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Arquivo : Brian Winter

Para analistas estrangeiros, Brasil se tornou o país da corrupção sem fim
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Daniel Buarque

Para analistas estrangeiros, Brasil se tornou o país da corrupção sem fim

As mais recentes revelações sobre a corrupção na Odebrecht e a lista de Fachin geraram no resto do mundo a impressão de que o Brasil se consolidou de vez como o país da corrupção sem fim. O caráter interminável dos escândalos que se sucedem na política brasileira foi destacado por vários analistas nas avaliações publicadas na mídia do resto do mundo nos últimos dias.

A expressão “interminável” apareceu no título de um artigo do pesquisador Brian Winter na prestigiosa revista de diplomacia “Foreign Affairs”, por exemplo. Segundo Winter, o país está mergulhado em um “mar de lama” de forma rotineira desde os anos 1950, quando Vargas se suicidou.

Vice-presidente da Americas Society/Council of the Americas, e editor-chefe da revista “Americas Quarterly”, Winter foi correspondente internacional no Brasil, no México e na Argentina por dez anos e escreveu vários livros sobre a região. Ao avaliar a questão da corrupção do Brasil, ele cita problemas registrados nos anos 1960, escândalos durante o governo militar, as revelações que derrubaram Collor nos anos 1990 e vários outros casos até a queda de Dilma Rousseff, no ano passado, e as denúncias mais recentes na Lava Jato.

“Com a irritação pública em alta e a economia ainda estagnada, a democracia brasileira está em seu ponto mais vulnerável desde a volta dos governos civis três décadas atrás, e corre o risco de cair em uma disfunção de longo prazo ou no ‘autoritarismo suave’ que atualmente varre o mundo”, diz Winter.

Esta preocupação estava presente em avaliação da política brasileira no fim do ano passado. Em entrevista a este blog Brasilianismo, Winter disse que a atual crise criava um cenário parecido com o que deu espaço para a ascensão do populismo autoritário de Donald Trump nos EUA.

Apesar de a corrupção ser um problema global, e de ele não acreditar que seja um problema maior no Brasil, Winter explica que o país é recordista em fracassos de governos por conta de escândalos de corrupção. Ainda assim, “nas últimas décadas, a corrupção sistêmica do Brasil se tornou mais insustentável”, diz.

A única forma de conter a crise e reverter esta situação, segundo ele, é a transparência total do setor público. “Apenas se renunciarem a seus privilégios especiais e se comprometerem com uma reforma real, os políticos brasileiros serão capazes de reconquistar a confiança da população”, diz.

A interpretação dá continuidade à leitura sobre o caráter “disfuncional” da política brasileira, na avaliação de estrangeiros. Esta incapacidade de funcionar se tornou um dos símbolos do país para analistas do resto do mundo desde o processo de impeachment de Dilma, indicando que o problema não está necessariamente ligado a um partido ou político, mas a todo o sistema que rege o país.

Apesar de Winter fazer a análise internacional mais completa sobre este cenário atual da política brasileira, ele não é o único ao ver o escândalo como parte de uma tendência sem fim de corrupção. A expressão “interminável”, usada para se referir à corrupção brasileira deu título também a uma reportagem do jornal de economia “The Wall Street Journal”.

Um vídeo publicado pela página hispânica da rede alemão Deutsche Welle tem um tom parecido e compara o país a “um pântano de corrupção”.

Pablo Kummetz, economista da DW, diz que “o sistema político brasileiro está corrompido até a medula”. Segundo ele, o lado positivo é que o atual escândalo poe dar fim à conivência entre as empreiteiras e o Estado.

Para a rede canadense CBC, apesar de não ser uma novidade tão grande em meio às dezenas de denúncias recentes, o escândalo da última semana pode ser interpretado como uma ameaça à estabilidade política do país. “O presente e a esperança futura da política brasileira foram manchados”, diz.

Já a rede árabe Al Jazeera, em seu site em inglês, destacou as possíveis ramificações regionais do escândalo, indicando que a Lava Jato está criando preocupação em toda a América Latina. “A investigação chacoalhou o establishment político da região”, diz.

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Carne Fraca expôs ao mundo a corrupção sistêmica do país, dizem analistas
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Daniel Buarque

O escândalo revelado pela operação Carne Fraca, envolvendo frigoríficos brasileiros, se consolida como uma exposição internacional de o quanto a corrupção se tornou sistêmica, generalizada em todos os setores do país, que perdeu ainda mais credibilidade. A avaliação é defendida em artigos publicados por analistas estrangeiros na mídia internacional, e indica que isso afeta a reputação do Brasil no mundo e pode dificultar a recuperação econômica do país.

Em texto de opinião publicado na revista “Americas Quarterly”, Brian Winter, editor-chefe da publicação e autor de quatro livros sobre a América do Sul, indica que a Carne Fraca é mais um indício da falta de credibilidade do governo de Michel Temer e, por consequência, do país.

“Pouca gente confia, e menos ainda gosta, deste governo”, diz. Segundo ele, essa falta de confiança é alimentada pelo discurso do presidente, que diz não buscar popularidade. Isso gera dificuldade em aprovar uma série de reformas que podem até ser importantes para o país, mas que podem ser impedidas pelo clima de desconfiança generalizada.

Segundo ele, o governo Temer assumiu em circunstâncias problemáticas e está cercado de escândalos de corrupção desde então, o que torna difícil acreditar na aprovação da “reforma econômica mais ambiciosa dos últimos 20 anos”.

Vice-presidente da Americas Society/Council of the Americas, Winter foi correspondente internacional no Brasil e desponta atualmente como uma das principais vozes nos Estados Unidos a analisar e comentar o que acontece no Brasil e na América Latina. Em uma entrevista concedida ao blog Brasilianismo em dezembro, ele disse estar preocupado com a crise política no Brasil, pois vê na atual crise um cenário parecido com o que deu espaço para a ascensão do populismo autoritário de Trump nos EUA.

Na ocasião, ele também falou ainda sobre corrupção no país:”Não acho que os brasileiros sejam naturalmente mais corruptos do que alemães ou americanos, mas que as instituições que lidam com isso ainda não foram totalmente estabelecidas aqui, como foram em outros países. Espero que isso seja que esteja acontecendo agora”, disse.

No artigo mais recente, Winter cita a visita de um enviado da União Europeia para avaliar os frigoríficos brasileiros após a Carne Fraca. Em entrevista, ele alegou que o problema encontrado ali não era exceção, e aparece também em outros setores.

“O escândalo da carne é um exemplo perfeito do que pode dar errado quando as pessoas não confiam no governo”, explica.

Carne Fraca expôs ao mundo a corrupção sistêmica do país, dizem analistas

Uma tese semelhante é defendida pelo pesquisador James M. Roberts em um artigo publicado no site americano Daily Signal. Segundo ele, os escândalos da Lava Jato e da Carne Fraca mostram que a corrupção permeia todo o Brasil.

“A notícia triste para os brasileiros é que esses escândalos de corrupção poderiam ter sido antecipados, e talvez até evitados”, diz.

Roberts é ligado à Heritage Foundation, think tank conservador americano que é apontado como um dos centros formadores de políticas defendidas pelo atual presidente dos EUA, Donald Trump. O site Daily Signal também é ligado ao instituto, e tem ganhado maior força na mídia do país desde a posse de Trump.

Segundo o artigo, a avaliação do Brasil no Índice de Liberdade Econômica, produzidor pela Heritage, tem se deteriorado nas últimas décadas, em parte por causa da atuação dos governos de Lula e Dilma nesta área.

“Enquanto o Brasil tenta sair do pântano da corrupção, vamos torcer para que uma nova geração de lideranças políticas possa surgir com determinação para melhorar o cumprimento das leis e colocar o Brasil de volta no caminho da liberdade econômica”, diz.

O argumento usado nessas análises generaliza problemas do país e indica que casos de corrupção e de instabilidade não são isolados, mas estão relacionados a uma questão nacional mais ampla. É uma observação semelhante à que observadores externos faziam durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, quando indicavam que, mais do que uma falha na democracia, a derrubada do governo era um símbolo da disfuncionalidade da política nacional.

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Brasil tem os mesmos fatores que criaram fenômeno Trump, diz Brian Winter
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Daniel Buarque

Revista americana publica especial de 50 páginas sobre como consertar o Brasil

Revista americana publica especial de 50 páginas sobre como consertar o Brasil

Brian Winter está preocupado com a crise política no Brasil. Editor-chefe da revista “Americas Quarterly” e autor de quatro livros sobre a América do Sul, ele diz que vê na atual crise um cenário parecido com o que deu espaço para a ascensão do populismo autoritário de Donald Trump nos Estados Unidos, país onde nasceu e mora atualmente.

Em entrevista concedida ao longo de mais de uma hora em um café no bairro dos Jardins, em São Paulo, durante uma visita ao Brasil em dezembro para lançar a edição especial da revista sobre o país, Winter disse ao Blog Brasilianismo que ainda tem esperança de que a crise seja resultado de um amadurecimento do país, mas que é preciso cuidado com este risco do autoritarismo.

Vice-presidente da Americas Society/Council of the Americas, Winter foi correspondente internacional no Brasil, no México e na Argentina por dez anos e escreveu livros como “Why Soccer Matters” (Por que o futebol importa), escrito com Pelé, “The Accidental President of Brazil” (O presidente acidental do Brasil), escrito com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, “No Lost Causes” (Sem causas perdidas), com o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe e “Long After Midnight” (Muito depois da meia noite). Ele desponta atualmente como uma das principais vozes nos Estados Unidos a analisar e comentar o que acontece no Brasil e na América Latina.

brian_winterNa longa conversa, ele falou sobre política no Brasil, mas foi além da análise sobre a atual crise e o risco de autoritarismo, tratando de corrupção, violência e da consolidação das instituições nacionais. Um dos maiores problemas da política brasileira é que as instituições estão dominadas por uma geração que deveria ter deixado o poder, e não há jovens lideranças na política do país. Questionado sobre sua aposta para a eleição de 2018, disse que vê grandes chances de Ciro Gomes crescer politicamente.

Leia abaixo a entrevista completa

Brasilianismo – Em uma reportagem da “Americas Quarterly” de agosto de 2015 você falava sobre a consolidação da seriedade e estabilidade da política brasileira ao longo de duas décadas, e do risco que a crise política representava. Hoje, depois do agravemento dessa crise, do impeachment e de um início turbulento do governo Temer, como vê essa questão da estabilidade?
Brian Winter – Estou mais preocupado agora do que estava um ano atrás. Ainda acho que é inteiramente possível que tudo isso seja parte de um processo positivo. Podemos estar vendo as dores de um avanço qualitativo na aplicação das leis, o que toda democracia precisa enfrentar. Vejo figuras do Judiciário, como o próprio Sergio Moro, e muitos outros com quem tenho tido contato. Há pessoas extraordinárias.

O desenvolvimento e progresso não acontecem de forma natural. As pessoas têm que fazer isso acontecer. Me preocupo que a destruição dessa atual guerra de poderes seja tão severa que o país fique muito vulnerável quando chegar a eleição de 2018.

O problema maior é ilustrado pelo que acontece nos EUA. Os mesmos fatores que criaram o fenômeno Donald Trump estão presentes no Brasil. Exceto que, no Brasil, as coisas estão bem piores. É fácil ver este processo que vemos agora, de guerra de poderes, levar ao aparecimento de um líder autoritário em 2018.

Brasilianismo – Uma edição especial da revista sobre o país diz que “o destino do Brasil vai depender inteiramente das decisões que estão sendo tomadas agora”. O que acha das decisões que estão sendo tomadas agora?
Winter – É difícil ver decisões corretas sendo tomadas fora do Judiciário atualmente. Há pessoas que apostaram muito dinheiro em Temer e que agora estão perdendo dinheiro. A crença de que só tirar Dilma do poder consertaria tudo de forma mágica se provou errada. Havia uma crença grande de que após o impeachment as coisas voltariam a ser como eram até 2002, e que os 14 anos de PT seriam esquecidos. Ainda acho que há chance de Temer ir bem, mas essa possibilidade está diminuindo.

Brasilianismo – Como colocar isso no contexto da decisão do STF sobre Renan Calheiros, em dezembro, que foi criticada e apontada como “prova do golpe”, do “acordão” com Supremo e tudo, e que fez com que lados opostos se juntassem em crítica ao STF. O que acha disso?
Winter – Esse é o cenário mais negativo que podemos pensar. Eu hesito em dizer isso, mas, se estivéssemos em um período anterior a 1989, os generais não já teriam tomado o poder? Eu sou totalmente a favor da democracia e não acho que eles deveriam fazer isso, mas é importante perceber que este nível de desordem institucional existiu no passado, mas que agora a intervenção militar não é uma opção. Isso que deixa no ar a pergunta ‘quem vai dar um passo à frente para corrigir esta situação?’. Meu medo é que a tentação seja de eleger alguém com instintos autoritários para assumir esta função que no passado teria sido assumida pelos militares.

Brasilianismo – A edição especial da revista fala sobre possíveis nomes para o Brasil em 2018. Bolsonaro provavelmente seria o exemplo do que você acabou de citar. Há quem fale que Moro pode se destacar dessa forma também. O que acha?
Winter – Moro não vai ser candidato. Acredito na possibilidade de outros nomes do Judiciário se destacando dessa forma, e ouvi muita gente falando em Carmem Lucia.

É difícil comentar esse tipo de coisa no Brasil por causa do que está acontecendo nos EUA. Também entramos nessa fase em que as pessoas valorizam a democracia menos do que o faziam antes, pois acreditam que o país está em crise e por isso medidas e líderes autoritários são os caminhos contra a crise. O risco de que esta mesma tendência de autoritarismo chegue ao brasil é muito elevado.

Brasilianismo – Já que você falou de Trump, como acha que a relação entre Brasil e EUA pode mudar em seu governo?
Winter – Não acho que Donald Trump deu mais do que 60 segundos da sua atenção à América do Sul. É difícil saber como a relação vai mudar na prática, mas se Trump começar uma guerra comercial com a China, o que eu duvido que aconteça, isso vai ter consequências para o Brasil. O efeito de trump no Brasil pode ser de aumentar a integração da América Latina em comércio e em diplomacia.

Brasilianismo: A ascensão de Trump pode ser um incentivo ao autoritarismo no Brasil?
Winter – Vemos na história da América Latina que as tendências globais tendem a se refletir na região, então é possível pensar que sim. Mas acredito que a democracia brasileira evoluiu de uma forma que faz com que o país não precise mais de exemplos a seguir, não precise mais aprender com os EUA o que fazer. O Brasil e a América Latina têm seu próprio centro de gravidade, ao contrário do que acontecia 25 anos atrás. Claro que há uma crise agora, mas o processo doloroso e construtivo de implementação de leis e de combate à corrupção pode ser a opção à decadência institucional e guerra de poderes que daria ascensão a um movimento autoritário.

Brasilianismo – O processo de impeachment popularizou a ideia de que “as instituições estão funcionando”, mas a crise entre poderes abriu questionamentos a isso. Matthew Taylor disse que as instituições funcionam, mas que as pessoas dentro dessas instituições estão usando as regras de forma errada. O que acha?
Winter – Quando viajo pela América Latina, vejo políticos jovens, com 30 ou 40 anos de idade, atuando de forma intensa na política local. No brasil não há ninguém assim. No Brasil não há lideranças jovens. É difícil até achar algum político ativo abaixo dos 50 anos. O governo atual é dominado por pessoas na casa do 70 anos, e isso é incrível. A forma como as eleições acontecem no Brasil dá muito poder aos partidos, e isso impede a emergência de novos partidos e novos nomes no país. São barreiras institucionais que impedem essa mudança geracional. Eu trabalhei com FHC e tenho uma relação pessoal com ele, mas o fato de o nome dele ter sido citado como uma possibilidade para uma eleição indireta é prova de total falta de imaginação e sinal do quanto o país precisa de uma mudança geracional. Ele tem 85 anos! Não existe outra solução? O fato de ele ter sido mencionado não faz sentido.

O Brasil tem instituições dominadas por uma geração que deveria ter saído de cena. O país precisa de uma mudança geracional na política. A ausência de uma nova geração na política é a grande diferença do Brasil em relação ao resto do continente. As instituições até funcionam, mas as pessoas que atuam nelas são as mesmas desde as Diretas Já. Desde antes mesmo que as instituições existissem ou funcionassem propriamente.

Brasilianismo – Entre março e abril do ano passado você deu entrevistas falando da crescente possibilidade de impeachment de Dilma Rousseff. Agora, acha que Temer termina seu mandato?
Winter – Acho que Temer vai sobreviver. Ele ainda tem muito apoio dos partidos políticos em Brasília. Estive lá e fiquei surpreso com o clima de resignação. As pessoas não estão mais mobilizadas. Não sinto o mesmo nível de rejeição e raiva que esperava. Faz sentido. As pessoas estão cansadas. A crise está entrando em seu terceiro ano. Isso aconteceu também na crise argentina. Em 2003, as pessoas odiavam Eduardo Duhalde, mas os cidadãos estavam sem energia depois de tantos protestos e mudanças no governo.

Se Temer for diretamente implicado na Lava Jato, tudo pode mudar, mas, por enquanto, acho que ele sobrevive.

Brasilianismo – E quem acha que pode substituir ele após 2018?
Winter – Se tivesse que apostar, diria que Ciro Gomes. Ele tem um pé no perfil anti-establishment, mas, na verdade é alguém que está presente na política há muito tempo. Além disso seu discurso é bem posicionado para se aproveitar da raiva da população se o país não melhorar até a eleição.

Outra opção é aparecer alguém que não está no radar até agora.

Brasilianismo – Na cobertura que a revista faz do país, qual a maior dificuldade de traduzir o Brasil para leitores no resto do mundo?
Winter – É muito difícil traduzir o país. O Brasil é um país desorientador, mas apesar de ser difícil de explicar, tem características que os americanos conseguem reconhecer, como o tamanho do território, o perfil autocentrado. Há interesse no Brasil. Vemos isso com a revista e com o site. Houve um aumento do interesse no ano passado por causa do impeachment, mas há o reconhecimento geral de que as coisas foram muito bem por um período, e estão indo muito mal agora. As pessoas estão de olho.

Brasilianismo – Como lida com a ideia de que brasileiros estão lendo e fazendo cobranças a respeito do que você escreve em inglês?
Winter – Esta semana, uma das pessoas que trabalha com redes sociais na revista me disse que nunca tinha visto ninguém ser acusado de ser tantas coisas diferentes ao mesmo tempo. Eles me chamam anti-pt, anti-tucano, de esquerda, de direita, autoritário, liberal. Espero que seja um sinal de que estou mantendo os olhos abertos e estou respeitando o país. Vivi muitos anos aqui e mantive relacionamento com as pessoas, e trabalho muito duro para acompanhar o que acontece aqui. Mesmo morando em Nova York eu ouço CBN no metrô. Eu tento ser fiel ao que acredito e tento não se partidário. Não sou a favor de nenhum partido. Acredito na democracia, na economia inclusiva, nos direitos iguais para todas as pessoas (o que me faz achar Bolsonaro detestável). Acho que o PT fez coisas boas e sei que o PSDB fez coisas ruins. às vezes eu erro, mas tento fazer o melhor possível.

Brasilianismo – Você veio ao Brasil em 2010, quando o interesse no Brasil estava em alta. Agora o país está em crise. Mudou algo no interesse internacional sobre o país?
Winter – Mudou, mas o mais importante é o que aconteceu antes disso. Em 2004, eu morava na Argentina. Recebi uma ligação de uma editora de Nova York perguntando se eu já tinha ouvido falar de Fernando Henrique Cardoso. Eles queriam um jornalista para ajudar ele a escrever um livro para o público internacional, e perguntaram se eu tinha interesse. Eu disse que sim, mas que não falava português, não conhecia bem o Brasil e nunca tinha escrito um livro. Lembrei a ele que eu morava na Argentina, e ele respondeu: “Brasil e Argentina não são basicamente a mesma coisa?”.

Este tipo de conversa não aconteceria em 2016. Nos últimos 12 anos, houve um aumento da visibilidade do Brasil e da conexão do país com os EUA. Agora é facil achar alguém nos eua que fale português e conhece minimamente o Brasil para escrever um livro assim. Isso mudou. O reconhecimento da importância do Brasil se acelerou na virada da década, e vai continuar presente, com mais pessoas familiarizadas com o Brasil.

Brasilianismo – O consultor britânico Simon Anholt dizia que a crise não mudaria a imagem do Brasil em outros países, pois o resto do mundo já via o país como sendo um país pobre. Mesmo assim o Brasil teve sua maior queda no NBI deste ano. Como acha que a crise está afetando a imagem internacional do brasil?
Winter – Agosto de 2016, de forma geral, foi ruim para a imagem do Brasil, por conta do impeachment e da Olimpíada. Acho que a Olimpíada foi boa para o país, mas as complicações que tiveram destaque na mídia podem ser ruins para a imagem. O momento atual é difícil, mas não vai durar para sempre. Se o país conseguir se recuperar nos próximos anos, sua posição em rankings assim vai melhorar. É coisa passageira.

Brasilianismo – Você escreveu sobre sua relação com o risco de violência no Brasil. Quanto a violência está conectada à imagem do Brasil nos Estados Unidos?
Winter – Muito. O Brasil é um paí muito violento, e tem coisas que parecem normais aqui que não são normais, como carros blindados, muros de 3 metros de altura com cerca eletrificada, a facilidade com que as pessoas são mortas e a falta de julgamento. Sucessivos governos desde o fim da ditadura fracassaram na tentativa em nível federal de controlar a violência. Isso acaba tendo reflexos políticos, pois a insatisfação das pessoas é com a situação de insegurança generalizada em que elas vivem. Não é uma questão fácil de lidar, mas é parte da identidade do que significa ser brasileiro e do que se pensa sobre o país no mundo.

O diretor de uma empresa de tecnologia que atua no mundo todo esteve no Brasil e visitou a Rocinha. Perguntado sobre o que achou, ele se disse surpreso com o fato de a Rocinha não ser tão pobre em um contexto global. Segundo ele, o que é sufocante é o risco de violência que se sente só de visitar o lugar. Esta é a verdadeira fonte de miséria das pessoas que vivem ali.

Brasilianismo – As pessoas têm falado sobre a corrupção no cotidiano dos brasileiros. Acha que isso é algo em que o país se diferencia do resto do mundo?
Winter – Acho que a corrupção é o estado normal dos homens, e que é preciso construir instituições e leis para retirar a corrupção da sociedade. Não acho que os brasileiros sejam naturalmente mais corruptos do que alemães ou americanos, mas que as instituições que lidam com isso ainda não foram totalmente estabelecidas aqui, como foram em outros países. Espero que isso seja que esteja acontecendo agora.

É importante perceber que há menos corrupção cotidiana no Brasil do que em outros países da América Latina. Você não vê o hábito de dar a policiais na rua 5 pesos para comprar um refrigerante como há no México, por exemplo. O que há é um sistema de corrupção que define a interação entre o setor privado e o setor público, que se tornou incompatível com a melhora das instituições jurídicas independentes. E agora chegamos ao momento de crise. A esperança é que este sistema seja reconstruído, criando uma nova forma de interação entre os setores público e privado.

Brasilianismo – Em 2010 falava-se que o Brasil se tornava um exemplo global de luta contra a pobreza e a desigualdade. isso se perdeu com a crise. Acha que o Brasil ainda é exemplo positivo de algo para o resto do mundo?
Winter – Sim, é um exemplo de tolerância. Em um contexto global, a sociedade brasileira é muito tolerante. O país recebeu muitos migrantes de forma aberta, com poucos incidentes problemáticos. Quando se vê a pluralidade da sociedade e a forma como pessoas de todas as minorias são aceitas e toleradas, percebe-se que o Brasil dá uma lição nesse sentido, apesar de haver incidentes barulhentos, e crimes de ódio contra gays. A sociedade como um todo tem uma capacidade surpreendente de assimilar. Eu senti isso quando vivi aqui. Me senti mais bem-vindo aqui do que em qualquer outro país.

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Eleição revela guinada conservadora no Brasil e ecoa ditadura, diz revista
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Daniel Buarque

Eleição confirma guinada conservadora no Brasil e ecoa ditadura, diz revista

Eleição confirma guinada conservadora no Brasil e ecoa ditadura, diz revista

As eleições municipais confirmaram a volta de uma guinada conservadora e em defesa do autoritarismo no Brasil, avalia um artigo do editor chefe da revista “Americas Quarterly”, Brian Winter.

Por mais que o fortalecimento conservador seja uma conclusão comum nas análises internacionais do cenário político nacional hoje, a publicação alerta que o movimento pode ter ecos de um passado problemático do país.

Vice-presidente da Americas Society/Council of the Americas, e autor de quatro livros sobre a América do Sul, Winter ex[plica que o caso brasileiro repete o que acontece em todo o mundo, e compara com a possível eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

“Mas a experiência do Brasil é algo diferente porque contém ecos de um passado não muito distante – o período entre 1964 e 1985, quando o maior país da América Latina foi governado por uma ditadura militar. Nostalgia por aquele período, ou pelo menos de algumas de suas táticas e visão de mundo, está em seu ponto mais alto em muitos anos”, diz.

Segundo ele, essa onda pode se tornar um risco aos direitos humanos e à liberdade de imprensa, além de mudar a a forma como a política brasileira se organizará nos próximos anos.

A avaliação de Winter é de que parte desse movimento vem da insatisfação nacional com a situação econômica do país, além da indignação pelo escândalos de corrupção. Isso cria, ele diz, um movimento perigoso de rejeição à política tradicional.

Winter e a “AQ” têm feito uma cobertura muito frequente da situação do Brasil, com uma abordagem crítica e bem aprofundada de questões políticas e econômicas. Em outubro, a revista publicou uma edição especial de 50 páginas dedicadas a avaliar a situação atual do Brasil e apresentar propostas para ”consertar” o país.

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Revista americana faz edição de 50 páginas sobre como consertar o Brasil
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Daniel Buarque

Revista americana publica especial de 50 páginas sobre como consertar o Brasil

Revista americana publica especial de 50 páginas sobre como consertar o Brasil

A revista americana “Americas Quarterly” publicou uma edição especial de 50 páginas dedicadas a avaliar a situação atual do Brasil e apresentar propostas para “consertar” o país.

Em meio à maior crise econômica do país em décadas, o editor-chefe da revista, Brian Winter, diz que era preciso questionar a ideia de que, no longo prazo, o país tem a capacidade de se recuperar e sair da recessão mais forte do que entrou.

“O destino do Brasil vai depender inteiramente das decisões que estão sendo tomadas agora, nos próximos meses e anos. Com o pior da recessão e do turbilhão político aparentemente encerrados, este é o momento de políticos brasileiros – assim como seus empresários, sociedade civil e outros cidadãos – se levantar e criar o país em que eles querem viver. O progresso não é impossível, mas também não é inevitável”, diz a apresentação.

A “AQ” tem feito uma cobertura muito frequente da situação do Brasil, com uma abordagem crítica e bem aprofundada de questões políticas e econômicas. Vice-presidente da Americas Society/Council of the Americas, e autor de quatro livros sobre a América do Sul, Winter coordena a edição especial sobre o país.

A edição traz textos sobre economia e crise, um perfil de dez possíveis candidatos à Presidência do Brasil na eleição de 2018, uma entrevista com Marina Silva, uma reportagem sobre a agricultura brasileira e outra sobre a situação das favelas do Rio de Janeiro, mais um sobre política externa entre outros textos.

A maior parte dos textos já está disponível na internet, outros vão ser publicados assim nos próximos dias.

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Politizada, Lava Jato chega perto do fim sem resultado claro, diz revista
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Daniel Buarque

Politizada, Lava Jato chega perto do fim sem um resultado claro, diz "America Quarterly"

Politizada, Lava Jato chega perto do fim sem um resultado claro, diz “America Quarterly”

A mesma revista estrangeira que colocou o juiz Sérgio Moro em sua capa vestido de “caça-corrupto”, em alusão ao filme “Os Caça-Fantasmas”, agora publica uma análise crítica e aprofundada dos caminhos tomados pela Operação Lava Jato, e vê a aproximação de um fim imprevisível para ela.

Segundo a avaliação da “Americas Quarterly”, a investigação se tornou politizada, e é impossível prever onde ela vai acabar.

Segundo Brian Winter, editor da publicação que escreveu a ampla análise, a politização da Lava Jato ocorreu mais por necessidade do que por ser parte do plano da investigação.

“Diria que a politização do caso é exatamente o que permitiu que ela progredisse até onde foi sem ser interrompida por seus inimigos. Perversamente, também é o que vai começar a levar a investigação a seu fim, provavelmente nos próximos meses”, diz.

Em sua avaliação, o processo cresceu por ter surfado na perseguição a políticos corruptos em um momento em que a população apoiava o caso e se mostrava insatisfeita com os governos. Isso permitiu a Lava Jato ter um alcance inédito e deu força e popularidade para que ela não fosse atrapalhada pelos políticos.

Os últimos encaminhamentos desse processo, entretanto, podem ter se tornado passos em falso, diz. A estratégia parece ter exagerado na politização no processo contra o ex-presidente Lula, que se desencadeou em críticas mais forte à operação, na tentativa do Congresso de mudar a lei contra caixa-dois de campanha e em novos erros no pedido de prisão de Guido Mantega.

“É difícil não ter a sensação de que a tendência da Lava Jato é perder força”, diz.

Segundo Winter, a Lava Jato poderia ter material para processar todo o sistema político, mas provavelmente vai focar apenas em que acredita serem os líderes do esquema de corrupção.

“Isso é justo? Não, não é. Mas não é uma tática política – é uma tática investigativa clássica”, diz. “Também pode ser a estratégia para que a Lava Jato tenha chances de deixar um legado forte e intacto.”

“Mesmo se a Lava Jato não tiver um final de hollywood, a investigação mudou para sempre a cultura de impunidade no Brasil”, defende.

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Brian Winter: Ouro do futebol pode marcar fim da crise política do Brasil
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Daniel Buarque

Brian Winter: Ouro do futebol pode marcar fim da crise política do Brasil

Brian Winter: Ouro do futebol pode marcar fim da crise política do Brasil

A conquista da medalha de ouro inédita do futebol brasileiro na Olimpíada do Rio, na semana passada, e o sucesso da realização do evento, serão lembrados como o começo do fim da longa crise que atingiu o Brasil, segundo a avaliação do editor-chefe da revista “Americas Quarterly”, Brian Winter.

Em um artigo publicado nesta semana, Winter admite que essa interpretação pode ser uma busca pessoal pela construção de uma narrativa grandiosa sobre o destino da nação, mas apela à história para mostrar como futebol e política muitas vezes parecem convergir no país, e como isso pode ajudar o atual governo interino de Michel Temer a se consolidar e se fortalecer.

Vice-presidente da Americas Society/Council of the Americas, e autor de quatro livros sobre a América do Sul, Winter compara a atual situação do país ao que aconteceu em 1994. “Um Brasil deprimido precisava desesperadamente de um impulso”, diz. Corrupção, crise política após impeachment e hiperinflação se juntavam a um jejum de mais de 20 anos em títulos da seleção de futebol e criavam “um sentimento geral de que o país não conseguia fazer nada certo”.

E mesmo assim, naquele ano, a sorte virou enquanto futebol e política convergiam. O Brasil se tornou tetracampeão de futebol na Copa dos Estados Unidos, implementou o plano real, e deu início a um dos períodos de maior estabilidade da história recente do país.

“Não consegui parar de pensar nisso na tarde de sábado, enquanto o futebol brasileiro e a política mais uma vez convergiam de forma impressionante”, diz.

“Ao vencer a Alemanha em mais uma disputa de penaltis dramática, o Brasil conquistou o ouro olímpico do futebol pela primeira vez, oferecendo a uma nação deprimida o maior momento de alegria coletiva em anos. Ao fazer isso, o time exorcizou alguns dos demônios da derrota por 7 a 1 na Copa – que por coincidência ou não marcou o início da descida do país a dois anos de humilhações, escândalos e recessão”, explica.

Winter diz que é fácil pensar que “pão e circo” podem ser usados para distrair as massas e aumentar a confiança brasileira em meio ao processo de impeachment de Dilma Rousseff. Ele alega, entretanto, acreditar que o Brasil amadureceu e que as lições da crise não vão ser esquecidas facilmente.

“Confiança e sentimento são críticos para políticas e para economias, e o otimismo muitas vezes se torna autorrealizável”, diz.

A convergência entre política e futebol no Brasil é um tema frequente nas análises de estrangeiros sobre o país.

Enquanto analistas internacionais costumam ver os governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva como um período único de estabilidade do país, é comum ler comentários de pesquisadores que associam as vitórias da seleção nas copas de 1994 e 2002 com a situação política do país no momento da eleição dos dois.

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Reação a caso Lochte reflete obsessão do Brasil por sua imagem no mundo
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Daniel Buarque

Reação brasileira a caso Lochte revela obsessão pela imagem internacional do país

Reação brasileira a caso Lochte revela obsessão pela imagem internacional do país

A forte reação do Brasil e dos brasileiros ao caso do nadador americano Ryan Lochte, que mentiu ao alegar ter sofrido um assalto no Rio durante a Olimpíada, é um reflexo da obsessão nacional pela reputação internacional do país e da baixa autoestima nacional ao ver notícias negativas sobre o país no resto do mundo.

Segundo o jornalista e escritor americano Alex Cuadros, ex-correspondente da Bloomberg no Brasil e autor do livro “Brazillionaires”, sobre os megarricos do país,  a peculiaridade cultural do país, que se preocupa com a reputação que tem no mundo desenvolvido, é uma justificativa para a dimensão que o caso tomou.

“A intensidade das reações – tanto as oficiais quanto as extraoficiais – também apontam para uma peculiaridade cultural maior. Há tempos é comum que os brasileiros fiquem obsessivos sobre o que o mundo desenvolvido pensa deles. Mesmo quando a Olimpíada não está acontecendo, a mídia local constantemente publica reportagens sobre o que veículos americanos e europeus estão dizendo sobre o Brasil. Lochte sem querer tocou o terceiro trilho da identidade nacional”, avalia Cuadros, em artigo publicado na revista americana “The New Yorker”. Quando deu entrevista sobre seu livro, Cuadros já comentou que percebia essa obsessão enquanto vivia e trabalhava no país.

A existência deste blog Brasilianismo, dedicado a tentar entender essa reputação do Brasil no exterior, e a publicação deste post são provas vivas dessa tese de Cuadros. A obsessão brasileira pela imagem internacional do Brasil é um tema corrente neste blog Brasilianismo, que já publicou textos explicando a importância dessa reputação global. Além de entender o que se pensa sobre o país, um dos objetivos do blog é entender por que os brasileiros se interessam tanto pelo que se fala sobre o país no exterior.

Leia também: A importância da imagem do Brasil que repercute na imprensa internacional

A reputação internacional tem influência sobre a posição diplomática e econômica de um país no mundo, e é relevante para todas as nações. Cuidar da forma como o país é visto é algo natural, mas no Brasil aparece de forma mais exagerada e há mais tempo.

A preocupação nacional com a forma como o país é visto é histórica. Desde o século 19, quando o país se tornou independente e quando virou República, estava claro o objetivo nacional de promover no mundo uma imagem de nação grande e moderna. Mais recentemente, ela fica evidente nas reações em redes sociais todas as vezes em que o Brasil é criticado no resto do mundo.

Cuadros explica que a obsessão com a imagem do país estava presente na própria candidatura do Rio a sediar a Olimpíada, e lembra que o ex-presidente Lula queria que o Brasil mostrasse ao mundo que era um país de “primeira classe”. “Assim como têm orgulho do samba, do carnaval e do futebol, brasileiros esperavam mostrar ao mundo que seu país é mais do que isso”, diz.

Seu artigo destaca a importância do “complexo de vira-latas” no país, e diz que o Brasil tem um tipo de “excepcionalismo invertido”, marcado por baixa autoestima na qual os brasileiros são os primeiros a indicar os problemas nacionais.

“Mesmo com todos os seus recursos naturais e seu tamanho continental, o Brasil sempre parece ficar aquém do seu potencial, nunca conseguindo encontrar seu lugar no clube das nações desenvolvidas”, diz.

Nesse contexto, enquanto a Olimpíada aumenta a visibilidade internacional do país e propaga notícias negativas sobre ele no resto do mundo, “o caso Lochte se encaixou perfeitamente”, diz.

De fato, a notícia sobre o assalto aos nadadores, divulgada com destaque internacional no início da semana, ajudou a divulgar uma imagem de um país incapaz de proteger mesmo os atletas no evento global. A violência brasileira foi estampada nos principais jornais do mundo, “manchando a imagem do país”.

Em compensação, a revelação de que os americanos mentiram aparenta ter ganho um destaque igual ou maior em todo o mundo. A própria revista “The New Yorker” publicou até mesmo uma correção de uma charge divulgada durante a semana. No desenho atualizado, o policial comenta que os nadadores estão do lado errado do vidro, dando a entender que os suspeitos são eles mesmos.

Charge da revista 'The New Yorker' foi corrigida após a revelação de que os nadadores mentiram

Charge da revista ‘The New Yorker’ foi corrigida após a revelação de que os nadadores mentiram

Isso ajuda a mostrar que “em países sérios, você não pode mentir para polícia e escapar com isso”, como argumentou o especialista em América Latina do centro de pesquisas Council of the Americas, em Washington, Brian Winter em entrevista à BBC Brasil.

Por outro lado, ainda há analistas internacionais que acham que o Brasil exagerou na sua reação ao caso, como a colunista Nancy Armour, do jornal americano “USA Today”. Depois de publicar um texto inicial em que dizia que a veracidade da história de Lochte era “irrelevante”, ela continuou criticando a polícia do Rio mesmo depois de os nadadores admitirem que mentiram e pedirem desculpas.

Segundo ela, mesmo que Lochte seja culpado por mentir, a polícia brasileira errou a dose ao tratar a falsa denúncia de crime como um “crime capital”. “Se ao menos a polícia se preocupasse tanto com o mal realizado contra seus cidadãos todos os dias”, disse, citando dados da violência da cidade.

De forma semelhante, mas mais bem articulada e embasada, o colunista da BBC Brasil Tim Vickery defendeu que a criminalidade real do Rio não deve ser escondida.

“É por esse motivo que uma cobertura exagerada sobre esse assunto é preferível a uma que procure minimizar os perigos. As maiores vítimas da violência são os próprios cariocas. E os ricos têm mais possibilidade de se proteger, nos seus condomínios fechados e espaços privados. Quem sofre mais são as pessoais normais”, diz.

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‘Americas Quarterly’: Notícias ruins sobre o Brasil refletem avanço do país
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Daniel Buarque

'Americas Quarterly': Notícias ruins sobre o Brasil refletem processo positivo

‘Americas Quarterly’: Notícias ruins sobre o Brasil refletem processo positivo

O noticiário internacional sobre o Brasil às vésperas da Olimpíada dificilmente poderia ser mais negativo. Todos os dias, a imprensa estrangeira tem noticiado problemas relacionados aos Jogos, à violência e também à corrupção na política e à recessão econômica. Tudo isso é resultado de um processo positivo, de avanços do país, e deveria incentivar mais investimentos internacionais no Brasil.

Esta é a avaliação publicada pela revista “Americas Quarterly”, que diz que as notícias sobre corrupção no Brasil refletem o fato de que o país é um dos que mais lutam contra ela na América Latina, por exemplo.

As notícias “não significam que o Brasil é o país mais corrupto da América do Sul – elas podem, ao contrário, mostrar que ele tem o mais saudável, ou mais ativo, sistema jurídico”, explica.

O editor da revista para a América Latina escreve como uma reposta à notícia de que a empresa aérea Ryanair não pretendia atuar no Brasil por causa da corrupção no país. Segundo ele, a decisão de preferir investir na Argentina por parecer ter menos notícias sobre corrupção é um erro, e o Brasil poderia oferecer mais oportunidades para investidores, pois está mais preocupado em limpar seu sistema.

É preciso ir além do barulho do noticiário. Por mais que haja muitos problemas no Brasil de hoje, o país está seguindo um caminho correto, que pode melhorar a sua situação no futuro, diz.

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Brian Winter: Mercado vive fervor em se livrar do PT rapidamente
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Daniel Buarque

Brian Winter: Mercado vive fervor em se livrar do PT rapidamente

Brian Winter: Mercado vive fervor em se livrar do PT rapidamente

O vice-presidente da Americas Society e editor-chefe da revista “Americas Quarterly”,  Brian Winter, foi o mais recente entrevistado do escritório brasileiro da rede britânica BBC na série de análises de brasilianistas sobre a atual crise brasileira. Segundo ele, o mercado vive um fervor em se livrar do PT rapidamente, e não tem levado em conta uma série de fatores e incertezas que cercam um cenário pós-impeachment no país.

A avaliaçã0 de Winter tem sido corroborada por outros analistas internacionais. Sem confiança na economia brasileira, o mercado internacional desistiu de esperar por uma retomada, ou por ações do governo Dilma, e já aposta em uma mudança política para poder injetar ânimo financeiro no país, explicou o pesquisador de economia da América Latina no banco Barclays Bruno Rovai. “O ponto principal é que qualquer retomada de crescimento econômico depende de uma retomada da confiança dos empresários. O mercado espera uma mudança de governo, e espera que isso traga mais confiança” , explicou Rovai em entrevista recente ao blog Brasilianismo.

Winter tem acompanhado de perto as reviravoltas da política brasileira. Ele participou de um debate recente, nos EUA, em que avaliou o noticiário político e econômico do país e indicou que há espaço para mudanças radicais no curto prazo. “Parece inteiramente possível que até o fim do ano o Brasil pode ter um novo presidente”, disse.

Ex-correspondente internacional no Brasil, México e Argentina por dez anos, Winter também ressalta que a retomada do crescimento e dos investimentos estrangeiros passa por reformas estruturais dolorosas e impopulares.

Veja abaixo alguns trechos da entrevista

Leia a entrevista completa na BBC Brasil

Pergunta – Na sua opinião como os últimos desdobramentos da crise política e econômica no Brasil devem impactar os rumos do país e como estão sendo enxergados por outros países?
Brian Winter – O que está acontecendo no país neste momento em termos de instabilidade política e derrocada econômica só pode ser comparado ao que vi na Argentina em 2001 e 2002, mas ainda acho que o que aconteceu na Argentina na época do default (calote da dívida) foi pior do que o que ocorre no Brasil agora. Acho que para o Brasil há uma esperança de que o país saia deste processo mais forte, com uma economia mais sólida e uma cultura mais forte do Estado de direito e transparência. E isso é muito diferente do que aconteceu na Argentina. Quinze anos após o default os argentinos ainda não se recuperaram totalmente da crise.

Apesar da crise, o Brasil merece um crédito enorme pelo que ocorreu nos últimos anos. Foram 40 milhões de pessoas saindo da pobreza e uma visível queda no nível de desigualdade. Dito isso, o país chegou a um ponto agora em que deve focar no futuro. Em meio à crise, você ouve pessoas do governo falando como se estivessem citando os “melhores sucessos” de 2009, se apoiando em grandes feitos de sete anos atrás, quando o momento atual exige olhar para frente.

Pergunta – E com um eventual governo Temer, no cenário pós-impeachment, quais seriam as reais possibilidades de implementar reformas, retomar o crescimento e atrair investimentos estrangeiros, como apostam líderes empresariais e grande parte do mercado?
Brian Winter – Vai depender muito de como Dilma e o PT vão reagir ao impeachment caso ela seja de fato afastada. O quanto o PT está disposto a “botar fogo na casa” antes de sair pela porta? Quais serão as metas fiscais no momento em que ele assumir? Quantos e quais sindicatos estarão nas ruas? O MST estará acampado em frente ao Planalto? Veremos piquetes de rua em São Paulo, Rio e Brasília, como na Argentina? São questões que serão decididas por Dilma, Lula, CUT, sindicatos e movimentos sociais nas próximas semanas, de acordo com o resultado do processo de impeachment.

Quanto ao Congresso acho que Temer teria relativo apoio, e teria que lidar com o empresariado que estará faminto por suas políticas. De forma geral acho que ele teria apoio das elites e da classe média, e até de parte da classe trabalhadora. As pesquisas de opinião têm mostrado que os mais pobres têm apoiado o impeachment tanto quanto os mais ricos. Eu acho que a reação negativa poderá vir essencialmente dos grupos que tradicionalmente se alinham ao PT.

Os obstáculos são um grande risco que muitos investidores não estão levando em conta neste momento. Há um fervor em se livrar do PT rapidamente e o mercado acredita que, filosoficamente, um governo Temer seria mais voltado ao empresariado. Eles estão certos, mas esquecem de levar em conta a dúvida sobre o apoio popular e as condições necessárias para começar a colocar a casa em ordem.

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