem apelado cada vez mais às Forças Armadas para a realização de ações de segurança pública, o que gera um risco para a democracia e para o país como um todo, segundo reportagem publicada pela revista “The Economist”.

Segundo a publicação, a crise nos Estados brasileiros fez com que se multiplicassem os pedidos pelo Exército na ajuda no combate à criminalidade urbana, e “soldados estão tentando se adaptar a uma nova função”, de polícia.

“A maioria dos brasileiros parece não se preocupar com essa tendência. Ao contrário dos políticos e policiais, os militares são vistos como honestos, competentes e gentis. Apesar da sombra da ditadura, o Exército geralmente aparece no topo dos rankings de confiança das instituições”, explica a revista.

Ainda assim, complementa, borrar as linhas separando a defesa nacional da aplicação da lei é perigoso para a democracia, caro para os cofres públicos e tira dos militares o foco na proteção ao território brasileiro. “Transformar um recurso de emergência em uma presença de rotina pode diminuir a confiança pública em autoridades civis”, diz.

A análise da revista se alinha em parte à avaliação do pesquisador alemão Christoph Harig, doutor pelo King’s College de Londres e especialista na relação entre Forças Armadas, segurança pública e política no Brasil.

Em um artigo recente, ele argumentou que o uso das Forças Armadas para garantir a segurança de cidades brasileiras é um reflexo do fracasso dos governos do país em controlar a violência e manter a segurança pública, mas que não deve ser entendido como um sinal de risco à democracia. Ainda assim, o apelo aos militares para resolver questões internas do país acaba dando força política a este grupo, e garantindo privilégios.

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Violência volta a manchar a imagem do Brasil na imprensa estrangeira
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Daniel Buarque

Violência volta a manchar a imagem do Brasil na imprensa estrangeira

O título de uma reportagem publicada pela revista americana “Newsweek” dificilmente poderia ser mais direto na associação da violência ao Brasil: “Moradores de favelas do Rio estão cansados de ver seus vizinhos serem mortos”. No site da rede árabe Al Jazeera o tom de um texto sobre o Brasil é parecido: “Moradores de favelas do Rio protestam contra assassinatos”.

Notícias sobre diferentes casos de violência no Brasil são constantes na mídia estrangeira. Nos últimos dias a imprensa internacional voltou seus olhos para as manifestações contra mortes recentes na capital fluminense no fim de semana, e voltou a estampar no mundo a forte imagem da criminalidade e da violência que já é cotidianamente associada ao Brasil.

Segundo a revista americana, as crises política e econômica, bem como os escândalos de corrupção,praticamente destruíram os progressos limitados que haviam sido alcançados em comunidades pobres nas últimas décadas.

“Com as taxas de desemprego atingindo novos recorde, as gangues de traficantes retornaram às favelas. Quando a policia ataca os bairros e os tiroteios acontecem, os moradores frequentemente se tornam vítimas da violência”, explica.

A reportagem da Al Jazeera diz que tiroteios acontecem diariamente, e pessoas inocentes acabam vítimas de operações policiais de estilo militar.

“Traficantes controlam grande parte das favelas, que muitas vezes são formadas por becos e casas pequenas em encostas íngremes que são difíceis de acessar. A polícia monta periodicamente incursões e, quando ocorrem os tiroteios, as balas perdidas dos fuzis atravessam áreas densamente povoadas”, explica.

Em um artigo publicado em inglês no site “The Conversation”, o pesquisador Renato Sérgio de Lima, da FGV, argumentou que por mais que o país esteja mergulhado em escândalos de corrupção e instabilidade política, a violência, registrada no altíssimo índice de homicídios, constitui o maior problema real do Brasil.

Sem tratar exatamente do impacto na imagem, ele explica que a criminalidade deixa a população paralizada e gera um aumento no flerte com o autoritarismo em um “processo corrosivo”.

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Jornal venezuelano denuncia uso de armas brasileiras pela repressão no país
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Daniel Buarque

Jornal venezuelano denuncia uso de armas brasileiras pela repressão no país

Armas produzidas por uma empresa brasileira estão sendo usadas continuamente para reprimir manifestantes que protestam contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela, denuncia uma reportagem publicada pelo jornal local “El Universal”.

A revelação foi feita pelo periódico um dia após a morte de mais um manifestante em Caracas. Segundo a publicação, entre 67 pessoas (dados do Ministério Público) e 91 pessoas (dados de várias ONGs) foram mortas desde abril em mais de 80 dias de protestos na Venezuela. Essas manifestações sofrem forte repressão da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e da Polícia Nacional Bolivariana (PNB).

“Empresa brasileira Condor tem fornecido bombas de gás lacrimogêneo à Venezuela desde 2012. Estas compras transformaram a Venezuela em seu quarto maior cliente em volume e quantidade de compras. A mercadoria adquirida foi usada para dispersar protestos pacíficos na Venezuela”, diz a reportagem.

A empresa brasileira Condor Non-Lethal Technologies, com sede no Rio de Janeiro, reconheceu, em reportagem da agência de notícias Associated Press, que está fornecendo gás lacrimogêneo às forças de segurança venezuelanas. Depois que líderes da oposição apresentaram um documento demonstrando a compra de latas de gás lacrimogêneo pelas Forças Armadas, a Condor confirmou que está cumprindo dois contratos no país.

Segundo o “El Universal”, semanas atrás o presidente Michel Temer havia suspendido o envio de uma compra de mais de 150 mil bombas da Condor pelo governo de Maduro, mas a empresa disse que não recebeu uma ordem para suspender as vendas.

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ONG internacional denuncia impunidade da violência doméstica no Brasil
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Daniel Buarque

ONG internacional denuncia impunidade da violência doméstica no Brasil

Um relatório divulgado pela ONG internacional de direitos humanos Human Rights Watch denuncia a falta de Justiça para casos de violência doméstica no Brasil.

Intitulado “Um Dia Eu Vou Matar Você”, o trabalho se debruça sobre casos de impunidade em Roraima, examinando “problemas sistemáticos na resposta à violência doméstica”.

“A HRW documentou 31 casos de violência doméstica e entrevistou vítimas, poiciais e oficiais de justiça. A ONG encontrou falhas em todos os pontos do sistema de resposta a abusos domésticos”, diz o texto.

Segundo o relatório, apenas um quarto das mulheres que sofrem violência dentro de casa no Brasil denunciam as agressões. O caso analisado, diz, é ainda pior, pois mesmo casos que são denunciados enfrentam barreiras nas instituições do país.

“Os assassinatos de mulheres subiram 139% de 2010 a 2015 em Roraima, chegando a 11,4 homicídios por 100 mil mulheres naquele ano, o último para o qual há dados disponíveis. A média nacional é de 4,4 assassinatos por 100 mil mulheres – já é uma das mais altas do mundo. Estudos no Brasil e no mundo estimam que uma grande porcentagem de mulheres que sofrem mortes violentas são mortas por parceiros ou ex-parceiros.”

Segundo a HRW, o Brasil precisa atuar para diminuir as barreiras enfrentadas pelas mulheres que sofrem abusos e querem fazer denúncias.

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