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Arquivo : ‘The Economist’

Rejeição da ‘Economist’ a Bolsonaro reflete busca liberal por estabilidade
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Daniel Buarque

Em meio à radical polarização da política brasileira às vésperas da eleição presidencial, o posicionamento crítico da revista “The Economist” à candidatura de Jair Bolsonaro levou a uma situação em que eleitores de esquerda se alinham ao que diz a tradicional publicação liberal, enquanto fãs do capitão reformado passaram a acusar de comunista a “bíblia o capitalismo”.

Os interesses da revista ao dizer que Bolsonaro seria um “presidente desastroso” refletem algo que vai além do que pensam os eleitores brasileiros: uma uma preferência da publicação pelo apoio à construção de cenários estáveis para o investidor estrangeiro. “A eleição de Bolsonaro tem sido considerada por ela um fator de instabilidade”, explicou ao blog Brasilianismo a cientista política Camila Maria Risso Sales.

Sales conhece bem a linha editorial da publicação de economia sobre o Brasil. Ela é autora da tese de doutorado “O Brasil na ‘Economist’: Pensando a influência do perfil político-ideológico da revista na formação da imagem internacional do país” (clique aqui para baixar a tese completa), defendida na Universidade Federal de São Carlos em 2016, em que analisou a histórica dos textos da publicação sobre o Brasil.

Leia também: Crítica a Bolsonaro, ‘Economist’ é liberal e também pediu saída de Dilma

Segundo sua pesquisa acadêmica, o Brasil sempre esteve presente entre os assuntos considerados relevantes pela “Economist”. “A posição político-ideológica da revista foi identificada a partir de duas ideias básicas: a defesa do liberalismo econômico conjugado com certo conservadorismo político. A forma como o Brasil foi noticiado e interpretado refletiu esse posicionamento”, diz sua tese.

Na entrevista abaixo, concedida no fim de semana após a publicação da revista que em sua capa chama Bolsonaro de “ameaça”, Sales explicou que o que faz a “Economist” se posicionar contra a candidatura do deputado pode ser depositado em dois fatores: problemas que sua vitória pode trazer para a já difícil governabilidade, e a defesa de valores liberais, sempre muito caros à publicação.

“A ‘Economist’ sempre sustentou valores liberais na economia, nasce com esse propósito. O olhar da revista é conduzido, portanto, pelo liberalismo político e econômico e por posturas conservadoras quanto a preservação dos direitos de propriedade, do Estado mínimo e do livre comércio”, diz a tese de Sales. “A revista tem um diapasão, que seriam as regras do livre mercado. Ela exalta o país quando este se aproxima delas e o deprecia se há afastamento.”

Brasilianismo – O que representa esta rejeição da “Economist” à candidatura de Jair Bolsonaro?
Camila Maria Risso Sales – A rejeição da ‘Economist’ a Bolsonaro era esperada. A revista tem uma preferência pelo apoio à construção de cenários estáveis para o investidor estrangeiro. A eleição de Bolsonaro tem sido considerada por ela um fator de instabilidade.

Brasilianismo – Fãs de Bolsonaro já acusam a economist de ser “comunista”. Que interesses a ‘Economist’ pode ter contra a eleição de Bolsonaro?
Camila Maria Risso Sales – A revista é a mais tradicional e importante publicação liberal do mundo. O que faz a publicação se posicionar contra a candidatura do deputado pode ser depositado em dois fatores: primeiro os problemas que sua vitória pode trazer para a já difícil governabilidade, a sustentação de Bolsonaro no legislativo será muito frágil segundo a ‘Economist’.

O segundo fator tem a ver com a defesa de valores liberais, sempre muito caros à publicação. O candidato, que tem, segundo ela um discurso de defesa de um conservadorismo social aliado a um liberalismo econômico, ataca valores da ordem liberal, especialmente aqueles relacionados à liberdade individual.

Brasilianismo – Quanto este posicionamento representa a opinião do mercado internacional?
Camila Maria Risso Sales – É difícil dizer, mas não há dúvidas que a revista é uma voz desse mercado.

Brasilianismo – A revista já publicou pelo menos duas grandes reportagens dizendo que Bolsonaro seria um presidente “desastroso”. Já houve na história uma rejeição tão grande da revista a algum outro nome da política do Brasil?
Camila Maria Risso Sales – Não. A revista sempre se posicionou sobre as eleições brasileiras, sempre recomendou voto nos candidatos que ela considerava mais alinhados ao seu perfil político-ideológico, mas nunca se posicionou contra um candidato dessa maneira, pelo menos não com tanto destaque. Em 1989, considerava que uma vitória das forças de esquerda, ou com Lula ou com Brizola, pudesse gerar instabilidade e via com melhores olhos a candidatura de Collor, apesar de naquele momento se apresentar pessimista com qualquer possibilidade.

Brasilianismo – A “Economist” ataca ele agora, mas qual o posicionamento dela em geral durante a ditadura no Brasil?
Camila Maria Risso Sales – O deputado Jair Bolsonaro foi mencionado pela primeira vez na revista em 2000. Nesse artigo, a revista tratava das relações civis-militares e do descontentamento das Forças Armadas com o então presidente Fernando Henrique Cardoso. A revista cita uma frase de Bolsonaro em que ele diz que Fernando Henrique Cardoso deveria ser morto por trair o país fazendo as privatizações. Mas quanto ao posicionamento da revista na ditadura militar podemos dizer que foi bastante pragmático e sempre teve a tendência de atrelar uma cobertura mais positiva do país ao cenário econômico, desconsiderando, em alguma medida a política. Se a economia ia bem, a ausência de democracia importava menos.

Hoje a ‘Economist’ considera o Bolsonaro uma ameaça populista à democracia, mas certamente está levando em conta a potencialidade de desestabilização ainda maior da economia que ele pode trazer.

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Crítica a Bolsonaro, ‘Economist’ é liberal e também pediu saída de Dilma
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Daniel Buarque

Capa da “Economist” chama Bolsonaro de ameaça

A edição mais recente da revista “The Economist” reitera um forte ataque à candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência. Além de chamar o candidato direitista de “ameaça”, a revista tem argumentado que ele seria um presidente desastroso para o Brasil.

Em editorial publicado nesta quinta-feira (20) com o título “Jair Bolsonaro, a última ameaça da América Latina”, a revista analisa o momento atual do Brasil e afirma que “a economia é um desastre, as finanças públicas estão sob pressão e a política está completamente podre”. Isso impulsionaria o candidato, mesmo que ele não seja visto como o nome ideal para resolver estes problemas.

A “Economist” é uma das publicações mais respeitadas do mundo, e pode ser vista ao mesmo tempo como um reflexo e uma referência para o pensamento das elites política e econômica do Ocidente. Apesar da postura muito crítica a Bolsonaro, ela tem uma linha editorial muito próxima do pensamento do mercado internacional, e bem longe da esquerda política.

“Para a revista importa estabilidade”, explica a socióloga Camila Maria Risso Sales, que fez seu doutorado sobre o histórico da cobertura que a revista faz sobre o Brasil. “A visão da ‘Economist’ é mais positiva sobre o Brasil se a política econômica do país se aproxima mais do viés liberal defendido pela revista”, disse a pesquisadora, em entrevista concedida ao blog Brasilianismo em 2016.

Um exemplo claro disso é a postura adotada pela publicação durante o governo de Dilma Rousseff. Em março de 2016, antes do impeachment, a “Economist” assumiu a defesa do fim do governo de Dilma. Segundo um editorial, a presidente havia se tornado inapta a governar, e deveria renunciar.

A derrubada do governo Dilma foi foco de várias reportagens e editoriais da publicação, que demonstrou uma postura com nuances a respeito da decisão.

Por um lado, a revista argumentou que a renúncia era uma saída melhor para a política brasileira e rejeitou a ideia de que o impeachment poderia ser comparado a um golpe de Estado. Por outro lado, um texto publicado após a saída de Dilma criticava o processo e dizia que tratava-se de um “jeitinho para burlar a Constituição”.

Com ataques a ambos os lados da polarização brasileira, a postura da “Economist” é de crítica mais ampla ao sistema político do país, que é fonte de instabilidades. Em vários dos textos em que analisa a crise dos últimos anos, a revista chama o sistema político brasileiro de excessivamente fragmentado, o que gera cacofonia de vozes e ideologias. O ideal, diz, seria uma reforma de toda a política do país.

A melhor forma de entender o que a “Economist” pensa é entender o modelo liberal de política econômica. Segundo Sales, a publicação alterna historicamente sua cobertura sobre o Brasil em momentos entusiasmo e de decepção dependendo do rumo tomado pela política econômica adotada pelo governo brasileiro.

“A ‘Economist’ alterna momentos entusiasmo e de decepção com o Brasil. Isso aconteceu em diversos momentos, em governos diferentes. O segundo governo Lula foi, por exemplo, um momento em que o noticiário era muito positivo. A gestão de Dilma Rousseff não foi vista com tanto otimismo”, complementou Sales.

Após a saída de Dilma, A revista escreveu vários textos mais favoráveis ao cenário político brasileiro, apoiando as reformas propostas pelo governo de Michel Temer, mas o otimismo do passado não voltou. A considerar as análises sobre a candidatura de Bolsonaro e sua liderança nas pesquisas, o pessimismo pode dominar por mais tempo.

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Bolsonaro é perigoso e seria um presidente desastroso, diz “The Economist”
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Daniel Buarque

Em um dos posicionamentos estrangeiros mais fortes a respeito da candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência, a revista “The Economist” diz que ele é um grande perigo para a democracia brasileira.

“Bolsonaro seria um presidente desastroso. Sua retórica mostra que ele não tem respeito suficiente por muitos brasileiros, incluindo gays e negros, para governar de forma justa. Há pouca evidência de que ele entende os problemas econômicos do Brasil bem o suficiente para resolvê-los. Seus ajoelhamentos à ditadura fazem dele uma ameaça à democracia em um país onde a fé nela foi abalada pela exposição da corrupção e a miséria da crise econômica”, diz a revista em um texto dedicado inteiramente ao candidato, chamado de “populista”.

Apesar de reconhecer que a rejeição a Bolsonaro é grande e que ele não tem apoio de grandes grupos políticos para impulsionar sua candidatura, a “Economist” ressalta que o mercado já flertou com sua candidatura, e alerta que outros países em crise elegeram líderes radicais antes ignorados, que isso poderia acontecer novamente. “Não há espaço para complacência”, diz.

O posicionamento da revista é importante pois ela costuma ser o principal reflexo da opinião da elite política e financeira internacional a respeito do Brasil. Por muito tempo, enquanto a economia e a política brasileira estavam em alta, a capa da revista mostrando o Cristo Redentor decolando era tratada como o símbolo da ascensão do país. Tempos depois, outras capas viraram reflexo da crise no país. De uma forma ou de outra, o posicionamento editorial mostra que o candidato não é bem aceito internacionalmente.

A análise da revista foi publicada em uma edição com grande espaço dedicado à eleição no Brasil, considerada um momento problemático para o país. Além do texto sobre Bolsonaro, um outro discute as incertezas em torno da eleição, chamada de a mais diferente que já houve. Ela comenta ainda o clima de desilusão dos brasileiros com a política.

O texto repete uma analogia bem comum quando publicações estrangeiras analisam a política brasileira, comparando a disputa eleitoral com uma novela em que é impossível adivinhar o fim.

A aposta mais certa para a política brasileira às vésperas de uma eleição conturbada é que a decisão não vai gerar as condições necessárias para a renovação política e econômica de que o Brasil precisa, diz a revista.

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Para ‘Economist’, distorções da economia brasileira ajudam bancos a lucrar
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Daniel Buarque

Uma das principais publicações voltadas para o mercado financeiro em todo o mundo criticou em sua edição mais recente a forma como os bancos funcionam no Brasil. Qualquer seja a situação da economia brasileira, diz a revista The Economist”, os bancos conseguem lucrar.

Mesmo durante a pior recessão da história do país, explica a revista, Itaú e Bradesco tiveram lucro acima de 15%, bem acima da lucratividade de um dígito registrada por bancos europeus, diz.

“A resiliência dos bancos brasileiros revela muito sobre a forma como a economia funciona”, diz. Segundo a “Economist”, o mercado financeiro é marcado por distorções que levam a esta situação.

Apesar do tom crítico, que pode soar estranho vindo de uma publicação que defende o mercado, a revista avalia que essas distorções já foram percebidas, e começam a ser corrigidas, ainda que lentamente.

“Forças do mercado e ações do governo estão fazendo com que a competição entre bancos cresça”, diz, apontando a entrada de novas opções, muitas delas ligadas a tecnologia, para a população.

Para fazer com que o crescimento da economia retorne, entretanto, vai ser preciso fazer mais, defende. “Se o próximo presidente levar a sério a ideia de manter as finanças públicas do país sob controle, e as taxas de juros de longo prazo caírem, o investimento e o crescimento enfim vão retornar”, diz.

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Entre Bolsonaro e o PT, democracia brasileira é quem perde, diz ‘Economist’
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Daniel Buarque

A edição mais recente da revista “The Economist” traz uma reportagem que se debruça sobre a polêmica jurídica em torno da prisão ou soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em uma análise que soa como crítica tanto a campanha do PT, a Jair Bolsonaro e à politização da Justiça do país, a revista indica que quem mais está perdendo no processo são as “frágeis instituições da democracia do Brasil”.

Segundo a revista, até a confusão jurídica gerada pela decisão sobre soltar Lula ou não, as chances de candidatura do ex-presidente estavam se reduzindo.

A polêmica acabou reforçando a campanha do PT e criando uma preocupação crescente “de que o Judiciário está se tornando outro fórum de política partidária”, diz.

“Mesmo que Lula não seja candidato, o PT está contando com esses argumentos para reforçar seu apoio. Se um número suficiente de eleitores acreditar que Lula foi injustiçado, é mais provável que eles apoiem com quem quer que ele indique. Em uma disputa entre o autoritário Bolsonaro e um candidato do PT sustentado pela indignação com os esforços anticorrupção, as frágeis instituições democráticas do Brasil seriam o único perdedor.”

O comentário da revista ecoa em parte as análises do colunista Mac Margolis, da agência de economia Bloomberg e de Kenneth Rapoza, da revista “Forbes”. As três análises podem ser interpretadas como um alinhamento do posicionamento do mercado internacional a respeito do que vem acontecendo na política do país, visto que se tratam de três das principais publicações de fora do país voltadas a investidores estrangeiros.

Em análise recente, Margolis argumentou que a democracia brasileira, a confiança da sociedade nas instituições políticas e mesmo o crescimento econômico do país estão sendo afetados por uma “incontinência jurídica”. Segundo ele, a inconsistência das decisões da Justiça brasileira faz com que o processo democrático esteja refém de incertezas.

O repórter da “Forbes”, por outro lado, direcionou a crítica à campanha pela liberdade de Lula. Segundo ele, “Lula não é um preso político”, e a campanha para convencer observadores externos de que Lula é perseguido politicamente vai continuar até a eleição e vai ter um impacto negativo para a reputação das instituições brasileiras.

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Greve revelou gosto do Brasil por políticas irresponsáveis, diz ‘Economist’
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Daniel Buarque

Uma análise publicada pela revista “The Economist” diz que o resultado prático dos dias de caos criados no Brasil pela greve de caminhoneiros que parou o país por quase duas semanas é que ficou evidente que o quanto as reformas estruturais são necessárias para que o Brasil funcione, mas ao mesmo tempo ficou claro que vai ser muito difícil levar qualquer reforma adiante.

“A greve dos motoristas, convocada para protestar contra aumento nos preços dos combustíveis, marca um começo ameaçador da temporada política que culminará nas eleições de outubro. Ela demonstrou o gosto dos brasileiros por políticas irresponsáveis e impulsionou as perspectivas do candidato mais radical da corrida presidencial, Jair Bolsonaro, um ex-capitão do Exército de direita.”

Segundo o texto da revista, a greve pode ser um divisor de águas para as eleições, mas também revelou que o próximo presidente terá dificuldade em aprovar reformas. “Os motoristas de caminhão tornaram mais urgente que o Brasil eleja um reformador como presidente em outubro. Eles também tornaram isso menos provável”, diz.

A “Economist” compara Bolsonaro a Donald Trump e a Rodrigo Duterte, das Filipinas, e diz que ele reflete a insatisfação dos brasileiros com a política do país. Além dele, a revista fala sobre a possibilidade de Ciro Gomes crescer na disputa, e diz que ele “ocasionalmente soa como um populista”.

Segundo a publicação, entretanto, a esperança do mercado ainda é um crescimento de Geraldo Alckmin, apesar de ele continuar com pouca intenção de voto nas pesquisas.

“Alckmin é o único dos principais candidatos com entusiasmo pelo programa de reformas econômicas iniciado por Michel Temer, que ajudou a tirar o Brasil de sua pior recessão de todos os tempos.”

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Prisão de Lula cria polarização política até entre analistas estrangeiros
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Daniel Buarque

A divisão de preferências políticas que está radicalizando o Brasil nos últimos anos tem se mostrado presente também entre analistas estrangeiros que observam o desenrolar do noticiário sobre o país.

A cisão entre brasilianistas começou a ficar evidente na época do impeachment de Dilma Rousseff, quando uma disputa levou a rompimentos na Brazilian Studies Association (Brasa). Com a determinação da prisão do ex-presidente Lula, esta polarização fica evidente nas entrevistas e artigos dos brasilianistas.

Por mais que as primeiras análises sérias sobre o caso não incluam nenhuma celebração pela decisão do juiz Sergio Moro de decretar a prisão de Lula, é evidente a diferença entre análises. Enquanto alguns veem o avanço de um processo institucional contra a impunidade de elites políticas, outros criticam um suposto ataque à democracia brasileira.

Segundo o brasilianista Matthew M. Taylor, professor da American University especialista em temas relacionados a democracia e corrupção no Brasil, a prisão de Lula é um momento triste para o Brasil, mas é um importante “marco histórico” para o país, pois representa uma mudança na forma como a elite brasileira é tratada pela Justiça, reduzindo a sensação de impunidade.

A avaliação é parecida com a do editor da revista “Americas Quarterly”, Brian Winter. Em uma série de textos publicados no Twitter, Winter disse que “a história da Justiça brasileira tem falhas, mas continua a ser uma inspiração em toda a América Latina, mostrando pessoas poderosas na política e os negócios podem ser responsabilizados. Muitos outros tentando imitar.”

Winter admite que é impossível justificar por que Lula vai para a prisão quando tantos outros políticos corruptos continuam livres no país. Ele alega, entretanto, que o caso do ex-presidente passou por todo o devido processo legal.

“Lula foi condenado em um julgamento aberto. A decisão foi unanimemente confirmada pela segunda instância. Moções subseqüentes foram rejeitadas pelos tribunais superiores, incluindo o Supremo”, disse. Ele ressaltou ainda o fato de que cinco dos seis juízes do STF que votaram contra a moção de habeas corpus a Lula foram nomeados por ele ou por Dilma.

Este também é o tom da análise da revista “The Economist”: “Quaisquer que sejam suas falhas e riscos, a luta contra a corrupção marca um avanço. (…) Sem a delação premiada e com a abordagem estreita e formalista da corrupção adotada antes do Mensalão, os contribuintes eram roubados e os eleitores enganados. Pelo menos, isso deve ser mais difícil a partir de agora”, diz.

O “Financial Times” segue linha semelhante: “A decisão polêmica, que poderia levar Lula para detrás das grades, marca a queda triste e ignominiosa de um político notável. Mas também mostra que ninguém está acima da lei –um desenvolvimento positivo e até mesmo revolucionário em um país atormentado pelo legalismo extremo, mas também pela grande ilegalidade.”

O dissenso é evidente na comparação com a opinião de Mark Weisbrot, codiretor do Centro de Pesquisa Econômica e Política (CEPR), nos EUA. Em um texto publicado pelo CEPR, Weisbrot chama a decisão de Moro de “ataque à democracia”.

A prisão de Lula, diz Weisbrot, é uma “clara tentativa de evitar uma volta do Partido dos Trabalhadores ao governo”. “A direita brasileira sabe que não teria chance contra Lula nas eleições deste ano, assim como perdeu duas vezes de Lula antes e depois mais duas de Dilma. Então, assim fizeram com Dilma, eles estão usando outros meios para mantê-lo fora do poder”, diz.

Weisbrot tem denunciado o que chama de “golpe da elite” desde a época do impeachment. Ele também foi autor de um texto de opinião publicado recentemente pelo “New York Times” alegando que a democracia brasileira estava mergulhando em um abismo.

A crítica à prisão de Lula aparece também em uma carta publicada por um grupo de parlamentares e acadêmicos britânicos no jornal “The Guardian”.

“Lula tem sido submetido a uma campanha contra ele, onde seus direitos humanos básicos foram violados. Como parte disso, Lula foi submetido a acusação e condenação políticas, ignorando evidências de sua inocência e desencadeando uma crise de confiança no Estado de Direito. Não se trata apenas de um homem, mas do futuro da democracia no Brasil”, diz a carta assinada por 16 políticos e acadêmicos.

O “Guardian” também publicou uma curta análise do pesquisador britânico Richard Bourne, autor de uma biografia de Lula. Para ele, a prisão de Lula deveria servir para acordar a esquerda brasileira, que não deve depender apenas do ex-presidente.

“A ameaça de um retorno a um passado reacionário é muito premente. Basta ver a popularidade do direitista Jair Bolsonaro, um admirador do regime militar, no período que antecede as eleições presidenciais deste ano. A raiva e a decepção com a decisão dos juízes devem ser convertidos em um desejo positivo de limpar o sistema político, acabar com a recessão e levar o país adiante novamente”, diz.

A preocupação com a escolha do novo presidente é foco também de um editorial publicado pela rede alemã Deutsche Welle. Segundo o texto escrito por Alexandre Schossler, há muitas evidências contra o ex-presidente Lula, mas sua prisão reforça a ideia de que o Brasil se transformou em um “país de incertezas” às vésperas da eleição.

Para o historiador James Green, professor da da Universidade Brown, a divergência de opiniões é normal. Em entrevista concedida na época do impeachment de Dilma, ele alegou que “se existe uma partidarização no Brasil, seria estranho que brasilianistas não discutissem isso. A polarização está em todo canto, e o debate é normal, faz parte da democracia”.

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Democracia brasileira é reprovada duas vezes por análises internacionais
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Daniel Buarque

Relatório do think tank da revista ‘The Economist’ sobre a democracia no mundo

Dois estudos internacionais sobre o estado da democracia no mundo divulgados quase simultaneamente no Reino Unido e na Alemanha indicam uma percepção internacional de crescente reprovação à democracia no Brasil.

Segundo tanto o Índice da Democracia, estudo do think tank da revista britânica “The Economist” (Economist Intelligence Unit) quanto Atlas das Sociedades Civis, elaborado pela ONG alemã Brot für die Welt, há sérios problemas com a democracia brasileira neste ano de eleição presidencial.

A democracia do Brasil recebeu nota 6,86 no índice de democracias da “Economist”, o que faz o sistema do país ser considerado uma “democracia com falhas”.

O país voltou a registrar uma piora em sua avaliação pelo terceiro ano seguido, perdendo 0,04 ponto desde a avaliação do ano passado (6,90) e mantendo-se abaixo da nota 7, o que faz desde 2015. Em 2014 o Brasil recebeu nota 7,38, melhor avaliação em mais de uma década.

O estudo é um panorama do estado da democracia em todo o mundo, avaliando a situação em 165 estados independentes e dois territórios. Ele leva em consideração cinco categorias: Processo Eleitoral e Pluralismo, Liberdades Civis, Funcionamento do Governo, Participação Política e Cultura Política. Cada país recebe uma nota por item, para em seguida ser categorizado como ”Democracia Completa”, ”Democracia com Falhas”, ”Regime Híbrido” ou ”Regime Autoritário”.

O Brasil recebeu apenas a 49ª nota mais alta no índice. O país até foi bem avaliado no quesito Processo Eleitoral e Pluralismo, com nota 9,58. A avaliação de Funcionamento do Governo (nota 5,36) e Cultura Política (nota 5), entretanto, pioraram a percepção geral do sistema brasileiro.

O país vai mal especialmente por conta de questões ligadas a corrupção, considerada o principal problema da América Latina, segundo o estudo. “Investigações de corrupção continuaram a engolir a classe política brasileira, expondo condutas ilegais entre políticos e várias das maiores empresas do país, incluindo especialmente propina em troca de contratos com o governo e outros favores políticos”, diz o relatório.

Apesar de ter sido publicado uma semana após a condenação em segunda instância do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o líder do PT não chega a ser citado, e é o atual mandatário, Michel Temer, que aparece sob críticas no estudo.

“O presidente Michel Temer evitou por pouco um julgamento por acusações de corrupção depois que seus aliados no Congresso votaram para barrar dois pedidos separados do procurador-geral para abertura de inquérito na Suprema Corte.”

Gráfico da Deutsche Welle sobre a situação da democracia no mundo

Além da avaliação negativa do índice elaborado pela EIU, o Brasil também foi criticado pelo atlas de democracias elaborado na Alemanha. Segundo reportagem da rede alemã Deutsche Welle, a análise diz que o Brasil vive uma “grave crise democrática” desde o impeachment de Dilma Rousseff.

O estudo colocou o Brasil entre os países onde a atuação da sociedade civil e o exercício das liberdades individuais é apenas “limitado”.

A DW cita o relatório, que indica que, “a participação ativa na política, por meio de movimentos sociais, dá cada vez mais lugar à criminalização de ativistas. O clima político é cada vez mais determinado por um conservadorismo religioso”, diz.

A avaliação é ainda mais interessante porque a ONG Brot für die Welt, responsável pelo estudo, é ligada à Igreja Evangélica da Alemanha (EKD).

A avaliação critica ainda a violência policial contra manifestações políticas. “Unidades especiais agem com gás lacrimogêneo, granadas de luz e som, balas de borracha e, em parte, munição letal contra os manifestantes”, diz, segundo tradução da rede de notícias alemã.

Além das críticas à situação política do Brasil, os dois estudos também apontam para problemas em democracias por todo o mundo.

A Noruega, a Islândia e a Suécia são considerados os países mais democráticos do mundo segundo o estudo da “Economist”, mas apenas 19 das nações avaliadas são consideradas democracias plenas. Já o Atlas das Sociedades Civis diz que apenas 2% da população mundial vive em sociedades onde é possível se expressar e atuar politicamente de forma completamente livre.

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Condenação não dá fim à carreira política de Lula, diz ‘Economist’
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Daniel Buarque

Condenação não dá fim à carreira política de Lula, diz ‘Economist’

O resultado da decisão do TRF-4 condenando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não chegou a ser uma surpresa, segundo reportagem da revista “The Economist”.  Por mais que a condenação vá afetar os planos dele para a eleição de outubro, ela não vai encerrar a carreira de Lula, que vai continuar tendo força política no país, diz.

“Quer ele esteja na cédula ou não, as paixões que Lula alimenta vão dominar as eleições”, diz a revista ao analisar a perspectiva política do país.

Assim como a maior parte das análises internacionais sobre a decisão jurídica, o foco da revista é na escolha do próximo presidente do Brasil.

A condenação de Lula “significa que a eleição, que está sento tratada como a mais importante desde o fim da ditadura em 1985, vai ser uma bagunça”, avalia.

Segundo a “Economist”, se Lula conseguir sair candidato independentemente das condenações e vencer, pode abrir uma cirse constitucional no país. Se ele ficar fora da eleição, por outro lado, muitos vão dizer que o processo não teve legitimidade.

Em meio ao processo “confuso”, a revista ressalta que mesmo entre os oponentes há uma preferência por ver Lula candidato. Essa situação, segundo a “Economist”, poderia ajudar um candidato de centro a se contrapor a posturas radicais de direita e de esquerda.

Apesar da falta de um plano B do PT, a revista diz que a manutenção de Lula como candidato mesmo após a condenação faz sentido. “Quanto mais tempo Lula continuar na disputa antes de desistir, mais votos seu substituto tem probabilidade de conquistar”, diz.

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‘The Economist’ diz que jovens podem ajudar a salvar democracia do Brasil
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Daniel Buarque

‘Economist’ diz que jovens podem ajudar a salvar democracia do Brasil

A menos de um ano do que a revista chama de “eleição mais importante para a democracia brasileira”, a “The Economist” diz que jovens ativistas que tentam entrar na política podem ser uma esperança para o futuro do Brasil.

“Como jovens brasileiros esperam limpar a política”, diz o título de uma reportagem publicada em sua edição mais recente.

A revista deixou um pouco de lado o pessmismo de analistas que apontam para o risco do populismo de novos candidatos na política brasileira, e mostrou que há novos atores ingressando com novas propostas na disputa pelo poder.

O contexto é o mesmo que gera preocupação: Um Congresso tomado por velhos grupos que dominam a política brasileira há décadas e que não tem mais nenhuma confiança da sociedade. Mas a resposta ao problema do discrédito da velha guarda pode vir de uma nova geração, diz.

“Jovens brasileiros estão fartos. (…) Mas renovar o Congresso brasileiro não vai ser fácil. Candidatos independentes são proibidos e partidos são fechados a novatos. Em alguns estados, os assentos estão nas mãos de famílias conhecidas”, explica.

Ainda assim, diz, diferentes grupos, com diferentes ideologias, estão buscando a cura para o problema. “A renovação política pode não acontecer da noite para o dia”, diz.

A “Economist” é uma das publicações internacionais mais atentas ao que acontece no Brasil. Sua abordagem busca sempre um alinhamento do país a uma política econômica de viés liberal, segundo uma pesquisa acadêmica sobre a cobertura que a publicação faz sobre o Brasil.

A análise da “Economist” ecoa a avaliação do editor chefe da revista “Americas Quarterly”, um dos mais ativos analistas estrangeiros da situação do Brasil. Em uma entrevista concedida ao blog Brasilianismo há quase um ano, Brian Winter se dizia preocupado com a crise política no país, alegava ver riscos de o Brasil seguir o rumo dos EUA sob Trump e apontava a falta de jovens políticos como um dos maiores problemas do país.

“Quando viajo pela América Latina, vejo políticos jovens, com 30 ou 40 anos de idade, atuando de forma intensa na política local. No brasil não há ninguém assim. No Brasil não há lideranças jovens.É difícil até achar algum político ativo abaixo dos 50 anos. O governo atual é dominado por pessoas na casa do 70 anos, e isso é incrível. A forma como as eleições acontecem no Brasil dá muito poder aos partidos, e isso impede a emergência de novos partidos e novos nomes no país. São barreiras institucionais que impedem essa mudança geracional”, dizia.

Segundo a “Economist”, talvez isso tenha começado a mudar.

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