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Ataque de Bolsonaro a Bachelet cria confusão e polêmica na política chilena

Daniel Buarque

04/09/2019 15h08

Políticos chilenos reagiram nesta quarta-feira ao ataque do presidente Jair Bolsonaro a Michelle Bachelet, alta comissária da ONU para direitos humanos e ex-presidente do Chile, e sua declaração de que "seu país só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973". A fala do brasileiro tem destaque nos principais jornais do Chile, que virou palco de disputas políticas por causa dele.

Segundo uma reportagem do jornal La Tercera, as falas de Bolsonaro geraram confusão na agenda política do Chile e complicaram o governo do país bem no momento em que o ministro de Relações Exteriores chileno viajou ao Brasil.

"No antigo Hotel Carrera, lamentaram o incidente 'muito inoportuno'. No palácio La Moneda, dizia-se que o brasileiro 'se excedeu'. Em uma única manhã, a oposição encontrou um motivo para descarregar contra todos os sinais de apoio que o governo deu a Bolsonaro desde que assumiu o cargo e pressioná-lo a protestar vigorosamente agora. Parlamentares e ex-ministros das Relações Exteriores, como José Miguel Insulza e Ignacio Walker, exigiram uma resposta à 'ofensa muito grave contra o ex-presidente e contra a República do Chile"', relata o jornal.

A crítica de Bolsonaro foi feita após Bachelet dizer em uma entrevista que o Brasil sofre uma "redução do espaço democrático", especialmente com ataques contra defensores da natureza e dos direitos humanos.

Segundo o jornal El Mercúrio, vários partidos, senadores e deputados do Chile se posicionaram publicamente contra as falas de Bolsonaro.

O presidente do Senado chileno, Jaime Quintana, pediu que o governo do país se pronuncie sobre as declarações.

"Esperamos uma forte resposta do presidente Piñera e do Ministério das Relações Exteriores. É bastante violento ver o presidente Piñera endossar permanentemente Bolsonaro, simpatizar com ele; então gostaríamos de uma reação muito forte ao que é um insulto para todos os chilenos e chilenas."

Ele disse que as declarações "deveriam causar uma rejeição transversal e vigorosa de todos os setores políticos do Chile. Há referências a questões de direitos humanos e nessa questão devemos ter uma única linha e o mesmo padrão, onde quer que sejam levados", disse, segundo reportagem do La Tercera.

Quintana acrescentou ainda que Bolsonaro "agride a memória dos chilenos e das vítimas de violações dos direitos humanos".

O presidente do partido Renovación Nacional, Mario Desbordes, também rechaçou as falas do presidente brasileiro. Segundo ele, a menção ao pai da chilena foi um equívoco. "Não é a forma de responder a um informe das Nações Unidas. Os informes das Nações Unidas devem ser rebatidos com argumentos", disse, também de acordo com o La Tercera.

Enquanto a oposição chilena se colocou contra Bolsonaro, houve também políticos que defenderam o brasileiro na mídia do país. O líder do Partido Republicano José Antonio Kast se juntou às críticas de Bolsonaro e disse que Bachelet criticou o Brasil "com base não em fatos, mas em sua postura ideológica".

No fim do dia, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, disse em pronunciamento não compactuar com as falas do presidente Jair Bolsonaro sobre o pai de Michelle Bachelet, alta comissária da ONU para direitos humanos e ex-mandatária do Chile.

Piñera, um dos principais aliados regionais de Bolsonaro, afirmou que "toda pessoa tem o direito de ter seu juízo histórico sobre os governos dos anos de 1970 e 1980, mas que essas visões devem ser expressas com respeito às pessoas".

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.