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Saiba quem foi o embaixador autor da frase ‘o Brasil não é um país sério’
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Daniel Buarque

O embaixador Carlos Alves de Souza, que atuou representando o Brasil no exterior até os anos 1960, pode até não ter o nome muito conhecido no país. Mas é dele a autoria de uma das frases mais reconhecidas e repetidas por milhões de brasileiros: “O país não é um país sério”.

Atribuída equivocadamente ao ex-presidente francês Charles de Gaulle, a frase nunca foi dita pelo general, segundo Souza, e é de autoria do próprio embaixador, que conta como ela surgiu em sua autobiografia, “Um Embaixador em Tempos de Crise”, de 1979.

E apesar de ter se tornado um “mantra” sobre a cultura do país, Souza diz no livro que não se arrependeu da sua opinião, e que vê até mais problemas no Brasil.

“Na minha vivência de mais de 50 anos nos meios militares, diplomáticos, políticos e sociais, cheguei a suas conclusões melancólicas. A primeira é a de que a argila, da qual foi feita o brasileiro, não é de boa qualidade. E a outra, em que foi acertada minha frase, atribuída ao general De Gaulle: ‘Le Brésil n’est pas un pays sérieux’”, diz, ao encerrar o livro.

Souza serviu na Europa por muitos anos. Recebeu medalha de ouro pelos 50 anos de trabalhos prestados ao serviço público do país em 1966, quando também se aposentou.

Ele começou trabalhando como encarregado de negócios do Brasil em Montevidéu, em 1925, e em seguida atuou dentro do Brasil. Em 1929, tornou-se encarregado de negócios do Brasil em Paris, chefe do serviço de passaportes, encarregado de negócios em Viena, primeiro secretário em Viena (1934), no México (1935). Depois, foi embaixador em Havana (1945-1949), em Roma (1950-1956), em Paris (1956-1964) e em Londres (1964-1966)

Um dos momentos mais marcantes do livro é quando ele narra sua atuação como ministro plenipotenciário em Belgrado, entre 1939 e 1941, quando acompanhou o início da Segunda Guerra Mundial na Europa.

Mas o mais interessante é que o embaixador conta sobre a “Guerra da Lagosta” história pouco conhecida que deu origem à frase de que o Brasil não é um país sério. Foi um episódio cheio de desencontros, e que serviu para que Souza consolidasse uma opinião ainda mais negativa sobre o Brasil.

“Nada mais ridículo do que a chamada ‘Guerra da Lagosta’, que apenas demonstrou a falta de entrosamento da Secretaria de Estado com as Embaixadas e a leviandade dos nossos governantes”, conta.

“Os franceses estavam pescando a 30 milhas da costa brasileira, onde constataram haver maior quantidade de lagostas. Tudo isso ignorava a Embaixada do Brasil em Paris. (…) O presidente, provavelmente sem pensar nas consequências do seu ato, deu instruções às autoridades para suspender a licença. (…) A embaixada em Paris continuava tudo ignorando”, diz.

Quando pesqueiros franceses foram apreendidos pela Marinha brasileira, Souza ficou sabendo pelo governo francês. “Os jornais franceses não mais falavam no assunto, porém a imprensa brasileira, com rara infelicidade, fazia comentários inverídicos sobre o problema e diziam que a Marinha brasileira tinha dado uma boa lição aos franceses”.

Chamado pelo governo para se encontrar com o presidente De Gaulle, Souza conta como surgiu o mal-entendido sobre a autoria da frase.

“Fui avistar-me com o general. Recebeu-me no seu escritório, diante de um bloco de notas, e fez-me sentar à sua frente. Começou fazendo um histórico sobre o caso da lagosta, a permissão do presidente Goulart para a pesca, o sequestro dos pesqueiros, as notícias inverídicas da imprensa brasileira e as críticas a ele e à França.”

Depois do encontro, Souza foi a uma recepção na casa do presidente da Assembleia Nacional da França.

“Repentinamente, surgiu diante de mim o jornalista Luiz Edgar de Andrade, hoje editor-chefe da TV Globo. Insistiu para que eu lhe dissesse algo sobre a minha entrevista com o general De Gaulle. Respondi-lhe que não daria nenhuma entrevista. Mas, não poderia deixar de ter uma conversa amistosa com uma pessoa por quem sempre tive a maior consideração. Falei-lhe sobre o tal samba carnavalesco “A Lagosta é nossa”, as caricaturas do presidente De Gaulle e terminei a conversa dizendo: Luiz Edgar, ‘le Brésil n’est pas un pays sérieux’”, conta, no livro.

Segundo o embaixador, foi daí que a frase se popularizou.

“Provavelmente, ele telegrafou ao Brasil não deixando claro se a frase era minha ou do general De Gaulle, com que eu me avistara poucas horas antes desse encontro casual. Luiz Edgar é um homem correto, e estou certo de que o seu telex ao jornal não teve intuitos sensacionalistas. Mas, a frase ‘pegou’. É evidente que, sendo hóspede do general De Gaulle, homem difícil, porém muito educado, ele, pela sua formação e temperamento, não pronunciaria frase tão francamente inamistosa em relação ao país do chefe da missão que ele mandara chamar. Eu pronunciei essa frase numa conversa informal com uma pessoa das minhas relações. A história está cheia desses equívocos.”

Polêmica

Apesar do reconhecimento da própria responsabilidade do embaixador, que diz que tudo o que é contado no livro estava registrado por escrito, a frase não aparece em jornais brasileiros nos anos 1960, e é mencionada pela primeira vez em algum veículo da grande imprensa nacional anos mais tarde.

Além disso, o jornalista citado pelo embaixador sempre negou que fosse responsável por popularizar a frase. Em uma entrevista disponível no YouTube, ele diz acreditar que o presidente pode realmente ter dito a frase, e que o próprio embaixador a repetia a amigos, o que fez ela se tornar conhecida.

“O meu envolvimento nessa história começa em 1979, quando o embaixador publicou as suas memórias, e tem um capítulo sobre esta frase. Neste capítulo ele me atribui a divulgação da frase. Eu teria mandado ao Jornal do Brasil esta informação, que se espalhou. Acontece que em 1990 eu procurei nos meus arquivos e na coleção do Jornal do Brasil na Biblioteca Nacional este jornal. Acontece que não tem essa informação. Tenho certeza de que não fui eu que mandei essa informação. Como este boato começou a circular? Para mim, é um mistério. Havia a suspeita de que o próprio embaixador Alves de Souza tenha espalhado a história. E é atribuído a mim. Eu acho bastante provável que o De Gaulle tenha dito isso mesmo. O embaixador ao me dar o livro fez uma dedicatória: ‘Ao Luis Edgar de Andrade, co-autor da famosa frase’. Na versão dele, ao conversar comigo, ele teria dito a mim ‘Le Brésil n’est pas sérieux’, e eu fiz confusão, como ele falou em francês, e atribui ao De Gaulle. Na verdade não publiquei. Acho que o embaixador contava a amigos íntimos isso.”

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Brasil ‘blinda’ soldados acusados de abusos, diz organização internacional
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Daniel Buarque

Brasil blinda soldados acusados de abusos, diz organização internacional

O Senado brasileiro aprovou uma medida “controversa”, que blinda militares brasileiros contra abusos, diz uma análise do instituto internacional de pesquisa InSight Crime.

O texto trata da aprovação de um projeto que transfere à Justiça Militar a atribuição de julgar integrantes das Forças Armadas que cometerem crimes dolosos contra civis em atividades de garantia de ordem.

Para a InSight Crime, a decisão gera riscos que vão além das questões de direitos humanos.

“A reforma aprovada pelo Senado tem implicações preocupantes para a segurança. Estratégias de segurança militarizada fracassaram em gerar resultados sustentáveis no passado, em parte, por causa de abusos –muitas vezes sem punição– que erodiram a confiança dos cidadãos nas forças de segurança”, diz.

A análise diz ainda que em países em que militares foram chamados para atuar como polícia, o resultado frequentemente é o aumento nos abusos de direitos humanos.

“E quanto os supostos abusos caem sob jurisdição militar, o resultado nada surpreendente é que os soldados acusados raramente enfrentam punições”, diz.

A organização InSight Crime é uma fundação de investigação e análise sobre crime organizado no continente americano. “Buscamos aprofundar e informar o debate sobre crime organizado na região oferecendo ao público reportagens, análises e investigações sobre o assunto e o estado dos esforços para combatê-lo”, diz a apresentação do site do grupo. Criada em 2010, em Medellin, na Colômbia, a Insight Crime tem apoio do centro de estudos latino-americanos da American University, em Washington.

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Sem poder real, Brasil tem atuação de ‘zelador’ no mundo multipolar
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Daniel Buarque

Michel Temer discursa na ONU

No debate entre os que dizem que o Brasil perdeu relevância internacional nos últimos anos, por conta da crise, e os que argumentam que o país nunca interrompeu a construção da sua influência global, talvez os dois estejam certos.

Em um mundo cada vez mais multipolar, o Brasil está presente e tem voz nas relações internacionais, apesar de não ter força suficiente para tomar decisão prática. É como se o país fosse um “zelador” na ONU, um ator presente, importante e influente, mas sem poder real.

Este debate tem sido frequente entre a academia e a diplomacia. Foi o ponto mais importante de um painel organizado pelo Instituto Brasil do King’s College de Londres para discutir a ascensão, ou declínio, do país no cenário global. No meio da controvérsia e de argumentos de discordância, entretanto, o que se desenhava era um Brasil com relevância internacional, ainda que limitada à falta de força.

De um lado, o embaixador brasileiro Antonio Patriota, ex-ministro das Relações Exteriores do governo Dilma Rousseff, defendia a importância do Brasil no mundo. “O Brasil é um país influente”, argumentou.

Do outro, o pesquisador Andrès Malamud, da Universidade de Lisboa, autor de um artigo em que aponta a retração do Brasil na política internacional. “Falo em declínio, não em ascensão do Brasil”, disse.

Para o primeiro, o mundo está deixando de viver sob a influência de uma única potência global (os EUA), e uma nova realidade multipolar abre espaço para uma atuação ainda maior do Brasil. Assim, o fato de o Brasil estar presente no mundo, com embaixadas em mais de 140 países, e de participar dos principais fóruns internacionais de forma ativa, mostra que o país tem importância. Segundo ele, a relevância do Brasil no mundo já foi reconhecida pela ex-secretária de Estado americana Condoleezza Rice e pelo ex-presidente Barack Obama, além da própria ONU.

Na visão do segundo, nada disso comprova relevância real, e os argumentos não provam que o Brasil de fato tenha poder. “Só há três formas de fazer alguém agir da forma que se quer: o porrete, a cenoura ou a persuasão. Poder militar, poder econômico ou soft power”, e o Brasil de hoje não tem nenhum dos três, argumentou. Para ele, o soft power já foi importante para o Brasil sob Fernando Henrique Cardoso e Lula, mas agora o país não tem mais a presença e a capacidade de convencimento que tinha no passado, então o país perdeu relevância global.

Painel sobre a influência global do Brasil, organizado pelo Brazil Institute do King’s College de Londres

No fundo, apesar do tom de contradição, os dois parecem estar certos.

O Brasil de fato tem influência no cenário da diplomacia global em um mundo cada vez menos preso à unipolaridade americana. Participa de eventos, fóruns e debates multilaterais, e tem até mesmo atuação em missões de paz, como a Minustah, recém-encerrada no Haiti. É um dos países mais lembrados do mundo e tem uma boa reputação entre elites das relações internacionais. Mas, de fato, isso não significa que o Brasil tenha poder real.

É como se o país fosse o “zelador” dessa nova ordem multipolar do mundo.

Como o zelador de um prédio, ele está sempre presente, conhece e é reconhecido por todos os moradores, é importante para a organização dos eventos, é procurado para ajudar a resolver impasses, é fundamental para o funcionamento e a manutenção do prédio. Mas, como um zelador, ele pode até influenciar, mas não tem poder de decisão.

Com uma equipe extremamente profissional no Itamaraty, o Brasil está bem representado em todo o mundo. Organizou e sediou eventos importantes, como a Rio+20. É importante signatário da Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Mas, na hora das grandes decisões, o país continua fora do Conselho de Segurança da ONU, instância mais alta dos poderes globais.

E já que o ponto central do debate é influência. Se o Brasil não tem poder militar ou econômico, depende muito do seu poder de persuasão, o soft power. Aqui, mais uma vez, a alegoria do zelador pode funcionar.

Sem poder de decisão, a influência de um zelador de prédio depende do seu “soft power”, sua capacidade de negociar interesses, ser diplomata e persuadir os verdadeiros donos do poder a seguir o caminho que acha preferencial.

Se as chances de conquistar poder militar ou econômico no curto prazo não são tão grandes, o Brasil precisa ampliar ou ao menos manter o seu “poder suave”, ou “poder brando”. Pode não ser tão importante quanto a força real para que o Brasil alcance seu objetivo de ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, mas ao menos vai tornar o trabalho de “zelador” mais eficiente.

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Prestígio do Brasil no mundo não sofreu impacto da crise, diz ex-chanceler
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Daniel Buarque

As instabilidades geradas pela crise econômica e pela desordem política no país nos últimos anos não afetaram o prestígio internacional do Brasil, defendeu nesta terça (10) um ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, durante visita a Londres.

Para o diplomata, ao contrário do que mostram os índices que medem a imagem internacional do Brasil, de análises acadêmicas críticas à situação do país e do que disse o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricúpero em entrevista à Folha, o país não está em declínio.

“O prestígio relativo do Brasil não sofreu, é grande, e nossa capacidade de atuação, de iniciativa e de criatividade é enorme”, disse.

O ex-chanceler conversou informalmente com pesquisadores do Instituto Brasil do King’s College de Londres. O encontro, do qual o autor deste blog Brasilianismo participou, aconteceu minutos antes dele participar de um painel sobre a ascensão e declínio do Brasil no palco global em meio ao que ele chama de mundo multipolar.

Os argumentos sobre a suposta retração do Brasil, segundo ele, ignoram o contexto global. O mundo está atravessando um momento muito difícil, e não se pode analisar o Brasil a partir de um ponto fixo, como se ele não estivesse sujeito a dinâmicas de transformação.

“Em termos relativos, em função do que está acontecendo no mundo, a vantagem comparativa do Brasil aumenta”, defendeu.

Segundo o ex-ministro, o Brasil está acordando para a relevância que o país pode mostrar no mundo, mas ainda há controvérsias internas quando o país tenta exercer esta presença no exterior.

O diplomata admitiu, entretanto, que esse reconhecimento existe apenas em setores especializados, nas elites. Entre a população global, argumentou, as pessoas só conhecem futebol, samba, a praia, fotos do Rio, caipirinha, sandália havaiana.

O lado negativo dessa imagem brasileira no exterior, disse, é a visibilidade que tem o que acontece atualmente no Rio de Janeiro, com aumento da violência urbana.

Este post foi alterado no dia 12/10/2017 às 18h26

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Deu no ‘Clarín’: Brasil vive caos político e incerteza a um ano de eleições
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Daniel Buarque

Deu no ‘Clarín’: Brasil vive caos político a um ano das eleições

Faltando um ano para o Brasil ir às urnas escolher o próximo presidente, ninguém sabe nem quem serão os candidatos, e o país vive caos político, diz uma reportagem publicada pelo jornal argentino “Clarín”.

“A disputa é a mais abertas em muitos anos no gigante sul-americano, que segue cambaleando sob os efeitos de um coquetel letal de escândalos de corrupção, crise econômica e uma forte polarização política”, diz a publicação, com informações da agência de notícias France Presse.

Um dos pontos de incerteza, destaca o jornal, é que o candidato que aparece com mais chances é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Muito querido durante seus governos entre 2003 e 2010, o ex-mandatário viu como muitas das suas políticas retrocederam com as reformas conservadoras iniciadas por Temer, e, o que é pior, foi condenado por corrupção”, diz.

Além de Lula, o “Clarín” destaca com surpresa a ascensão de Jair Bolsonaro.

“Considerado durante muito tempo uma figura marginal por sua admiração pela ditadura brasileira e seus comentários sexistas, homofóbicos e racistas, Bolsonaro continua sua escalada”, diz.

O caos político e a polarização aumentam ainda mais a incerteza, diz, e isso faz com que nomes de fora da política tenham chances de ganhar força na eleição.

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Militares não estão interessados em intervenção, diz pesquisador alemão
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Daniel Buarque

Forças Armadas não estão interessadas em intervenção ou em governar o país, diz pesquisador alemão

A incursão do Exército contra a escalada da violência na Rocinha, no Rio de Janeiro, os debates sobre o risco de uma intervenção militar na política brasileira e, mais cedo, o encerramento da ação de paz no Haiti (Minustah) colocaram as Forças Armadas em grande evidência no Brasil nas últimas semanas.

Por mais que sejam três questões muito diferentes, elas têm relação umas com as outras e com a situação do Brasil sob grave crise política e econômica e com o aumento da violência em todo o país. Para o pesquisador alemão Christoph Harig, a atenção dada a questões envolvendo militares no Brasil está em parte relacionada à crescente dependência que governo federal desenvolveu em relação às Forças Armadas para a segurança pública, e cria uma situação difícil para a política nacional.

Ainda assim, ele disse não acreditar em grande possibilidade de uma intervenção militar no Brasil. “As pessoas que têm poder de decisão dentro das Forças Armadas não estão interessadas em uma intervenção, e ainda menos em governar o país”, disse, em entrevista ao blog Brasilianismo. Ainda assim, explicou, a forma como as autoridades militares e governamentais estão tratando o tema colocou em evidência alguns problemas nas relações civis-militares do Brasil.

Um dos problemas, diz, é uma visão “paternalista” dessas Forças Armadas, que têm uma autopercepção de se verem como “salvação do país” e garantidoras da pátria. “De acordo com este ponto de vista, tudo o que os militares fizeram foi em benefício do país, e os casos de tortura e abuso eram apenas um mal necessário. Esta perspectiva continua a ser perigosa, pois implica que as Forças Armadas estão acima da lei”, disse.

Harig defendeu recentemente sua tese de doutorado sobre estes temas no King’s College de Londres. Sua pesquisa foi um estudo sociológico sobre a percepção das tropas de Garantia da Lei e da Ordem (GLO, como no caso da Rocinha) e da Minustah.

Segundo ele, a ação no Haiti foi bem sucedida militarmente, mas foi responsável pela morte de civis como “efeito colateral”, o que deveria ser pensado de forma crítica em relação à importação deste tipo de incursão quando se trata de ações de GLO no Brasil, como ocorreu recentemente na Rocinha.

Leia abaixo a entrevista completa concedida pelo pesquisador.

Brasilianismo – Os militares estão envolvidos em algumas das notícias mais importantes no Brasil nas últimas semanas. Vimos o fim da Minustah, a ação para conter a violência na Rocinha e o renovado debate sobre a intervenção militar em Brasília. Quall você acha que é o papel dos militares na política brasileira hoje em dia? Mudou em comparação com o que havia 5 anos atrás?
Christoph Harig – Desde 2010, os governos federais aumentaram continuamente sua dependência dos militares em relação à segurança pública, o que, sem dúvida, aumentou a visibilidade das forças armadas no país.

A Minustah desempenha um certo papel neste processo, pois os políticos parecem ter percebido a utilidade de usar os militares em ambientes urbanos –ou pelo menos a possibilidade de usá-lo para fins de marketing político.

Ao retratar operações no Rio e em outros lugares como uma espécie de “manutenção da paz em casa”, as autoridades estão tentando justificar as operações militares. Ao mesmo tempo, não há sucesso substancial na melhoria do trabalho policial comum.

Tudo isso acontece no contexto da crise econômica brasileira. Embora os militares tenham que lidar com cortes significativos no orçamento e dificilmente conseguem manter suas operações na fronteira, as chamadas para operações de segurança pública estão cada vez mais barulhentas.

Os militares estavam e continuam insatisfeitos com o crescimento das operações de Garantia de Lei e Ordem, mas conseguiram usar seu papel interno como meio conquistar de poder de barganha: quando o governo queria cortar pensões militares, o comandante do Exército usou as ações quase constantes no Rio, os custos adicionais para as Forças Armadas, bem como a carga de trabalho das tropas como motivo para se opor aos cortes.

Brasilianismo – A ideia de uma intervenção militar na democracia tem sido um assunto controverso desde que as pessoas começaram a pedir o impeachment de Dilma Rousseff. Começou com o que era chamado de delírio de algumas pessoas, mas chegamos a um estágio em que as pessoas dentro do Exército falam abertamente sobre isso. Qual você acha que é o risco real de intervenção militar na política hoje? Você acha que os militares têm algum interesse em se envolver na política? Você acha que eles têm a estrutura e a organização para poder governar?
Christoph Harig – Apesar da justificada indignação pelo discurso do general Mourão, ainda considero improvável uma intervenção militar. Eu argumentaria que as pessoas que têm poder de decisão dentro das Forças Armadas não estão interessadas em uma intervenção, e ainda menos em governar o país. No entanto, a forma como as autoridades militares e governamentais trataram o discurso colocou em evidência alguns problemas nas relações civis-militares do Brasil.

Mourão e seus “colegas no alto comando do Exército”, a quem ele se referiu em seu discurso, passaram seus anos formativos de suas carreiras durante o regime militar. Alguns deles (bem como partes consideráveis ​​da sociedade) ainda parecem aderir à interpretação do golpe de 1964 como suposta salvação do Brasil do comunismo. Essa autopercepção problemática dos militares como garantidor da pátria é anterior ao regime de 1964-1985 e pode ser encontrada ao longo da história do Exército. De acordo com este ponto de vista, tudo o que os militares fizeram foi em benefício do país, e os casos de tortura e abuso eram apenas um mal necessário.

Esta perspectiva continua a ser perigosa, pois implica que as Forças Armadas estão acima da lei. Mesmo o comandante do Exército, Villas Boas –um defensor da tradição legalista no Exército que regularmente insiste que os militares não estão interessados ​​em derrubar o governo– recentemente afirmou que os militares teriam o mandato de intervir em um caso de “caos” generalizado. Esta é uma afirmação altamente discutível, que mais uma vez sublinha a falta de aceitação de princípios democráticos.

Nesta visão paternalista, o Brasil parece ser uma democracia pela graça dos militares –que se consideram em posição de escolher se querem ou não manter este arranjo político, caso as coisas não estejam bem. Continua notável que, mais de 30 anos após o fim do último regime militar, o país ainda não tenha conseguido estabelecer uma visão mais apropriada sobre a democracia dentro das forças armadas.

O governo de Michel Temer e, em particular, o ministro da Defesa Raul Jungmann, reagiram timidamente ao discurso de Mourão, o que é uma prova a mais da sua fraqueza.

Se os relatos da imprensa forem verdadeiros, Jungmann queria que Mourão fosse forçado a se aposentar (sua aposentadoria está programada para o próximo ano, de qualquer maneira). Isso, pelo menos, mostraria que tais ameaças golpistas pouco veladas não podem ficar impunes. No entanto, o comandante do Exército, Villas Boas, não quis dar esse passo, argumentou que isso reforçaria o status de Mourão como herói dentro dos militares e entre os civis que apoiam uma intervenção. E reconhecidamente, Villas Boas tem um ponto: Mourão foi removido como chefe do Comando da Área do Sul depois de criticar abertamente o governo Dilma em 2015. E, de fato, manifestantes de extrema-direita desfilaram um boneco inflável de Mourão durante os protestos e alguns até o propuseram como presidente. Forçá-lo a se aposentar certamente contribuiria mais para essa idolatria.

Além disso, o presidente Temer se colocou em uma posição na qual ele dificilmente pode contribuir com a solução. Ocupado com a garantia de sua sobrevivência política em meio a acusações de corrupção, o presidente está disposto a evitar novas tensões com os militares. Temer claramente foi um dos alvos do ataque de Mourão contra “elementos corruptos” na política. Imagine se ele agora condenasse publicamente o general por seu discurso: muitas pessoas o acusariam de vingança pessoal contra alguém que acusou justamente a corrupção generalizada. Os ultraconservadores, como o candidato presidencial Bolsonaro, fariam uso disso facilmente no ataque contra os políticos tradicionais.

Em última análise, é ruim para a democracia que tais considerações prevalecessem sobre os princípios normativos da supremacia civil. A democracia pode prevalecer, mas o episódio prejudicou a autoridade civil sobre os militares. Não punir Mourão constitui um precedente perigoso. Se os generais do serviço ativo podem ameaçar publicamente com a intervenção como “Espada de Dâmocles”, o que mais os oficiais precisam fazer para serem punidos?

Brasilianismo – Com o aumento da violência no Rio, a cidade está assistindo aos últimos momentos do programa de pacificação? É possível saber o que deu errado? Com o envio de militares para conter a violência na Rocinha, você acha que eles têm um papel a desempenhar nesta situação de violência urbana?
Christoph Harig – Eu diria que o programa de pacificação está praticamente morto. A polícia militar do Rio produziu recentemente um relatório no qual eles admitem o fracasso do programa e, basicamente, recomendaram desligar muitas unidades da UPP. Parece que o governo do Rio está menos inclinado a aceitar publicamente isso.

Na realidade, no entanto, o programa só existe em seu nome. Princípios ambiciosos de “policiamento comunitário” foram jogados fora: pintar um caveirão branco e escrever UPP sobre ele não altera o fato de que você está usando um caveirão.

Acho que já se sabe que o programa sempre sofreu com uma falta de investimento em seus componentes sociais, que tem não tiveram volume depois de resultados inicialmente promissores, e esse abuso por oficiais da UPP (como o caso do desaparecimento de Amarildo de Souza na Rocinha) prejudicou a confiança.

O atual desdobramento militar não alterará esta situação sombria. As atuais operações conjuntas de inteligência entre Forças Armadas e policiais parecem sofrer de uma falta de comunicação entre as forças. O Ministério da Defesa e os militares parecem descontentes com a falta de apoio político das autoridades do Rio, o que complicou as relações e, sem dúvida, levou as Forças Armadas a ameaçarem suspender o apoio às autoridades do Rio.

As Forças Armadas também estão conscientes de que suas ocupações anteriores em favelas não levaram a uma melhoria da situação de segurança, já que a provisão subsequente de serviços essenciais através do programa de pacificação nunca ocorreu. Enquanto os governos federal e do Rio alegaram que um aumento no Bolsa Família, bem como alguns programas sociais, acompanhariam as operações militares e policiais conjuntas no Rio, há motivos para duvidar de que isso se materialize.

Brasilianismo – O fim da Minustah foi tratado como uma operação bem sucedida do Exército brasileiro. Você concorda com essa avaliação? Há algo a aprender com essa experiência que pode ser trazida para dentro do país agora que há uma onda de violência no Rio?
Christoph Harig – A maioria dos analistas sugere que as contribuições do Brasil para operações militares em Porto Príncipe foram decisivas para acabar com o domínio de gangues. Em uma missão repleta de mau comportamento por tropas (por exemplo, a epidemia de cólera causada por um contingente nepalês ou as acusações generalizadas de abuso sexual), poucas acusações contra o contingente brasileiro tornaram-se públicas. Do ponto de vista militar, isso pode ser claramente considerado um sucesso.

No entanto, é preciso ter em mente que o sucesso no combate a gangues também resultou na morte de pessoas inocentes –o chamado “dano colateral”. Numa perspectiva estritamente militar, isso dificilmente é evitável, pois sabe-se que o uso da força pode levar à perda de vidas inocentes. Embora o uso apropriado da força por capacetes azuis ainda seja um tema debatido, mandatos recentes sugerem que a manutenção da paz da ONU depende cada vez mais de operações militares robustas para proteger os civis. Recentemente, argumentamos que o Brasil realmente foi um ator central neste desenvolvimento. O exemplo do general Santos Cruz, comandante da força na Minustah durante o período mais crítico da missão, mostra como a implementação de mandatos robustos na Minustah levou a elogios da ONU. Santos Cruz liderou o componente militar da Missão da ONU na República Democrática do Congo, onde supervisionou a “Brigada de Intervenção” –a primeira unidade de “manutenção da paz” da ONU que buscava ativamente combater grupos armados.

Como secretário nacional de segurança pública do Brasil, Santos Cruz é agora responsável pela implementação do plano nacional de segurança pública. Como parte desta estratégia, o Rio atualmente serve como campo de testes para ações conjuntas de militares e policiais. É discutível se a estratégia de eliminação de gangues foi apropriada na manutenção da paz da ONU. No entanto, mesmo que não compartilhe suas preocupações com a imparcialidade da manutenção da paz, há limites para a possível extensão da reimportação de estratégias robustas para a segurança pública.

As conclusões da minha pesquisa de doutorado sugerem que as tropas com experiência no Haiti e as operações de GLO se tornaram cada vez mais frustradas com as regras de engajamento comparativamente restritas durante as operações no Rio. Um dos principais aprendizados da Minustah para muitos soldados e oficiais foi que as gangues podem ser expulsas de uma área quando os militares podem usar a força. Isso, por sua vez, aumentou as expectativas de que eles deveriam ter permissão para fazer o mesmo ao serem implantados no Rio.

No início da operação atual de GLO no Rio, o ministro da Defesa, Jungmann, parecia ter uma abordagem potencialmente mais contundente em mente, pois lembrou a sociedade de debater se estariam dispostos a pagar o preço pelo sucesso militar. Isso implicava que as ações militares “efetivas” contra as gangues provavelmente resultariam em mortes de civis –particularmente considerando que a maior parte das operações ocorria em bairros densamente povoados. Em essência, isso significaria que a vida da população em partes pobres da cidade seria considerada menos valiosa do que em bairros ricos: dificilmente poderia pensar em qualquer situação em que alguém pudesse sugerir que algumas vidas de residentes da Barra da Tijuca ser consideradas o preço que vale a pena pagar pela solução do problema do crime. Por enquanto, parece que as autoridades estão recusando essa abordagem.

Embora a situação de segurança no Rio seja inaceitável, é preciso ter em mente os limites de qualquer abordagem robusta contra gangues. Mesmo os defensores de ataques decisivos devem considerar que os incentivos econômicos para as gangues são diferentes dos encontrados em Porto Príncipe. As gangues do Rio não são motivadas politicamente, mas encontram-se em uma guerra civil sobre o controle do mercado de drogas.

Como a experiência de outros países, como o México, mostrou, a lógica da guerra contra as drogas –prender ou matar traficantes de drogas e desarmar gangues– não levou a resultados sustentáveis. Novos líderes e gangues emergem enquanto a proibição de drogas promete lucros lucrativos em um mercado ilícito. Uma consequência não intencional das autoridades que visam um grupo criminoso seria que eles acabaram apoiando facções rivais. No caso muito improvável de que um grupo fosse desmantelado, as facções restantes lutariam por preencher o vácuo deixado para trás –gerando assim mais miséria para a população nessas áreas. E no caso ainda mais improvável de que as autoridades conseguissem expulsar gangues do Rio, atores externos como o PCC provavelmente assumiriam o lucrativo negócio de drogas.

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Com pesquisa precoce, brasilianista virou referência em estudos da ditadura
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Daniel Buarque

O cientista político Alfred Stepan, brasilianista morto na última semana aos 81 anos

O cientista político Alfred Stepan, brasilianista morto na última semana aos 81 anos, era uma referência importante nos estudos sobre a ditadura militar brasileira na acadêmica do Brasil e do exterior. Segundo o sociólogo, cientista político João Roberto Martins Filho, ele foi um dos grandes divulgadores dos estudos sobre a ditadura no resto do mundo.

Um dos motivos para isso é que ele conseguiu ter acesso a fontes de pesquisa muito cedo, ainda nos anos 1970, “antes mesmo que a ditadura mostrasse todas as garras”, como explica Martins Filho em entrevista ao blog Brasilianismo.

O trabalho de Stepan para entender a ditadura pode ser considerado especialmente relevante em um momento em que o apreço do eleitorado pela democracia como forma de governo caiu fortemente, segundo uma pesquisa do Datafolha. Atualmente, 56% dos eleitores concordam com a noção de que a democracia é sempre melhor do que outras formas de governo. Em dezembro de 2014, a mesma ideia tinha o apoio de 66% do eleitorado.

Professor titular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Martins Filho falou sobre a importância de Stepan para que os processos que levaram à ditadura no país fossem entendidos.

Brasilianismo – Qual a importância do trabalho do professor Alfred Stepan para o estudo da ditadura militar no Brasil?
João Roberto Martins Filho – Alfred Stepan começou sua longa carreira de pesquisador de política comparada estudando o Brasil e o Peru. Seu livro “The Military in Politics: changing Patterns in Brazil” (Os militares na política: mudança de padrão no Brasil, de 1971), além das coletâneas “Authoritarian Brazil: Origins, Policies, and Future” (Brasil autoritário: origens, políticas e futuro, de 1973) e “Democratizing Brazil : problems of transition and consolidation” (Democratizando o Brasil: problemas de transição e consolidação, de 1989) cobrem todo o período das origens do golpe até a transição para a democracia.

“Os militares na política” é considerada a obra de referência no exterior sobre o tema e mesmo na literatura brasileira tem lugar importante.

Brasilianismo – Como ele conseguiu se tornar uma referência tão relevante nesta área?
João Roberto Martins Filho – Stepan publicou muito cedo [nos anos 1970], antes mesmo que a ditadura mostrasse todas as garras. Ao mesmo tempo, teve acesso a fontes e informações difíceis de conseguir para o pesquisador brasileiro. Ainda demoraria algum tempo antes que os livros pioneiros de Alexandre de Barros, Eurico Lima Figueiredo, José Murilo e Eliezer Rizzo de Oliveira fosse publicados.

Stepan continuou a tradição dos estudos de Samuel Huntington (The Soldier and the State), mas propôs que o profissionalismo militar na América Latina não distanciava os militares da política. No começo dos anos 1970, alguns dos maiores cientistas políticos trabalhavam com a questão das ditaduras militares. Vários presidentes da International Political Science Association o fizeram.

Brasilianismo – Que diferença há entre o olhar estrangeiro de um pesquisador como Stepan e o trabalho acadêmico sobre o mesmo tema produzido na mesma época, ou mesmo mais tarde, no Brasil?
João Roberto Martins Filho – Como disse, o livro dele foi lançado precocemente. Mas o leitor atento percebe como ele se beneficiou da análise de pesquisadores brasileiros, como Cândido Mendes, embora não tenha mencionado a obra de Nelson Werneck Sodré, paradigma da análise dos militares como instrumento de classe. Para nós brasileiros, Sodré era incontornável como referência. À época, começavam apenas a ser defendidas teses de brasileiros nos Estados Unidos sobre o tema numa perspectiva mais organizacional e não marxista.

Embora “The Military in Politics” seja merecidamente visto como obra fundamental, eu particularmente me coloquei numa perspectiva crítica em relação a ela. Para mim, ao escolher a corrente que se formou em torno do presidente Castelo Branco como paradigmática dos militares no pós-64, ele não percebeu seu caráter excepcional, dada a riqueza do panorama político intramilitar, marcado depois da morte de Castelo Branco, em 1967, por conflitos constantes entre castelistas, duros, albuquerquistas e palacianos. Stepan também não deu relevo à influência da doutrina francesa da guerre révolutionnaire sobre os militares brasileiros. Mas isso não diminui a importância de seu livro mais conhecido.

Brasilianismo – De que forma acha que ele contribuiu para o debate no exterior sobre a ditadura brasileira?
João Roberto Martins Filho – Sem a menor dúvida, ele foi um dos grandes divulgadores dos estudos sobre a ditadura no exterior. Com forte laços não apenas em sua universidade de origem, Columbia, mas com Yale, onde foi professor, e Oxford, onde tirou o diploma de PPE (Politics, Philosophy and Economy), onde passou várias temporadas, ele transitava na ciência política de vários continentes.

Brasilianismo – Você chegou a conhecer o professor Stepan? Que impressão tinha dele?
João Roberto Martins Filho – Assisti sua palestra no encontro de 2009 da IPSA, em Santiago do Chile. À época, ele comentou extasiado como os brasileiros estavam autoconfiantes e orgulhoso de seus país, de modo muito diferente da época da ditadura. Depois da palestra eu conversei brevemente com ele e lhe entreguei o paper que apresentaria no congresso. Tive uma impressão pessoal muito boa dele.

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Mercados já veem confronto entre Lula e Bolsonaro como cenário de pesadelo
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Daniel Buarque

Artigo de Bret Rosen na “Americas Quarterly” diz que mercados já veem confronto entre Lula e Bolsonaro como o cenário de pesadelo para 2018

Uma possível disputa entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o deputado Jair Bolsonaro pela Presidência do Brasil em 2018 seria o cenário de pesadelo para os mercados financeiros.

A avaliação é do analista financeiro Bret Rosen. Segundo ele, apesar de estarem em lados opostos da política, os candidatos da esquerda e da direita são vistos como um risco parecido, pois ambos reduziriam as chances de reformas estruturais que economistas defendem para o Brasil, o que seria ruim para o mercado.

Em um artigo publicado na revista “Americas Quarterly”, Rosen avaliou as mais recentes pesquisas de intenção de voto realizadas no país, e fez uma análise dos quadros mais prováveis e do que seria mais interessante para os mercados financeiros internacionais.

Segundo ele, o cenário atual cria três possibilidades mais fortes para a eleição, com possível vitória da esquerda (com Lula), da direita populista (com Bolsonaro) e uma via de centristas moderados (com um nome ainda não definido, mas se aproximando do governador e do prefeito de São Paulo –Geraldo Alckmin e João Doria). Esta opção centrista, diz, seria a preferida de investidores.

Tanto Lula quanto Bolsonaro, avalia, gerariam “reações semelhantes do mercado”, apesar de Bolsonaro ainda não ter apresentado uma plataforma econômica.

Lula, segundo ele, reduziria a perspectiva de reformas estruturais no país, indicando uma tendência de queda da Bolsa, desvalorização cambial e impacto sobre o crédito.

Bolsonaro, por outro lado, traria grande incerteza. “O Brasil nunca foi governado por um líder com esta plataforma populista de direita, e é provável que a chance de aprovação de reformas seja baixa”, diz.

A preferência dos mercados, portanto, ficaria com um nome de centro, como Alckmin ou Doria. Este nome “teria apoio das elites financeiras e da mídia”, diz. Segundo Rosen, entretanto, é preciso saber se algum desses nomes será capaz de unir os partidos de centro, o que é um risco no caso de rompimento entre Alckmin e Doria.

“Se os moderados de centro se consolidarem em torno de um nome, com uma grande coalizão de partidos por trás, vai crescer o otimismo de que o Brasil pode andar para a frente com um presidente que defende mais reformas estruturais para criar as condições para um retorno moderado crescimento econômico nos próximos quatro anos”, diz.

O governador de São Paulo já foi indicado como favorito dos mercados em uma análise de perspectivas para 2018 publicada pela revista de economia “Forbes”. A publicação minimizou o risco de Lula, por lembrar do seu trabalho no governo, mas indicou que Alckmin (chamado de “Al Gore da política brasileira”) seria o favorito dos investidores.

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Brasil lê e ecoa distopias como ‘A Revolução dos Bichos’, diz ‘Le Monde’
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Daniel Buarque

Brasil lê e ecoa distopias como ‘A Revolução dos Bichos’, de Orwell, diz ‘Le Monde’

Um dos livros mais vendidos no Brasil, “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, encontra ecos na situação política e social do país atualmente, segundo o jornal francês “Le Monde”.

“‘Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros’, no Brasil, país onde a grande riqueza está ao lado da extrema pobreza, a frase de Napoleão, o porco tirano do livro ‘A Revolução dos Bichos’, de George Orwell, encontra um novo eco”, diz a reportagem, citando as altas vendas da obra (e também de “1984”, do mesmo autor), apesar de o país ter uma cultura pouco leitora.

Segundo o texto, alguns especialistas no mercado apontam para o governo de Donald Trump nos EUA para o aumento no interesse em distopias no Brasil, mas o “Monde” ressalta que o próprio Brasil vive uma situação que pode atrair mais leitores a essas obras.

“Um ano após o polêmico impeachment da presidente de esquerda Dilma Rousseff, os brasileiros assistem, desapontados e envergonhados, ao espetáculo por vezes grotesco da sua classe política”, diz.

A reportagem explica que os políticos envolvidos em escândalos frequentemente se dizem “perseguidos” pela justiça, o que cria um argumento fantasioso que aproxima a realidade do país da obra de Orwell.

“É sem dúvida, e sobretudo, a profunda decepção de parte do país após a esperança gerada pela eleição de Lula, em 2003, que explica a (re)leitura de ‘A Revolução dos Bichos’. Depois de ter colocado no poder o ‘pai dos pobres’ e de ter conhecido uma redução espetacular da miséria, o país revive seus demônios –a crise econômica, a extrema violência e a arrogância dos bem-nascidos”, diz.

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‘Primeira vez’ de Dilma em denúncia de corrupção é destaque internacional
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Daniel Buarque

‘Primeira vez’ de Dilma em denúncia de corrupção é destaque na mídia estrangeira

Os títulos de reportagens da imprensa internacional sobre a recente denúncia de corrupção contra Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff falam dos dois ex-presidentes. Mas é a respeito da última governante que as análises estrangeiras estão dando mais atenção.

“Dilma Rousseff, a ex-presidente do Brasil, foi denunciada pela primeira vez por envolvimento em um grande esquema de corrupção que já envolve seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, e mergulhou o país no caos”, diz a reportagem do jornal britânico “The Times”.

“O caso é o primeiro em que Dilma, que sofreu impeachment no ano passado por violar regras orçamentárias, é acusada de fazer parte de esquemas de corrupção que marcaram todos os grandes partidos políticos do Brasil”, diz a reportagem do ‘New York Times”.

“Estas foram as primeiras denúncias apresentadas contra Dilma”, destaca a reportagem da agência de notícias Reuters, publicada em veículos como o jornal canadense “Globe and Mail”

“Escândalo da Lava Jato envolve Dilma pela primeira vez”, diz, logo no título, o site Euronews.

“Foram as primeiras denúncias formais contra Dilma, que sofreu impeachment em 2016”, diz a rede Al Jazeera, tradicionalmente mais alinhada editorialmente com a esquerda.

Este enfoque é importante para a mídia internacional, pois desde a época da discussão a respeito do processo de impeachment era muito comum os veículos estrangeiros ressaltarem o fato de que Dilma não estava envolvida em escândalos de corrupção, e ainda assim estava sendo retirada do poder.

“A denúncia contra Dilma, que se descrevia como uma política limpa que estava sendo derrubada por políticos corruptos, é um desenvolvimento marcante em uma série de revelações que se desenrolaram de uma investigação de rotina sobre lavagem de dinheiro em um posto de gasolina em Brasília”, diz o “New York Times”.

Ouvido pelo jornal, o brasilianista Matthew M. Taylor chamou o envolvimento da ex-presidente de “muito significativo”. “Dilma vinha defendendo que ela era pessoalmente honesta”, disse.

Apesar do foco em Dilma, o caso de Lula também recebeu atenção no resto do mundo.

“A notícia é particularmente ruim para a batalha travada por Lula para ganhar a Presidência novamente”, diz a rede árabe. “Lula, que ainda é o político mais popular do Brasil, apelou de uma condenação que o proibiria de se candidatar a presidente em 2018.”

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