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Arquivo : Relações Intenacionais

Saiba quem foi o embaixador autor da frase ‘o Brasil não é um país sério’
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Daniel Buarque

O embaixador Carlos Alves de Souza, que atuou representando o Brasil no exterior até os anos 1960, pode até não ter o nome muito conhecido no país. Mas é dele a autoria de uma das frases mais reconhecidas e repetidas por milhões de brasileiros: “O país não é um país sério”.

Atribuída equivocadamente ao ex-presidente francês Charles de Gaulle, a frase nunca foi dita pelo general, segundo Souza, e é de autoria do próprio embaixador, que conta como ela surgiu em sua autobiografia, “Um Embaixador em Tempos de Crise”, de 1979.

E apesar de ter se tornado um “mantra” sobre a cultura do país, Souza diz no livro que não se arrependeu da sua opinião, e que vê até mais problemas no Brasil.

“Na minha vivência de mais de 50 anos nos meios militares, diplomáticos, políticos e sociais, cheguei a suas conclusões melancólicas. A primeira é a de que a argila, da qual foi feita o brasileiro, não é de boa qualidade. E a outra, em que foi acertada minha frase, atribuída ao general De Gaulle: ‘Le Brésil n’est pas un pays sérieux’”, diz, ao encerrar o livro.

Souza serviu na Europa por muitos anos. Recebeu medalha de ouro pelos 50 anos de trabalhos prestados ao serviço público do país em 1966, quando também se aposentou.

Ele começou trabalhando como encarregado de negócios do Brasil em Montevidéu, em 1925, e em seguida atuou dentro do Brasil. Em 1929, tornou-se encarregado de negócios do Brasil em Paris, chefe do serviço de passaportes, encarregado de negócios em Viena, primeiro secretário em Viena (1934), no México (1935). Depois, foi embaixador em Havana (1945-1949), em Roma (1950-1956), em Paris (1956-1964) e em Londres (1964-1966)

Um dos momentos mais marcantes do livro é quando ele narra sua atuação como ministro plenipotenciário em Belgrado, entre 1939 e 1941, quando acompanhou o início da Segunda Guerra Mundial na Europa.

Mas o mais interessante é que o embaixador conta sobre a “Guerra da Lagosta” história pouco conhecida que deu origem à frase de que o Brasil não é um país sério. Foi um episódio cheio de desencontros, e que serviu para que Souza consolidasse uma opinião ainda mais negativa sobre o Brasil.

“Nada mais ridículo do que a chamada ‘Guerra da Lagosta’, que apenas demonstrou a falta de entrosamento da Secretaria de Estado com as Embaixadas e a leviandade dos nossos governantes”, conta.

“Os franceses estavam pescando a 30 milhas da costa brasileira, onde constataram haver maior quantidade de lagostas. Tudo isso ignorava a Embaixada do Brasil em Paris. (…) O presidente, provavelmente sem pensar nas consequências do seu ato, deu instruções às autoridades para suspender a licença. (…) A embaixada em Paris continuava tudo ignorando”, diz.

Quando pesqueiros franceses foram apreendidos pela Marinha brasileira, Souza ficou sabendo pelo governo francês. “Os jornais franceses não mais falavam no assunto, porém a imprensa brasileira, com rara infelicidade, fazia comentários inverídicos sobre o problema e diziam que a Marinha brasileira tinha dado uma boa lição aos franceses”.

Chamado pelo governo para se encontrar com o presidente De Gaulle, Souza conta como surgiu o mal-entendido sobre a autoria da frase.

“Fui avistar-me com o general. Recebeu-me no seu escritório, diante de um bloco de notas, e fez-me sentar à sua frente. Começou fazendo um histórico sobre o caso da lagosta, a permissão do presidente Goulart para a pesca, o sequestro dos pesqueiros, as notícias inverídicas da imprensa brasileira e as críticas a ele e à França.”

Depois do encontro, Souza foi a uma recepção na casa do presidente da Assembleia Nacional da França.

“Repentinamente, surgiu diante de mim o jornalista Luiz Edgar de Andrade, hoje editor-chefe da TV Globo. Insistiu para que eu lhe dissesse algo sobre a minha entrevista com o general De Gaulle. Respondi-lhe que não daria nenhuma entrevista. Mas, não poderia deixar de ter uma conversa amistosa com uma pessoa por quem sempre tive a maior consideração. Falei-lhe sobre o tal samba carnavalesco “A Lagosta é nossa”, as caricaturas do presidente De Gaulle e terminei a conversa dizendo: Luiz Edgar, ‘le Brésil n’est pas un pays sérieux’”, conta, no livro.

Segundo o embaixador, foi daí que a frase se popularizou.

“Provavelmente, ele telegrafou ao Brasil não deixando claro se a frase era minha ou do general De Gaulle, com que eu me avistara poucas horas antes desse encontro casual. Luiz Edgar é um homem correto, e estou certo de que o seu telex ao jornal não teve intuitos sensacionalistas. Mas, a frase ‘pegou’. É evidente que, sendo hóspede do general De Gaulle, homem difícil, porém muito educado, ele, pela sua formação e temperamento, não pronunciaria frase tão francamente inamistosa em relação ao país do chefe da missão que ele mandara chamar. Eu pronunciei essa frase numa conversa informal com uma pessoa das minhas relações. A história está cheia desses equívocos.”

Polêmica

Apesar do reconhecimento da própria responsabilidade do embaixador, que diz que tudo o que é contado no livro estava registrado por escrito, a frase não aparece em jornais brasileiros nos anos 1960, e é mencionada pela primeira vez em algum veículo da grande imprensa nacional anos mais tarde.

Além disso, o jornalista citado pelo embaixador sempre negou que fosse responsável por popularizar a frase. Em uma entrevista disponível no YouTube, ele diz acreditar que o presidente pode realmente ter dito a frase, e que o próprio embaixador a repetia a amigos, o que fez ela se tornar conhecida.

“O meu envolvimento nessa história começa em 1979, quando o embaixador publicou as suas memórias, e tem um capítulo sobre esta frase. Neste capítulo ele me atribui a divulgação da frase. Eu teria mandado ao Jornal do Brasil esta informação, que se espalhou. Acontece que em 1990 eu procurei nos meus arquivos e na coleção do Jornal do Brasil na Biblioteca Nacional este jornal. Acontece que não tem essa informação. Tenho certeza de que não fui eu que mandei essa informação. Como este boato começou a circular? Para mim, é um mistério. Havia a suspeita de que o próprio embaixador Alves de Souza tenha espalhado a história. E é atribuído a mim. Eu acho bastante provável que o De Gaulle tenha dito isso mesmo. O embaixador ao me dar o livro fez uma dedicatória: ‘Ao Luis Edgar de Andrade, co-autor da famosa frase’. Na versão dele, ao conversar comigo, ele teria dito a mim ‘Le Brésil n’est pas sérieux’, e eu fiz confusão, como ele falou em francês, e atribui ao De Gaulle. Na verdade não publiquei. Acho que o embaixador contava a amigos íntimos isso.”

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Sem poder real, Brasil tem atuação de ‘zelador’ no mundo multipolar
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Daniel Buarque

Michel Temer discursa na ONU

No debate entre os que dizem que o Brasil perdeu relevância internacional nos últimos anos, por conta da crise, e os que argumentam que o país nunca interrompeu a construção da sua influência global, talvez os dois estejam certos.

Em um mundo cada vez mais multipolar, o Brasil está presente e tem voz nas relações internacionais, apesar de não ter força suficiente para tomar decisão prática. É como se o país fosse um “zelador” na ONU, um ator presente, importante e influente, mas sem poder real.

Este debate tem sido frequente entre a academia e a diplomacia. Foi o ponto mais importante de um painel organizado pelo Instituto Brasil do King’s College de Londres para discutir a ascensão, ou declínio, do país no cenário global. No meio da controvérsia e de argumentos de discordância, entretanto, o que se desenhava era um Brasil com relevância internacional, ainda que limitada à falta de força.

De um lado, o embaixador brasileiro Antonio Patriota, ex-ministro das Relações Exteriores do governo Dilma Rousseff, defendia a importância do Brasil no mundo. “O Brasil é um país influente”, argumentou.

Do outro, o pesquisador Andrès Malamud, da Universidade de Lisboa, autor de um artigo em que aponta a retração do Brasil na política internacional. “Falo em declínio, não em ascensão do Brasil”, disse.

Para o primeiro, o mundo está deixando de viver sob a influência de uma única potência global (os EUA), e uma nova realidade multipolar abre espaço para uma atuação ainda maior do Brasil. Assim, o fato de o Brasil estar presente no mundo, com embaixadas em mais de 140 países, e de participar dos principais fóruns internacionais de forma ativa, mostra que o país tem importância. Segundo ele, a relevância do Brasil no mundo já foi reconhecida pela ex-secretária de Estado americana Condoleezza Rice e pelo ex-presidente Barack Obama, além da própria ONU.

Na visão do segundo, nada disso comprova relevância real, e os argumentos não provam que o Brasil de fato tenha poder. “Só há três formas de fazer alguém agir da forma que se quer: o porrete, a cenoura ou a persuasão. Poder militar, poder econômico ou soft power”, e o Brasil de hoje não tem nenhum dos três, argumentou. Para ele, o soft power já foi importante para o Brasil sob Fernando Henrique Cardoso e Lula, mas agora o país não tem mais a presença e a capacidade de convencimento que tinha no passado, então o país perdeu relevância global.

Painel sobre a influência global do Brasil, organizado pelo Brazil Institute do King’s College de Londres

No fundo, apesar do tom de contradição, os dois parecem estar certos.

O Brasil de fato tem influência no cenário da diplomacia global em um mundo cada vez menos preso à unipolaridade americana. Participa de eventos, fóruns e debates multilaterais, e tem até mesmo atuação em missões de paz, como a Minustah, recém-encerrada no Haiti. É um dos países mais lembrados do mundo e tem uma boa reputação entre elites das relações internacionais. Mas, de fato, isso não significa que o Brasil tenha poder real.

É como se o país fosse o “zelador” dessa nova ordem multipolar do mundo.

Como o zelador de um prédio, ele está sempre presente, conhece e é reconhecido por todos os moradores, é importante para a organização dos eventos, é procurado para ajudar a resolver impasses, é fundamental para o funcionamento e a manutenção do prédio. Mas, como um zelador, ele pode até influenciar, mas não tem poder de decisão.

Com uma equipe extremamente profissional no Itamaraty, o Brasil está bem representado em todo o mundo. Organizou e sediou eventos importantes, como a Rio+20. É importante signatário da Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Mas, na hora das grandes decisões, o país continua fora do Conselho de Segurança da ONU, instância mais alta dos poderes globais.

E já que o ponto central do debate é influência. Se o Brasil não tem poder militar ou econômico, depende muito do seu poder de persuasão, o soft power. Aqui, mais uma vez, a alegoria do zelador pode funcionar.

Sem poder de decisão, a influência de um zelador de prédio depende do seu “soft power”, sua capacidade de negociar interesses, ser diplomata e persuadir os verdadeiros donos do poder a seguir o caminho que acha preferencial.

Se as chances de conquistar poder militar ou econômico no curto prazo não são tão grandes, o Brasil precisa ampliar ou ao menos manter o seu “poder suave”, ou “poder brando”. Pode não ser tão importante quanto a força real para que o Brasil alcance seu objetivo de ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, mas ao menos vai tornar o trabalho de “zelador” mais eficiente.

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Prestígio do Brasil no mundo não sofreu impacto da crise, diz ex-chanceler
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Daniel Buarque

As instabilidades geradas pela crise econômica e pela desordem política no país nos últimos anos não afetaram o prestígio internacional do Brasil, defendeu nesta terça (10) um ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, durante visita a Londres.

Para o diplomata, ao contrário do que mostram os índices que medem a imagem internacional do Brasil, de análises acadêmicas críticas à situação do país e do que disse o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricúpero em entrevista à Folha, o país não está em declínio.

“O prestígio relativo do Brasil não sofreu, é grande, e nossa capacidade de atuação, de iniciativa e de criatividade é enorme”, disse.

O ex-chanceler conversou informalmente com pesquisadores do Instituto Brasil do King’s College de Londres. O encontro, do qual o autor deste blog Brasilianismo participou, aconteceu minutos antes dele participar de um painel sobre a ascensão e declínio do Brasil no palco global em meio ao que ele chama de mundo multipolar.

Os argumentos sobre a suposta retração do Brasil, segundo ele, ignoram o contexto global. O mundo está atravessando um momento muito difícil, e não se pode analisar o Brasil a partir de um ponto fixo, como se ele não estivesse sujeito a dinâmicas de transformação.

“Em termos relativos, em função do que está acontecendo no mundo, a vantagem comparativa do Brasil aumenta”, defendeu.

Segundo o ex-ministro, o Brasil está acordando para a relevância que o país pode mostrar no mundo, mas ainda há controvérsias internas quando o país tenta exercer esta presença no exterior.

O diplomata admitiu, entretanto, que esse reconhecimento existe apenas em setores especializados, nas elites. Entre a população global, argumentou, as pessoas só conhecem futebol, samba, a praia, fotos do Rio, caipirinha, sandália havaiana.

O lado negativo dessa imagem brasileira no exterior, disse, é a visibilidade que tem o que acontece atualmente no Rio de Janeiro, com aumento da violência urbana.

Este post foi alterado no dia 12/10/2017 às 18h26

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Para Ricupero, ‘corrupção terrível’ marca a imagem do Brasil no exterior
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Daniel Buarque

Entrevista do embaixador Rubens Ricupero à Folha

A corrupção terrível e a pior crise da história são as marcas da imagem internacional do Brasil hoje, segundo o embaixador Rubens Ricupero, 80, ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente.

A avaliação foi feita durante ótima entrevista concedida à repórter especial da Folha Patrícia Campos Mello, em que foi abordado o lançamento do livro “A diplomacia na construção do Brasil – 1750-2016”, de Ricupero.

Além da entrevista, a Folha publicou uma crítica do livro, escrita pelo colunista Matia Spektor. Nela, Ricupero é descrito como “o consigliere diplomático por excelência”.

“Este livro é seu mais completo testamento. Na superfície, é uma história ambiciosa da diplomacia brasileira —com começo em 1640 e fim em 2016— contada a partir das tradições do Itamaraty, com todas as vantagens e problemas que isso acarreta.”

A entrevista do embaixador trata de vários temas sobre política e diplomacia brasileira das últimas décadas, e inclui o trecho abaixo, sobre a imagem do país:

Pergunta: Qual é a imagem do Brasil no exterior hoje?

Rubens Ricupero: Hoje a imagem do Brasil não é nem pessimista, nem otimista, corresponde à realidade: trata-se de um país com uma corrupção terrível, um presidente com uma segunda denúncia, ministros sendo investigados, uma crise que é a mais grave da história.

As pessoas dizem —por que a diplomacia brasileira não faz isso ou aquilo? Mas como, ninguém quer sair na foto com o Brasil. (Binyamin) Netanyahu veio para região e não se encontrou com o Temer, o vice-presidente americano, Mike Pence, também.

Por que todo mundo queria estar com o Lula? O Lula era um vitorioso. Além do sucesso econômico e político, ele tinha o êxito moral, o combate à miséria e à injustiça. Quem não queria ficar ao lado do Mandela? Hoje, deve ter muito pouca gente querendo sair na foto com o Temer. Ninguém pode imaginar que o Itamaraty vai alavancar o Brasil se o país não acabar com a corrupção, não voltar a crescer, não combater a miséria.

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Expansão do Brasil no mundo foi ‘ponto fora da curva’, segundo pesquisadora
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Daniel Buarque

A chanceler alemã, Angela Merkel, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (centro) e o presidente norte-americano, Barack Obama (à dir.), conversam durante a cúpula do G20, em Pittsburgh (EUA)

A retração da presença brasileira no cenário global nos últimos anos e o encolhimento da diplomacia do Itamaraty são reflexo de perda de força do Brasil no exterior por conta das crises no país. Esta retração tem causas políticas e econômicas, mas se torna mais perceptível por conta do período de expansão excepcional registrado durante os anos anteriores, especialmente durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva.

A avaliação foi feita pela pesquisadora Mathilde Chatin, que estudou a busca do Brasil pelo status de potência global e sua inserção internacional independente do seu poder militar em seu doutorado, completado no primeiro semestre no King’s College de Londres.

Para ela, a perda de força do Brasil é reflexo de uma retração visível da política externa brasileira no período mais recente em comparação com os anos do governo Lula, mas ela também acredita que o período de expansão é que foi exceção no histórico desta inserção global do país.

A pesquisadora Mathilde Chatin

“O contexto econômico e político que os sucessores enfrentaram foi drasticamente diferente do qual o Presidente Lula beneficiou. Pode ser que aquele período tenha sido um ‘ponto fora da curva’, que se regularizou com seus sucessores – inclusive por falta de interesse em política externa da Presidente Dilma Rousseff e uma diplomacia presidencial menos intensa”, disse.

Leia também: ‘Com Dilma e Temer, o Brasil voltou à normalidade de presidentes medíocres’

As crises políticas e econômicas pelas quais o Brasil passa atualmente afetam o andamento da política externa brasileira e da projeção internacional do país de forma mais ampla, até porque geram cortes no orçamento do Ministério das Relações Exteriores e da Defesa, segundo ela.

Apesar do encolhimento da força brasileira, Chatin defende que o potencial do soft power em colocar o Brasil como potencial emergente no mundo ainda existe. “É a forma mais efetiva para a inserção brasileira”, disse.

Brasilianismo – Como as crises política e econômicas afetam as relações internacionais do Brasil?

Mathilde Chatin – As crises política e econômica afetam o andamento da política externa. Cortes no orçamento do Ministério das Relações Exteriores e da Defesa têm impacto sobre o funcionamento das embaixadas, e diplomatas brasileiros comentam sobre a incapacidade de atender custos básicos (contas e salários) e impedidos de fazer o trabalho regular (atividades, eventos e convites importantes). Afetam também o financiamento de projetos de cooperação para o desenvolvimento, e o financiamento para projetos de defesa em andamento ou planejamento também tem dificuldades.

O Brasil acumulou dívidas com várias organizações internacionais e ultimamente perdeu seu direito a voto na Corte Penal Internacional e a Agência Internacional de Energia Atómica.

Brasilianismo – Acha que pode-se falar em encolhimento da presença do país no mundo nos últimos anos?

Mathilde Chatin – o caso do G20 é um exemplo de grande visibilidade do efeito da crise política sobre as relações internacionais do Brasil, assim como do seu posicionamento hesitante em grandes debates globais onde o papel do país é estrategicamente interessante.

O Presidente teve uma presença desbotada no G20, na Alemanha: não estava no programa porque tinha anunciado o cancelamento da viagem para aquela reunião; não realizou nenhum encontro bilateral, já que lideres interessados em se reunir com Temer remanejaram suas agendas; no meio da crise interna, voltou ao Brasil depois de apenas 30 horas e perdeu o ultimo almoço com seus pares.

O professor Oliver Stuenkel fez uma comparação interessante entre o ano 2009 e aquele G20 no qual a capacidade do Brasil de priorizar sua atuação externa e ajudar a moldar uma transformação profunda do sistema internacional através a emergência de um mundo menos centrado no Ocidente.

Oito anos atrás, o Brasil estava se consolidando como uma potência diplomática global durante as duas primeiras cúpulas presidenciais do G20, até negociar um aumento de sua representação no FMI com os outros BRICs. No mesmo ano, a primeira cúpula presidencial do BRICs ocorreu em Ecaterimburgo, refletindo um deslocamento histórico para as potências emergentes.

Brasilianismo – O governo de Dilma Rousseff foi muito criticado por não priorizar o trabalho da diplomacia brasileira. Temer assumiu com promessa de mudar isso, mas parece não ter conseguido avançar a agenda de política externa do Brasil. Como você avalia esta mudança desde Lula e o momento atual da diplomacia brasileira?

Mathilde Chatin – O Brasil experimentou uma retração visível da sua política externa no período mais recente em comparação com os anos do governo Lula, limitando o poder de atuação do país no contexto internacional.

O contexto econômico e político que os sucessores enfrentaram foi drasticamente diferente do qual o presidente Lula se beneficiou –obriga a dedicar mais intenção as dificuldades domesticas que reduzem severamente os recursos para manter um vigoroso engajamento internacional.

O período do presidente Lula também deu um forte impulso ao objetivo firme de inserir o Brasil no contexto internacional com uma política externa ambiciosa e um passo hiperativo.

Pode ser que aquele período tenha sido um “ponto fora da curva” que se regularizou com seus sucessores –inclusive por falta de interesse em política externa da Presidente Dilma Rousseff e uma diplomacia presidencial menos intensa.

Brasilianismo – O “soft power” tem sido usado para compreender a ascensão diplomática do Brasil no mundo no século XXI, mas o Brasil acabou de cair 5 posições (da 24ª para a 29ª) no ranking mais recente de soft power da Portland (soft power 30). O que explica isso?

Mathilde Chatin – Em primeiro lugar, estudiosos estão de acordo sobre o fato de que é difícil medir o poder. Ainda assim, se você olhar aqueles critérios usados pela Portland: um deles é “governo”, então crise política com vários casos de corrupção de grande visibilidade talvez tenha um impacto sobre a imagem do Brasil como ator confiável e deve ter afetado o resultado.

A avaliação também considera “engajamento”, e o menor ativismo internacional (em particular ao nível da diplomacia presidencial) e atuação mais apagada do Brasil no nível global podem ter afetado o resultado.

Brasilianismo – Sem soft power, o que sobraria como forma de o Brasil se colocar como uma potência emergente no mundo?

Mathilde Chatin – o potencial do soft power em colocar o Brasil como potencial emergente no mundo ainda existe e é a forma mais efetiva para aquela inserção brasileira, inclusive valores e princípios que tem defendido no cenário internacional (uso não excessivo da força, busca de soluções diplomáticas e investimento no desenvolvimento, multilateralismo, etc.) e a realidade que é importante demais como membro dos BRICS para ser ignorado em grandes discussões internacionais. O que talvez falte é uma maior afirmação daquele soft power no período mais recente.

Brasilianismo – Acha que este processo de encolhimento pode desfazer as conquistas internacionais do país do início do século?

Mathilde Chatin – Em uma entrevista, o ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores Celso Amorim comentou afirmou que “Brasil não pode desperdiçar seu soft power” e comentou: “Você não pode decepcionar, porque aquilo que você leva dez anos para criar –uma confiança, uma relação– você com um ato pode perder. Depois pode recuperar, mas dá muito trabalho recuperar”. Acho que é um bom resumo do risco.

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‘Com Dilma e Temer, o Brasil voltou à normalidade de presidentes medíocres’
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Daniel Buarque

A presença internacional do Brasil encolheu significativamente nos últimos anos, enquanto o país perdeu prestígio e soft power.

Se isso parece um problema exclusivamente da diplomacia brasileira, o pesquisador Andrés Malamud explica que não, pois trata-se de uma questão muito mais complexa e estrutural: o país tentou ter uma relevância maior do que sua capacidade real permitia.

“A sua retração deve-se parcialmente aos erros na política externa, mas deve-se ainda mais ao fato de o país ter pretendido jogar numa liga maior à permitida por seus recursos materiais”, explicou Malamud em entrevista ao autor deste blog Brasilianismo.

Professor de ciência política da Universidade de Lisboa, Malamud conhece bem este assunto e publicou recentemente um artigo acadêmico sobre a questão: “Foreign Policy Retreat: Domestic and Systemic Causes of Brazil’s International Rollback” (Recuo da política externa: Causas domésticas e sistêmicas do retrocesso internacional do Brasil) foi publicado no projeto “Rising Powers in Global Governance”.

Para o pesquisador, o Brasil até conseguiu se promover em escala global nas décadas de 1990 e 2000 por conta da ação de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, “presidentes excepcionais”, mas voltou a uma situação medíocre desde que eles deixaram o poder.

“Com Dilma e Temer, o Brasil voltou à normalidade dos presidentes medíocres: daí a perda de imagem internacional e soft power.”

Brasilianismo – Acha que pode-se falar em encolhimento da presença do país no mundo nos últimos anos?

Andrés Malamud – O encolhimento é evidente, não é opinião.

O Brasil tem menos protagonismo, e por vezes até nem participa, em reuniões ou foros de alto nível, mesmo sobre questões nas quais o país já foi um ator relevante (como o ambiente).

No nível regional, a UNASUL (uma criação brasileira) e a CELAC estão paralizadas: nem conseguem reunir para tratar a crise venezuelana.

Brasilianismo – Como as crises política e econômicas afetam as relações internacionais do Brasil?

Andrés Malamud – O Brasil, embora seja grande na América do Sul, é pequeno no mundo: a sua capacidade militar está mais próxima da Colômbia que da Índia (para não falar dos EUA, China ou Rússia). A sua participação no comércio internacional não chega a 1,5% (tendo 3% da população mundial) e o seu desenvolvimento científico e tecnológico é baixo.

O aumento do peso internacional do país foi produto da sua capacidade diplomática, quer profissional quer presidencial. As crises domésticas reduziram essa capacidade.

Brasilianismo – O governo de Dilma Rousseff foi muito criticado por não priorizar o trabalho da diplomacia brasileira. Temer assumiu com promessas de mudar isso, mas parece não ter conseguido avançar a agenda de política externa do Brasil. Como você avalia esta mudança desde Lula e o momento atual da diplomacia brasileira?

Andrés Malamud – Este é o meu ponto de desacordo com muitos críticos: mesmo que a gestão diplomática de Dilma tenha sido incompetente e a de Temer seja inexistente (e são!), o “encolhimento” do Brasil é estrutural.

A sua retração deve-se parcialmente aos erros na política externa, mas deve-se ainda mais ao fato de o país ter pretendido jogar numa liga maior à permitida por seus recursos materiais.

Brasilianismo – O soft power tem sido usado para compreender a ascensão diplomática do Brasil no mundo no século XXI, mas o Brasil acabou de cair 5 posições (da 24ª para a 29ª) no ranking mais recente de soft power da Portland (Soft Power 30). O que explica isso?

Andrés Malamud – O Brasil teve, durante 16 anos, dois presidentes excepcionais: FHC e Lula. A Argentina, por exemplo, há décadas que não tem nenhum dessa hierarquia, ainda menos dois. Com Dilma e Temer, o Brasil voltou à normalidade dos presidentes medíocres: daí a perda de imagem internacional e soft power.

Brasilianismo – Sem soft power, o que sobraria como forma de o Brasil se colocar como uma potência emergente no mundo?

Andrés Malamud – O Brasil é uma potência emergente por causa da sua demografia: com uma população grande (a quinta do mundo) e ainda jovem (ainda tem bastante mais trabalhadores do que pensionados), a sua participação nos fluxos internacionais ainda vai crescer. O que não é certo é que consiga influenciar muito na gestão desses fluxos.

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Deu na ‘Folha’: Brasil perde soft power e diplomacia fica sem prestígio
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Daniel Buarque

Reportagem publicada na edição de domingo da “Folha de S.Paulo” analisa a perda de de prestígio da política externa brasileira.

Na chamada diplomacia do prestígio, o Brasil está à frente apenas da Turquia, recém-convulsionada por uma tentativa de golpe de Estado e que assiste às investidas autoritárias do presidente Recep Tayyip Erdogan.

A edição 2017 do estudo “The Soft Power 30”, realizado pela consultoria britânica Portland e divulgado na última semana, aponta que o Brasil caiu cinco posições no ranking em relação a 2016, ocupando hoje o 29º e penúltimo lugar.

A análise leva em conta a capacidade de persuasão de um país no cenário global.

Desde a publicação da primeira edição do estudo, em 2015, o Brasil só perde terreno –foi ultrapassado por países como China, Polônia, República Tcheca e Hungria.

O cenário condiz com o encolhimento da política externa brasileira nos últimos anos, iniciado ainda sob Dilma Rousseff e catalisado pela crise política que engolfa o governo de Michel Temer –que, há quase um ano, ao assumir a Presidência de fato, prometera priorizar a área.

“Não vejo estratégia alguma. O Brasil em matéria de política internacional está cumprindo tabela”, afirma à Folha Celso Amorim, que chefiou o Ministério das Relações Exteriores de 2003 a 2010, no governo Lula.

Leia a reportagem completa na Folha

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Jornal venezuelano denuncia uso de armas brasileiras pela repressão no país
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Daniel Buarque

Jornal venezuelano denuncia uso de armas brasileiras pela repressão no país

Armas produzidas por uma empresa brasileira estão sendo usadas continuamente para reprimir manifestantes que protestam contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela, denuncia uma reportagem publicada pelo jornal local “El Universal”.

A revelação foi feita pelo periódico um dia após a morte de mais um manifestante em Caracas. Segundo a publicação, entre 67 pessoas (dados do Ministério Público) e 91 pessoas (dados de várias ONGs) foram mortas desde abril em mais de 80 dias de protestos na Venezuela. Essas manifestações sofrem forte repressão da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e da Polícia Nacional Bolivariana (PNB).

“Empresa brasileira Condor tem fornecido bombas de gás lacrimogêneo à Venezuela desde 2012. Estas compras transformaram a Venezuela em seu quarto maior cliente em volume e quantidade de compras. A mercadoria adquirida foi usada para dispersar protestos pacíficos na Venezuela”, diz a reportagem.

A empresa brasileira Condor Non-Lethal Technologies, com sede no Rio de Janeiro, reconheceu, em reportagem da agência de notícias Associated Press, que está fornecendo gás lacrimogêneo às forças de segurança venezuelanas. Depois que líderes da oposição apresentaram um documento demonstrando a compra de latas de gás lacrimogêneo pelas Forças Armadas, a Condor confirmou que está cumprindo dois contratos no país.

Segundo o “El Universal”, semanas atrás o presidente Michel Temer havia suspendido o envio de uma compra de mais de 150 mil bombas da Condor pelo governo de Maduro, mas a empresa disse que não recebeu uma ordem para suspender as vendas.

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Crise política no Brasil gera preocupação econômica na Argentina
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Daniel Buarque

Crise no Brasil gera preocupação na Argentina

Os possíveis impactos econômicos da nova crise política no Brasil estão deixando analistas argentinos preocupados com os efeitos indiretos sobre o seu país. Ao longo das últimas semanas, os principais veículos da imprensa argentina publicaram artigos comentando a relação entre os dois países e as formas como a crise brasileira pode cruzar a fronteira.

A imprensa dos países da América Latina já têm acompanhado o desenrolar das denúncias da Lava Jato além das fronteiras brasileiras, mas o foco das avaliações atuais é sobre o efeito econômico do que acontece no Brasil.

A crise brasileira pode afetar as relações comerciais entre o país e a Argentina, segundo análise publicada no “Clarín”, o que é um problema, já que o Brasil é o principal parceiro comercial do vizinho.

“A nova crise brasileira encontra a relação comercial em um dos níveis mais baixos, mas mesmo assim se estima que poderia continuar afetando a Argentina, ou ao menos adiar uma recuperação”, diz o texto.

Segundo uma reportagem publicada no site argentino Infobae, a crise atual está sendo vista como forma de diminuir a “Brasildependência” na economia argentina.

“O governo decidiu intensificar a abertura de novos mercados para um dos setores que mais estão sofrendo desde o início do governo de Mauricio Macri: a indústria. O déficit da Balança Comercial para o setor é estimado em US$ 35 bilhões para este ano, e a queda nas vendas ao Brasil por sua profunda recessão é uma das causas”, diz.

O site americano Barron’s, entretanto, vê um efeito mais positivo para a economia argentina por conta dos problemas brasileiros. Segundo reportagem publicada recentemente, os dois “rivais” na região estão em situações opostas, e a Argentina começa a se deslocar do que acontece no Brasil.

O “La Nación” também tratou dos possíveis efeitos da crise brasileira sobre a Argentina. Segundo o jornalista José Del Río, a economia do Brasil começava a se recuperar, mas as novas denúncias de corrupção voltaram a criar problemas para o país e para seu vizinho.

O aumento do endividamento brasileiro, diz “implica que o custo do dinheiro para a região vai gerar maior volatilidade financeira e maiores custos para a Argentina”, explica.

“Quando a economia brasileira cresce um ponto percentual, a da Argentina cresce um quarto de ponto percentual. Com a crise institucional, esta tendência começou a mudar”, diz.

Os efeitos dos acontecimentos políticos e econômicos no Brasil sobre os países vizinhos foram explorados de forma mais profunda recentemente do livro “Euforia e Fracasso do Brasil Grande”, em que o jornalista Fábio Zanini percorre alguns dos maiores projetos brasileiros desenvolvidos no resto do mundo a partir do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, quando o país buscou expandir sua presença internacional.

Segundo ele, a expansão do país fez com que ele passasse a ser associado ao imperialismo. Enquanto o país vivia um momento de euforia, ampliava a diplomacia e projetos de empreiteiras em outros países e inaugurava embaixadas pelo mundo, ganhando prestígio nos principais organismos internacionais, deixava pelo caminho um número crescente de insatisfeitos afetados por esta ambição.

O livro, o autor explica, examina a forma como ”o processo de internacionalização do Brasil foi recebido em algumas partes do mundo e como as ações colocadas em prática pelo governo mudaram a percepção do Brasil ao redor do planeta”‘

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Ambição por ‘Brasil Grande’ criou imagem de imperialismo em partes do mundo
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Daniel Buarque

Ambição por ‘Brasil Grande’ criou imagem de imperialismo em partes do mundo

Olga Cutipa, a presidente da Frente de Resistência à Usina de Inambari, projeto desenvolvido pelo Brasil no Peru, não tem muita simpatia pelos brasileiros: “Basta dos abusos dos brasileiros! Vêm aqui de forma autoritária, falar com as pessoas, sem aviso”, esbravejou, em entrevista ao jornalista Fábio Zanini, editor de Poder da “Folha de S.Paulo”.

Olga “detesta a arrogância dos [brasleiros] que aparecem na região tentando apoderar-se de seus recursos naturais. Ou, ao menos, é assim que ela vê as tentativas de empresas brasileiras de fazerem megaobras em seu quintal. A maior vilã é a usina de Inambari, sonho de consumo antigo do Brasil”.

O relato faz parte do livro recém-lançado “Euforia e Fracasso do Brasil Grande”, em que Zanini percorre alguns dos maiores projetos brasileiros desenvolvidos no resto do mundo a partir do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, quando o país buscou expandir sua presença internacional. Enquanto o país vivia um momento de euforia, ampliava a diplomacia e projetos de empreiteiras em outros países e inaugurava embaixadas pelo mundo, ganhando prestígio nos pricipais organismos internacionais, deixava pelo caminho um número crescente de insatisfeitos afetados por esta ambição.

Segundo Zanini, o problema de Olga com os brasileiros é um retrato do impacto gerado por essa ambição por um “Brasil Grande” na imagem do país no resto do mundo. A expansão do país fez com que ele passasse a ser associado ao imperialismo.

O livro, o autor explica, examina a forma como “o processo de internacionalização do Brasil foi recebido em algumas partes do mundo e como as ações colocadas em prática pelo governo mudaram a percepção do Brasil ao redor do planeta”.

Apesar de os principais índices internacionais que avaliam a imagem do Brasil indicarem que o país é o 20º país com melhor reputação do mundo, a avaliação é diferente nas nações afetadas pela expansão brasileira.

“Em diversos locais, nosso país atualmente é mais associado a uma ameaça. A senhora peruana que amaldiçoou parar mim a hidrelétrica brasileira não está sozinha. Como ela, há camponeses moçambicanos assustados com a concorrência do agronegócio brasileiro, burocratas na Namíbia frustrados com as estripulias de oportunistas no setor petrolífero e moradores de uma periferia em Angola irritados por terem se tornado ‘dano colateral’ de projetosde uma construtora. Todos eles compõem o retrato do que é hoje o Brasil no mundo”, diz.

A avaliação de Zanini é um importante contraponto à visão tradicional sobre a imagem internacional do Brasil. Ele vai no sentido contrário da análise mais comum, que olha para como o Brasil promove sua reputação entre os países mais ricos do mundo, como é visto pela elite Ocidental.

Enquanto a interpretação mais popular é de que o país aproveitou o boom das commodities e a política externa iniciada no governo Lula para se promover no resto do mundo e se tornar mais reconhecido, ganhando força como ator global entre as maiores potências do planeta, o livro mostra que isso teve um efeito contrário em partes do mundo mais pobres, que se sentiram exploradas e abusadas pelo Brasil.

“Seria exagero dizer que já não somos mais associados em primeiro lugar a futebol, carnaval e floresta Amazônica. Mas a imagem de país dócil e inofensivo, que carregamos durante boa parte do século XX, essa já se foi há muito tempo.”

Ao virar a “bola da vez”, o “país da moda” no resto do mundo rico ocidental, a ação brasileira afetou a vida de populações em países de menor força política e econômica global. Essa imagem do Brasil como país “imperialista” é mais recente, destoa do país que “todo mundo ama amar”, como dizia uma pesquisa sobre a reputação do Brasil, e é importante para o desenvolvimento de projetos internacionais. Ao buscar se tornar o “país do presente”, como o país fez nas últimas décadas, seria interessante não destruir a reputação nos países em que atua.

Essa interpretação alternativa da imagem do Brasil se alinha menos aos estudos de imagem que tratam a reputação dos países como se fossem marcas e mais com o ‘Índice Bom País”, que analisa o que cada nação de fato faz pelo resto do mundo. Nesta avaliação, o Brasil cai à 49ª colocação, mostrando, como disse o consultor Simon Anholt, que o Brasil ainda tem uma reputação melhor do que merece.

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