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Mídia estrangeira vê esquerda e direita juntas contra a Justiça no Brasil
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Daniel Buarque

Reportagem da 'New Yorker' comenta ataques contra o Judiciário no Brasil

A cobertura da imprensa internacional sobre a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por corrupção evoluiu rapidamente do noticiário para análises em que políticos de esquerda e de direita são vistos juntos em uma luta contra o poder Judiciário, principal pivô da luta contra a corrupção no país.

Para muitos observadores estrangeiros, a tese de que Lula sofre perseguição política não se sustenta, e por todos os lados do país há uma tentativa de minimizar o descrédito da classe política brasileira com ataques a juízes e promotores.

Essa interpretação está evidente em uma reportagem publicada pelo jornal americano ''The New York Times'', que diz que rivais políticos veem o Judiciário como uma ameaça comum.

''Adversários políticos em lados muito diferentes do espectro ideológico estão confiando na mesma estratégia de sobrevivência: atacar a legitimidade dos promotores e juízes que se propuseram a desmantelar a cultura da corrupção que os políticos brasileiros institucionalizaram ao longo de décadas'', diz, citando Lula e o presidente Michel Temer como parte deste movimento.

O jornal diz que os políticos acusam o Judiciário de ser tendencioso, mas explica que organizações importantes na luta contra a corrupção, como a Transparência Internacional, acreditam no processo como um ''momento transformador'' no país.

A tese de motivação política da Lava Jato também é recusada por reportagem na revista ''The New Yorker''. O ex-correspondente Alex Cuadros detalha as acusações contra Lula, mas diz que as investigações vão além dele.

''O problema dessa teoria [da perseguição política] é que a Operação Lava Jato também teve como alvo políticos de direita. O atual presidente, Michel Temer, que ajudou a orquestrar o impeachment de Dilma Rousseff, é uma das muitas figuras conservadoras que enfrentam acusações de corrupção. Na verdade, políticos poderosos tanto na direita quanto na esquerda começaram a se unir silenciosamente contra a Lava Jato'', diz.

Reportagem do 'New York Times'' sobre ataques contra a Justiça no Brasil

A reportagem chama a condenação de Lula de ''a mais importante na história do Brasil''. Cuadros explica o processo contra o ex-presidente, diz que Lula não foi o primeiro presidente a se envolver em corrupção, mas alega que ele incorporou a cultura do ''rouba, mas faz''.

''Lula ajudou milhões de pobres do país, mas defender ele cria o risco de enfraquecer a luta contra a impunidade.''

A agência de economia Bloomberg também publicou um editorial analisando a condenação de lula e o estado da luta contra a corrupção no Brasil. Em sua avaliação, a Justiça está avançando muito no país, mas precisa garantir que as investigações têm total transparência.

''Os mercados comemoraram a condenação de Lula, cujas políticas populistas foram vistas como uma ameaça à passagem de reformas econômicas muito necessárias. Eles também saudaram a aprovação da legislação que tornará os mercados de trabalho brasileiros mais flexíveis. Mas quem torce por uma recuperação econômica mais rápida deve lembrar que o sucesso das reformas –começando com correções no sistema de previdência do Brasil – depende, em última instância, do apoio público. este apoio não existirá enquanto os eleitores acreditarem que seus representantes estão além do alcance da justiça.''

A análise publicada pela revista ''The Economist'' vai além em sua crítica aos ataques à Lava Jato. Essa posição, diz, é que tem interesses partidários.

A publicação admite que houve alguns exageros por parte da Justiça, mas defende que, se ela for além do ex-presidente, não será possível chamá-se de tendenciosa.

A defesa da continuidade da Lava Jato além da condenação de Lula tem sido o tom mais forte da imprensa e de analistas estrangeiros desde o anúncio da decisão do juiz Sérgio Moro.

Em editorial, o jornal de economia ''Financial Times'' explicou que a luta contra a corrupção é um processo que afeta o país, mas que é preciso continuar com este esforço.

''Mudar o Brasil de vez requer um trabalho mais profundo –como a reforma dos sistemas partidários e eleitorais do país. É desse poço que vem a corrupção. O desafio do próximo presidente do Brasil é drenar este poço e restaurar a confiança nas instituições políticas'', diz.

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Em editorial, ‘Financial Times’ trata condenação de Lula como ‘necessária’
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Daniel Buarque

O jornal de economia ''Financial Times'' diz que a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por corrupção foi ''impressionante'' e ''extraordinária'', por mais que até a defesa do ex-líder já esperasse por ela. Segundo editorial da publicação, ao atingir Lula, a Operação Lava Jato chegou a seu ponto mais alto no expurgo da corrupção, um processo difícil e que paralisa o país, mas que é necessário.

''Como um expurgo da corrupção, o do Brasil tem sido abrangente e politicamente imparcial, e seu judiciário independente é um exemplo saudável. Ele mantém a perspectiva de um país genuinamente melhor. Mas também tem sido radicalmente perturbador.''

O preço da investigação, segundo o jornal, é o descrédito da classe política, a incerteza quanto às eleições do próximo ano e a contínua crise econômica, com a pior recessão da história.

''Mas o preço de não fazer o expurgo seria ainda mais alto'', diz, apontando à situação da Venezuela como um exemplo da impunidade na política –um exemplo tradicional na mídia estrangeira de país em situação pior do que a do Brasil.

Para o jornal, apesar de ser uma decisão simbólica, a condenação de Lula não pode parar a luta contra a corrupção.

''Mudar o Brasil de vez requer um trabalho mais profundo –como a reforma dos sistemas partidários e eleitorais do país. É desse poço que vem a corrupção. O desafio do próximo presidente do Brasil é drenar este poço e restaurar a confiança nas instituições políticas.''

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Lava Jato precisa ir além de Lula, ou será tendenciosa, diz ‘The Economist’
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Daniel Buarque

'The Economist': Lava Jato precisa ir além de Lula, ou será tendenciosa

Com a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o início da discussão sobre possíveis crimes do atual presidente, Michel Temer, a Operação Lava Jato chegou nesta semana a seu ponto crítico, segundo a avaliação da revista ''The Economist''.

Em texto publicado em sua edição mais recente, a publicação elogia os esforços da operação contra a corrupção, que cresceu desde sua origem, ''ameaçou o establishment político'' e gerou protestos por todos os lados.

Apesar de haver alguns exageros por parte da Justiça, diz, ''a Lava Jato revelou e puniu infrações generalizadas. Ela acabou com uma tradicional prática brasileira de incapacidade de punir crimes do colarinho branco''.

As críticas à operação, explica, têm interesses partidários, tanto pela esquerda (com Lula) quanto pela direita (com Temer), e tentativas de minar a Lava Jato são alarmantes.

''Se a investigação terminasse agora, Lula estaria certo em alegar que ela é tendenciosa'', avalia.

A revista diz ainda que apesar de a força-tarefa da Lava Jato ter sido encerrada, não há indícios de fim para a operação, que ainda tem ''muitos alvos'', é apoiada pela maioria da população e precisa ser levada adiante.

''Muitos brasileiros veem a chance de um país melhor emergir das investigações. Nisso eles com certeza estão certos.''

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Transparência Internacional vê condenação de Lula como ‘fim da impunidade’
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Daniel Buarque

A condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por corrupção é um forte sinal de que as leis e o Estado de Direito estão funcionando no Brasil e de que não há impunidade nem para os mais poderosos, diz um comunicado da ONG Transparência Internacional, uma das principais organizações globais de combate à corrupção.

Um dos pontos mais importantes da condenação, diz, é que ela acontece em meio a esforços para combater atos ilícitos de políticos e empresários de todas as ideologias e partidos.

''Lula não é o único político de alto nível no foco das investigações de corrupção'', diz o comunicado, citando o diretor da ONG de combate à corrupção, José Ugaz.

''O atual presidente, Michel Temer, que está no lado oposto do espectro político, também enfrenta acusações de corrupção, assim como o senador Aécio Neves, que concorreu contra a ex-presidente Dilma Rousseff na última eleição presidencial'', complementa.

Segundo a TI, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal precisam agir com imparcialidade ao avaliar todos esses casos. ''Não deve haver impunidade'', diz.

O texto também elogia os esforços da Operação Lava Jato no combate à corrupção no Brasil.

''O escândalo da Lava Jato tocou políticos de todos os partidos e os mais poderosos empresários do Brasil. Não é uma surpresa que os investigadores e juízes da Lava Jato estejam enfrentando ataques de todos os lado. Isso é prova de que a corrupção não faz distinção entre ideologias e partidos políticos'', diz.

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Condenação de Lula é o tema mais popular em redes sociais e buscas no mundo
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Daniel Buarque

Condenação lula é primeiro lugar em tendências do Google nos EUA

A condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por corrupção se tornou um dos assuntos mais populares em redes sociais e sites de buscas, além de ter grande destaque na imprensa internacional.

Às 19h, a decisão do juiz Sérgio Moro era o assunto mais popular em buscas no Google em muitos países, segundo o site Google Trends, que analisa tendências da internet.

Condenação de Lula é destaque em vários países do mundo no Google Trends

A condenação era primeiro lugar no Trends dos Estados Unidos, e aparecia entre os mais populares também na França, da Alemanha e da Argentina.

Segundo um levantamento da agência de comunicação Imagem Corporativa, a condenação dominou também o Twitter internacional, com Lula em primeiro lugar nos Trending Topics global, com mais de 73 mil menções, e Sérgio Moro em 6º lugar.

Análise da Imagem Corporativa indica que Lula foi um dos assuntos mais populares no Twitter mundial

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‘NYT’: Condenação por corrupção pode atrapalhar volta de Lula à política
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Daniel Buarque

Destaque dado à prisão de Lula na página inicial do 'New York Times'

Levantamento realizado pela ''Folha de S.Paulo'' mostra as primeiras reações da imprensa internacional à condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a nove anos de prisão pelo juiz Sérgio Moro.

O jornal americano ''The New York Times'' enviou notificação aos leitores que têm o aplicativo móvel do jornal noticiando a sentença proferida pelo juiz Sergio Moro.

''O ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, figura influente na região, foi condenado a quase dez anos de prisão'', informa o ''NYT''.

''Lula pode apelar da condenação, mas a decisão pode ser uma séria pancada em seus planos de voltar à política. Ele vinha sendo amplamente considerado um dos principais candidatos à eleição presidencial do próximo ano'', complementa o jornal americano.

O ''Washington Post'' também enviou notificação aos seus leitores: ''Ex-presidente brasileiro Lula condenado por corrupção''.

O jornal britânico ''Financial Times'' e a rede BBC, além do francês ''Le Monde'', também noticiaram com destaque em suas plataformas digitais a condenação do petista.

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Se CLT funcionasse, Brasil seria melhor país para trabalhar, diz americano
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Daniel Buarque

Tratada como prioridade pelo governo do presidente Michel Temer, a reforma trabalhista parte do princípio de que há necessidade de atualizar as leis definidas nos anos 1940 na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), pelo governo de Getúlio Vargas. O objetivo seria diminuir o ''custo Brasil'' criado por leis “ultrapassadas”, que não se adaptaram à realidade atual.

Segundo um dos maiores especialistas estrangeiros em leis trabalhistas no Brasil, entretanto, este argumento é cheio de falhas. Para John D. French, professor da universidade Duke, na Carolina do Norte, e doutor pela universidade Yale, a legislação do trabalho do Brasil é avançada desde sua criação, mas nunca foi totalmente aplicada, o que fez com que ela tenha sido flexibilizada desde a origem da CLT. O argumento de que a CLT aumenta o ''custo Brasil'' é exagerado, avalia.

“Por conta da má aplicação das leis trabalhistas no Brasil, a CLT já foi essencialmente flexibilizada desde o começo, e não acredito que ela seja, em si, um obstáculo para o desenvolvimento econômico do Brasil”, explicou French, em entrevista concedida ao autor do blog Brasilianismo em 2010, mencionada no livro “Brazil, um país do presente”.

French é autor do livro ''Drowning in Laws: Labor law and brazilian political culture'' (Afogando-se em leis: Lei trabalhista e cultura política brasileira), versão lançada em 2004, em inglês e mais completa, do estudo ''Afogado em Leis'', lançado anteriormente no Brasil. O trabalho é um resumo de anos de estudos no ABC Paulista, acompanhando os movimentos trabalhistas da região e relacionando-o à história política e econômica do Brasil.

Para o pesquisador, a evidência do crescimento e estabilidade econômicos durante os oito anos de governos de FHC e Lula indica que as leis trabalhistas não são obstáculo para o desenvolvimento do Brasil.

“Mesmo sem uma mudança na essência da lei, nesse período a economia do Brasil se deu muito bem, com aumento do emprego formal, com progresso”, disse. Nesse período, ''o Brasil parou de tentar enfraquecer as leis trabalhistas para acomodar os interesses dos empregadores, e mesmo assim o investimento estrangeiro só faz crescer”.

Em sua pesquisa, o professor americano se refere à legislação brasileira como uma das mais avançadas do mundo. Segundo ele, desde o princípio a legislação foi considerada avançada demais para o Brasil, e desde o começo ela foi mais teoria do que prática. “Se o universo do trabalho de fato operasse de acordo com a CLT, o Brasil seria o melhor lugar do mundo para se trabalhar. E mesmo se metade da CLT fosse posta em prática, o Brasil seria visto como um dos lugares mais decentes e razoavelmente humanos para os trabalhadores”, diz.

Entretanto, “rapidamente ficou claro que a CLT, apesar do seu alcance inclusivo, era muito desequilibradamente aplicada na prática –ela era aplicada de forma diferente em áreas rurais e urbanas, em várias regiões e dentro de ocupações e setores nas áreas urbanas”, avalia.

O professor americano John D. French

O grande problema das leis trabalhistas do Brasil é a diferença entre a teoria e a prática. Esta diferença, entretanto, pode ser uma das razões para a sobrevivência da CLT por mais de sete décadas.

“Se assumirmos, entretanto,que os arquitetos da lei não estavam agindo de boa fé, este vazio pode ser visto como a chave para a sobrevivência da CLT e a origem do seu sucesso contínuo. Se a CLT tivesse sido aplicada vigorosamente, conflitos profundos teriam se seguido entre a burocracia do governo e os poderosos interesses privados. Ao não aplicar a lei de forma consistente, porém, o governo e a Justiça ganharam ao menos a tolerância desses grupos ao agir em nome deles, mesmo que o sistema não tivesse sido estabelecido em sua defesa.”

Segundo French, o Brasil tem este costume de criar leis avançadas que não são postas em prática.

“A elite letrada do Brasil tem historicamente criado um mundo alternativo nas leis que são colocadas no papel. Eles criam mundos imaginários de perfeição que os faz pensar que estão participando de uma tendência global, como se a realidade do Brasil e dos países da Europa fosse a mesma. Ao mesmo tempo, há o desejo de ter leis perfeitas, mais avançadas de que em qualquer país do mundo, mesmo que elas nem sempre funcionem na prática. O Brasil é uma sociedade cheia de leis, mas ao mesmo tempo uma sociedade sem leis”, disse.

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Venezuela e China ajudam a melhorar imagem do Brasil entre correspondentes
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Daniel Buarque

Comparação com crise na Venezuela faz problemas do Brasil parecerem menores para correspondentes

A comparação com quem está pior costuma ajudar o Brasil na projeção da sua imagem internacional.

A partir do relato um tanto melancólico de dois ex-correspondentes estrangeiros que se despediram do país após longo período cobrindo notícias brasileiras, o referencial de dificuldades enfrentadas em países como China e Venezuela faz com que os problemas do Brasil pareçam pequenos em perspectiva global.

Simon Romero, que era correspondente do “New York Times” no Brasil desde 2011 e deixou o país na semana passada, morou em Caracas antes de se mudar para o Rio de Janeiro. Enquanto o Brasil se afundava em crise e via crescer uma forte polarização política, ele olhava para o que vivenciou na Venezuela, e acabava achando que as coisas não iam tão mal no Brasil.

“Antes de chegar ao Brasil em 2011, passei cinco anos em Caracas, cobrindo principalmente a evolução política na Venezuela. A polarização certamente aumentou no Brasil durante o impeachment de Dilma Rousseff, mas, felizmente, o Brasil permanece menos dividido como uma sociedade do que a Venezuela”, disse Romero em entrevista ao blog Brasilianismo.

O mesmo argumento vale para sua experiência com hostilidades enfrentadas por trabalhar como jornalista estrangeiro no país. Questionado se sofreu algum tipo de pressão enquanto atuava no Brasil, Romero lembrou de ter sido criticado publicamente pelo governo Venezuelano, o que o fez achar o Brasil muito mais tranquilo.

“Felizmente, talvez eu tenha aprendido mais sobre a hostilidade em relação à mídia na Venezuela. Houve momentos em que eu fui criticado na televisão estatal ou em particular pelos ministros ou publicamente em sites associados ao governo, e isso às vezes era desconfortável”, contou.

Relato bem parecido é o de Jonathan Watts, ex-correspondente do jornal britânico “The Guardian” no Brasil, que também deixou o país neste mês. Em seu texto de despedida da América Latina após cinco anos atuando no Brasil, ele contou que foi apontado pelo ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, que o chamou de “gringo”.

O artigo de Watts faz muita referência comparativa entre o Brasil e a China, onde ele morou antes de se mudar para o Rio de Janeiro. Em alguns momentos o tom é mais negativo para o Brasil, pois ele compara a ascensão ininterrupta da China à crise profunda em que o Brasil se encontra. Ao tratar do seu trabalho como jornalista, entretanto, o Brasil aparenta ser um país muito mais livre e democrático.

Ele comenta o contraste entre a vida na China e no Brasil, desde o contato com a natureza e as belezas do Rio de Janeiro à facilidade em ter acesso a líderes políticos do país, o que não havia na China.

''Depois dos Estados comunistas do Leste Asiático, a abertura e acessibilidade dos líderes democráticos da América Latina foram um choque bem-vindo'', diz.

Esta comparação com problemas de outros países há anos ajuda o Brasil a consolidar sua imagem positivamente no resto do mundo. Até mesmo quando o país ia bem, por volta de 2010, boa parte dos elogios que recebia no resto do mundo vinha com comparações com outros países.

Isso era comum até mesmo ao tratar da presença do Brasil entre os BRIC. Por mais que crescesse menos do que os outros países do acrônimo, analistas costumavam defender que o Brasil era o mais previsível e estável do grupo, mais pacífico do que os três, mais democrático e livre (e menos corrupto) do que Rússia e China e menos pobre do que a Índia. Na perspectiva global, o Brasil se saía melhor mesmo com economia mais frágil.

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Cobrir impeachment sem maniqueísmo foi um desafio, diz ex-‘NYT’ no Brasil
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Daniel Buarque

A popularidade da expressão “deu no ‘New York Times’” e o interesse dos brasileiros pelo que o jornal americano publica sobre o país ajudou a abrir portas para o trabalho de Simon Romero, ex-correspondente do jornal, que deixou o Brasil na semana passada. Por outro lado, a atenção dedicada à cobertura da imprensa estrangeira fez com que o jornalista aumentasse o cuidado tomado com o que escrevia.

“Eu adoro essa expressão. Ela abre portas em todo o país e oferece uma lembrança da importância que as pessoas associam ao ‘New York Times’”, disse Romero em entrevista ao blog Brasilianismo, poucos dias após deixar o país.

Ao contrário do caso emblemático de Larry Rohter, que foi correspondente do “NYT” antes dele e que chegou a ser ameaçado de expulsão do país durante o governo Lula, Romero diz que sofreu menos hostilidades de políticos no país do que muitos colegas brasileiros, e indica que Venezuela e mesmo os EUA seguem em caminhos mais complicados para jornalistas do que o Brasil.

Depois de mais de cinco anos chefiando a cobertura que o”‘NYT” faz no Brasil, Romero se despede em um momento crítico para o país, com grave crise, mas se diz otimista quanto ao futuro. Um dos motivos para isso, diz, é que antes de vir para o Brasil ele morou na Venezuela, onde a situação social, a polarização política e a pressão sobre os jornalistas são muito maiores.

Na entrevista abaixo, ele relembra algumas de suas coberturas jornalísticas mais importantes no Brasil, e diz que 2016 foi um ano marcante, com impeachment, zika e Olimpíadas.

Para Romero, coberturas políticas em momentos complexos como o impeachment precisam fugir do maniqueísmo. “Esses dramas políticos raramente são simples como preto e branco, pois há muitos interesses diferentes envolvidos na luta pelo poder. É na área cinzenta que podemos encontrar algumas das melhores histórias.”

Brasilianismo – Os brasileiros adoram a expressão ''deu no ‘New York Times’'', em referência ao que o jornal fala sobre o país (este blog Brasilianismo trata disso com frequência). Como você lidou com isso enquanto trabalhou como correspondente no Brasil?

Simon Romero – Eu adoro essa expressão. Ela abre portas em todo o país e oferece uma lembrança da importância que as pessoas associam ao “New York Times”. É claro que muitos dos assuntos sobre os quais escrevemos já foram cuidadosamente abordados na mídia brasileira. Mas os brasileiros prestam muita atenção a como o país é retratado internacionalmente, então isso faz a imprensa estrangeira ter cuidado com o que escreve.

A expressão também reflete o excelente trabalho feito por meus antecessores como correspondentes no Brasil. Durante a ditadura, por exemplo, “The New York Times” informou sobre questões como abusos de direitos humanos, má gestão econômica e limites à liberdade de expressão, na época em que os jornais brasileiros tinham que imprimir colunas de poesia para substituir artigos cortados pela censura. Esses correspondentes estabelecem padrões elevados com sua cobertura.

Brasilianismo – Durante o impeachment de Dilma Rousseff, a mídia brasileira ficou sob forte pressão para assumir uma postura contra ou a favor da saída dela. Isso chegou a jornais internacionais como o ''NYT''? Afetou de alguma forma seu trabalho? Foi difícil manter-se como observador neutro e externo naquele momento?

Simon Romero – Antes de chegar ao Brasil em 2011, passei cinco anos em Caracas, cobrindo principalmente a evolução política na Venezuela. A polarização certamente aumentou no Brasil durante o impeachment de Dilma Rousseff, mas, felizmente, o Brasil permanece menos dividido como uma sociedade do que a Venezuela. Ainda assim, a cobertura de tal divisão é difícil em muitos lugares ao redor do mundo. Os Estados Unidos na era Trump, com jornalistas atacados como inimigos pelas pessoas no poder, são apenas um exemplo.

Cobrir o impeachment de Dilma foi um desafio, mas tentei descrever o que estava acontecendo tão completamente quanto possível. Cabe ao conselho editorial do “New York Times”, uma operação separada da Redação, tomar uma posição sobre o assunto.

Durante a batalha do impeachment, tentei explicar a complexidade do que estava acontecendo. Escrevi reportagens que criticavam o governo de Dilma antes de ela sair e escrevi reportagens que criticavam o governo de Temer quando ele se tornou presidente. Esses dramas políticos raramente são simples como preto e branco, pois há muitos interesses diferentes envolvidos na luta pelo poder. É na área cinzenta que podemos encontrar algumas das melhores histórias.

Brasilianismo – Um dos seus antecessores como correspondente do NYT no Brasil, Larry Rohter, escreveu um livro em que fala sobre a atenção que seu trabalho tinha entre políticos e empresários brasileiros, e cita pressões que recebia por isso –incluindo o famoso caso com o ex-presidente Lula. Em uma entrevista ao Knight Center, você também citou hostilidades e ameaças. Que tipo de pressão encontrou enquanto atuou como correspondente no Brasil? Quão diferente esta pressão é do que está sendo muito discutido atualmente nos EUA sobre a relação entre Trump e a mídia?

Simon Romero – Enfrentar a hostilidade é parte do trabalho de cobrir as pessoas que exercem o poder, mas devo enfatizar que o que encontrei foi menor em comparação com a pressão sobre os colegas da mídia brasileira, especialmente em lugares afastados de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Houve momentos no Brasil em que executivos em grandes empresas ficaram chateados com meu trabalho e outros em que as figuras políticas ficaram irritadas com questões simples relacionadas a investigações de corrupção. Checamos muito as informações no “New York Times” em um esforço acertar o que escrevemos e às vezes esse processo pode enfurecer as pessoas no poder.

Felizmente, talvez eu tenha aprendido mais sobre a hostilidade em relação à mídia na Venezuela. Houve momentos em que eu fui criticado na televisão estatal ou em particular pelos ministros ou publicamente em sites associados ao governo, e isso às vezes era desconfortável.

O que está acontecendo nos Estados Unidos agora em termos de ataque a jornalistas tem mais semelhanças com o que presenciei na Venezuela do que com o que vivi no Brasil. Este é um lembrete da importância de reportagens críticas e baseadas na verdade em qualquer sociedade. Como qualquer empreitada humana, a mídia não é infalível. Nós cometemos erros e, quando o fazemos, devemos corrigi-los de forma transparente. Mas há uma enorme diferença entre países onde uma imprensa livre pode prosperar e aqueles onde não ela não é livre.

Brasilianismo – Durante o tempo em que atuou no Brasil, o que mais o impressionou, enquanto um observador que precisava ter sempre um olhar estrangeiro?

Simon Romero – É extremamente desafiador escrever sobre o Brasil como estrangeiro porque as questões que podem parecer simples são muitas vezes muito complexas, quase como um labirinto quando se passa da superfície. Mas algo que eu tentei manter em mente era que as coisas no país provavelmente não eram tão ótimas quanto tinha sido divulgado durante os anos de boom, mas tampouco as coisas eram tão catastróficas como algumas pessoas podiam dizer durante as fases da crise política e econômica. Como qualquer grande país, incluindo os Estados Unidos, o Brasil tem suas fraquezas. Mas há muitos pontos fortes no Brasil que muitas vezes são ignorados.

Brasilianismo – Que reportagem (ou série) considera a mais importante que fez durante seu tempo no país?

Simon Romero – Esta é uma excelente pergunta, mas também é muito difícil de responder, já que o Brasil mudou muito desde que cheguei como correspondente em 2011. Eu diria que o ano de 2016 foi um dos períodos mais intensos em notícias que o Brasil experimentou nas últimas décadas. Havia três temas de importância global –o vírus Zika, o impeachment de Dilma Rousseff e as Olimpíadas de Rio– que exigiam uma cobertura extensa. Cada reportagem teve um certo fascínio para mim, especialmente com a atenção do mundo no Brasil antes dos Jogos Olímpicos. Foi um momento excepcionalmente emocionante para o Brasil.

Brasilianismo – Como sua própria visão sobre o Brasil mudou ao longo do tempo vivendo aqui?

Simon Romero – Eu vivi no Brasil em momentos diferentes, me dando uma chance de entender a evolução do país. Cheguei no país em 1990 para passar um ano na Universidade de São Paulo, o que foi uma época fascinante, mas também muito difícil política e economicamente. Então, voltei como repórter de economia alguns anos depois, trabalhando principalmente para a Bloomberg, abrindo os escritórios da agência em Brasília e no Rio. Fui contratado pelo “New York Times” em 1999 em São Paulo para escrever principalmente sobre a economia e depois me mudei para Nova York, no ano seguinte. Depois de passar por Houston, onde escrevi sobre a indústria global de energia, e Caracas, de onde eu cobri a região andina, voltei em 2011.

O Brasil enfrenta problemas atualmente e alguns ganhos do passado podem parecer frágeis, mas eu aprendi a ser otimista em relação ao país no longo prazo. Veja o quanto ele mudou desde 1990, quando a economia estava em grande parte fechada e a ditadura era uma lembrança muito recente. É fácil esquecer agora, mas não muito tempo atrás o Brasil foi um destinatário da ajuda alimentar estrangeira. Agora é uma superpotência agrícola que exporta comida para todo o mundo. Outros lugares do mundo em desenvolvimento gostariam de ter experimentado tamanha mudança.

Brasilianismo – Você encerrou seu período no Brasil com uma grande série de reportagens sobre a Amazônia brasileira, mostrando coisas que mesmo os grandes jornais brasileiros ignoram. Foi uma escolha pessoal? Que importância tem esta série no seu portfólio de reportagens sobre o Brasil?

Simon Romero – A decisão de concentrar atenção na Amazônia brasileira nos últimos meses foi o resultado de decisões tomadas em conjunto com meus editores em Nova York. Pessoalmente, não conheço uma região da América Latina mais fascinante do que a Amazônia. Cada vez que eu fui para grandes cidades como Manaus ou Belém, ou cidades menores como Rio Branco ou Parauapebas, ou assentamentos remotos no interior do Amazonas ou Rondônia, era como se estivesse descobrindo um novo país.

É caro ir para a Amazônia, então tentei aproveitar ao máximo cada viagem buscando escrever sobre o máximo possível de assuntos. A Amazônia, é claro, significa coisas diferentes para pessoas diferentes, mas achei interessante como a região é urbanizada e cada vez mais estratégica para a economia brasileira.

Também descobri que as pessoas que conheci na Amazônia davam novas ideias de temas que tive vontade de ir atrás, como quando um arqueólogo me contou sobre uma base militar americana abandonada no Amapá, onde a Marinha Americana operaria em missões para encontrar submarinos alemães no Atlântico. Isso aconteceu em uma longa viagem de volta para Macapá, então nós fomos investigar e acabei por descrever o lugar fascinante em uma série de postagens do Instagram.

O “New York Times” tem encorajado os correspondentes a experimentar novas formas de reportagem que envolvam fotografias e vídeos em um esforço para tirar o máximo proveito de tais viagens, oferecendo aos nossos leitores um olhar por trás da cortina no processo criativo. A Amazônia oferece muitos desafios e não é para todos, mas adorei todas as viagens à região.

Brasilianismo – Os brasileiros também têm muito preconceito sobre o desconhecimento dos estrangeiros (especialmente americanos) sobre o Brasil. Enquanto escrevia para um público majoritariamente americano, com que tipo de desconhecimento você teve que lidar? E que tipo de informação sobre o Brasil acha que conseguiu ensinar a seus leitores?

Simon Romero – Por mais que nosso trabalho seja direcionado a um público bem-educado no “New York Times”, tentamos ter cuidado ao considerar que nossos leitores conhecem muito sobre os países que cobrimos. Isso significa que nos esforçamos para ter um equilíbrio de cobertura de certos lugares entre a sofisticação –para líderes políticos, estudiosos e especialistas em política externa -, e a explicação de coisas de uma forma que seja convidativa para um público mais geral. Eu amo o Brasil, então eu senti que parte do meu trabalho estava tentando atrair mais pessoas interessadas no país, para além dos estereótipos que às vezes são associados a ele.

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‘Impossível não sentir pena’ do Brasil, diz ex-correspondente do ‘Guardian’
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Daniel Buarque

'Impossível não sentir pena' do Brasil, diz ex-correspondente do 'Guardian'

Quando se mudou da China para o Brasil, em 2012, para se tornar correspondente do jornal britânico ''The Guardian'', o jornalista Jonathan Watts veio cheio de expectativas sobre o país que aparentava ser a grande promessa mundial. Ao se despedir do cargo e voltar para Londres, neste fim de semana, ele publicou longo um texto em que reflete sobre o tempo vivido aqui, as coisas boas, as expectativas e as frustrações encontradas durante seu período atuando no Brasil.

''É impossível não sentir pena do país. O Brasil entrou em marcha à ré em praticamente todas as frentes'', diz, citando a crise econômica, o aumento na violência, a frustração da população com o governo e o tumulto político generalizado no país.

Leia também: ‘New York Times’ e ‘Guardian’ trocam seus correspondentes no Brasil

Watts relata o grande choque que foi o contraste entre a vida na China e no Brasil, desde o contato com a natureza e as belezas do Rio de Janeiro à facilidade em ter acesso a líderes políticos do país. A expectativa dele era grande, conta:

''Uma das razões pelas quais mudei da China para o Brasil para me tornar correspondente da América Latina, em 2012, foi procurar um modelo de desenvolvimento mais sustentável. Naquela época, o Brasil parecia estar fazendo muitas coisas corretas. Sua economia em expansão acabava de ultrapassar a do Reino Unido; o popular governo de esquerda estava reduzindo a desigualdade; o desmatamento da Amazônia estava diminuindo; os negociadores brasileiros tiveram um papel positivo nas negociações sobre clima e biodiversidade; e minha nova casa, no Rio de Janeiro, estava prestes a sediar a Rio+20, a final da Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016.''

Por outro lado, diz que a população chinesa parecia mais interessada em busca por educação, enquanto os brasileiros aparentavam ser mais superficiais. Além disso, a burocracia e a falta de ambição do país também causaram impressões negativas.

''Ficou claro que haviam me vendido uma imagem sobrevalorizada do Brasil. Longe de ser um novo modelo, os últimos cinco anos se provaram um estudo de caso em como não governar um país'', avalia.

O longo texto publicado no ''Guardian'' no domingo é cheio de reflexões sobre a situação do Brasil e da América Latina, e de comparações com a ascensão sem interrupções da China. Watts claramente desenvolveu uma relação com o Brasil, e aponta que vai sentir saudades da vida no Rio de Janeiro. O tom geral, entretanto, é de preocupação em relação aos problemas do país e o seu potencial não realizado, bem como a falta de perspectivas de correção de rumo do país.

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