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Carne Fraca expôs ao mundo a corrupção sistêmica do país, dizem analistas
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Daniel Buarque

O escândalo revelado pela operação Carne Fraca, envolvendo frigoríficos brasileiros, se consolida como uma exposição internacional de o quanto a corrupção se tornou sistêmica, generalizada em todos os setores do país, que perdeu ainda mais credibilidade. A avaliação é defendida em artigos publicados por analistas estrangeiros na mídia internacional, e indica que isso afeta a reputação do Brasil no mundo e pode dificultar a recuperação econômica do país.

Em texto de opinião publicado na revista ''Americas Quarterly'', Brian Winter, editor-chefe da publicação e autor de quatro livros sobre a América do Sul, indica que a Carne Fraca é mais um indício da falta de credibilidade do governo de Michel Temer e, por consequência, do país.

''Pouca gente confia, e menos ainda gosta, deste governo'', diz. Segundo ele, essa falta de confiança é alimentada pelo discurso do presidente, que diz não buscar popularidade. Isso gera dificuldade em aprovar uma série de reformas que podem até ser importantes para o país, mas que podem ser impedidas pelo clima de desconfiança generalizada.

Segundo ele, o governo Temer assumiu em circunstâncias problemáticas e está cercado de escândalos de corrupção desde então, o que torna difícil acreditar na aprovação da ''reforma econômica mais ambiciosa dos últimos 20 anos''.

Vice-presidente da Americas Society/Council of the Americas, Winter foi correspondente internacional no Brasil e desponta atualmente como uma das principais vozes nos Estados Unidos a analisar e comentar o que acontece no Brasil e na América Latina. Em uma entrevista concedida ao blog Brasilianismo em dezembro, ele disse estar preocupado com a crise política no Brasil, pois vê na atual crise um cenário parecido com o que deu espaço para a ascensão do populismo autoritário de Trump nos EUA.

Na ocasião, ele também falou ainda sobre corrupção no país:''Não acho que os brasileiros sejam naturalmente mais corruptos do que alemães ou americanos, mas que as instituições que lidam com isso ainda não foram totalmente estabelecidas aqui, como foram em outros países. Espero que isso seja que esteja acontecendo agora'', disse.

No artigo mais recente, Winter cita a visita de um enviado da União Europeia para avaliar os frigoríficos brasileiros após a Carne Fraca. Em entrevista, ele alegou que o problema encontrado ali não era exceção, e aparece também em outros setores.

''O escândalo da carne é um exemplo perfeito do que pode dar errado quando as pessoas não confiam no governo'', explica.

Carne Fraca expôs ao mundo a corrupção sistêmica do país, dizem analistas

Uma tese semelhante é defendida pelo pesquisador James M. Roberts em um artigo publicado no site americano Daily Signal. Segundo ele, os escândalos da Lava Jato e da Carne Fraca mostram que a corrupção permeia todo o Brasil.

''A notícia triste para os brasileiros é que esses escândalos de corrupção poderiam ter sido antecipados, e talvez até evitados'', diz.

Roberts é ligado à Heritage Foundation, think tank conservador americano que é apontado como um dos centros formadores de políticas defendidas pelo atual presidente dos EUA, Donald Trump. O site Daily Signal também é ligado ao instituto, e tem ganhado maior força na mídia do país desde a posse de Trump.

Segundo o artigo, a avaliação do Brasil no Índice de Liberdade Econômica, produzidor pela Heritage, tem se deteriorado nas últimas décadas, em parte por causa da atuação dos governos de Lula e Dilma nesta área.

''Enquanto o Brasil tenta sair do pântano da corrupção, vamos torcer para que uma nova geração de lideranças políticas possa surgir com determinação para melhorar o cumprimento das leis e colocar o Brasil de volta no caminho da liberdade econômica'', diz.

O argumento usado nessas análises generaliza problemas do país e indica que casos de corrupção e de instabilidade não são isolados, mas estão relacionados a uma questão nacional mais ampla. É uma observação semelhante à que observadores externos faziam durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, quando indicavam que, mais do que uma falha na democracia, a derrubada do governo era um símbolo da disfuncionalidade da política nacional.

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Para mídia estrangeira, protestos no Brasil vão à direita e são sem paixão
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Daniel Buarque

Mídia estrangeira vê protestos sem paixão e mais à direita no Brasil

As manifestações realizadas em diversas cidades do país para a defesa da operação Lava Jato, no domingo (26) foram vistas no exterior como protestos ''sem paixão'' e com uma pauta política mais à direita.

Algumas das principais publicações internacionais publicaram reportagens sobre as manifestações, e o tom mais comum é de comparação com grandes protestos anteriores, indicando uma perda de força das ruas no país.

Segundo a ''Folha'', os protestos convocados pelos grupos que encabeçaram as manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016 realmente tiveram um público muito inferior ao dos protestos do início do ano passado, quando a pauta principal era a saída da então presidente.

Agora, ''a mobilização foi bem mais fraca do que as manifestações deste tipo anteriores'', diz texto publicado pelo jornal francês ''Le Monde''.

A publicação fala em ''ressaca'' de manifestações, que se explica ''pelo sentimento misto de decepção e desgosto entre os que trabalharam pela saída de Dilma Rousseff'', uma vez que a investigação contra corrupção é vista como ameaçada mesmo após o impeachment.

Segundo o ''New York Times'', os protestos mais fracos são uma notícia boa para o presidente Michel Temer. O jornal destaca, entretanto, que as demandas dos que foram às ruas no domingo se tornaram mais radicais e mais à direita.

''Além de dar apoio à investigação da Lava Jato, muitos dos que protestaram no Rio e em São Paulo também pediram mais liberdade para portar armas e até defenderam intervenção militar sobre o governo, como a que aconteceu em 1964, quando um golpe levou a 21 anos de ditadura'', diz.

As ondas de protestos registradas no Brasil em 2013 e, depois, em 2015 e 2016 foram amplamente registradas pela imprensa internacional, que sempre se esforçou para explicar a dimensão das manifestações.

Em março do ano passado já era possível perceber, entretanto, uma certa fadiga na cobertura da mídia estrangeira, já que a notícia parecia ser repetida e não trazer muita novidade. As reportagens atuais dão a dimensão do encolhimento desses protestos, ao lembrar como foram os anteriores.

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Crise e falhas na segurança dão força política ao Exército, diz pesquisador
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Daniel Buarque

Fracasso da segurança pública cria dependência do Exército, diz pesquisador alemão

O uso das Forças Armadas para garantir a segurança de cidades brasileiras é um reflexo do fracasso dos governos do país em controlar a violência e manter a segurança pública, especialmente em tempos de crise econômica, e não deve ser entendido como um sinal de risco à democracia. Ainda assim, o apelo aos militares para resolver questões internas do país acaba dando força política a este grupo, e garantindo privilégios.

A avaliação foi feita pelo pesquisador alemão Christoph Harig, em artigo publicado no site ''The Conversation''. ''Estes casos estão longe do intervencionismo militar do passado. Eles seguem regras constitucionais e são definidas por autoridades civis'', explica. ''No Brasil, a segurança pública é responsabilidade constitucional dos governos estaduais e não do governo federal. E é no nível estadual que o aperto da austeridade está sendo sentido'', diz.

Depois de trabalhar com temas relacionados ao Brasil no Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), Harig se mudou para Londres, onde estuda a militarização da segurança pública brasileira no programa de doutorado do Brazil Institute do King’s College London.

Segundo ele, apesar de não ser uma ameaça imediata, entretanto, o uso de forças militares em questões internas foi trivializado no Brasil e se torna cada vez mais comum, explica, tanto que os brasileiros já estão acostumados a ver o Exército em patrulha nas ruas de suas cidades quando há problemas com a polícia ou situações especiais.

A explicação para essa trivialização, diz, é que os governos estaduais tratam com naturalidade os pedidos de apoio federal por meio dos militares. Com a crise econômica em todo o país, os Estados passam a apelar a esta ajuda externa.

Segundo Harig, o uso excessivo de militares em questões internas não deve ser visto como positivo, entretanto.

''Este hábito de enviar tropas em situações que não são emergenciais é preocupante, e críticos dentro e fora das forças militares temem que as Forças Armadas estejam se tornando uma ferramenta política. No passado, chamar os militares era visto como um reconhecimento de que as instituições dos estados eram incapazes de fazer seu trabalho; hoje, governos federais e estaduais apresentam essas operações como uma forma de 'fazer algo' a respeito da crise na segurança pública do país, não um reflexo dos seus fracassos'', diz.

Ele explica ainda que este tipo de estratégia pode parecer como uma solução rápida para os problemas de segurança pública, mas tem seu preço. ''Políticos estão consolidando a posição privilegiada dos militares na política brasileira e assim aumentam o poder de barganha das Forças Armadas, permitindo que elas resistam a tentativas do governo federal para reformá-las.''

Este é o caso, diz, da dificuldade em incluir militares nos cortes previstos pela reforma da Previdência em discussão no governo atualmente.

Outro problema, segundo ele, é que o envio de militares para lidar com questões de segurança pública têm apenas efeito de curto prazo, e não consegue ter efeito duradouro contra a violência urbana.

Especialista em temas ligados aos militares brasileiros, política e democracia, Harig tem analisado a situação política brasileira em meio à crise que levou ao impeachment de Dilma Rousseff e ao surgimento de movimentos (ainda que pequenos) que pediam intervenção militar. Segundo ele, a crise política no país é um momento de tensão, e que é importante dar atenção ao papel dos militares mesmo em meio à democracia.

Em um artigo recente, Harig argumentou que era preciso haver maior diálogo entre militares e civis, para evitar escalada dessa tensão e de ameaças de radicalismos. Para ele, um novo golpe militar no Brasil parecia improvável, mas o país enfrenta problemas políticos reais com suas forças armadas, e elas não podem ser ignoradas.''As lideranças militares claramente veem a democracia como o único sistema válido. Políticos aumentaram seu controle sobre os militares desde a volta da democracia em 1985″, dizia o texto.

Em entrevista a este blog Brasilianismo, em 2015, Harig argumentou que nem os militares mais conservadores estavam levando a sério os pedidos de alas mais radicais dos protestos contra o governo Dilma para uma intervenção do Exército na política nacional. Ainda assim, ele explicava, as relações entre civis e militares no país continuam marcadas pelo legado da ditadura que comandou o Brasil por mais de duas décadas, o que se manifesta fortemente na forma como é feita a segurança pública no país.

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Para mídia estrangeira, escândalo das carnes ameaça a economia brasileira
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Daniel Buarque

Mídia estrangeira diz que escândalo das carnes pode aprofundar crise no Brasil

Mais do que um simples ''embaraço econômico'', como descreveu o presidente Michel Temer, o escândalo da produção de carnes do Brasil, revelado pela operação Carne Fraca, pode ampliar a crise econômica que já abala fortemente o país, segundo análises publicadas no resto do mundo.

As revelações de corrupção nos frigoríficos brasileiros se tornou o tema mais frequente a mencionar o Brasil no resto do mundo nos últimos dias. O escândalo afeta a imagem da indústria de alimentos do país, e pode ter um efeito de longo prazo, assim como a vaca louca teve na Inglaterra.

Após dar bastante atenção aos impactos políticos, de saúde e da corrupção relacionada aos desvios nos frigoríficos brasileiros, a imprensa internacional passou nesta semana a enfocar os possíveis efeitos do caso na economia do país.

''Carne suspeita ameaça atrapalhar a recuperação econômica do Brasil'', diz o título de uma reportagem publicada no site a revista de economia ''Forbes''.

Segundo a publicação, o escândalo pode ser o maior desafio para a economia brasileira desde que a recessão teve início, dois anos atrás.

''As repercussões desta investigação continuam a aparecer. Na última semana, países em todo o mundo começaram a bloquear a importação de carne brasileira'', diz, descrevendo a indústria de carnes como um dos pilares da economia do país.

Mídia estrangeira diz que escândalo das carnes pode aprofundar crise no Brasil

A rede de TV CNN também percebeu os problemas do escândalo para o país. ''O Brasil não tem descanso'', diz reportagem publicada em seu site. ''Isso é a última coisa de que a economia brasileira precisava'', explicou um analista de mercados ouvido pela TV.

''O escândalo apareceu enquanto o Brasil ainda está em sua mais longa recessão na história, marcado por outros escândalos de corrupção, uma crise política e uma forte queda nos preços das commodities'', explica.

Segundo a revista ''The Economist'', que vem apoiando as reformas propostas por Temer e apostado na recuperação do país, o escândalo faz com que investidores temam o embargo internacional contra carnes brasileiras.

Segundo a publicação, entretanto, a maior ameaçada não é apenas a economia nacional, mas as duas maiores empresas do ramo no país, a JBS e a BRF.

''As duas gigantes, assim como outros exportadores brasileiros, podem precisar baixar seus preços ou correm o risco de perder parcelas do mercado. É muito fácil sofrer com o estômago fraco dos governos estrangeiros para sustos alimentares'', diz.

Em artigo publicado no ''Bloomberg View'', página de opinião da agência internacional de economia, o correspondente Mac Margolis assumiu a função de minimizar os problemas causados pelo escândalo. ''Não jogue fora sua carne brasileira ainda'', diz o título do texto.

''Por mais que tenha o potencial de afetar a imagem e a economia do Brasil, que já estão sofrendo, a operação Carne Fraca pode acabar ajudando mais do que atrapalhando o país'', avalia.

A análise de Margolis se alinha a avaliações sobre os outros escândalos de corrupção do Brasil, indicando que em vez de mostrar a perdição do país, a investigação revela que há um movimento para tornar sua economia e sociedade mais transparentes e menos corruptas.

Segundo ele, o Brasil é um dos poucos países que tem inspetores dentro dos frigoríficos, e a investigação mostrou como o sistema de controle da indústria de carnes é ''robusto''. Em vez de quebrar os frigoríficos e a economia nacional, o escândalo pode ajudar o Brasil a aprender com as revelações e repensar alguns dos seus protocolos.

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Deu no ‘FT’: Lentidão da Justiça diminui impacto da Lava Jato no mercado
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Daniel Buarque

Lentidão da Justiça diminui impacto da Lava Jato no mercado, diz 'Financial Times'

Apesar da preocupação política gerada pela ''delação do fim do mundo'', como foi apelidada a denúncia da Odebrecht na Lava Jato, o mercado internacional continua confiante na aprovação das reformas econômicas propostas pelo governo de Michel Temer, que é defendida pelos investidores.

Segundo uma reportagem do jornal ''Financial Times'', analistas se baseiam na lentidão histórica da Justiça brasileira para apostar que a Lava Jato não vai atrapalhar os planos do governo no curto prazo.

Mesmo com a tensão na política nacional, diz, ''os mercados estão comemorando as reformas. Nos últimos 12 meses, o mercado de ações subiu 26% e a moeda brasileira, o real, se valorizou 17%.''

Os investidores ''já viram este filme'', diz o ''FT'', se referindo à lentidão da Justiça. ''Uma lista semelhante [de denunciados] divulgada dois anos atrás pedindo autorização para investigar 50 políticos resultou em processos contra apenas quatro deles, sem nenhuma condenação'', diz.

''Qualquer ameaça ao governo Temer e seus aliados no Congresso normalmente deixaria os investidores preocupados, já que eles estão apostando que as reformas propostas vão ajudar a controlar o déficit do orçamento e dar fim à recessão na economia mais importante do continente'', diz.

Apesar das evidências da delação premiada da Odebrecht, analistas acreditam que vai demorar anos para que os políticos implicados possam ser condenados.

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Estudo internacional diz que o Brasil é o 22º país mais feliz do mundo
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Daniel Buarque

Estudo diz que o Brasil é o 22º país mais feliz do mundo

O Brasil é o 22º país mais feliz do mundo, diz um estudo global sobre qualidade de vida publicado nesta semana. Segundo o relatório World Happiness Report de 2017, o país melhorou levemente seu índice de felicidade entre 2005 e 2016, intervalo analisado pelo estudo.

Segundo a BBC Brasil, o país caiu cinco posições na edição mais recente do ranking. Esta foi a segunda queda consecutiva. Na edição de 2016, referente ao período de 2013 a 2015, o país já havia caído do 16º para o 17º lugar.

Relatório Mundial da Felicidade 2017 avaliou 155 países levando em consideração o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, a expectativa média de vida, a percepção de apoio recebido no próprio ambiente social e a percepção de confiança no governo e nas empresas em relação à corrupção.

Segundo o trabalho, a felicidade é cada vez mais considerada a medida apropriada de progresso social no mundo, e deve se tornar o objetivo de políticas públicas. O projeto visa livrar os países da ''tirania do PIB'' como única medida de progresso. ''O que importa é a qualidade de vida'', diz.

Além destes itens, o estudo considera entrevistas com a população dos países para entender a percepção dela quanto à liberdade de tomar decisões próprias para influenciar suas vidas e a generosidade dos entrevistados em relação a doações.

Produzido desde 2012, com apoio da ONU, o WHR é editado por um time que inclui o economista americano Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia, além de John F. Helliwell e Richard Layard, que coordenam o trabalho com apoio de uma equipe de especialistas internacionais.

No topo do ranking de felicidade aparecem a Noruega, a Dinamarca, a Islândia, a Suíça e a Finlândia. O Brasil, em 22º, aparece logo depois do reino Unido, do Chile a dos Emirados Árabes, e à frente da República Tcheca, da Argentina e do México.

Os países menos felizes do mundo, segundo o ranking, são a República Centro Africana, o Burundi, a Tanzânia, a Síria e Ruanda.

Apesar de o Brasil aparecer em uma posição relativamente boa para o país, e de ter apresentado melhora no índice, o relatório não detalha a avaliação feita do país. O Brasil é mencionado uma vez nas 186 páginas do relatório, além de aparecer nas tabelas do WHR.

A classificação do Brasil neste ranking de felicidade tem um paralelo curioso com outros índices internacionais sobre o país, sua reputação e sua qualidade de vida. Em muitos desses estudos, o país aparece em torno da 20ª colocação, como no caso do índice Best Countries e o Nation Brands Index.

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Escândalo dos frigoríficos pode virar a vaca louca da imagem do Brasil
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Daniel Buarque

Escândalo dos frigoríficos pode manchar imagem do Brasil como a vaca louca inglesa

Mesmo décadas depois do mais famoso escândalo envolvendo carnes na história recente do Ocidente, ainda há quem não se sinta totalmente seguro ao comer um bife na Inglaterra. Apesar de o país não ser famoso pela sua gastronomia, a notícia global sobre a doença da vaca louca, que registrou a contaminação de mais de 220 pessoas desde 1996, fez com que a reputação do rosbife britânico (uma instituição nacional) ficasse manchada por um longo tempo.

Esta é uma das maiores ameaças envolvendo o escândalo da contaminação de carnes em frigoríficos brasileiros, revelado pela operação Carne Fraca, da Polícia Federal: os efeitos sobre a imagem do país e sobre seu comércio no exterior.

O Brasil é um dos maiores exportadores de carne do mundo, e muitas vezes é associado naturalmente a sua produção de carnes, e tudo isso pode ser afetado pela corrupção dos frigoríficos –mesmo que o impacto das carnes estragadas brasileiras não tenha gerado problemas tão sérios de saúde quanto a vaca louca, que chegou a causar mortes.

O nome do país está associado a restaurantes especializados em churrasco nas principais cidades de todo o mundo. O Brasil se destaca, até de forma romantizada, como uma alternativa ao método industrializado de criação de gado implementado nos Estados Unidos e em parte da Europa.  Por mais que não seja exatamente esta a realidade, há muita gente no resto do mundo que acredita que os bois brasileiros são criados de forma idílica, livres para passear e se alimentar de pasto, o que acaba pesando positivamente na imagem da carne brasileira.

Ou pelo menos era assim, até a Carne Fraca mostrar ao resto do mundo que a corrupção (tão forte na imagem do Brasil), chegou até suas carnes. O caso foi amplamente noticiado de forma crítica na imprensa internacional.

''Frigoríficos gigantes do Brasil exportam carne podre'', destacou um título da rede britânica BBC na sexta. ''Empresas brasileiras subornaram inspetores para manter carne estragada no mercado'', disse o jornal ''Telegraph''. ''O mais recente escândalo do Brasil: Propina, ácido e exportação de carne estragada'', lia-se em uma reportagem da rede de economia ''Bloomberg''.

O jornal ''Financial Times'' foi bem direto ao tratar dos efeitos do escândalo na economia: ''As ações dos maiores frigoríficos do Brasil despencaram enquanto a polícia realizava uma operação contra a corrupção na indústria, indicando que membros das empresas subornaram oficiais para fechar o olho para a exportação de carne contaminada'', diz.

A preocupação com os impactos disso na imagem do país é evidente no governo. O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, anunciou uma reunião de emergência com o adido comercial da União Europeia no Brasil. Segundo ele, o próprio presidente Michel Temer demonstrou preocupação com a imagem internacional do Brasil e com o impacto da operação no mercado exportador.

É difícil saber qual vai ser, na prática, este impacto. Por um lado, é verdade que há os efeitos de os estrangeiros poderem ver com mais suspeita os produtos brasileiros em seus supermercados –o que pode derrubar exportações, aumentar ainda mais a crise econômica e fazer com que o país seja sempre lembrado como o Reino Unido é associado à vaca louca.

Por outro, entretanto, a narrativa do escândalo das carnes estragadas pode se enquadrar na imagem que o Brasil vem construindo da sua luta contra a corrupção.

Por mais que não haja uma saída clara para a atual crise política do país, analistas internacionais frequentemente tratam da operação Lava Jato e do aumento das notícias sobre corrupção no Brasil como algo positivo, um símbolo de que o país decidiu lutar de forma séria contra as forças ocultas na política e na economia.

Se as operações contra a corrupção conseguirem sucesso em diminuir a prática de subornos, o país pode até sair de mais este escândalo fortalecido, mostrando que não admite práticas erradas nem em uma de suas indústrias mais fortes. Tudo vai depender de como as coisas vão se desenrolar e de qual narrativa vai ficar marcada na reputação do país no resto do mundo.

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Antiga metrópole, Holanda não lembra que dominou o Brasil no século 17
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Daniel Buarque

Pintura de Andries van Eertvelt sobre a conquista de Salvador pelos holandeses

Enquanto iam às urnas em eleições consideradas um teste para a democracia europeia e marcadas pela ameaça de ascensão da xenofobia, 99 em cada 100 holandeses ignoravam que o passado do país incluía um período de mais de duas décadas controlando parte do território brasileiro, no século 17.

A estatística informal é levantada pelo historiador holandês Michiel van Groesen, em entrevista ao blog Brasilianismo.  ''Tenho 41 anos e nunca ouvi falar sobre o Brasil holandês na escola. Literalmente nada. Ninguém na Holanda sabe dessa história, pois ela foi institucionalmente esquecida'', explicou.

Professor da Universidade de Leiden e autor do livro recém-lançado ''Amsterdam's Atlantic: Print Culture and the Making of Dutch Brazil'' (Atlântico de Amsterdã: a cultura impressa e a construção do Brasil holandês, University of Pennsylvania Press), Van Groesen é um dos maiores especialistas no período em que a Holanda invadiu e dominou o Brasil, entre 1624 e 1654.

Segundo ele, a ignorância holandesa se dá porque depois da derrota do país para Portugal e Espanha e sua expulsão do Brasil, em 1654, os holandeses ficaram tão constrangidos e decepcionados pela perda do território no Nordeste brasileiro que resolveram apagar o vexame da sua história. É praticamente uma forma de despeito, como uma criança que perde um brinquedo e que se contenta e se engana ao pensar que não era algo tão bom de qualquer forma. Até hoje, ele explica, crianças não aprendem na escola sobre o período holandês da história brasileira.

O resultado disso é que em vez de ter uma relação próxima com sua ex-colônia, os holandeses têm uma visão simplista e estereotipada –quase sempre negativa– sobre o Brasil atual.

Na entrevista abaixo, Van Groesen fala sobre sua pesquisa nos arquivos da imprensa holandesa da época em que o Brasil estava sob seu controle. Segundo ele, apesar de ser um passado pouco conhecido, a colônia na América do Sul era um dos temas mais importantes para o país europeu e para a geopolítica ocidental do século 17.

Brasilianismo – Fala-se muito sobre como o Brasil se tornou mais visível internacionalmente nas últimas décadas, mas sua pesquisa diz que o país era um dos principais temas na mídia holandesa no século 17. Por que isso?
Michiel van Groesen – Os holandeses estavam em guerra contra a Espanha havia um bom tempo, desde 1568, a chamada guerra dos 80 anos. Em 1621, A Companhia das Índias Ocidentais foi fundada com a intenção de levar a guerra à Espanha, especialmente nas Américas. Desde o começo, ela tinha o objetivo de atacar o Brasil, pois eles esperavam que o país não estivesse tão bem defendido quanto as colônias originais da Espanha. É preciso ressaltar que, nesse período, as coroas espanhola e portuguesa estavam unidas. Então o objetivo era atacar a Espanha no Brasil, e a Companhia das Índias Ocidentais esperava até que os portugueses vivendo no Brasil fossem apoiar a invasão holandesa como resposta contra a Espanha –o que não aconteceu.

Nos anos 1620 a mídia na holandesa começou a preparar o apetite das pessoas para o potencial ataque contra o Brasil. Quando o ataque se materializa, em 9 e 10 de maio de 1624, e a notícia do sucesso holandês em Salvador chega à Holanda, três meses e meio depois, na última semana de agosto, a reação foi de alegria extrema.

Texto sobre a conquista de Olinda pelos Holandeses

Isso porque a guerra contra a Espanha não ia bem para a Holanda, e o ataque ao Brasil foi a única exceção à história negativa da guerra nos primeiros anos da década de 1620. Por isso, o Brasil se transforma em uma história imensa na imprensa holandesa, sinônimo do potencial para atacar e ferir a Espanha.

Por causa do sucesso do ataque e da alegria explícita dos holandeses e em toda a Europa –já que este é um dos maiores acontecimentos geopolíticos para o continente nos anos 1620– todo mundo no continente fica sabendo da invasão holandesa ao Brasil, com manchetes de capa de jornais na Holanda, na Alemanha, na França, na Itália e na Inglaterra.

Da mesma forma como eu e você nos lembramos das torres gêmeas e dos ataques de 11 de Setembro aos EUA, uma imagem icônica do mundo atual, aquele momento da captura holandesa de Salvador, em 1624, se torna um momento icônico para as gerações que tinham conhecimento político daquela época. Essa é a razão pela qual este acontecimento histórico ganha uma relevância tão grande na Holanda pelos próximos 30 anos, até 1654.

Brasilianismo – A narrativa muda em algum momento? Quando a cobertura passa a se interessar pelo Brasil, pela colônia holandesa, e não apenas com a guerra contra a Espanha?
Michiel van Groesen – Isso só muda no fim dos anos 1630. Até meados de 1630, todo o enfoque é sobre a guerra. Em 1625, os holandeses perdem controle de salvador, em 1630 eles conquistam o Recife, e leva alguns anos para que eles tenham controle de Pernambuco. Só depois de tomar controle de Pernambuco e regiões vizinhas é que eles se interessam pelo que o Brasil é e pelo que o Brasil tem a oferecer. Nessa história, claro, Maurício de Nassau é uma figura de grande importância.

O historiador holandês Michiel van Groesen

Meu livro é uma tentativa de contextualizar essa história de Mauricio de Nassau, que os brasileiros conhecem bem, mas que Holanda não conhece. Quando ando nas ruas aqui em Amsterdam e pergunto às pessoas o que elas sabem sobre o Brasil holandês, 99 de cada 100 pessoas dizem que nunca ouviram falar disso.

Brasilianismo – Os holandeses não sabem sobre a invasão do Brasil no século 17?
Michiel van Groesen – Absolutamente não.

Se as pessoas souberem alguma coisa sobre o Brasil holandês é por causa de Maurício de Nassau e as pinturas de Albert Eckhout e Franz Post. Mas tenho certeza que apenas uma a cada cem pessoas na holanda sabe disso.

Brasilianismo – Por que Nassau era tão importante?
Michiel van Groesen – Precisamos pensar em Maurício de Nassau como uma pessoa que não estava na frente da mídia no século 17, mas que ganhou a batalha pela memória do Brasil holandês.

Ele não era uma figura-chave na forma como seus contemporâneos tratavam do Brasil holandês. Na verdade, ele tem um papel pequeno no que jornais, panfletos e impressões tinham a falar sobre o Brasil holandês, mesmo no período em que ele governava a colônia, entre 1636 e 1644. Entretanto, ele faz uma campanha pessoal para fazer da memória do Brasil holandês sua própria. É aí que ele começa a pagar a artistas e escritores para registrar suas conquistas no Brasil. Mas ele não era tão crucial para a história política do Brasil holandês como muitas pessoas pensam, e certamente não tão crucial quanto os brasileiros costumam acreditar.

Brasilianismo – Por que os holandeses não sabem sobre o período em que o país dominou o Brasil?
Michiel van Groesen – O motivo pelo qual as pessoas na Holanda hoje não sabem nada sobre o Brasil holandês é um paradoxo. A alegria nacional foi tão grande em 1624 e nos anos 1630, quando a expansão militar holandesa ia muito bem e todos no país eram muito otimistas sobre o que estava acontecendo –era inconcebível que os holandeses pudessem perder o Brasil–, que, quando isso aconteceu, entretanto, em 1654, foi tão doloroso que o Brasil holandês passou a ser apagado do debate público instantaneamente.

A partir de 1655, não vemos nada sobre o Brasil holandês sendo mencionado na mídia holandesa. É um rompimento radical com o que havia antes. A perda do Brasil foi tão dolorosa, que precisou ser esquecida rapidamente.

Até existem traços da história do Brasil holandês em literatura de educação dos séculos 18 e 19, com algum espaço na memória coletiva dos holandeses. As pessoas no país sabiam da história, assim como sabiam sobre a Indonésia. No século 19, entretanto, por conta do nacionalismo cultural e pela procura por uma cultura nacional da qual os holandeses queriam ter orgulho, o Brasil holandês foi sistematicamente esquecido. No fim do século 19 o Brasil holandês desapareceu dos livros de história da holanda. É por isso que eu, que tenho 41 anos, nunca ouvi falar sobre o Brasil holandês na escola. Literalmente nada. Ninguém na Holanda sabe dessa história, pois ela foi institucionalmente esquecida.

Brasilianismo – Como isso se encaixa na questão do que as pessoas na Holanda pensam sobre o Brasil historicamente. Seu livro diz que até o século 16 o conhecimento holandês sobre o Brasil vinha especialmente de livros franceses, e então, com a conquista territorial há uma cobertura frenética sobre o país na Holanda, que em seguida é apagado da memória. Como isso afeta a imagem do Brasil na holanda? As pessoas esqueceram da existência do Brasil?
Michiel van Groesen – Meu livro quer mostrar essa evolução. Começo mostrando as histórias estereotipadas tradicionais que viajantes europeus escreviam sobre o Brasil, falando sobre canibalismo, por exemplo, de textos de pessoas como Hans Staden e Jean de Léry, que são histórias bem conhecidas na Holanda na época, com os livros se tornando best-sellers nos anos 1600, antes da conquista do brasil holandês. As pessoas na holanda conheciam bem essa imagem do Brasil, associando o país ao canibalismo, especialmente.

Essa história desaparece quando o Brasil se transforma numa história política, com cobertura intensa. Este Brasil substitui a imagem anterior, e se transforma numa discussão sobre a importância geopolítica do país para a divisão de poder na europa.

Depois que a Holanda perde o Brasil, por volta dos anos 1670 e 1680, vemos a volta da imagem anterior que o Brasil tinha. Vemos que os livros antigos, como o de Hans Staden, voltam a ser impressos em holandês.

Como forma de compensar o fato de o Brasil não poder mais ser associado com o sucesso político e militar que se esperava, eles voltaram às imagens estereotipadas do século anterior. Essas imagens são as que persistem e que ficam na mente dos europeus, e que continuam associadas à ideia de Brasil no continente até os séculos 18 e 19.

São duas histórias que não se conectam, mas que se alternam, fazendo com que a imagem do canibalismo selvagem se sobreponha ao fim doloroso do Brasil holandês. É um mecanismo interessante, uma forma de facilitar o esquecimento. Se eles admitissem a importância do Brasil, teriam que explicar por que não conseguiram manter a Colônia.

Brasilianismo – O livro fala sobre isso, mas vai além. Qual seu objetivo ao escrevê-lo?
Michiel van Groesen – A principal ideia do livro é mostrar que a razão pela qual a Holanda perde o Brasil é a combinação de política e mídia em Amsterdam.

Políticos de Amsterdam desde o começo viam a colônia no Brasil como algo com custo alto, e pensavam que conseguiriam ganhar mais dinheiro mantendo o comércio livre como havia antes. Outras províncias da Holanda acreditavam na importância geopolítica do Brasil, mas Amsterdam força a mídia local a contar histórias negativas do Brasil holandês.

Isso fica claro após a rebelião portuguesa contra os holandeses. Então a mídia de Amsterdam se volta contra a ideia de manter uma colônia, e isso muda a história, pois as pessoas ainda acreditavam na alegria gerada pela conquista do Brasil. É então que Pierre Moreau começa a escrever livros críticos ao Brasil holandês, se contrapondo ao trabalho de divulgação feito por Nassau com Eckhout e Post.

Brasilianismo – De que forma seu trabalho se encaixa e como se diferencia da narrativa do Brasil holandês produzida do ponto de vista brasileiro?
Michiel van Groesen – Há uma diferença chave. Quando historiadores brasileiros, a maioria de Pernambuco, escreve sobre o Brasil holandês, eles essencialmente escrevem sobre sua própria província, sua casa. Eu poderia ter feito o mesmo, e escrito um livro que contasse a história do Brasil holandês para o público da Holanda. A história que quero contar parte do Brasil holandês para contar uma história maior, tratando do Brasil e da Europa.

Meu livro tenta explicar que as Américas como um todo importavam para as pessoas em 70% da Europa, e que as Américas como um todo tinham o potencial de alimentar o debate político e a opinião pública na Europa. Por isso o caso do Brasil holandês é perfeito, pois ele era muito reconhecido por todo mundo na europa do século 17 –se você mencionasse a palavra Brasil entre os anos 1630 e 1650, todo mundo sabia que fazia parte de uma grande disputa geopolítica entre protestantes e católicos, que vinha acontecendo na Europa havia décadas.

A parte intrigante e decepcionante dessa história é que as pessoas na Europa não estavam tão interessadas nos habitantes indígenas do Brasil. Os europeus não se interessavam em debater a emergência do tráfico de escravos, que também é parte da história do Brasil holandês.

Não achamos essas histórias, sobre africanos e indígenas, na mídia holandesa da época. Já vemos aí a emergência da visão que privilegiava os interesses europeus nas Américas. Isso é parte importante dessa história do Brasil holandês, pois conseguimos mostrar o silêncio significativo em relação a partes da história que eram dolorosas ou desumanas demais, ou que simplesmente não era considerada relevante para os europeus da época.

Brasilianismo – E o que era considerado de fato relevante então? Qual era o foco da cobertura além da disputa geopolítica?
Michiel van Groesen – Eles se interessavam extremamente pelas oportunidades que a paisagem local oferecia, pela vegetação exótica, pelo potencial medicinal que podia ser encontrado no Brasil. Esse é o tipo de coisa que começa a chamar atenção depois que a disputa militar se consolida. Esso está intimamente ligado ao papel de Nassau. É só depois da chegada dele no Brasil que esses assuntos ganham força na Europa.

Brasilianismo – Você diz que a imagem do Brasil na Holanda depois da perda do território voltou aos estereótipos. Como ela evoluiu desde então? O que se pensa sobre o Brasil na Hoalnda hoje?
Michiel van Groesen – A minha impressão é de que os holandeses hoje sabem muito pouco sobre o Brasil, então a imagem não é muito bem definida. Além disso, eles veem a América Latina como um todo como não tendo um papel importante na órbita política internacional atualmente.

Jornais holandeses não dão muito espaço a questões da América Latina. Claro que se fala do que acontece no Brasil e nos outros países da região, mas é pouco em comparação com o que se fala sobre a China, a Índia, o Sudeste Asiático, os EUA.

O que mais encontro é ignorância, e talvez este seja um dos objetivos do livro, abrir a atenção das pessoas a um assunto que faz parte do passado delas, e que trata de um país que conhecem pouco, mostrar a ignorância sobre o passado dos holandeses como porta de entrada em torná-los mais interessados pelo que acontece no Brasil e na América Latina.

Brasilianismo – Quanto da ignorância em relação ao Brasil está associado a desconhecimento e quanto está preso a estereótipos? A pesquisadora de Cambridge Vivien Kogut Lessa de Sá diz que estereótipos do século 16 existem até hoje no mundo. O que acha disso?
Michiel van Groesen – Os holandeses não têm mais os estereótipos que tinham nos séculos 16 e 17, sem duvida. O que há em termos de estereótipo é uma dicotomia, em que os europeus se veem como tendo superado o colonialismo e sendo modernos e ocidentalizados, enquanto a América Latina não é vista como um lugar tão moderno, ocidentalizado, quanto a Europa. É como se a América Latina não estivesse tão bem preparada para o futuro.

Pode-se chamar isso de estereótipo, mas eu chamo de ignorância. Chamar de estereótipo é dar crédito a essas pessoas. Elas não têm necessidade de pensar sobre a América Latina, então elas não pensam.

O que estamos lendo em jornais sobre o Brasil nos últimos 5 a 10 anos são uma confirmação disso. São reportagens sobre corrupção, sobre a Copa do Mundo não ter sido organizada de forma apropriada, sobre a Olimpíada no Rio, que não poderiam ser bem-sucedidas porque o Brasil não conseguiria organizar. Essas ideias superficiais dominam a forma como os holandeses pensam sobre o brasil hoje.

Brasilianismo – Podemos chamar de preconceito, então?
Michiel van Groesen – É uma palavra melhor do que estereótipo. É uma palavra que me ajuda, pois quero que meu livro ajude a quebrar preconceitos.

Brasilianismo – Sua pesquisa diz que a Holanda era um importante centro de produção de conteúdo e informações na Europa da época. Como acha que a Holanda contribuiu para a disseminação da imagem do Brasil no século 17 em outros países?
Michiel van Groesen – Contribuiu muito. O Brasil holandês foi um momento de reconhecimento para a mídia holandesa, que passou a ter distribuição além do território do país. A partir de 1624, publicações de toda a Europa passam a copiar o que os jornais de Amsterdam diziam. A partir de 1630, a mídia holandesa começou a traduzir sua produção para outras línguas, dado o apelo internacional do Brasil holandês, e as editoras holandesas passam a ter alcance internacional –isso graças também ao fato de que a imprensa holandesa era mais livre do que a de outros países.

Nos anos 1630, a cobertura holandesa sobre o Brasil era traduzida para o francês, para o alemão, levando a história a uma audiência mais ampla. Isso é algo que Nassau percebeu quando voltou à Europa. Ele quis que sua história positiva sobre o Brasil se espalhasse. Ele foi muito eficiente em fazer isso não apenas na Holanda, mas em toda a Europa. Seu objetivo era produzir pinturas, tratados científicos, publicando em latim, para que pessoas de toda a Europa tivessem acesso.

Brasilianismo – Muitos brasileiros acham que, se os holandeses tivessem ficado no Brasil, um lugar como Pernambuco seria mais desenvolvido do que é hoje. Como seria o Brasil, caso a Holanda nao tivesse perdido o território no Nordeste?
Michiel van Groesen – É uma ilusão achar que o Nordeste estaria melhor. Isso persiste por causa de Nassau e do trabalho e relações públicas feito por ele no século 17. Isso se baseia em publicações pagas por Nassau para divulgar essa imagem positiva.

Apesar de ser uma ilusão, é essa ilusão que protege a memória do Brasil holandês. A falta dessa ilusão na Europa faz com que os holandeses não conheçam a história. Então a ilusão tem benefícios. É impressionante que essa ilusão seja tão poderosa em uma região do Brasil e inexistente completamente na Holanda.

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Deu no ‘FT’: Recuperação econômica contrasta com sofrimento dos brasileiros
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Daniel Buarque

Deu no 'FT': Investidores veem melhora, mas brasileiros sofrem com crise

Os indicadores financeiros do Brasil indicam melhora da economia do país, o câmbio mostra valorização da moeda, o governo fala em fim da recessão. Enquanto isso, entretanto, a população brasileira ainda sofre com graves efeitos da crise econômica, que aumentou o desemprego no país. Este contraste resume a atual realidade brasileira, segundo uma reportagem publicada pelo jornal de economia ''Financial Times''.

As dificuldades de ''milhões de brasileiros contrasta foremente com a situação do mercado de ações do país e sua moeda, que se fortaleceram muito no último ano sob o otimismo de que o que muitos chamam de 'depressão brasileira' está finalmente acabando'', diz o jornal.

O ''FT'' resume os acontecimentos políticos que se desenrolaram junto com a crise econômica, e explica que o governo de Temer está encaminhando reformas para recuperar a economia, o que foi comemorado por investidores estrangeiros.

''A maioria dos economistas concorda que a economia está pronta para se recuperar, mas que os resultados negativos do último trimestre de 2016 indicam que isso vai acontecer de forma lenta'', diz.

Politicamente, segundo o jornal, o governo de Temer precisa que o desemprego comece a diminuir, para que a situação dos brasileiros possa melhorar.

''Mesmo as pessoas que ainda têm emprego têm medo de as coisas piorarem'', diz a reportagem.

O texto dá uma feição humana à crise, que muitas vezes é abordada por publicações estrangeiras apenas a partir dos dados do mercado. Enquanto publicações como a ''Economist'' focam na recuperação percebida pelos investidores e o otimismo que começa a surgir em relação à economia, é importante que o ''FT'' dê destaque ao contraste desses dados com a situação difícil enfrentada pela população.

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‘The Guardian’: Volta do ‘assassino Bruno’ ao futebol é desconcertante
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Daniel Buarque

'The Guardian': volta do 'assassino Bruno' ao futebol é desconcertante

Condenado por homicídio e solto antes de cumprir toda a pena, o goleiro Bruno é chamado de ''assassino Bruno'' em um artigo publicado pelo jornal britânico ''The Guardian''. Segundo a publicação, o fato de ele ter saído da cadeia e estar sendo recebido de volta ao futebol brasileiro é desconcertante.

Todo o texto tem um forte tom de incredulidade e de crítica à forma como o Brasil está lidando com o caso.

''Parece desconcertante que enquanto apela da condenação Bruno possa voltar a jogar futebol, sem resistência'', diz o texto, cobrando que a Fifa proíba a atuação do ''goleiro homicida''.

A história de Bruno, diz o jornal, é horrenda. ''Em 2013, Bruno foi condenado por encomendar o assassinato de Eliza, uma ex-modelo que ele conheceu em uma festa'', explica.

''O impressionante, entretanto, é que a história não acabou. A notícia é que Bruno foi solto'', complementa, relatando que o goleiro comemorou a saída da prisão.

''E a história fica ainda mais estranha. O assassino Bruno, que atualmente está condenado por encomendar o assassinato de uma mulher e de alimentar cachorros com o corpo dela, quer jogar futebol de novo'', diz, complementando que não houve protestos no país e que ele se prepara para voltar ao esporte.

''Mesmo pelos parâmetros estranhos do futebol, os valores parecem ter perdido todo o senso de medida aqui. Cinco jogos de suspensão por pisar na cabeça de Ibrahimovic é uma coisa. Desmembrar seu corpo e dar para os cachorros comerem? Para mim, Tyrone Mings passou do limite e precisa ser banido por mais tempo'', diz, de forma irônica e comparando ao que aconteceu no futebol inglês.

''O Brasil tem seus problemas. Certamente algumas atitudes chocantes persistem. Evite ler os comentários em qualquer reportagem sobre Bruno na imprensa brasileira, a não ser que se interesse por uma misoginia psicopata, estranha e medonha'', diz.

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