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Em Londres, evento debate a marca Brasil e sua imagem na mídia estrangeira
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Daniel Buarque

Em Londres, evento debate a marca do Brasil e a imagem na mídia internacional

Um evento na embaixada brasileira em Londres vai discutir a marca internacional do Brasil e as percepções da mídia estrangeira sobre o país. Com uma série de painéis sobre nation branding, que estuda a construção de imagens de nações, o encontro no dia 18 de maio vai tentar entender o que se pensa sobre o Brasil no resto do mundo.

“Em um mundo globalizado, nation branding pode ser um fator crucial para influenciar as decisões sobre onde investir, viver, estudar ou trabalhar”, explica a página sobre o evento.

“Uma marca transmite a identidade de um país e pode transformar a forma como ele é visto pela comunidade internacional”, complementa.

O encontro será aberto pelo embaixador do Brasil no Reino Unido, Eduardo dos Santos. Christopher Nurko, diretor da FutureBrand, agência que analise imagens de nações, apresenta uma palestra sobre os conceitos por trás de nation branding, e em seguida jornalistas da BBC, do “Financial Times”, da Globo News e da “The Economist” discutem como a imprensa internacional trata o país.

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Mudança de política econômica afeta cobertura da ‘Economist’ sobre o Brasil
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Daniel Buarque

Mudança de política econômica afeta cobertura da ‘Economist’ sobre o Brasil

Mudança de política econômica afeta cobertura da ‘Economist’ sobre o Brasil

Nenhuma publicação da imprensa internacional aparenta ter influenciado tanto a imagem internacional do Brasil nos últimos anos quanto aquela capa da revista britânica “The Economist” mostrando, em 2009, o Cristo Redentor decolando como um foguete. A montagem se tornou o símbolo da ascensão econômica do Brasil na década passada, e é lembrada sempre que a emergência do país no mundo é discutida.

Apesar de marcante, a ideia de que o Brasil decolava – take off, como a revista dizia em inglês – não é uma novidade nas páginas da “Economist”. Segundo a pesquisa de doutorado da socióloga Camila Maria Risso Sales, defendida neste semestre pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a publicação alterna historicamente sua cobertura sobre o Brasil em momentos entusiasmo e de decepção dependendo do rumo tomado pela política econômica adotada pelo governo brasileiro – e até mesmo o termo “take off” já tinha sido usado antes em referência ao Brasil.

Sales concedeu uma entrevista ao autor do Blog Brasilianismo sobre sua pesquisa e a cobertura que a “Economist” faz sobre o Brasil. Sua avaliação sobre a forma como a revista acompanhou o processo de impeachment de Dilma Rousseff foi publicada na “Folha de S.Paulo” logo após a votação no Senado, que cassou seu mandato.

Na entrevista, ela explicava que a mudança de governo, e as alterações da política econômica sempre afetam a cobertura que a revista faz sobre o Brasil. “A visão da Economist é mais positiva sobre o Brasil se a política econômica do país se aproxima mais do viés liberal”, disse Sales .

Leia abaixo a entrevista completa da pesquisadora

Brasilianismo – Em sua tese de doutorado, você fala sobre a cobertura que a “Economist” fez do golpe militar de 1964 alternou críticas anteriores à tomada do poder e elogios à mudança de rumo econômica sob Castelo Branco. “Nesse cenário, entende-se que a política fica subordinada à economia. A partir do momento em que são tomadas as medidas de austeridade sempre recomendadas pela revista a postura crítica desaparece e os elogios do campo econômico estendem-se para a política, como podemos ver nessa descrição de Castelo Branco”, diz. Logo após a aprovação do impeachment de Dilma Rousseff, neste ano, a revista publicou reportagem elogiando as propostas econômicas de Temer. Pode-se falar em paralelo entre 1964 e 2016 na cobertura que a “Economist” faz do Brasil?

Camila Maria Risso Sales – Podemos dizer que há algumas semelhanças. Principalmente no que diz respeito às expectativas quanto a mudança de rumo da política econômica. Entretanto, o período mais recente não foi coberto pela pesquisa, portanto não foram aplicados os mesmos procedimentos metodológicos aos quais foram submetidos o restante do material. Mas, é possível perceber que existe uma tendência a uma visão mais positiva quanto às políticas que seriam implementadas pelo novo governo.

Em que esses dois momentos históricos se aproximam e o que há de diferente entre eles na cobertura da “Economist”?

A ‘Economist’ alterna momentos entusiasmo e de decepção com o Brasil.

Isso aconteceu em diversos momentos, em governos diferentes. O segundo governo Lula foi, por exemplo, um momento em que o noticiário era muito positivo. A gestão de Dilma Rousseff não foi vista com tanto otimismo, e o pico de negatividade veio no início desse ano. Dessa forma, sucederam-se algumas notícias em que havia expectativa de melhora do cenário.

Entretanto, é preciso notar que o momento de crise política tem sido relatado com alguma crítica, como foi possível ver em reportagem veiculada logo após a votação na Câmara dos Deputados em que a revista ridicularizava as justificativas apresentadas pelos deputados e deputadas.

Sua pesquisa incluiu a análise da cobertura do impeachment de Collor. De que forma acha que aquele momento se relaciona com 1964 e com o momento atual nas páginas da “Economist”?

O impeachment de Fernando Collor de Mello introduziu a temática da corrupção entre as preocupações da publicação inglesa. Uma aproximação entre os dois momentos é que a revista destaca a constitucionalidade do processo. Ou seja, a ‘Economist’ enfatiza que o impeachment é um processo instituído dentro das normas legais que regem o Brasil. Entretanto, não entra em detalhes sobre a forma de condução desse processo, em nenhum dos dois momentos.

Naquele momento, as expectativas de liberalização da economia diminuíam com Itamar, o que não se repete em 2016.

Uma diferença que talvez valha destacar é o tamanho da cobertura, que em 1992 foi muito menor. Apenas alguns artigos e nenhuma capa. Por outro lado, a capa da primeira edição de 2016 foi sobre a crise política no Brasil, publicada mundialmente. Além disso, saíram outras duas capas com circulação apenas na América Latina e algumas dezenas de artigos.

Apesar de criticar o governo Dilma e de ter pedido sua renúncia, a “Economist” criticou o impeachment, mas não tratou o processo como golpe de Estado. Em sua tese você diz que, para a revista, “a democracia não era um valor a ser defendido a qualquer custo. Estabilidade econômica e a abertura dos mercados interessavam mais”. Acha que este é o caso da cobertura atual também?

É muito difícil dizer isso porque são contextos muito distintos. Durante a Guerra Fria e a ditadura militar, realmente a estabilidade econômica e a defesa do capitalismo interessavam mais que a manutenção das democracias na América Latina. Atualmente, há alguma crítica sobre certos atores e a forma que estes conduzem o processo, a ‘Economist’ tem criticado também a nomeação de políticos acusados de corrupção e a ausência de mulheres no primeiro escalão. Mas, atuação da equipe econômica recebe elogios. Contudo, talvez seja possível dizer que a ‘Economist’ dá pouca voz ao outro lado, à defesa de Dilma Rousseff e àqueles que argumentam que o Brasil vive um golpe parlamentar. Estes baseados na fragilidade das acusações. Mas, não é possível dizer que os valores democráticos sejam hoje secundários para a revista.

Em entrevista à “Folha de S. Paulo”, Zanny Minton Beddoes, editora-chefe da “Economist” disse que toda a classe política decepcionou o Brasil. A revista chamou o impeachment de “jeitinho na Constituição” e tem acusado o sistema político brasileiro de ser disfuncional. De que forma você acha que o resultado da sua pesquisa, indicando o viés editorial da revista, se reflete nesta avaliação da política brasileira?

Para a revista importa estabilidade. A revista afirma que Dilma Rousseff não tem nenhuma acusação grave pesando contra ela. E que muitos dos que votaram a favor de que ela fosse retirada do cargo são acusados de corrupção. Entretanto, apoia que ela seja retirada do cargo. Advogaram a renúncia da ex-presidente em nome da eficiência do governo. Contudo, sabemos que o cenário é muito mais complexo que esse.

Mais recentemente a revista tem defendido eleições gerais, mas a pergunta é: quem teria legitimidade para convocá-las? A ex-presidente já disse algumas vezes que esta seria a forma com que ela conduziria a situação, mas a revista ainda achava que ela deve permanecer afastada.

Na sua opinião, por que a cobertura da “Economist” tem tanta repercussão no Brasil?

Essa foi a pergunta que estimulou o início da pesquisa. Por que uma publicação estrangeira, que apesar de aumentar constantemente sua cobertura sobre o Brasil nunca tratou o país como prioridade tem tanta repercussão aqui? Acredito que uma parte disso se deva ao estilo opinativo da revista. Que não se furta em colocar seu ponto de vista sobre determinados temas.

Outro fator está relacionado com a mídia local que repercute muito o que é veiculado pela Economist. Por exemplo, em um levantamento simples podemos ver que em 2013 a “Folha de S. Paulo” mencionou a “Economist” pelo menos 120 vezes. Isso é relevante, se pensarmos que a publicação da revista é semanal e que ela, em média, publica um texto sobre o Brasil em cada uma de suas edições.

Os brasileiros têm interesse pelo que se fala sobre o país no exterior, mas o que torna a “Economist” um caso à parte?

Acredito que seja exatamente essa repercussão interna do que aparece na revista.

De que forma você acha que a “Economist” reflete a reputação internacional do Brasil – há uma ligação entre a cobertura da revista e a imagem do país?

A revista é uma poderosa formadora de opinião. Entretanto, é difícil medir qual o impacto que ela tem para a imagem do Brasil em outros setores, como nas relações internacionais, por exemplo.

A capa da “Economist” com o Cristo Redentor decolando se tornou uma referência sobre a ascensão do Brasil no fim da década passada. Sua pesquisa mostra, entretanto, que a ideia de “take off” já havia sido usada pela revista para se referir ao Brasil. Trata-se de um tema que se repete? Por que isso acontece?

Foi muito interessante encontrar esse tipo de referência em textos publicados mais de 40 anos atrás. Sim, a temática da ascensão do Brasil se repete. Imagens muito similares são utilizadas no início dos anos 1970 e em meados dos anos 2000. Novamente, a revista tende a alternar momentos de alta expectativa e de decepção com a economia brasileira.

Sua pesquisa fala sobre a oscilação da cobertura da revista entre tons de otimismo e tons de pessimismo. A contrapartida do “take off’, com indicações de que o Brasil “perdeu o rumo”, também se repetiu no passado?

Sim, a gestão do General Ernesto Geisel na economia foi muito criticada.

Essa oscilação no tratamento é um reflexo da forma de trabalhar da revista, ou é um reflexo de oscilações na política econômica do Brasil?

Das duas coisas. A visão da “Economist” é mais positiva sobre o Brasil se a política econômica do país se aproxima mais do viés liberal defendido pela revista.

Seu doutorado parece ter um tom crítico ao fato de a “Economist” submeter a cobertura política em geral a questões econômicas, partindo do diapasão das regras do livre mercado. É um problema ter uma abordagem assim da realidade do Brasil? De que forma isso distorce (se é que o faz) a cobertura feita pela revista?

Não é um problema em si. A revista é sobre economia, é natural que ela dê mais ênfase aos aspectos econômicos. Entretanto, o noticiário tímido sobre as graves violações de direitos humanos que aconteceram no Brasil nos anos 1970 chama a atenção. Principalmente se comparamos com a importância que este tema teve em outros órgãos da imprensa europeia e americana.

Apesar de o Brasil aparecer na revista há tempos, seu trabalho indica que realmente houve um aumento da cobertura sobre o país ao longo do tempo. Por que isso aconteceu?

A “Economist” aumentou sua cobertura sobre toda a América Latina. A globalização da economia tornou essa região mais atrativa ao capital internacional e por consequência ao público da “Economist”. Mas, o Brasil, assim como outros países, aumentou, nos últimos anos, sua presença nos organismos multilaterais, no comércio internacional, em questões humanitárias, etc. Isso fez crescer o interesse sobre o país.

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Marcos Troyjo: Imagem do Brasil após Olimpíada será a de país de contrastes
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Daniel Buarque

Marcos Troyjo: Imagem que ficará do Brasil após Olimpíada é a de país de contrastes

Marcos Troyjo: Imagem que ficará do Brasil após Olimpíada é a de país de contrastes

A imagem que ficará do Brasil após os jogos Olímpicos do Rio de Janeiro é a de um país de contrastes, defende o pesquisador e colunista da “Folha de S.Paulo” Marcos Troyjo em artigo publicado nesta quarta (10).

“A mídia global bomba matérias sobre a beleza e a alegria que marcam o Brasil, mas essa poderosa lente de aumento também exibe no detalhe as nossas mazelas socioeconômicas, a incapacidade de melhorar o meio ambiente a disfuncionalidade de nossa política”, argumenta.

Troyjo é economista, diplomata e cientista social, e dirige o BRICLab da Universidade Columbia em Nova York. Ele diz que assistiu à abertura dos Jogos em um estúdio improvisado a serviço de redes de televisão estrangeiras, e que todas as equipes estavam boquiabertas com a qualidade estética e o entusiasmo da festa.

“O Brasil e seus nacionais ainda são muito desconhecidos. (…) Traços básicos de nossa história, geografia e conjuntura apenas agora estão se expandindo aos quatro cantos”, explica.

Para ele, enquanto o Brasil ganhou o direito a sediar a Olimpíada quando aparecia como potência emergente, os pilares da ascensão mostraram-se frágeis.

“A mensagem que se emite é menos a de um país cujo futuro brilhante está inercialmente garantido. E mais a de uma sociedade ainda assoberbada por seus gigantescos desafios”, diz.

Em um artigo publicado em maio, o colunista alegava que a ideia de que a ascensão da imagem do Brasil no mundo ao longo dos últimos anos deu ao país protagonismo nas relações globais é um erro. Para Troyjo, o Brasil teve uma grande oportunidade e chegou a um “camarote” dessa política internacional, mas se comportou de forma errada e deixou de aproveitar a chance de se consolidar como importante ator naquele palco.

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Qualidade da imagem do Brasil no exterior despencou em 2015, diz pesquisa
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Daniel Buarque

 

Pesquisa mostra que imagem do Brasil no exterior despencou em 2015

Pesquisa mostra que imagem do Brasil no exterior despencou em 2015

O clima de desastre associado à imagem do Brasil no noticiário internacional ao longo dos últimos meses levou a uma deterioração aguda da imagem do país no exterior. A avaliação é o resultado da pesquisa “I See Brazil”, estudo realizado pela agência de comunicação Imagem Corporativa, que busca medir as percepções externas em torno do país a partir do que se lê na mídia estrangeira e do que falam especialistas no assunto. Segundo o levantamento, 2015 foi “um ano para se esquecer”.

“O retrato do Brasil como uma ‘nova potência’, ‘economia emergente de destaque’ e ‘líder hemisférico’ se desfez tão rapidamente quanto apareceu”, diz o estudo mais recente, que acaba de ser publicado.

Leia também: Em nova edição, livro analisa ascensão e queda da imagem do Brasil no mundo
seebraz2O levantamento mostrou que houve uma clara inversão no teor das reportagens publicadas sobre o Brasil desde o final de 2014. No ano, quase três quartos dos textos que falavam do país apresentaram uma percepção negativa em torno do Brasil. Foram ou 72,3% de reportagens com tom negativo, e apenas 27,7% de matérias favoráveis ao país. Segundo a Imagem Corporativa, esses resultados são praticamente o contrário do verificado em 2011, quando as reportagens positivas somaram 73,5% do total, e as negativas, 26,5%. De “país da moda”, o Brasil agora é mais associado a “país das crises”.

O Estudo avaliou 1.908 reportagens sobre o Brasil publicadas no ano passado e indica que há nítido um interesse maior sobre assuntos ligados à economia (47,33% do total). Reportagens sobre política e a crise entre os poderes Executivo e Legislativo, além de escândalos de corrupção e ameaça de impeachment aparecem em segundo lugar, com 40,15% da cobertura internacional. Temas socioambientais encolheram para 12,53% do total.

seebrazA avaliação da Imagem Corporativa também atribui uma nota para a reputação do país no exterior a partir do levantamento realizado. O índice “I See Brazil” de 2015 resultou numa nota de 1,6 ponto em uma avaliação que vai de 0 (imagem extremamente negativa) a 10 (imagem extremamente positiva). Foi o menor resultado já registrado pelo estudo – uma marca dois pontos inferior à nora obtida em 2014, que foi de 3,77.

A agência de comunicação analisa as reportagens sobre o Brasil publicadas em nove veículos internacionais de imprensa para criar o índice I See Brazil: os argentinos “Clarín” e “La Nación”, o alemão “Der Spiegel”, o espanhol “El País”, os britânicos “Financial Times” e “The Economist”, o francês “Le Monde” e os americanos “The New York Times” e “The Wall Street Journal”.

Apesar de ser um importante retrato da imagem do país no resto do mundo, é importante ressaltar que o índice é revela uma flutuação que não atinge a essência da “marca Brasil”, a reputação que o país tem consolidada na mente das pessoas no resto do mundo – com todos os seus clichês e estereótipos. Esta imagem mais aprofundada, estudada por acadêmicos que pesquisam “identidade competitiva”, não costuma flutuar com tanta facilidade, e tem uma característica mais permanente.

Leia também: Crises, corrupção e zika criam tormenta, mas não destroem imagem do Brasil

Em uma entrevista concedida no ano passado ao autor deste blog Brasilianismo, o consultor britânico Simon Anholt, principal referência em estudos de imagem internacional e “marca país”, dizia que o acúmulo de notícias negativas não afetaria a reputação do Brasil. Por mais que o noticiário dê impressão de estarmos vivendo um desastre real, ele está apenas amplificando um discurso que pode não ter um efeito real sobre a imagem da nação. O consultor é o criador do Nation Brands Index (NBI), índice que avalia a imagem de 50 países, incluindo o Brasil, no resto do mundo.

Os dados mais recentes das pesquisas deste tipo deixam bem claro que as crises pelas quais o país vem passando não afetam a marca do Brasil. Divulgado em novembro do ano passado, já em meio às turbulências econômica e política e depois da perda de grau de investimento, o NBI mostrou que o Brasil na verdade subiu uma posição no ranking global de imagens de nações, e agora é o 20º país mais admirado do mundo. A mudança foi interpretada sem euforia, já que há muitos anos o Brasil costuma oscilar entre a 20ª e a 22ª posição no ranking global de 50 países – mas a manutenção do patamar em meio à crise mostra bem a estabilidade da imagem mesmo com todo o noticiário jogando contra.

Na entrevista, Anholt explicou que as imagens internacionais dos países não costumam sofrer mudanças radicais, e disse que os estereótipos têm grande potencial de se manter fortes na forma como o resto do mundo interpreta as outras nações. Todos esses levantamentos confirmam uma tendência positiva para a “marca Brasil”, e o fato de que as crises internas, por piores que pareçam, não afetam a reputação do país no resto do mundo. A imagem do Brasil está muito ligada ao estereótipo de Brasil como país “mais decorativo de que útil”, mais “simpático” do que “admirado”, como Anholt costuma explicar. Isso porque o Brasil é visto como um “país de festa” e tem uma boa imagem em questões relacionadas a lazer e diversão, mas uma reputação fraca em assuntos sérios como política e economia.

Não se pode negar que há um impacto imediato do noticiário internacional sobre o país na forma como ele é visto no resto do mundo. A situação do Brasil é crítica, e o levantamento “I See Brazil” mostra isso. Mas é importante ter em vista o contraponto desta imagem mais fixa do país. Isso tudo indica que uma estabilização da política e da economia do Brasil no futuro pode retomar o otimismo internacional com o país, melhorando a avaliação que se faz sobre o Brasil no resto do mundo.

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Deu na BBC: Olimpíada é ameaça maior à imagem do Brasil do que a crise
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Daniel Buarque

Deu na BBC: Olimpíada ameaça mais a imagem do Brasil do que a crise

Deu na BBC: Olimpíada ameaça mais a imagem do Brasil do que a crise

Em entrevista ao site brasileiro da rede britânica BBC, o consultor britânico Simon Anholt disse que a Olimpíada do Rio é uma ameaça maior à reputação do Brasil no exterior do que as crises política e econômica pelas quais o país está passando. O problema, segundo ele, é que grandes eventos internacionais, como a Copa e a Olimpíada, fazem o mundo ver uma abudância de notícias sobre a realidade do país sede, o que pode frustrar as expectativas dos estrangeiros.

Segundo Anholt, até a Copa de 2014 o mundo pensava que o Brasil era moderno e desenvolvido. “Vieram horas e horas de transmissão e cobertura da mídia sobre problemas sociais, protestos, crimes. O público se deu conta que era um país em desenvolvimento, e corrigiram aquela visão irrealista, foi um passo atrás. Acho que a Olimpíada será mais um pequeno passo para trás (na imagem do país no exterior)”, disse, em entrevista à BBC.

Anholt é a principal referência em estudos de imagem internacional e “marca país”, criador do ranking Nation Brands Index (em que o Brasil aparace com a 20ª melhor “marca”), e avalia com frequência a reputação que o Brasil tem no mundo. Em várias entrevistas ao autor deste blog Brasilianismo, ele já falava sobre os riscos de grandes eventos, e em 2009 ele já previa que os eventos poderiam ser ruins para a “marca Brasil”.

Na entrevista publicada pela BBC, Anholt reiterou o que havia dito ao blog Brasilianismo alguns meses atrás, que o acúmulo de notícias negativas de política e economia não afetaria a reputação do Brasil.

“Na média, globalmente, o impacto (da atual crise na imagem do país) é zero. Primeiramente, o fato de estar em recessão é algo que a maioria das pessoas na maior parte dos países não sabe a respeito e não se importa, porque não o afeta. De qualquer forma, recessão não é vista como responsabilidade de um país, mas como uma espécie de vírus que você pega, e não um ato deliberado de estupidez ou incompetência do governo”, disse.

Anholt também voltou a abordar o estereótipo de que o Brasil é um país “decorativo”, não levado muito a sério no resto do mundo. “Os EUA promoveram essa ideia do Brasil como destino turístico, paraíso. Desde aquele filme com Fred Astaire, Flying Down to Rio (1933). Todos pensam no Brasil como um país basicamente decorativo, mas inútil. Um típico país latino: muito bonito, homens e mulheres bonitos, clima maravilhoso. Ninguém trabalha, a economia é corrupta, pobre e desigual, mas é divertido, tem futebol, carnaval e samba. O caos e a corrupção: a imagem clássica do país latino”.

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A importância da imagem do Brasil que repercute na imprensa internacional
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Daniel Buarque

Correspondente da Rede Globo em Londres mostra reportagem sobre crise no Brasil na capa do jornal 'Financial Times'

Correspondente da Rede Globo em Londres mostra reportagem sobre crise no Brasil na capa do jornal ‘Financial Times’

O noticiário político eletrizado dos últimos dias e o forte impacto dele sobre a situação do país fizeram com que quase todos os grandes veículos de comunicação publicassem um tipo de reportagem muito característico na mídia brasileira: aquela cujo título diz que algo “repercute na imprensa internacional”.

Uma busca simples no Google oferece 1.250 textos publicados somente nos últimos dias com construções assim no título, sem contar milhares de outras que citam jornais específicos, como o bom e velho “deu no ‘New York Times’”. São milhares de textos traduzindo e comentando o que se fala sobre o Brasil no exterior (bem na linha do que este blog Brasilianismo também faz todos os dias há um ano). É uma cobertura tão ampla, e com uma audiência tão alta, que não seria exagero falar em uma certa obsessão nacional pela imagem do país no exterior.

Durante um evento em Londres sobre a realidade brasileira, pouco antes da Copa de 2014, foi curioso perceber que metade do público de uma centena de pessoas era formado por brasileiros interessados em saber como o país ia ser abordado pelos palestrantes gringos.  A revista “The Economist” percebeu isso há uns anos, e publicou um texto em que o repórter relata que quase tudo o que ele escreve sobre o Brasil acaba traduzido e comentado na imprensa brasileira. É algo bem particular do Brasil.

Capa da revista 'Time' sobre o Brasil em 1956

Capa da revista ‘Time’ sobre o Brasil em 1956

Este interesse nacional leva a alguns questionamentos que estão sempre presentes no trabalho deste blog Brasilianismo, e as pesquisas acadêmicas do seu autor: Por que os brasileiros se preocupam tanto com a imagem internacional do país? E qual é de fato a importância dessa reputação do Brasil no exterior?

Em um texto publicado nesta semana, em inglês, no site plus55, tentei abordar alguns desses pontos, buscando as origens desta obsessão nacional. “Reclamar que estrangeiros não nos entendem é um esporte nacional. Querer ser reconhecido e elogiado pelo resto do mundo é um sonho nacional. Revoltar-se contra o que vemos como críticas desnecessárias parece uma obrigação em todo o país. Como alguém ousa nos criticar?”, argumentei.

O assunto esteve bem presente na discussão nacional no início de fevereiro, quando um estrangeiro publicou um texto dizendo que os brasileiros são os culpados pelo problemas do Brasil. Ali houve pessoas que reclamaram do que chamavam de “complexo de vira-latas” nesse interesse brasileiro por imagem, enquanto outras apontavam que o olhar externo permitia uma análise mais independente, diferente do olhar de quem é brasileiro. Ambas têm alguma razão, mas as coisas não têm uma resposta simples e objetiva.

A verdade é que antes mesmo de o Brasil poder ser pensado como um país, já havia esse interesse pela interpretação que se tinha a respeito dele no resto do mundo. A preocupação com a imagem estava presente quando a Família Real portuguesa se mudou para o Brasil, em 1808, e trouxe artistas europeus para retratar esta terra estranha; a partir de 1822 essa preocupação estava presente como sendo um reconhecimento da independência do Brasil (e imposição da sua suposta “superioridade” em relação aos vizinhos); e depois, ao longo do século XIX, estava lá este interesse em promover a imagem nacional em várias Exposições Internacionais realizadas pelo mundo. Mais tarde, em 1889, uma das primeiras decisões da República recém-declarada foi enviar emissários para promover uma boa imagem (de estabilidade) do país na imprensa britânica. E ao longo do século XX, o Brasil promoveu a imagem do país em acordos com grupos de mídia dos Estados Unidos, e em ações diplomáticas, chegando a formalizar sua participação nas duas Guerras Mundiais como uma forma de melhorar sua reputação como nação relevante no cenário global.  

O interesse dos brasileiros e a importância dessa imagem internacional também foram temas abordados no livro “Brazil, um país do presente”, que trata da reputação do país no exterior.  Lá, está explicado que o Brasil sempre valorizou estudos externos sobre sua realidade, e que a própria concepção de “país do futuro” veio de uma análise internacional.

Leia também: Em nova edição, livro analisa ascensão e queda da imagem do Brasil no mundo

A opinião dos chamados brasilianistas sobre as notícias do país sempre foi considerada importante, e desde o início da consolidação dessa área de pesquisa nos Estados Unidos, sempre se debateu o quanto parcial seria este olhar externo. O próprio professor Thomas Skidmore, reverenciado como mais relevante brasilianista nos Estados Unidos, usou esta ideia de olhar externo em pelo menos um de seus livros . Isso voltou a ter destaque com um livro anterior de Larry Rohter, famoso no Brasil justamente por ser o autor dos textos em que o país mais se via refletido internacionalmente no principal jornal americano .

Por mais que não seja uma demonstração perfeita da força internacional, entender a percepção que outros países têm do Brasil é importante porque tudo o que um país quer fazer num mundo atual depende da sua imagem. “Se um o país tem uma boa imagem, é mais fácil e barato atrair investimentos, atrair turistas, ajuda, atenção e respeito da opinião pública global, além de valorizar seus produtos e seu povo em todo o planeta”, explicou Simon Anholt, consultor britânico que cunhou o termo “nation branding” para se referir a estudos sobre a marca internacional de países. Segundo ele, a opinião pública internacional está se tornando cada vez mais importante, e vai se consolidar como a única superpotência global.

O interesse exagerado talvez seja desnecessário, e talvez seja algo relacionado a uma comparação feita pelo pesquisador de geopolítica George Friedman, que diz que países como os Estados Unidos e o Brasil são nações jovens, adolescentes praticamente, com toda a insegurança que essa idade traz. Com apenas cinco séculos, o país atua sem muita confiança sobre si mesmo, como se ainda estivesse consolidando sua personalidade, o que torna importante tentar projetar uma boa imagem (e que faz com que haja forte preocupação com a forma como se é visto).

Sem querer fazer só uma defesa do trabalho cotidiano do Brasilianismo, é fácil perceber que a imagem internacional de um país tem, sim, muita importância, e faz sentido se preocupar com o que outras nações pensam a respeito do Brasil. A presença global do Brasil depende do que o resto do mundo pensa sobre o país, e muito do que se pensa sobre o Brasil é formado pela cobertura que a imprensa estrangeira faz a respeito do que acontece aqui. Tudo depende da imagem, indicam as principais pesquisas de nation branding, pois o mundo é muito grande, as pessoas não conhecem bem todos os países e baseiam suas opiniões e decisões na imagem genérica que o país tem internacionalmente.

Capa do livro 'Brazil, um país do presente', em sua edição digital

Capa do livro ‘Brazil, um país do presente’, em sua edição digital

Abaixo, transcrevo um trecho do livro “Brazil, um país do presente” em que fala um pouco mais sobre esse interesse nacional pela imagem internacional

Os brasileiros sempre foram fascinados pelo que os outros pensam deles. Desde as ações “para inglês ver”  do período do império, chegamos a uma relação dúbia com esta imagem externa. Por um lado, queremos ser vistos e admirados, tentamos vender a imagem de um povo feliz, um país de festa; por outro, reclamamos quando os estrangeiros simplificam nossa nação como decorativa, terra do carnaval e, numa consequência deturpada, da sensualidade. Por um lado, reclamamos publicamente dos nossos problemas e até pedimos apoio internacional para resolvê-los; por outro ficamos ofendidos quando nossas falhas são divulgadas e discutidas pelos estrangeiros.

No século XXI, duas décadas depois que a Guerra Fria acabou, os Estados Unidos se consolidaram como única potência global, e o Consenso de Washington tentou padronizar as economias do planeta, o foco dessa preocupação passou naturalmente dos ingleses aos americanos, antigos aliados próximos, que passamos a ver com admiração e suspeita. Mas o fascínio com a interpretação do “eles” em relação ao “nós” continuou. Bastava perceber a atenção dada pela mídia a qualquer menção ao Brasil no exterior – E ver, igualmente, o quanto isso atraía a audiência dos brasileiros .

Parecia um interesse maior do que mera curiosidade que todos têm em relação ao que o outro pensa e fala sobre si, mas uma necessidade de se afirmar pelo discurso do outro, um “complexo de colonizado”, de inferioridade, como me disse um pesquisador brasileiro na Universidade da Califórnia em Los Angeles: “Quando o brasileiro se vê representado, isso valida a posição dele e reproduz a posição dele. Quando o brasileiro quer consumir o que o ‘New York Times’ diz sobre ele, ele se coloca na posição de objeto do outro e reverencia estes gestos”, disse . É a “síndrome de underdog” (de vira-latas, ou do oprimido, em tradução livre), como repetiram muitas outras pessoas com quem conversei para tentar entender os motivos deste fascínio. O historiador brasileiro José Murilo de Carvalho já mencionou esta característica dos brasileiros que, segundo ele, alternam “em termos extremados, visões negativas e positivas de nosso povo. Os que só veem nele qualidades foram chamados de ufanistas, como Affonso Celso, ou, em linguagem popular, de ‘turma do oba-oba’. Os que nele só enxergam mazelas foram estigmatizados por Nelson Rodrigues como vítimas do complexo de vira-lata” .

Além desta curiosidade e da necessidade de afirmação, havia também, desde o princípio o sentimento de proteção contra ofensas. Era só alguma voz pública falar sobre o Brasil, mesmo sendo na ficção e até mesmo no humor, que os brasileiros reagiam de forma defensiva, como se tivessem sido profundamente ofendidos em sua honra. Foi assim com o episódio dos Simpsons, desenho animado que retratou o Brasil de forma superficial para efeitos humorísticos . Foi assim até mesmo com o ator Robin Williams, humorista, que contou uma piada sobre os motivos de o Rio de Janeiro ter sido escolhido como sede da Olimpíada de 2016 . O mesmo aconteceu com um comentário do ator Sylvester Stallone no lançamento de seu filme gravado em parte no Brasil, quando o americano precisou se retratar e pedir desculpas .

O sentimento protecionista sempre foi forte, mas um pesquisador brasilianista com quem conversei alegou que quem mora no Brasil não deveria ficar ofendido com essa exposição irônica e depreciativa, e que isso, na verdade, demonstra uma maior relevância do país no cenário internacional. “Piadas mostram um interesse maior no país. Ter piadas sobre o Brasil significa que as pessoas estão pensando e falando sobre o país”, explicou Joseph A. Page, professor de direito e diretor do Centro para Avanço no Controle Legal nas Américas da Universidade Georgetown, em Washington DC . E o aumento recente nas referências e nas piadas eram uma demonstração clara de que o Brasil estava crescendo em importância, se tornando realmente mais relevante e conhecido, sendo mais alvo de brincadeiras (mesmo que de mal gosto e politicamente incorretas), mas de menos de preconceito real por parte dos americanos.

PS – O blog Brasilianismo completa um ano no ar neste 18 de março, e este é o 365º post publicado aqui – um texto sobre o que “repercute na mídia internacional” a cada dia.

 

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Crises, corrupção e zika criam tormenta, mas não destroem imagem do Brasil
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Daniel Buarque

Capa de edição da revista "The Economist", de fevereiro de 2015 mostra o Brasil em um atoleiro

Capa de edição da revista “The Economist”, de fevereiro de 2015 mostra o Brasil em um atoleiro

O clima do noticiário internacional em relação ao Brasil é de desastre. Com a cobertura do depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se juntando a uma série de textos muito críticos, o cenário descrito na mídia estrangeira se tornou tão negativo que o historiador britânico Kenneth Maxwell chegou a dizer, em entrevista à rede BBC, que a imagem do Brasil nao poderia estar pior. As crises política e econômica, as denúncias de corrupção, o risco de violência, o desastre ambiental em Mariana e o surto de zika parecem criar a “tempestade perfeita” para destruir a reputação internacional do Brasil – mas os estudos sobre “marca país”, e “identidade competitiva”, que avaliam a forma como os países são vistos no exterior, indicam que mesmo que tudo isso seja muito ruim, não chega a afetar a essência da “marca Brasil”.

Em uma entrevista concedida no ano passado ao autor deste blog Brasilianismo – à época no jornal “Valor Econômico”-, o consultor britânico Simon Anholt, principal referência em estudos de imagem internacional e “marca país”, dizia que o acúmulo de notícias negativas não afetaria a reputação do Brasil. Segundo ele, só um desastre completo com consequências de muito longo prazo alteraria realmente o que o mundo pensa sobre um determinado país. Por mais que o noticiário dê impressão de estarmos vivendo um desastre real, ele está apenas amplificando um discurso que pode não ter um efeito real sobre a imagem da nação.

Anholt comentava à época o rebaixamento da nota de crédito do país, que afeta a forma de pensar de investidores estrangeiros, mas não mudava a forma como a população estrangeira pensava sobre o Brasil. “A maioria das pessoas nem sabe o que significa grau de investimento, e se for explicado o rebaixamento do Brasil, a primeira coisa que elas vão dizer é que sempre pensaram que o Brasil fosse pobre de qualquer jeito”. Segundo ele, nem mesmo uma catástrofe econômica mudaria os estereótipos que o mundo tem do Brasil, que já são de um país não muito rico financeiramente, mas de grande riqueza de cultura e seu povo.

O consultor é o criador do Nation Brands Index (NBI), índice que avalia a imagem de 50 países, incluindo o Brasil, no resto do mundo. Ele é pioneiro em estudos que comparam a forma como uma nação é vista pelo resto do planeta à maneira como consumidores veem marcas no mercado, e suas pesquisas avaliam sentimentos globais em relação aos países a partir de pesquisas de “top of mind”.

Os dados mais recentes das pesquisas deste tipo deixam bem claro que as crises pelas quais o país vem passando não afetam a imagem do Brasil. Divulgado em novembro do ano passado, já em meio às turbulências econômica e política e depois da perda de grau de investimento, o NBI mostrou que o Brasil na verdade subiu uma posição no ranking global de imagens de nações, e agora é o 20º país mais admirado do mundo. A mudança foi interpretada sem euforia, já que há muitos anos o Brasil costuma oscilar entre a 20ª e a 22ª posição no ranking global de 50 países – mas a manutenção do patamar em meio à crise mostra bem a estabilidade da imagem mesmo com todo o noticiário jogando contra.

Uma semana antes da divulgação do NBI, também em novembro do ano passado, um outro índice sobre imagem do Brasil mostrava que “crises internas não são exportadas”. Segundo o Latin American Country Brand Report, relatório da FutureBrand, o Brasil continua liderando o ranking de marca-país mais fortes da América Latina. A avaliação considera que, mesmo com as atuais crises, a imagem do Brasil ainda é a mais valiosa da região, com uma imagem ainda fortemente marcada por estereótipos como futebol, samba, praia e café.

Um outro estudo, publicado em janeiro deste ano, trazia uma avaliação semelhante. Segundo o ranking “Best Countries”, divulgado pela consultoria internacional WPP, mesmo com toda a crise, o Brasil é o 20º “melhor país do mundo”. O ranking se baseia nas percepções globais a respeito de 60 países do mundo. Ele leva em consideração a ideia que “por trás da riqueza e do sucesso de um país estão as políticas que criam possibilidades, as pessoas que se esforçam e a história que molda o ambiente e a perspectiva”, diz. Segundo este trabalho, o Brasil é um ótimo lugar para diversão e aventura, mas não exatamente um bom lugar para viver ou fazer negócios.

Todos esses levantamentos confirmam uma tendência positiva para a “marca Brasil”, e o fato de que as crises internas, por piores que pareçam, não afetam a reputação do país no resto do mundo. A imagem do Brasil está muito ligada ao estereótipo de Brasil como país “mais decorativo de que útil”, mais “simpático” do que “admirado”, como Anholt costuma explicar. Isso porque o Brasil é visto como um “país de festa” e tem uma boa imagem em questões relacionadas a lazer e diversão, mas uma reputação fraca em assuntos sérios como política e economia.

Na entrevista, Anholt explicou que as imagens internacionais dos países não costumam sofrer mudanças radicais, e disse que os estereótipos têm grande potencial de se manter fortes na forma como o resto do mundo interpreta as outras nações.

“Um dos motivos pelos quais as pessoas amam o Brasil é porque não pensam no país como sendo um país financeiramente rico. As pessoas pensam que o Brasil é rico em cultura, rico em paisagens, rico em ecologia e rico em estilo de vida. Prosperidade econômica sempre foi algo que as pessoas tiveram dificuldade de entender no contexto do Brasil”, explicou.

“Se a economia de um país entra em colapso e fica assim por muitos anos, isso pode ter algum impacto na forma como o resto do mundo pensa sobre aquele país. Mas os altos e baixos tradicionais do ciclo da economia, por mais que sejam dolorosos para os brasileiros, mal são percebidos pelas pessoas nos outros países”, disse.

Anholt citou a Grécia como exemplo de país que está em forte crise há bem mais tempo, mas cuja imagem não se alterou. “Tenho analisado a imagem da Grécia com cuidado, e as percepções básicas das pessoas em relação à Grécia não mudaram. Nem deveriam. O sol ainda brilha. Ainda é um belo país habitado por pessoas adoráveis. Tudo o que sempre foi verdade sobre a Grécia, continua sendo verdade.”

“Infelizmente ou felizmente, o Brasil tem esta imagem estereotipada, de um país de festas. honestamente, muitos países têm imagem pior de que isso. É uma imagem boa para o turismo do país, ajuda alguns produtos de exportação, é realmente ok. Esta é a imagem com a qual o brasil está preso, e o país tem que explorar isso da melhor forma possível”, diz.

Leia abaixo alguns trechos da entrevista concedida por Anholt no ano passado

Brasilianismo – Pode-se dizer que o Brasil tem um problema de imagem atualmente?
Simon Anholt – A opinião pública em geral não muda a imagem de um país por causa de uma crise econômica. Se a economia de um país entra em colapso e fica assim por muitos anos, isso pode ter algum impacto na forma como o resto do mundo pensa sobre aquele país. Mas os altos e baixos tradicionais do ciclo da economia, por mais que sejam dolorosos para os brasileiros, mal são percebidos pelas pessoas nos outros países. E nem deveria ser. Com que frequência você pensa sobre a situação econômica da Guiana, da Guatemala, ou da Namíbia? Você não pensa. As pessoas não pensam assim sobre outros países, a não ser que sejam investidores.

A opinião pública internacional não vê uma catastrofe econômica como sendo culpa do país em que a catástrofe acontece. Eles culpam os políticos, fenômenos internacionais, mas não rebaixam um país porque algo ruim acontece em sua economia. A opinião pública não é a Standard and Poors, que dá uma nota a cada ano com base na performance econômica. Se o Brasil quisesse mandar um exército para invadir a argentina, a opinião pública global provavelmente rebaixaria a imagem do Brasil, mas o fato de o Brasil passar por uma crise econômica não afeta a imagem do Brasil.

Brasilianismo – Você vem pesquisando imagem internacional de países há bastante tempo. É possível perceber alguma mudança na forma como o Brasil é visto no resto do mundo?
Anholt – A imagem do Brasil melhorou aos poucos até a Copa do Mundo no ano passado. O Nation Brands Index é um índice muito estável, qualquer movimento na imagem de um país é interessante. O Brasil era um dos poucos países cuja imagem melhorou de forma orgânica gradualmente um pouco a cada ano até o ano passado. Depois da Copa, o índice da imagem do Brasil caiu um pouco, como era previsivel, porque o Brasil provavelmente não estava pronto para receber tanta atenção. Assim como aconteceu na África do Sul depois da copa de 2010, o evento mostrou ao mundo como o país realmente é, mais desorganizado e desigual de que as pessoas imaginavam. A Copa permitiu que a mídia internacional mostrasse a realidade do país, e isso diminuiu a opinião positiva em relação à imagem do Brasil. Isso deve acontecer novamente na Olimpíada. As pessoas costumam pensar que um evento internacional esportivo só melhoram a imagem de um país, mas isso não é verdade. O que o evento faz é colocar um holofote no país e faz as pessoas olharem para o país. A imagem melhora se a realidade for melhor de que a percepção. Se a percepção for melhor de que a realidade, a imagem piora. E foi isso que aconteceu no caso do Brasil.

Brasilianismo – Antes da Copa, você dizia que o evento era uma oportunidade para o Brasil mostrar que era mais de que um país de festas. O país aproveitou essa oportunidade?
Anholt – A realidade é que os países não têm muito controle sobre a imagem deles que é projetada no resto do mundo. Os governos acham que tudo depende da imagem que eles vendem, mas não é assim que as coisas funcionam. Um país não consegue moldar a forma como o resto do mundo o vê, mesmo que contrate as melhores agências de publicidade do mundo. Não importa o quanto o país gaste com propaganda, as pessoas ignoram esse tipo de publicidade e prestam atenção somente na realidade do país. Claro que é fácil criticar o fato de o Brasil ter apenas reforçado sua imagem de país de festas, mas se foi isso que as pessoas procuraram ao olhar para o país durante a Copa, não havia muito que o Brasil pudesse fazer para tentar passar uma imagem diferente. A não ser mudar sua realidade, mas isso é algo que demora um período mais longo, muito mais de que o tempo de governos específicos. Ao longo de décadas, se um país mudar realmente, sua imagem também vai mudar. Mas é uma ilusão achar que a imagem de um país muda radicalmente de um ano para o outro.

Infelizmente ou felizmente, o Brasil tem esta imagem estereotipada, de um país de festas. Honestamente, muitos países têm imagem pior de que isso. É uma imagem boa para o turismo do país, ajuda alguns produtos de exportação, é realmente ok. Esta é a imagem com a qual o Brasil está preso, e o país tem que explorar isso da melhor forma possível.

Brasilianismo – Não há nada que um país possa fazer para mudar sua imagem, então?
Anholt – O resultado de todas as minhas pesquisas provam que um país só pode fazer uma coisa para fazer com que pessoas no resto do mundo mudem sua opinião em relação a ele. Isso é se tornar relevante para pessoas de outros países. Todos os governos com que tive contato são obcecados com o próprio país, com sua oprópria performance e qualidade de vida e prosperidade, e gastam muito dinheiro para mostrar ao resto do mundo o quanto ele é bem sucedido. Mas fora do país, ninguém se importa, pois não é lá que eles moram. Eu não me importo com o quanto é maravilhoso viver no Brasil, pois eu não moro no Brasil. Se o Brasil quer que alguém na Inglaterra, na Nigéria ou na Islândia se importe com o Brasil, o país precisa fazer alguma diferença na vida dessas pessoas nesses países.

Está claro que a única coisa que faz com que as pessoas admirar outro país é a contribuição que o país dá para o resto mundo, para a humanidade, para o planeta. O Brasil fez mais por sua imagem internacional ao sediar a Rio +20 de que qualquer outra coisa que o país já tenha feito. Aquele foi o único momento em que pessoas no resto do mundo se sentiram felizes por o Brasil existir. Quando o governo brasileiro para para pensar como o país pode ser mais admirado no mundo, ele deveria pensar em outra pergunta. Ele deveria se perguntar o que ele pode fazer pelo mundo, o que pode fazer pela humanidade. Isso naturalmente deve ter algo a ver com o ambiente, desmatamento, ou redução da pobreza. As pessoas no resto do mundo querem saber o que o Brasil faz por eles, elas não ligam para o que o Brasil faz por si mesmo.

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Crise não afeta ‘marca’ do Brasil, que sobe em ranking de imagens globais
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Daniel Buarque

Relatório do Nation Brands Index compara o Brasil com outros países dos BRIC

Relatório do Nation Brands Index compara o Brasil com outros países dos BRIC

Em meio a graves crises econômica e política, com perda de grau de investimento e ameaça constante de impeachment, o Brasil subiu uma posição no ranking global de imagens de nações, e agora é o 20º país mais admirado do mundo.

O dado faz parte do Anholt-GfK Nation Brands Index (NBI), a maior pesquisa global sobre a forma como o mundo vê cada país, e foi divulgado na terça-feira (17), em Londres. Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França e Canadá aparecem no topo da lista dos países mais admirados, enquanto o Brasil tem a imagem mais forte entre os países em desenvolvimento e entre os que formam os BRIC.

Relatório sobre a imagem internacional de 50 países do mundo

Relatório sobre a imagem internacional de 50 países do mundo

A mudança pode ser interpretada sem euforia, já que há muitos anos o Brasil costuma oscilar entre a 20ª e a 22ª posição no ranking global de 50 países. Além disso, a melhora na avaliação vem depois de o Brasil cair para 21º justamente no ano em que recebeu a Copa do Mundo, que poderia ajudar a dar mais visibilidade ao país.

O levantamento confirma, entretanto, uma tendência positiva para a marca-Brasil. O ganho de uma posição mostra que as crises internas do Brasil não afetam a reputação do país no resto do mundo.

Segundo o estudo, a Copa do Mundo teve um duplo efeito na imagem do Brasil. Por um lado, a realização bem-sucedida do evento ajudou a melhorar aspectos da reputação do país ligados a seu povo e sua cultura, mas por outro lado, enfraqueceu a imagem em temas ligados a política e economia, já que a imprensa internacional deu muita atenção a notícias relacionadas a problemas nessa área.

Assim, é possível dizer que a Copa do Mundo reforçou um estereótipo de Brasil como país “mais decorativo de que útil”, como avalia Simon Anholt, criador do índice. O consultor já se debruçou de forma mais atenta sobre o caso do Brasil. Ele vê o país como um exemplo de nações “decorativas, mas pouco úteis”. Isso porque o Brasil é visto como um “país de festa” e tem uma boa imagem em questões relacionadas a lazer e diversão, mas uma reputação fraca em assuntos sérios como política e economia.

Em entrevista ao blog Brasilianismo, em março, Anholt explicou que as imagens internacionais dos países não costumam sofrer mudanças radicais, e disse que os estereótipos têm grande potencial de se manter fortes na forma como o resto do mundo interpreta as outras nações.

A pesquisa deste ano diz ainda que é preciso promover ainda mais o turismo brasileiro a fim de explorar a possibilidade de melhora da imagem com a Olimpíada no próximo ano.

Principal pesquisa sobre marcas-país, o NBI avalia a imagem internacional de 50 países. O estudo realiza 20.342 entrevistas para entender o que o que o público internacional pensa sobre esses paíeses em termos de economia, política, cultura, população, turismo e potencial de imigração e investimento.

Uma semana antes da divulgação do NBI, um outro índice sobre imagem do Brasil mostrava que “crises internas não são exportadas”. Segundo o Latin American Country Brand Report, relatório da Future Brand, o Brasil continua liderando o ranking de marca-país mais fortes da América Latina.

A avaliação considera que, mesmo com as atuais crises econômica e política, e depois de uma série de notícias negativas sobre violência, a imagem do Brasil ainda é a mais valiosa da região, com uma imagem ainda fortemente marcada por estereótipos como futebol, samba, praia e café.

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Em meio a crise, Brasil mantém a marca-país mais valiosa da América Latina
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Daniel Buarque

Relatório da Future Brand sobre as marcas-país mais valiosas da região

Relatório da FutureBrand sobre as marcas-país mais valiosas da região

Com uma imagem ainda fortemente marcada por estereótipos como futebol, samba, praia e café, o Brasil lidera o ranking de marca-país mais fortes da América Latina.

A avaliação considera que, mesmo com as atuais crises econômica e política, e depois de uma série de notícias negativas sobre violência, a imagem do Brasil ainda é a mais valiosa da região.

Ranking dos países com marca mais fortes da região

Ranking dos países com marca mais fortes da região

A informação faz parte do Latin American Country Brand Report, relatório da FutureBrand, que mede a percepção da população de outras regiões do mundo em relação a 21 nações latino-americanas e analisa a força das marcas desses países.

O levantamento ouviu 2 mil pessoas de várias partes do mundo para chegar a esta conclusão.

Ao lado do pioneiro Nation Brands Index (NBI), da empresa GFK em parceria com o consultor Simon Anholt (que criou o termo ‘nation branding’), a FutureBrand é uma das maiores empresas de pesquisa deste tipo no mundo. O dado é uma importantíssima medida sobre a reputação dos países no resto do mundo e a forma como se comportam suas imagens.

Enquanto lidera a lista de melhores imagens na América Latina, o Brasil normalmente fica longe do topo em uma avaliação das reputações em todo o planeta. No resto do mundo, o NBI costuma colocar o Brasil em torno da 20ª colocação em um ranking global de marcas de nações do mundo.

Apesar do momento de instabilidade vivido pelo Brasil, o estudo diz que “crises internas não são exportadas”. E explica: “Notícias negativas e a piora que alguns países da região estão experimentando em termos de segurança, política e economia não têm um impacto significativo na percepção externa”.

Segundo o relatório da FutureBrand, “O Brasil é o líder indiscutível”, o que foi registrado pelo segundo ano consecutivo. A marca Brasil foi considerada a mais valiosa na região, seguida pela Argentina, o México, o Chile e o Peru.

O Brasil foi considerado o país com imagem mais forte em termos de sistemas de valor, potencial para negócios, cultura, turismo e indústria. O único item em que o país perdeu a liderança foi em relação a “qualidade de vida”, em que foi ultrapassado pela Argentina.

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