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Arquivo : Relações Intenacionais

Arquivos de documentos estrangeiros guardam segredos sobre a ditadura
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Daniel Buarque

professor João Roberto Martins Filho, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), passou cinco meses realizando pesquisas nos documentos históricos da diplomacia britânica a respeito do que aconteceu no Brasil durante a ditadura.

O estudo foi realizado enquanto ele ocupava uma posição do King’s College London e resultou em importantes revelações sobre a forma de atuação dos militares no poder. A primeira delas foi publicada no livro “Segredos de Estado: O Governo Britânico e a Tortura no Brasil (1969-1976)” (Ed. Prismas), que revela a conivência do governo em Londres com a tortura no Brasil. No fim de semana, uma reportagem publicada na Folha trouxe mais uma: a ditadura brasileira atuou para abafar uma investigação de corrupção na compra de fragatas (navios de escolta) construídas pelos britânicos nos anos 1970.

Essas revelações ganham peso por conta da importância de arquivos estrangeiros que jogam luz sobre episódios obscuros da história dos anos de regime militar no Brasil. Foi o que aconteceu com a publicação de documentos dos Estados Unidos mostrando que o ex-ditador Ernesto Geisel assumiu a responsabilidade pela decisão de execução de opositores da ditadura –divulgada pelo pesquisador Matias Spektor.

Enquanto o Brasil ainda esconde parte da sua história, os documentos oficiais liberados em outras partes do mundo oferecem indicações de problemas que a ditadura prefere não mostrar. Nos dois casos, os pesquisadores encontraram comprovação de fatos muito relevantes escondida no meio de milhares de informações em centenas de documentos.

Em entrevista a Pedro Bial, Spektor explicou que os historiadores estão batalhando para analisar todos os documentos, mas que isso leva tempo. “Esse documento é o primeiro de uma série que virão à tona a respeito desse tema. Não tenho a menor dúvida”, disse Spektor, que é autor do livro “Kissinger e o Brasil” (Ed. Zahar), em que já analisa documentos históricos dos EUA sobre a relação entre os dois países..

De forma semelhante, Martins Filho disse, por exemplo, que teve primeiro contato com a pasta de documentos há dois anos, mas que só agora conseguiu finalizar a análise detalhada dos documentos. “Tem muito historiador que tem documentos que podem ser bombas, mas ninguém teve capacidade de analisar tudo até agora”, disse.

“Quando cheguei em Kew Gardens [onde ficam os arquivos do governo britânico], me preocupei que não houvesse material suficiente para pesquisa, mas dei de cara com essa pasta, que não sei como ninguém havia encontrado. Ela está disponível desde 2008”, disse Martins Filho.

Documentos históricos são analisados também pelo diretor de um dos mais importantes centros de estudos sobre o Brasil nos EUA, na Universidade Brown, James Green. Em uma reportagem da agência Pública, ele explicou que lidera um projeto já digitalizou 35 mil documentos sobre a ditadura no Brasil.

“Eu tenho um projeto que se chama Opening the Archives [Abrindo os Arquivos], com uma meta de ter 100 mil documentos abertos. Já digitalizamos 35 mil documentos até agora: 19 mil já estão disponíveis no site, e vamos subir outros 15 mil até o final do ano. Encontramos mais de mil documentos censurados, vamos pedir a liberação deles ao governo e esperamos que existam novas revelações. Também estamos em busca de arquivos alternativos. Por exemplo, em 1971 o Senado fez um inquérito sobre o envolvimento americano com a polícia brasileira. Os relatórios foram publicados, a declaração da CIA sobre essas operações não foram. A gente vai tentar liberar essa publicação, pois ela está em poder do Senado, não da CIA. Ninguém nunca pediu essa autorização”, disse Green à agência.

Bem antes da atual onda de revelações sobre a ditadura, os arquivos históricos dos Reino Unido também serviram de base para as obras do jornalista e pesquisador Geraldo Cantarino. Ele analisou mais de 70 pastas de documentos da diplomacia britânica sobre o golpe militar de 1964.

Jornalista com mestrado em Documentário para Televisão pelo Goldsmiths College, da Universidade de Londres, Cantarino mora na Inglaterra há duas décadas e é autor de quatro livros sobre o Brasil a partir da ótica externa: ”1964 – A Revolução para inglês ver”, ”Uma ilha chamada Brasil”, ”Segredos da propaganda anticomunista” e ”A ditadura que o inglês viu” (todos publicados pela Mauad Editora)

Seus livros oferecem um vislumbre de evidências do tipo de informação que pode ser encontrada nos arquivos diplomáticos no Reino Unido. Segundo sua pesquisa, os despachos são ricos em detalhes e expressões usadas para descrever o Brasil. Os documentos, ele argumenta tocar assuntos muito diferentes e estão no fundo da descrição dos detalhes da vida social, bem como da política e economia.

“É uma história do Brasil contatada, de inglês para inglês ver –e diplomatas costumam ser verdadeiros quando se reportam aos seus chanceleres”, diz.

A pesquisa de Cantarino começou, entretanto, inspirada por um outro livro, sobre períodos anteriores da história do Brasil revelados por documentos estrangeiros. Geneton Moraes Neto e Joel Silveira oferecem essa análise no livro “Nitroglicerina pura”, sobre documentos secretos do Reino Unido e dos EUA sobre políticos brasileiros.

“Os papeis secretos expõem julgamentos que jamais um embaixador pronunciaria em voz alta, sob pena de causar embaraços diplomáticos, políticos, éticos e, até, jurídicos”, diz Geneton no livro.

Documentos e depoimentos históricos também ajudam a recompor a ditadura brasileira sob a ótica francesa. Em seu livro de memórias sobre o período em que trabalhou como correspondente brasileiro em Paris, Milton Blay fala sobre as revelações do “homem que conheceu de perto três dos quatro presidentes dos anos de chumbo”.

Ele se refere ao general francês Paul Aussaresses, “um criminoso de guerra da Argélia reconvertido em instrutor de oficiais latino-americanos na década de 1970, a quem ensinou a prática da tortura, servindo como adido militar na embaixada da França em Brasília, na pior fase da ditadura brasileira.” Antes de morrer, Aussaresses fez uma série de revelações sobre o modo de operação da tortura no Brasil.

Resta tempo e dedicação de historiadores, jornalistas e pesquisadores para analisar tanta documentação e trazer à luz tudo o que continua escondido desde os repressores anos de ditadura no Brasil. Em um momento de crescente tensão sobre a democracia brasileira, a história pode ajudar o país a superar a ascensão de forças autoritárias no país.

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Agência dos EUA diz que Brasil não repetirá história de intervenção militar
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Daniel Buarque

“A história não está se repetindo”, e o Brasil não parece seguir o rumo de uma nova intervenção militar na política, apesar de haver um crescimento de vozes a favor de uma ditadura no país.

Esta é a conclusão de um estudo publicado pelo site americano “Geopolitical Futures” a respeito da probabilidade de uma virada autoritária no Brasil.

O trabalho avaliou casos da história do Brasil em que os militares tomaram o poder (em 1889, 1930 e 1964) e comparou à situação atual do país. Segundo a análise, mesmo aceitando que haja elementos que poderiam favorecer uma intervenção, algumas características do contexto atual reduzem a probabilidade de uma ditadura. A falta de apoio internacional seria um dos pontos centrais para essa avaliação.

“Todas essas três intervenções militares ocorreram em diferentes períodos da história do Brasil e sob diferentes circunstâncias, mas ainda assim têm algumas coisas em comum”, diz o estudo. Segundo ele, os três exemplos revelam que as intervenções no Brasil têm quatro características:

“Primeiro, uma crise política resulta em um governo extremamente fraco que tem pouco ou nenhum apoio de bases históricas. Em segundo lugar, uma crise econômica ameaça os principais componentes da economia. Terceiro, uma grande parte dos militares, particularmente os oficiais, fica frustrada com o governo, muitas vezes porque os militares foram excluídos dos assuntos do Estado. Em quarto lugar, as forças estrangeiras desempenham algum papel.”

No Brasil de hoje, avalia, os dois primeiros casos (crise econômica e baixa legitimidade política) são verdadeiros. As outras duas características (exclusão dos militares e apoio internacional), entretanto, não são verdadeiras, o que torna a possibilidade de ditadura menos provável.

“As forças armadas não estão sendo negligenciadas ou minadas pelo governo hoje. De fato, nos últimos 25 anos, o governo incluiu oficiais militares no planejamento, debates e políticas nacionais de defesa. Os comentários do general Eduardo Villas Boas sobre a corrupção entre os políticos brasileiros despertaram preocupações de que o Brasil estivesse retrocedendo, mas que ele era capaz de falar sobre uma questão política em si indica que os oficiais militares não são meros observadores da política brasileira, mas também podem ter influência”, diz o estudo.

Quanto à influência externa, o “Geopolitical Futures” alega que o maior interesse de potências internacionais é em estabilidade, e que uma intervenção militar criaria muita incerteza sobre o país, criando tensões desnecessárias tanto em política quanto em economia.

“No plano internacional, não há sinais de que governos estrangeiros possam apoiar uma solução militar para a crise no Brasil. Todos os governos da América do Sul hesitam em se envolver militarmente em outros países da região. Mesmo no caso da Venezuela, que está passando por uma crise política e econômica própria, os países da região demoraram a tomar medidas concretas (como cortar os laços comerciais) contra o governo de Nicolas Maduro e estão aplicando apenas sanções moderadas. Países fora da América do Sul, particularmente os Estados Unidos, querem estabilidade no Brasil. Por conta da negociações comerciais com a China e o NAFTA, além das operações militares em curso no Oriente Médio, os EUA já estão sobrecarregados e dificilmente apoiariam uma intervenção militar no Brasil. Fora do Hemisfério Ocidental, um dos relacionamentos mais fortes do Brasil é com a China, que importa recursos naturais do Brasil. Se o governo brasileiro fosse derrubado, isso poderia desestabilizar o país e prejudicar os laços comerciais, fazendo com que Pequim não apoiasse qualquer movimento nessa direção.”

O “Geopolitical Futures” é uma publicação voltada a análises de geopolítica global e perspectivas para o futuro do mundo. A revista digital é ligada ao think tank Stratfor, uma agência de inteligência americana dedicada a estudos de política internacional. O posicionamento publicado para o público americano indica que não interessa à elite de política externa dos Estados Unidos que haja uma intervenção deste tipo no Brasil, o que diminuiria as chances de crescer o apoio externo a uma nova ditadura.

Enquanto o debate sobre intervenção cresce no Brasil, é interessante ver um posicionamento assim de fora do país, especialmente considerando que os Estados Unidos foram a principal força por trás do movimento que tomou o poder em 1964. É claro que sempre há a possibilidade do uso de publicações e estudos em atuação de contra-informação, mas a análise aparenta ser feita para consumo interno, indicando ser reflexo dos interesses políticos dos EUA.

A avaliação ganha eco em reportagens analíticas como uma publicada na revista “Americas Quarterly”. Segundo o editor-chefe da publicação, Brian Winter, o que se viu no Brasil com o aumento de vozes por uma intervenção soa quase inacreditável. “O que antes era impensável agora está se tornando normal”, diz.

Mesmo admitindo que as vozes a favor de uma intervenção pela força podem ser minoria, ele diz que o tema já chegou à elite da política, que alega que os militares não têm interesse em assumir o poder. O problema maior, segundo Winter, é que o Brasil pode acabar abraçando uma alternativa autoritária por meio do voto, sem precisar de uma intervenção violenta dos militares.

“Na verdade, um golpe tradicional com tanques nas ruas é quase impensável –uma “relíquia do século 20”, como disse um líder militar nesta semana. No século XXI, quando a democracia se deteriora, quase sempre acontece por meio das urnas. Bolsonaro prometeu, se eleito, nomear oficiais militares para cargos importantes no governo, reverter as disposições sobre direitos humanos e dar ‘carta branca’ às forças de segurança para matar suspeitos de crimes, entre outras medidas. O General Joaquim Silva e Luna, que Temer nomeou como o primeiro ministro da Defesa não-civil do Brasil em fevereiro, disse à ‘Bloomberg News’ na semana passada que ele recebeu bem a candidatura de Bolsonaro. ‘O Brasil está procurando alguém com valores … e eles consideram que as Forças Armadas têm esses atributos’, disse ele. Por que se preocupar com um golpe, quando há maneiras mais fáceis de ganhar poder?”

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Escola Sem Partido ameaça relações acadêmicas do Brasil com o mundo
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Daniel Buarque

A interferência do governo na aplicação do conteúdo curricular em salas de aula de escolas e universidades brasileiras pode vir a ameaçar as relações acadêmicas entre o Brasil e o resto do mundo.

A liberdade e autonomia de professores e pesquisadores é vista do exterior como uma condição para que o intercâmbio de experiências educacionais exista e funcione de forma plena, avançando a educação do país. Projetos que vão contra essa liberdade são interpretados como um problema para este intercâmbio.

Neste sentido, a decisão favorável ao projeto de lei conhecido como Escola Sem Partido, capitaneado pela bancada evangélica, na comissão especial destinada a analisar a proposta na Câmara, parece um passo que vai contra essas relações internacionais acadêmicas do país, e pode atrapalhar o avanço da educação nacional.

Reportagem da Folha sobre a aprovação da proposta indica que ela é polêmica e vem sendo alvo de protestos. “De acordo com seus críticos, ela cerceia o direito dos professores de livre cátedra. Em 2016, a PGR (Procuradoria-Geral da República) se manifestou contra a inclusão do projeto na base nacional curricular, afirmando que a proposta é inconstitucional.”

Apesar de o texto em debate na Câmara indicar que o professor não deve fazer propaganda político-partidária, o projeto visa à censura por parte do Estado para definir o que poderá ou não ser discutido e ensinado nas escolas e mesmo em livros didáticos e concursos públicos. Isso fere diretamente a liberdade de expressão, pedagogia e pesquisa acadêmica, defendidos pela Constituição e apoiados por acadêmicos estrangeiros.

Em uma apresentação na Universidade Yale, nos EUA, no início da semana, o historiador americano James N. Green tratou dessa interferência do Estado na educação como algo inaceitável em uma democracia.

Segundo ele, esforços da direita e de forças religiosas fundamentalistas, organizadas através do Escola Sem Partido, atacam “estudos de gênero, discussões sobre a homofobia e outras questões que giram em torno de questões de democracia, inclusão e luta contra os legados do racismo, do sexismo, das desigualdades econômicas e da discriminação, tão profundamente enraizados na cultura brasileira”.

Green fala como um representante dos acadêmicos americanos voltados a relações com o Brasil e explica que as tentativas de controlar o conteúdo curricular no país podem levar muitos brasilianistas a deixar de considerar a construção de parcerias com pesquisadores no Brasil.

Essas relações acadêmicas entre pesquisadores do Brasil e do resto do mundo são fundamentais para o desenvolvimento e aprimoramento da educação de qualidade no Brasil. Medidas que limitam essas relações podem fazer o Brasil ficar mais isolado, o que limitaria o avanço do ensino e da pesquisa no país e poderia ser interpretado como um retrocesso.

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Vontade de ser potência marca história das relações do Brasil com o mundo
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Daniel Buarque

O Brasil sempre quis ser uma potência internacional e defendeu uma ordem global diferente da que existe, mas em muitos momentos acabou “dando um passo maior do que a perna”, ou desenvolvendo problemas internos, o que fez o país perder força diplomática.

Esta avaliação é dos pesquisadores de política internacional David Mares e Harold Trinkunas, do Instituto Brookings, nos EUA. Eles fizeram esta análise durante entrevista conjunta, por telefone, com o autor deste blog Brasilianismo em meados 2016, quando lançaram um livro sobre a longa história dessa aspiração do país, que nunca conseguiu alcançar totalmente seu potência. No meio do caos de notícias no Brasil da época da Olimpíada de do impeachment de Dilma Rousseff, a entrevista acabou nunca sendo publicada. Apesar de inédita, ela continuou muito atual, e é publicada abaixo quase integralmente (a não ser por perguntas e respostas que ficaram datadas por conta do noticiário).

Trinkunas e Mares são autores de “Aspirational Power – Brazil on the Long Road do Global Influence’’ (Potência aspiracional — O Brasil na longa estrada para a influência global, em tradução livre). A obra que trata o Brasil como uma potência emergente que tem tentado usar do soft power, o poder de influência, para ganhar relevância no resto do mundo e buscar revisar aspectos da ordem internacional estabelecida.

Desde que se tornou independente, o país tentou se projetar no resto do mundo como uma nação diferente dos suas vizinhas na América Latina, buscando ter um papel de relevância no planeta e promover sua imagem internacional.

Mares e Trinkunas defendem que o Brasil não quer influenciar a ordem internacional por se achar mais importante do que é. “Ele realmente acha que a ordem internacional tem aspectos negativos sobre a capacidade de se desenvolver, e quer uma ordem internacional diferente, na qual o Brasil tivesse mais voz, o que aceleraria o desenvolvimento do país”. Segundo eles, o Brasil e o sistema internacional se beneficiariam de uma maior influência do Brasil

O problema dessa aspiração brasileira, segundo eles, é que o Brasil às vezes exagera na tentativa de influenciar negociações internacionais. “O Brasil se mete em problemas quando tenta dar um passo maior do que a perna, e alcançar mais do que consegue com seu nível de influência”, dizem.

Segundo os pesquisadores, o Brasil até hoje não atingiu seu objetivo, e vai continuar sem atingir enquanto não conseguir criar bases sólidas para suas instituições domésticas para desenvolver com mais força seu poder de convencimento na arena internacional.

Brasilianismo – O título do seu livro lembra imediatamente a famosa ideia de que o “Brasil é o país do futuro, e sempre vai ser”. Como acham que essa ideia está relacionada ao que descrevem como aspiração por poder?
Harold Trinkunas – A ideia de “país do futuro” é muito usada, mas não é nosso foco. Nosso título vem do fato de que percebemos muito fortemente na história do brasil uma aspiração por uma ordem mundial de alguma forma diferente. Não necessariamente baseada em princípios diferentes dos existentes na ordem liberal internacional atual, mas com foco diferente, enfatizando a igualdade de soberania e um maior nível de consequência relacionada ao unilateralismo, mesmo para as grandes potências. Isso é parte das aspirações do Brasil.

Mas o livro busca uma abordagem mais ampla sobre o que querem as nações emergentes. Enquanto elas se tornam mais ricas e desenvolvidas, quais são suas aspirações no mundo, já que passam a ter um maior poder de influência?

Brasilianismo – E o que descobriram?
Harold Trinkunas – A resposta está em duas questões. Todas as nações emergentes criticam a ordem vigente, pois ela foi definida pelos países que vieram antes delas. Elas não estavam presentes ou não tinham voz na criação da ordem internacional. Então há uma aspiração por reformas. Por exemplo, o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, maior poder no FMI e no Banco Mundial. Há aspirações por reformas.

O outro ponto diz respeito aos princípios dessa ordem global, e percebemos que o Brasil não é muito revisionista. Ele não quer princípios diferentes, mas mais ênfase em questões do seu interesse, como igualdade de soberania, do que em questões já estabelecidas, como intervenções humanitárias ou unilateralismo pelas grandes potências. A grande questão para os EUA, ao ver as nações emergentes, é entender com quais eles podem trabalhar e mudar a forma como influenciam a ordem mundial para que possam trabalhar juntas, e quais nações são mais revisionistas e podem ameaçar a ordem mundial como existe.

Brasilianismo – E onde o Brasil está nessa situação?
Harold Trinkunas – O Brasil é visto com uma frustração perene pelos criadores de política nos EUA, pois eles veem um país que parece muito com os EUA –uma nação grande, democrática e multiétnica, com história de integração e tamanho continental, com princípios fundamentais liberais definidos na própria Constituição. Quando o Brasil expressa valores assim em sua política exterior, os dois países se dão muito bem.

Mas há um outro lado nessa relação. O Brasil às vezes defende posturas diferentes, sem ter aliados ou inimigos, tratando os outros países de forma igualitária, com respeito à soberania, contrário ao intervencionismo. Essas aspirações por uma ordem global diferente deixam os EUA frustrados quando há algum problema internacional como na Líbia, na Síria, no conflito da Crimeia. É aí que está a discórdia entre EUA e Brasil. Mas a resposta para esse desacordo nunca é conflito, mas sim distanciamento. Os países se afastam um do outro em vez de entrarem em confronto. Então há momentos de esfriamento na relação.

Brasilianismo – Não se pode dizer que todos os países querem ter poder? Como o Brasil se diferencia de outros países nesse sentido?
David Mares – Nem todos os países têm aspirações de ser potência global. Na verdade, poucos países o fazem, pois é preciso ter os trunfos para ter esse tipo de influência. Mesmo que analisemos um caso extremo como o da Coreia do Norte, eles não estão tentando influenciar a governança global, estão apenas tentando conseguir o que precisam para si mesmos. Sua estratégia nuclear é baseada nisso, e não em uma mudança nas regras da ordem social.

O Brasil se diferencia disso desde o começo. Desde o começo do império, O Brasil sempre se viu como tendo direito a um lugar nos conselhos globais de ordem internacional. Isso é em parte por conta do seu tamanho, e parte porque em determinado momento da história o Brasil tinha uma situação política estável em comparação com o resto do continente. Mesmo quando a proclamação da república trouxe alguma instabilidade, o Brasil logo se reorganizou e os europeus reconheceram o brasil como um potencial grande ator internacional. O Brasil foi convidado para as conferências de Haia, e teve um papel importante ali.

Brasilianismo – Isso é uma forma de megalomania do Brasil? Que vantagens o país teria se tivesse menos aspirações globais?
Harold Trinkunas – Ao classificar o Brasil como uma potência emergente, estamos diferenciando o país das nações intermediárias, que estão satisfeitas com a ordem global como ela está –Itália, Dinamarca, Suécia–, países desenvolvidos que acham que o sistema global funciona bem para eles. E comparamos com países como a Índia, que compartilha com o Brasil a sensação de que atingiram seu status até agora apesar do sistema, e que teriam avançado ainda mais se houvesse uma ordem global diferente, que beneficiasse mais o sul global.

O Brasil não quer influenciar a ordem internacional por se achar mais importante do que é. Ele realmente acha que a ordem internacional tem aspectos negativos sobre a capacidade de se desenvolver do Brasil, e que uma ordem internacional diferente, na qual o Brasil tivesse mais voz, aceleraria o desenvolvimento do país.

David Mares – O Brasil e o sistema internacional se beneficiariam de uma maior influência do Brasil, se essa influência fosse usada de forma apropriada. O Brasil não quer desfazer o sistema, mas às vezes parece exagerar sua força, o que pode parecer negativo, e preocupa outros atores globais. Mas todas as regras têm impacto na distribuição de custos e benefícios do comportamento que está sendo avaliado por essas regras.Faz sentido achar que alguma modificação em algumas dessas regras ajudariam países em desenvolvimento, permitindo um desenvolvimento mais amplo. O Brasil se mete em problemas quando tenta dar um passo maior do que a perna, e alcançar mais do que consegue com seu nível de influência.

Brasilianismo – Em que situação isso aconteceu?
David Mares –
No lado da segurança, por exemplo. Acho que é ótimo que o Brasil não seja uma potência militar. Não estamos defendendo que o Brasil deva desenvolver capacidades nucleares ou equipamentos militares. Não achamos que o Brasil deva embarcar numa tentativa de desenvolvimento militar. Soft power é o caminho para o Brasil. Mas, no âmbito da segurança, a posição do Brasil em temas como a RWP (responsability while protecting), os esforços para desenvolver seus submarinos nucleares e transferências de tecnologia sem tanta supervisão internacional. São áreas às quais o Brasil não precisa ir, e que, por mais que o Brasil não seja o problema, poderia tornar mais fácil para outros países se tornarem problemas para a ordem mundial no futuro.

Harold Trinkunas – A crise recente na Ucrânia é um bom exemplo. O Brasil foi criticado pelas grandes democracias por não ter se colocado de forma mais enfática contra a anexação da Crimeia pela Rússia. Isso é algo que o Brasil tradicionalmente faria oposição, por ser a tomada de território à força, mas a resposta do Itamaraty foi dizer que havia um envolvimento anterior do Ocidente na Ucrânia mudando o regime, e que se o Ocidente não tivesse se envolvido, nao teria havido problema. O problema disso é que, mesmo que possa ser uma avaliação correta, não é uma resposta satisfatória nem para a vítima da agressão, que é a Ucrânia, nem para as democracias russas. Porque o Brasil tenta usar argumentos assim, que não satisfazem a ninguém, nem à vítima nem aos agressores, ele acaba não oferecendo soluções práticas para o problema imediato, e acaba não tendo poder de influência.

David Mares – E não é só na questão de segurança. Em termos econômicos, o Brasil pagou um preço caro por querer ter mais autonomia em seu desenvolvimento nacional. O mercosul e o Brasil não são competitivos, e se tornaram dependentes de commodities em vez de se integrar na economia global. Teria sido melhor para o Brasil, mas o país argumentou contra abordagens deste tipo

Brasilianismo – Vocês abrem o livro descrevendo como o Brasil melhorou seu perfil internacional até 2009, mas perdeu força alguns anos depois. O que deu errado?
Harold Trinkunas –
Precisamos voltar para entender porque a crise no Brasil tem um impacto profundo na sua influência internacional. É óbvio que a crise tem influência sobre a vida dos brasileiros por vários motivos, e demonstra uma fraqueza de algumas das suas instituições, com prevalência maior da corrupção e problemas do modelo econômico. Na dimensão internacional, como o Brasil enfatizou tanto o soft power em sua estratégia internacional, e como soft power é poder de atração, e não de força, isso faz com que as instituições domésticas sejam excepcionalmente importantes. Durante os anos de boom, de 2003 a 2011, o Brasil pareceu ter alcançado essa combinação de democracia, desenvolvimento, redução da desigualdade, crescimento da classe média. Um modelo que era muito atraente para outros países do mundo em desenvolvimento dando impulso à liderança brasileira em contraste com o modelo chinês ou o Consenso de Washington. O Brasil parecia ter conseguido juntar democracia e desenvolvimento. A crise atual quebrou isso, e faz parecer que o que país construía e mostrava ao mundo não era real.

Pessoalmente acho que o Brasil vai preservar muitos dos seus avanços, mesmo que eles demorem a se reorganizar. No curto prazo, a fraqueza das instituições brasileiras cortou sua influência internacional.

Brasilianismo – Como isso afeta a posição do Brasil no mundo?
David Mares –
O Brasil vai ter que voltar algumas casas no tabuleiro, mas não precisa começar tudo de novo. Muitos dos sucessos do Brasil no passado já estão no radar do resto do mundo de uma forma que não estavam antes. As pessoas vão estar acompanhando a recuperação brasileira e, quando isso acontecer, haverá uma maior aceitação de que o Brasil é um ator global importante. Isto considerando que o país mantenha sua democracia intacta e vai voltar a apostar na redução das desigualdades e no crescimento da classe média

Harold Trinkunas – A luta contra a corrupção vai se tornar um tema importante neste ponto. Dependendo de como a Justiça brasileira vai lidar com a corrupção vai ser acompanhada no resto do mundo e pode afetar sua influência internacional.

David Mares – O Brasil precisa aprender com seus erros do passado para poder se reerguer. Internamente, precisa pensar no seu modelo de desenvolvimento e das suas instituições, e internacionalmente em termos do foco em um grupo como IBSA em vez dos BRIC, apostando mais nas democracias para ter um apoio maior das outras potências globais, além de Rússia e China. O Brasil é uma democracia e é liberal, e acredita em direitos humanos e direitos civis, acredita em limites para o governo, são valores liberais que a China e a Rússia não têm. É nisso que eles precisam enfatizar no caminho de volta.

Brasilianismo – Qual o caminho a ser seguido imediatamente, então?
Harold Trinkunas –
Os próximos anos vão dizer muito sobre como o Brasil vai se restabelecer. No longo prazo, vemos que o Brasil tem progredido, mas precisamos ver se o Brasil vai conseguir manter os avanços das últimas décadas ao longo dos próximos anos. Há exemplos, como a governança da internet, fascinantes. O Brasil é um ator bem-sucedido nessa área graças ao impulso de liberalização de FHC. Isso criou os fundamentos para criar um Brasil muito conectado ao mundo, mais influente em política internacional, mesmo que as pessoas não deem atenção a isso no Brasil atualmente. É um bom exemplo de coisas feitas no nível doméstico que foram bem-sucedidas no longo prazo, dando mais influência ao país em nível global. Momentos de crise são oportunidades para reformas institucionais e contribuir para o país no longo prazo.

David Mares – Para a emergência internacional do Brasil é muito importante fazer as reformas políticas que permitam lutar contra a corrupção, e torná-la um tema menor no país. Governar o Brasil tem que ser mais fácil. Governar é muito difícil quando há tantos partidos. Isso é um problema real para o desenvolvimento do Brasil. Todas as políticas dependem de muita negociação com partidos diferentes. É um desafio tornar essas instituições mais funcionais.

Brasilianismo – Analistas internacionais dizem que a política brasileira e disfuncional. Concordam?
Harold Trinkunas –
Essa é uma palavra forte. O sistema tende a coalizões muito grandes. Em um contexto positivo, como o boom das commodities, mantém a coalizão com propinas e pagamentos. Não é preciso reforma quando se pode pagar pelo apoio. O sistema funcionou sob FHC, por exemplo, que conseguiu adotar políticas importantes para o desenvolvimento brasileiro.

David Mares – No Brasil, a eficiência do presidente muitas vezes se deu via corrupção. O sistema funcionou assim. A estrutura do país precisa mudar para que a corrupção deixe de ser uma forma de resolver a ineficiência do governo.

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Saiba quem foi o embaixador autor da frase ‘o Brasil não é um país sério’
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Daniel Buarque

O embaixador Carlos Alves de Souza, que atuou representando o Brasil no exterior até os anos 1960, pode até não ter o nome muito conhecido no país. Mas é dele a autoria de uma das frases mais reconhecidas e repetidas por milhões de brasileiros: “O país não é um país sério”.

Atribuída equivocadamente ao ex-presidente francês Charles de Gaulle, a frase nunca foi dita pelo general, segundo Souza, e é de autoria do próprio embaixador, que conta como ela surgiu em sua autobiografia, “Um Embaixador em Tempos de Crise”, de 1979.

E apesar de ter se tornado um “mantra” sobre a cultura do país, Souza diz no livro que não se arrependeu da sua opinião, e que vê até mais problemas no Brasil.

“Na minha vivência de mais de 50 anos nos meios militares, diplomáticos, políticos e sociais, cheguei a suas conclusões melancólicas. A primeira é a de que a argila, da qual foi feita o brasileiro, não é de boa qualidade. E a outra, em que foi acertada minha frase, atribuída ao general De Gaulle: ‘Le Brésil n’est pas un pays sérieux’”, diz, ao encerrar o livro.

Souza serviu na Europa por muitos anos. Recebeu medalha de ouro pelos 50 anos de trabalhos prestados ao serviço público do país em 1966, quando também se aposentou.

Ele começou trabalhando como encarregado de negócios do Brasil em Montevidéu, em 1925, e em seguida atuou dentro do Brasil. Em 1929, tornou-se encarregado de negócios do Brasil em Paris, chefe do serviço de passaportes, encarregado de negócios em Viena, primeiro secretário em Viena (1934), no México (1935). Depois, foi embaixador em Havana (1945-1949), em Roma (1950-1956), em Paris (1956-1964) e em Londres (1964-1966)

Um dos momentos mais marcantes do livro é quando ele narra sua atuação como ministro plenipotenciário em Belgrado, entre 1939 e 1941, quando acompanhou o início da Segunda Guerra Mundial na Europa.

Mas o mais interessante é que o embaixador conta sobre a “Guerra da Lagosta” história pouco conhecida que deu origem à frase de que o Brasil não é um país sério. Foi um episódio cheio de desencontros, e que serviu para que Souza consolidasse uma opinião ainda mais negativa sobre o Brasil.

“Nada mais ridículo do que a chamada ‘Guerra da Lagosta’, que apenas demonstrou a falta de entrosamento da Secretaria de Estado com as Embaixadas e a leviandade dos nossos governantes”, conta.

“Os franceses estavam pescando a 30 milhas da costa brasileira, onde constataram haver maior quantidade de lagostas. Tudo isso ignorava a Embaixada do Brasil em Paris. (…) O presidente, provavelmente sem pensar nas consequências do seu ato, deu instruções às autoridades para suspender a licença. (…) A embaixada em Paris continuava tudo ignorando”, diz.

Quando pesqueiros franceses foram apreendidos pela Marinha brasileira, Souza ficou sabendo pelo governo francês. “Os jornais franceses não mais falavam no assunto, porém a imprensa brasileira, com rara infelicidade, fazia comentários inverídicos sobre o problema e diziam que a Marinha brasileira tinha dado uma boa lição aos franceses”.

Chamado pelo governo para se encontrar com o presidente De Gaulle, Souza conta como surgiu o mal-entendido sobre a autoria da frase.

“Fui avistar-me com o general. Recebeu-me no seu escritório, diante de um bloco de notas, e fez-me sentar à sua frente. Começou fazendo um histórico sobre o caso da lagosta, a permissão do presidente Goulart para a pesca, o sequestro dos pesqueiros, as notícias inverídicas da imprensa brasileira e as críticas a ele e à França.”

Depois do encontro, Souza foi a uma recepção na casa do presidente da Assembleia Nacional da França.

“Repentinamente, surgiu diante de mim o jornalista Luiz Edgar de Andrade, hoje editor-chefe da TV Globo. Insistiu para que eu lhe dissesse algo sobre a minha entrevista com o general De Gaulle. Respondi-lhe que não daria nenhuma entrevista. Mas, não poderia deixar de ter uma conversa amistosa com uma pessoa por quem sempre tive a maior consideração. Falei-lhe sobre o tal samba carnavalesco “A Lagosta é nossa”, as caricaturas do presidente De Gaulle e terminei a conversa dizendo: Luiz Edgar, ‘le Brésil n’est pas un pays sérieux’”, conta, no livro.

Segundo o embaixador, foi daí que a frase se popularizou.

“Provavelmente, ele telegrafou ao Brasil não deixando claro se a frase era minha ou do general De Gaulle, com que eu me avistara poucas horas antes desse encontro casual. Luiz Edgar é um homem correto, e estou certo de que o seu telex ao jornal não teve intuitos sensacionalistas. Mas, a frase ‘pegou’. É evidente que, sendo hóspede do general De Gaulle, homem difícil, porém muito educado, ele, pela sua formação e temperamento, não pronunciaria frase tão francamente inamistosa em relação ao país do chefe da missão que ele mandara chamar. Eu pronunciei essa frase numa conversa informal com uma pessoa das minhas relações. A história está cheia desses equívocos.”

Polêmica

Apesar do reconhecimento da própria responsabilidade do embaixador, que diz que tudo o que é contado no livro estava registrado por escrito, a frase não aparece em jornais brasileiros nos anos 1960, e é mencionada pela primeira vez em algum veículo da grande imprensa nacional anos mais tarde.

Além disso, o jornalista citado pelo embaixador sempre negou que fosse responsável por popularizar a frase. Em uma entrevista disponível no YouTube, ele diz acreditar que o presidente pode realmente ter dito a frase, e que o próprio embaixador a repetia a amigos, o que fez ela se tornar conhecida.

“O meu envolvimento nessa história começa em 1979, quando o embaixador publicou as suas memórias, e tem um capítulo sobre esta frase. Neste capítulo ele me atribui a divulgação da frase. Eu teria mandado ao Jornal do Brasil esta informação, que se espalhou. Acontece que em 1990 eu procurei nos meus arquivos e na coleção do Jornal do Brasil na Biblioteca Nacional este jornal. Acontece que não tem essa informação. Tenho certeza de que não fui eu que mandei essa informação. Como este boato começou a circular? Para mim, é um mistério. Havia a suspeita de que o próprio embaixador Alves de Souza tenha espalhado a história. E é atribuído a mim. Eu acho bastante provável que o De Gaulle tenha dito isso mesmo. O embaixador ao me dar o livro fez uma dedicatória: ‘Ao Luis Edgar de Andrade, co-autor da famosa frase’. Na versão dele, ao conversar comigo, ele teria dito a mim ‘Le Brésil n’est pas sérieux’, e eu fiz confusão, como ele falou em francês, e atribui ao De Gaulle. Na verdade não publiquei. Acho que o embaixador contava a amigos íntimos isso.”

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Sem poder real, Brasil tem atuação de ‘zelador’ no mundo multipolar
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Daniel Buarque

Michel Temer discursa na ONU

No debate entre os que dizem que o Brasil perdeu relevância internacional nos últimos anos, por conta da crise, e os que argumentam que o país nunca interrompeu a construção da sua influência global, talvez os dois estejam certos.

Em um mundo cada vez mais multipolar, o Brasil está presente e tem voz nas relações internacionais, apesar de não ter força suficiente para tomar decisão prática. É como se o país fosse um “zelador” na ONU, um ator presente, importante e influente, mas sem poder real.

Este debate tem sido frequente entre a academia e a diplomacia. Foi o ponto mais importante de um painel organizado pelo Instituto Brasil do King’s College de Londres para discutir a ascensão, ou declínio, do país no cenário global. No meio da controvérsia e de argumentos de discordância, entretanto, o que se desenhava era um Brasil com relevância internacional, ainda que limitada à falta de força.

De um lado, o embaixador brasileiro Antonio Patriota, ex-ministro das Relações Exteriores do governo Dilma Rousseff, defendia a importância do Brasil no mundo. “O Brasil é um país influente”, argumentou.

Do outro, o pesquisador Andrès Malamud, da Universidade de Lisboa, autor de um artigo em que aponta a retração do Brasil na política internacional. “Falo em declínio, não em ascensão do Brasil”, disse.

Para o primeiro, o mundo está deixando de viver sob a influência de uma única potência global (os EUA), e uma nova realidade multipolar abre espaço para uma atuação ainda maior do Brasil. Assim, o fato de o Brasil estar presente no mundo, com embaixadas em mais de 140 países, e de participar dos principais fóruns internacionais de forma ativa, mostra que o país tem importância. Segundo ele, a relevância do Brasil no mundo já foi reconhecida pela ex-secretária de Estado americana Condoleezza Rice e pelo ex-presidente Barack Obama, além da própria ONU.

Na visão do segundo, nada disso comprova relevância real, e os argumentos não provam que o Brasil de fato tenha poder. “Só há três formas de fazer alguém agir da forma que se quer: o porrete, a cenoura ou a persuasão. Poder militar, poder econômico ou soft power”, e o Brasil de hoje não tem nenhum dos três, argumentou. Para ele, o soft power já foi importante para o Brasil sob Fernando Henrique Cardoso e Lula, mas agora o país não tem mais a presença e a capacidade de convencimento que tinha no passado, então o país perdeu relevância global.

Painel sobre a influência global do Brasil, organizado pelo Brazil Institute do King’s College de Londres

No fundo, apesar do tom de contradição, os dois parecem estar certos.

O Brasil de fato tem influência no cenário da diplomacia global em um mundo cada vez menos preso à unipolaridade americana. Participa de eventos, fóruns e debates multilaterais, e tem até mesmo atuação em missões de paz, como a Minustah, recém-encerrada no Haiti. É um dos países mais lembrados do mundo e tem uma boa reputação entre elites das relações internacionais. Mas, de fato, isso não significa que o Brasil tenha poder real.

É como se o país fosse o “zelador” dessa nova ordem multipolar do mundo.

Como o zelador de um prédio, ele está sempre presente, conhece e é reconhecido por todos os moradores, é importante para a organização dos eventos, é procurado para ajudar a resolver impasses, é fundamental para o funcionamento e a manutenção do prédio. Mas, como um zelador, ele pode até influenciar, mas não tem poder de decisão.

Com uma equipe extremamente profissional no Itamaraty, o Brasil está bem representado em todo o mundo. Organizou e sediou eventos importantes, como a Rio+20. É importante signatário da Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Mas, na hora das grandes decisões, o país continua fora do Conselho de Segurança da ONU, instância mais alta dos poderes globais.

E já que o ponto central do debate é influência. Se o Brasil não tem poder militar ou econômico, depende muito do seu poder de persuasão, o soft power. Aqui, mais uma vez, a alegoria do zelador pode funcionar.

Sem poder de decisão, a influência de um zelador de prédio depende do seu “soft power”, sua capacidade de negociar interesses, ser diplomata e persuadir os verdadeiros donos do poder a seguir o caminho que acha preferencial.

Se as chances de conquistar poder militar ou econômico no curto prazo não são tão grandes, o Brasil precisa ampliar ou ao menos manter o seu “poder suave”, ou “poder brando”. Pode não ser tão importante quanto a força real para que o Brasil alcance seu objetivo de ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, mas ao menos vai tornar o trabalho de “zelador” mais eficiente.

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Prestígio do Brasil no mundo não sofreu impacto da crise, diz ex-chanceler
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Daniel Buarque

As instabilidades geradas pela crise econômica e pela desordem política no país nos últimos anos não afetaram o prestígio internacional do Brasil, defendeu nesta terça (10) um ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, durante visita a Londres.

Para o diplomata, ao contrário do que mostram os índices que medem a imagem internacional do Brasil, de análises acadêmicas críticas à situação do país e do que disse o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricúpero em entrevista à Folha, o país não está em declínio.

“O prestígio relativo do Brasil não sofreu, é grande, e nossa capacidade de atuação, de iniciativa e de criatividade é enorme”, disse.

O ex-chanceler conversou informalmente com pesquisadores do Instituto Brasil do King’s College de Londres. O encontro, do qual o autor deste blog Brasilianismo participou, aconteceu minutos antes dele participar de um painel sobre a ascensão e declínio do Brasil no palco global em meio ao que ele chama de mundo multipolar.

Os argumentos sobre a suposta retração do Brasil, segundo ele, ignoram o contexto global. O mundo está atravessando um momento muito difícil, e não se pode analisar o Brasil a partir de um ponto fixo, como se ele não estivesse sujeito a dinâmicas de transformação.

“Em termos relativos, em função do que está acontecendo no mundo, a vantagem comparativa do Brasil aumenta”, defendeu.

Segundo o ex-ministro, o Brasil está acordando para a relevância que o país pode mostrar no mundo, mas ainda há controvérsias internas quando o país tenta exercer esta presença no exterior.

O diplomata admitiu, entretanto, que esse reconhecimento existe apenas em setores especializados, nas elites. Entre a população global, argumentou, as pessoas só conhecem futebol, samba, a praia, fotos do Rio, caipirinha, sandália havaiana.

O lado negativo dessa imagem brasileira no exterior, disse, é a visibilidade que tem o que acontece atualmente no Rio de Janeiro, com aumento da violência urbana.

Este post foi alterado no dia 12/10/2017 às 18h26

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Para Ricupero, ‘corrupção terrível’ marca a imagem do Brasil no exterior
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Daniel Buarque

Entrevista do embaixador Rubens Ricupero à Folha

A corrupção terrível e a pior crise da história são as marcas da imagem internacional do Brasil hoje, segundo o embaixador Rubens Ricupero, 80, ex-ministro da Fazenda e do Meio Ambiente.

A avaliação foi feita durante ótima entrevista concedida à repórter especial da Folha Patrícia Campos Mello, em que foi abordado o lançamento do livro “A diplomacia na construção do Brasil – 1750-2016”, de Ricupero.

Além da entrevista, a Folha publicou uma crítica do livro, escrita pelo colunista Matia Spektor. Nela, Ricupero é descrito como “o consigliere diplomático por excelência”.

“Este livro é seu mais completo testamento. Na superfície, é uma história ambiciosa da diplomacia brasileira —com começo em 1640 e fim em 2016— contada a partir das tradições do Itamaraty, com todas as vantagens e problemas que isso acarreta.”

A entrevista do embaixador trata de vários temas sobre política e diplomacia brasileira das últimas décadas, e inclui o trecho abaixo, sobre a imagem do país:

Pergunta: Qual é a imagem do Brasil no exterior hoje?

Rubens Ricupero: Hoje a imagem do Brasil não é nem pessimista, nem otimista, corresponde à realidade: trata-se de um país com uma corrupção terrível, um presidente com uma segunda denúncia, ministros sendo investigados, uma crise que é a mais grave da história.

As pessoas dizem —por que a diplomacia brasileira não faz isso ou aquilo? Mas como, ninguém quer sair na foto com o Brasil. (Binyamin) Netanyahu veio para região e não se encontrou com o Temer, o vice-presidente americano, Mike Pence, também.

Por que todo mundo queria estar com o Lula? O Lula era um vitorioso. Além do sucesso econômico e político, ele tinha o êxito moral, o combate à miséria e à injustiça. Quem não queria ficar ao lado do Mandela? Hoje, deve ter muito pouca gente querendo sair na foto com o Temer. Ninguém pode imaginar que o Itamaraty vai alavancar o Brasil se o país não acabar com a corrupção, não voltar a crescer, não combater a miséria.

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Expansão do Brasil no mundo foi ‘ponto fora da curva’, segundo pesquisadora
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Daniel Buarque

A chanceler alemã, Angela Merkel, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (centro) e o presidente norte-americano, Barack Obama (à dir.), conversam durante a cúpula do G20, em Pittsburgh (EUA)

A retração da presença brasileira no cenário global nos últimos anos e o encolhimento da diplomacia do Itamaraty são reflexo de perda de força do Brasil no exterior por conta das crises no país. Esta retração tem causas políticas e econômicas, mas se torna mais perceptível por conta do período de expansão excepcional registrado durante os anos anteriores, especialmente durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva.

A avaliação foi feita pela pesquisadora Mathilde Chatin, que estudou a busca do Brasil pelo status de potência global e sua inserção internacional independente do seu poder militar em seu doutorado, completado no primeiro semestre no King’s College de Londres.

Para ela, a perda de força do Brasil é reflexo de uma retração visível da política externa brasileira no período mais recente em comparação com os anos do governo Lula, mas ela também acredita que o período de expansão é que foi exceção no histórico desta inserção global do país.

A pesquisadora Mathilde Chatin

“O contexto econômico e político que os sucessores enfrentaram foi drasticamente diferente do qual o Presidente Lula beneficiou. Pode ser que aquele período tenha sido um ‘ponto fora da curva’, que se regularizou com seus sucessores – inclusive por falta de interesse em política externa da Presidente Dilma Rousseff e uma diplomacia presidencial menos intensa”, disse.

Leia também: ‘Com Dilma e Temer, o Brasil voltou à normalidade de presidentes medíocres’

As crises políticas e econômicas pelas quais o Brasil passa atualmente afetam o andamento da política externa brasileira e da projeção internacional do país de forma mais ampla, até porque geram cortes no orçamento do Ministério das Relações Exteriores e da Defesa, segundo ela.

Apesar do encolhimento da força brasileira, Chatin defende que o potencial do soft power em colocar o Brasil como potencial emergente no mundo ainda existe. “É a forma mais efetiva para a inserção brasileira”, disse.

Brasilianismo – Como as crises política e econômicas afetam as relações internacionais do Brasil?

Mathilde Chatin – As crises política e econômica afetam o andamento da política externa. Cortes no orçamento do Ministério das Relações Exteriores e da Defesa têm impacto sobre o funcionamento das embaixadas, e diplomatas brasileiros comentam sobre a incapacidade de atender custos básicos (contas e salários) e impedidos de fazer o trabalho regular (atividades, eventos e convites importantes). Afetam também o financiamento de projetos de cooperação para o desenvolvimento, e o financiamento para projetos de defesa em andamento ou planejamento também tem dificuldades.

O Brasil acumulou dívidas com várias organizações internacionais e ultimamente perdeu seu direito a voto na Corte Penal Internacional e a Agência Internacional de Energia Atómica.

Brasilianismo – Acha que pode-se falar em encolhimento da presença do país no mundo nos últimos anos?

Mathilde Chatin – o caso do G20 é um exemplo de grande visibilidade do efeito da crise política sobre as relações internacionais do Brasil, assim como do seu posicionamento hesitante em grandes debates globais onde o papel do país é estrategicamente interessante.

O Presidente teve uma presença desbotada no G20, na Alemanha: não estava no programa porque tinha anunciado o cancelamento da viagem para aquela reunião; não realizou nenhum encontro bilateral, já que lideres interessados em se reunir com Temer remanejaram suas agendas; no meio da crise interna, voltou ao Brasil depois de apenas 30 horas e perdeu o ultimo almoço com seus pares.

O professor Oliver Stuenkel fez uma comparação interessante entre o ano 2009 e aquele G20 no qual a capacidade do Brasil de priorizar sua atuação externa e ajudar a moldar uma transformação profunda do sistema internacional através a emergência de um mundo menos centrado no Ocidente.

Oito anos atrás, o Brasil estava se consolidando como uma potência diplomática global durante as duas primeiras cúpulas presidenciais do G20, até negociar um aumento de sua representação no FMI com os outros BRICs. No mesmo ano, a primeira cúpula presidencial do BRICs ocorreu em Ecaterimburgo, refletindo um deslocamento histórico para as potências emergentes.

Brasilianismo – O governo de Dilma Rousseff foi muito criticado por não priorizar o trabalho da diplomacia brasileira. Temer assumiu com promessa de mudar isso, mas parece não ter conseguido avançar a agenda de política externa do Brasil. Como você avalia esta mudança desde Lula e o momento atual da diplomacia brasileira?

Mathilde Chatin – O Brasil experimentou uma retração visível da sua política externa no período mais recente em comparação com os anos do governo Lula, limitando o poder de atuação do país no contexto internacional.

O contexto econômico e político que os sucessores enfrentaram foi drasticamente diferente do qual o presidente Lula se beneficiou –obriga a dedicar mais intenção as dificuldades domesticas que reduzem severamente os recursos para manter um vigoroso engajamento internacional.

O período do presidente Lula também deu um forte impulso ao objetivo firme de inserir o Brasil no contexto internacional com uma política externa ambiciosa e um passo hiperativo.

Pode ser que aquele período tenha sido um “ponto fora da curva” que se regularizou com seus sucessores –inclusive por falta de interesse em política externa da Presidente Dilma Rousseff e uma diplomacia presidencial menos intensa.

Brasilianismo – O “soft power” tem sido usado para compreender a ascensão diplomática do Brasil no mundo no século XXI, mas o Brasil acabou de cair 5 posições (da 24ª para a 29ª) no ranking mais recente de soft power da Portland (soft power 30). O que explica isso?

Mathilde Chatin – Em primeiro lugar, estudiosos estão de acordo sobre o fato de que é difícil medir o poder. Ainda assim, se você olhar aqueles critérios usados pela Portland: um deles é “governo”, então crise política com vários casos de corrupção de grande visibilidade talvez tenha um impacto sobre a imagem do Brasil como ator confiável e deve ter afetado o resultado.

A avaliação também considera “engajamento”, e o menor ativismo internacional (em particular ao nível da diplomacia presidencial) e atuação mais apagada do Brasil no nível global podem ter afetado o resultado.

Brasilianismo – Sem soft power, o que sobraria como forma de o Brasil se colocar como uma potência emergente no mundo?

Mathilde Chatin – o potencial do soft power em colocar o Brasil como potencial emergente no mundo ainda existe e é a forma mais efetiva para aquela inserção brasileira, inclusive valores e princípios que tem defendido no cenário internacional (uso não excessivo da força, busca de soluções diplomáticas e investimento no desenvolvimento, multilateralismo, etc.) e a realidade que é importante demais como membro dos BRICS para ser ignorado em grandes discussões internacionais. O que talvez falte é uma maior afirmação daquele soft power no período mais recente.

Brasilianismo – Acha que este processo de encolhimento pode desfazer as conquistas internacionais do país do início do século?

Mathilde Chatin – Em uma entrevista, o ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores Celso Amorim comentou afirmou que “Brasil não pode desperdiçar seu soft power” e comentou: “Você não pode decepcionar, porque aquilo que você leva dez anos para criar –uma confiança, uma relação– você com um ato pode perder. Depois pode recuperar, mas dá muito trabalho recuperar”. Acho que é um bom resumo do risco.

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‘Com Dilma e Temer, o Brasil voltou à normalidade de presidentes medíocres’
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Daniel Buarque

A presença internacional do Brasil encolheu significativamente nos últimos anos, enquanto o país perdeu prestígio e soft power.

Se isso parece um problema exclusivamente da diplomacia brasileira, o pesquisador Andrés Malamud explica que não, pois trata-se de uma questão muito mais complexa e estrutural: o país tentou ter uma relevância maior do que sua capacidade real permitia.

“A sua retração deve-se parcialmente aos erros na política externa, mas deve-se ainda mais ao fato de o país ter pretendido jogar numa liga maior à permitida por seus recursos materiais”, explicou Malamud em entrevista ao autor deste blog Brasilianismo.

Professor de ciência política da Universidade de Lisboa, Malamud conhece bem este assunto e publicou recentemente um artigo acadêmico sobre a questão: “Foreign Policy Retreat: Domestic and Systemic Causes of Brazil’s International Rollback” (Recuo da política externa: Causas domésticas e sistêmicas do retrocesso internacional do Brasil) foi publicado no projeto “Rising Powers in Global Governance”.

Para o pesquisador, o Brasil até conseguiu se promover em escala global nas décadas de 1990 e 2000 por conta da ação de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, “presidentes excepcionais”, mas voltou a uma situação medíocre desde que eles deixaram o poder.

“Com Dilma e Temer, o Brasil voltou à normalidade dos presidentes medíocres: daí a perda de imagem internacional e soft power.”

Brasilianismo – Acha que pode-se falar em encolhimento da presença do país no mundo nos últimos anos?

Andrés Malamud – O encolhimento é evidente, não é opinião.

O Brasil tem menos protagonismo, e por vezes até nem participa, em reuniões ou foros de alto nível, mesmo sobre questões nas quais o país já foi um ator relevante (como o ambiente).

No nível regional, a UNASUL (uma criação brasileira) e a CELAC estão paralizadas: nem conseguem reunir para tratar a crise venezuelana.

Brasilianismo – Como as crises política e econômicas afetam as relações internacionais do Brasil?

Andrés Malamud – O Brasil, embora seja grande na América do Sul, é pequeno no mundo: a sua capacidade militar está mais próxima da Colômbia que da Índia (para não falar dos EUA, China ou Rússia). A sua participação no comércio internacional não chega a 1,5% (tendo 3% da população mundial) e o seu desenvolvimento científico e tecnológico é baixo.

O aumento do peso internacional do país foi produto da sua capacidade diplomática, quer profissional quer presidencial. As crises domésticas reduziram essa capacidade.

Brasilianismo – O governo de Dilma Rousseff foi muito criticado por não priorizar o trabalho da diplomacia brasileira. Temer assumiu com promessas de mudar isso, mas parece não ter conseguido avançar a agenda de política externa do Brasil. Como você avalia esta mudança desde Lula e o momento atual da diplomacia brasileira?

Andrés Malamud – Este é o meu ponto de desacordo com muitos críticos: mesmo que a gestão diplomática de Dilma tenha sido incompetente e a de Temer seja inexistente (e são!), o “encolhimento” do Brasil é estrutural.

A sua retração deve-se parcialmente aos erros na política externa, mas deve-se ainda mais ao fato de o país ter pretendido jogar numa liga maior à permitida por seus recursos materiais.

Brasilianismo – O soft power tem sido usado para compreender a ascensão diplomática do Brasil no mundo no século XXI, mas o Brasil acabou de cair 5 posições (da 24ª para a 29ª) no ranking mais recente de soft power da Portland (Soft Power 30). O que explica isso?

Andrés Malamud – O Brasil teve, durante 16 anos, dois presidentes excepcionais: FHC e Lula. A Argentina, por exemplo, há décadas que não tem nenhum dessa hierarquia, ainda menos dois. Com Dilma e Temer, o Brasil voltou à normalidade dos presidentes medíocres: daí a perda de imagem internacional e soft power.

Brasilianismo – Sem soft power, o que sobraria como forma de o Brasil se colocar como uma potência emergente no mundo?

Andrés Malamud – O Brasil é uma potência emergente por causa da sua demografia: com uma população grande (a quinta do mundo) e ainda jovem (ainda tem bastante mais trabalhadores do que pensionados), a sua participação nos fluxos internacionais ainda vai crescer. O que não é certo é que consiga influenciar muito na gestão desses fluxos.

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