Brasilianismo

Arquivo : Imagem internacional do Brasil

Greves ampliam instabilidade e ameaçam confiança internacional no Brasil
Comentários Comente

Daniel Buarque

A semana de caos nacional por conta da greve de caminhoneiros e do desabastecimento nas principais cidades do país dominou a atenção nos últimos dias. No resto do mundo, o noticiário foi em sua maior parte errático e pouco analítico, indicando a dificuldade em entender e interpretar o que aconteceu no Brasil.

Em conversas informais durante a conferência anual da Latin American Studies Association (LASA), em Barcelona, a principal sensação era de que o país mergulhou numa instabilidade profunda, o que aumenta as incertezas dos outros países em relação ao Brasil e ameaça a confiança no país –base para qualquer acordo político ou comercial em relações exteriores.

A situação da reputação brasileira já vem mal há muito tempo por conta das crises política e econômica, e da grande incerteza em torno da eleição presidencial deste ano. Ainda assim, a greve e o clima “apocalíptico” gerado por ela mostra uma fragilidade ainda maior da ordem do país, o que é uma ameaça ainda maior para esta confiança externa.

Enquanto os problemas internos dominam a atenção do Brasil, o mundo tateia tentando entender a situação confusa do que acontece no país. A imagem internacional do Brasil se consolida cada vez mais como confusa e instável, o que afasta o interesse em novos acordos.

Do ponto de vista de negociações internacionais, tudo o que países parceiros econômicos e políticos do Brasil querem é que o país entregue o que for acordado –estabilidade gera confiança, e amplia os negócios e parcerias. A relação com a China, por exemplo, depende de o Brasil ser capaz de entregar, dentro do prazo, o que vende para o país. Quando isso não acontece, negócios futuros serão repensados e talvez os compradores busquem outros fornecedores mais confiáveis.

Quando uma greve assim para o abastecimento interno, criando sérios problemas no cotidiano dos brasileiros, impede também o escoamento de mercadorias para o resto do mundo, o que acaba com atrasos e falhas no cumprimento de contratos e torna o país pouco confiável –e a confiança na entrega é chave para essa relação.

Uma reportagem publicada pela agência de notícias Reuters tocou neste ponto com destaque. Logo no início da greve, o texto dizia que os motoristas “bloquearam rodovias e portos por todo o Brasil, (…) ameaçando reduzir a velocidade da entrega de grãos e outros bens para os mercados doméstico e de exportação”.

“O Brasil é um fornecedor-chave de grãos, carnes, café, açúcar, óleo e minério de ferro –cuja maioria chega aos portos por rodovias”, explica a Reuters.

Ainda pensando do ponto de vista da imagem do país e de como a greve pode afetar as relações internacionais do Brasil, o foco principal das conversas com especialistas que observam o país de fora apontam para a necessidade de que o país retome o rumo da estabilidade, para reconquistar a confiança.

O importante para os parceiros no exterior é a perspectiva de saber o que vai acontecer no país, e por mais confusa que seja a situação política no ano eleitoral, o respeito às regras do jogo é um dos pontos centrais para esta confiança. Enquanto a instabilidade dominar o país, e enquanto houver movimentos autoritários ameaçando a ordem política, vai ser difícil conseguir retomar a confiança do resto do mundo.

Apesar de uma cobertura um tanto limitada na imprensa internacional, na “Folha” desta segunda o colunista Nelson de Sá resume bem os principais enfoques da mídia estrangeira a respeito da greve: “No título do francês Le Monde, ‘Brasil faz intervir o exército para frear a greve dos caminhoneiros’. Também em destaque, ‘Mensagem autoritária sublinha fragilidade de governo historicamente impopular’”.

Ainda da coluna Toda Mídia: “O Wall Street Journal, sob o enunciado ‘Brasil chama militares depois que caminhoneiros desafiam acordo’, publicou que a decisão veio ‘apenas três meses depois de também ter chamado os militares para enfrentar uma crise de segurança no Rio’. No Washington Post, ‘um estado de espírito apocalíptico varreu São Paulo” e outras, deixando ruas vazias e levando o governo a “ordenar que militares rompessem a greve’, sem sucesso. O jornal ouviu, de um motorista na fila de um posto paulistano, que o Brasil se tornou Venezuela.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Repercussão mundial sobre PM que matou ladrão expõe violência do Brasil
Comentários Comente

Daniel Buarque

O Brasil e sua imagem ligada à violência ganharam atenção especial na mídia internacional neste início de semana. O caso da policial militar que reagiu a uma tentativa de assalto e matou o ladrão em Suzano (SP) ganhou grande repercussão na mídia estrangeira, com relato do caso e reprodução do vídeo em vários veículos da imprensa em vários países do mundo.

Apesar de a violência ser um tema tradicional relacionado ao Brasil na mídia internacional, o caso repercutiu especialmente em jornais e sites populares, além de tabloides, em que a história é apresentada como um caso de heroísmo excepcional.

Leia também: Violência política para de chocar e parece ter virado algo normal no Brasil

A cabo Katia da Silva Sastre, que atirou no assaltante, foi chamada de “heroína” e de “corajosa” pelos tabloides britânicos “Daily Mail” e “Daily Mirror”, por exemplo.

“Este é o momento em que uma tentativa de assalto de um homem armado contra crianças e famílias foi frustrada por uma mãe que esperava –que era uma policial armada de folga”, diz o “Daily Mail”

Segundo o jornal inglês “Metro” destaca o fato de que a tentativa de assalto ocorreu em frente a crianças e mães.

“O homem armado apontou seu revólver para mães e ameaçou o segurança, levando sua carteira e telefone”, diz.

O relato internacional do caso se junta a uma série de notícias publicadas com regularidade a respeito da falta de segurança no Brasil, o que ganhou mais atenção nos últimos anos por conta da crise.

A violência é frequentemente uma das primeiras associações que estrangeiros fazem ao pensar no Brasil, e casos excepcionais assim, destacados em jornais populares, têm potencial de marcar a imagem do país mais do que análises aprofundadas sobre as causas do alto número de homicídios no Brasil, ou casos que têm peso político mais forte, como o assassinato da vereadora Marielle Franco.

“Pergunte a um estrangeiro o que vem a sua mente quando ele pensa no Brasil, e um adolescente armado usando sandálias pode não estar muito atrás de jogadores de futebol ou passistas de carnaval de biquíni”, explicou certa vez a revista “The Economist”, em uma reportagem sobre o alto  número de homicídios no Brasil e o impacto disso na forma como o país é visto do exterior.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Decadência da imagem do Brasil é drástica, diz Noam Chomsky
Comentários Comente

Daniel Buarque

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o linguista e ícone do pensamento de esquerda do mundo Noam Chomsky avaliou o estado da imagem internacional do Brasil. Segundo ele, a percepção do país no exterior vive uma decadência drástica.

“As iniciativas de Lula, em coordenação com seu ministro das relações exteriores, o altamente eficiente Celso Amorim, transformaram o Brasil em um dos atores mais influentes e respeitados no mundo. O Brasil liderou um movimento para dar voz ao ‘mundo em desenvolvimento’ na administração global, dando seguimento a esforços para criar uma nova ordem econômica internacional que havia sido massacrada pela coalizão de poder e dinheiro capitaneada pelos EUA”, disse Chomsky.

“Essas esperanças foram despedaçadas pela destruição —em parte autodestruição— do PT e a reversão de seus feitos. A imagem atual do Brasil é festejada pelas classes investidoras predadoras e os governos ligados a elas, mas entre aqueles que se preocupam com direitos humanos, justiça social e democracia, a decadência da imagem do Brasil é drástica”, completou.

Leia a entrevista completa na Folha

Entrevistado pela repórter especial Patrícia Campos Mello, Chomsky comentou a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para ele, a condenação de Lula é injusta, uma vingança das classes dominantes, inconformadas com as reformas do governo petista.

O linguista vem avaliando a situação do Brasil com frequência, e de forma crítica, desde o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. O tom dele admite com frequência, entretanto, que a esquerda do país cometeu erros enquanto esteve no poder.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Economia puxou melhora da imagem do Brasil na imprensa estrangeira em 2017
Comentários Comente

Daniel Buarque

Gráfico do estudo I See Brazil mostra redução de reportagens com tom negativo sobre o país

O ano de 2017 chegou ao final registrando um dos piores momentos da imagem do Brasil, com rebaixamentos em quase todos os rankings internacionais de reputação de países. Um levantamento recém-divulgado revela, entretanto, que o tom da cobertura da imprensa estrangeira sobre o Brasil começou a melhorar no ano passado, e que a proporção de notícias de teor negativo começou a cair.

“A imagem do Brasil na imprensa internacional apresentou uma leve reação positiva em 2017”, diz o relatório do estudo mais recente I See Brazil (IC Brazil), da consultoria de comunicação Imagem Corporativa. O trabalho fala em “ligeira melhora” e indica que a reação da economia após a dura recessão empurra a mudança de percepção externa do país.

Leia também: Por que a mídia internacional chama atenção no Brasil e por que ela importa

O estudo das menções ao Brasil em jornais estrangeiros ao longo de 2017 indica que 77% das notícias sobre o país tinham tom negativo. Apesar de ainda serem mais de três quartos dos textos publicados em alguns dos principais jornais do mundo, é uma melhora em comparação com os 81% de cobertura negativa registrados no ano anterior.

Avaliação da imagem do Brasil na imprensa estrangeira no segundo semestre de 2017

A avaliação foi realizada com base na análise de 13 publicações internacionais. O levantamento registrou 1.608 notícias sobre o país ao longo do ano.

Segundo o estudo, a mudança no tom se deu acompanhada de uma mudança dos temas brasileiros que apareceram nos jornais internacionais. Enquanto a política dominou o noticiário estrangeiro sobre o Brasil em 2016 (ano do impeachment de Dilma Rousseff), a economia em recuperação ampliou sua participação na cobertura internacional (que ainda assim continua dando muita atenção à política do país).

“Em 2016, a maior parte das matérias referia-se à política (47,4%), seguida da economia (29,3%) e de temas socioambientais (23,3%). No ano passado, os temas políticos baixaram sua participação na cobertura sobre o país para 42,8%, enquanto a economia subiu para 41% dos temas noticiados e os assuntos socioambientais baixaram para 16,2% do total.”

A melhora do tom da cobertura também apareceu especialmente no segundo semestre, quando a proporção de notícias com tom positivo chegou a atingir 32,6%, o melhor nível em três anos. No primeiro semestre, a avaliação ainda era de que 80% das notícias sobre o Brasil no resto do mundo tinham tom negativo.

“Os sinais de recuperação econômica apresentados no primeiro semestre de 2017 ficaram mais fortes na segunda metade do ano e isso refletiu em um aumento da cobertura positiva do Brasil. Com o retorno dos IPOs, como os de BR Distribuidora, Azul e Carrefour, e o crescimento das operações de fusões e aquisições (como a aquisição da Vigor pela empresa mexicana de laticínios Lala), a imprensa estrangeira começa a ser mais otimista em relação à retomada econômica do Brasil”, diz o relatório.

O I See Brazil é produzido com a finalidade de mostrar como está a imagem do Brasil em outros países, reunindo e analisando referências à política, à economia e aos assuntos socioambientais e diferentes aspectos ligados a esses três pilares.

O estudo avalia o que sai sobre o Brasil em 13 publicações internacionais: o italiano “Corriere Della Sera”, a revista alemã “Der Spiegel”, o indiano “Economic Times of India”, o jornal espanhol “El País”, o jornal de economia “Financial Times”, o argentino “La Nación”, o francês “Le Monde”, o chinês “South China Morning Post”, a revista britânica “The Economist”, o japonês “Japan Times”, os americanos “The New York Times” e “The Wall Street Journal” e o canadense “The Toronto Star”. Além disso, analisa relatórios de agências de risco e economia e comentários de especialistas estrangeiros.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Por que a mídia internacional chama atenção no Brasil e por que ela importa
Comentários Comente

Daniel Buarque

Seminário sobre a cobertura internacional sobre o Brasil, na Universidade de Oxford

Os brasileiros em muitos momentos parecem obcecados com as descrições e comentários sobre o país na imprensa internacional. A forma como o país é retratado no resto do mundo tem importância na reputação do país, ela faz parte da consolidação da própria identidade nacional e influencia a situação política brasileira e suas relações com outras nações em uma arena global.

Este blog Brasilianismo completa três anos neste domingo (18), e esta é a postagem de número 1.001. Desde 2015, foram publicados comentários, análises e entrevistas quase diários sobre como o país é visto e analisado a partir de uma perspectiva externa. Este texto “comemorativo” resume de forma breve um seminário sobre o tema apresentado por seu autor no fim de fevereiro na Universidade de Oxford. A ideia era apresentar o interesse do Brasil pela forma como o país é retratado do exterior, e analisar a importância desse “espelho” da imagem do país.

O primeiro ponto é entender esta “obsessão” com a imagem internacional. Apesar de não haver uma explicação simples e direta para sua origem, o interesse pela forma como o país é visto no resto do mundo aparece com frequência em vários pontos da história. Desde o livro do alemão Hans Staden, que em 1557 ajudou a popularizar na Europa a imagem de selvagens canibais que viviam no Brasil, já se vê um líder indígena que é curioso sobre o que os portugueses falavam sobre ele. Mais tarde, a primeira “história” do Brasil foi amplamente construída a partir de relatos de viajantes europeus, o que criou uma dependência desse olhar externo para a própria formação do país.

A afirmação da identidade brasileira em muitos momentos se construiu em cima do discurso do “outro”, e criou no país um grande interesse pelo que dizia este discurso, tanto gerando defesas orgulhosas do país quanto se desenvolvendo como um “complexo de vira-latas” que faz os brasileiros valorizarem mais o que vem de fora do que o que é produzido no país.

Tanto foi assim que a vinda da família real portuguesa, em 1808, se deu acompanhada de uma missão de pesquisadores e artistas, que iam ajudar a desenhar a imagem do país. Depois disso, desde a Independência, no século XIX, o governo do país que se formava se preocupava com o que diziam jornais europeus, e trabalhava para melhorar a imagem do país no exterior. Isso se repetiu desde então, e até hoje volta a acontecer.

É desde este período de formação do Brasil que se consolida a frase “para inglês ver”, que já diz muito sobre a preocupação brasileira com o que é visto, e pensado, pelos estrangeiros.

Em seu recente livro sobre a história da diplomacia brasileira, Rubens Ricupero explica como o Brasil trabalhava seu “soft power”, o poder de persuasão em relações internacionais, desde o barão de Rio Branco, muito antes de a ideia de soft power existir na teoria. Segundo ele e outros historiadores, a busca por reconhecimento e prestígio foi uma das principais pautas do Brasil no cenário internacional desde o começo da sua história.

Com o tempo, a imprensa estrangeira virou o centro da atenção dos brasileiros quando buscam o reconhecimento internacional. A mídia se consolidou como “árbitro” do que acontece de relevante no país, como explica o pesquisador chileno César Jiménez-Martínez em sua tese de doutorado pela London School of Economics.

A ascensão dessa importância da repercussão internacional veio com críticas, naturalmente, e muitas pessoas acham que o interesse exagerado pelo que “deu no ‘New York Times’”, ou “disse a ‘Economist’”. Há quem fale até mesmo em “nostalgia do colonizador”. A questão, entretanto, é que com exagero ou não, a imprensa estrangeira e a imagem internacional de fato são importantes para um país emergente que tenta conquistar mais espaço em relações comerciais e diplomáticas no exterior.

A imprensa é reconhecida como o principal meio condutor da imagem nacional de um país no resto do mundo, e é capaz de influenciar na forma como os outros países pensam sobre o Brasil, por exemplo. Além disso, muitos pesquisadores apontam para o fato de que a imprensa pode ser pensada como um “termômetro” do que se pensa sobre um país no resto do mundo. Ele ajuda a entender a opinião externa. Uma terceira forma de pensar a relevância da mídia internacional é como se ela desse voz ao que o mundo pensa sobre o país. A imprensa seria como um “porta-voz” do que outras nações pensam sobre o que acontece no Brasil.

Curiosamente, apesar da importância da imagem internacional na imprensa estrangeira e do interesse dos brasileiros por ela, alguns estudos indicam que o próprio Brasil é responsável por grande parte do que sai nos jornais do resto do mundo. A imprensa internacional se alimenta da mídia nacional, explica Antonio Brasil, por exemplo. Os brasileiros oferecem a base do que essa imprensa de fora diz, e a projeção de estereótipos pode até ser pensada como um resultado da auto-imagem dos brasileiros, que também se desenvolve com altas doses de clichês.

A imprensa internacional pode ser vista como um bom termômetro para analisar o impacto de grandes eventos globais sediados pelo Brasil recentemente, por exemplo. Estudos mostram como a mídia reforçou estereótipos sobre o país na Copa e na Olimpíada, reforçando a imagem do país como “decorativo”, um lugar de festas sem tanta relevância em assuntos sérios. Os eventos não chegaram a piorar a imagem do país, mas colocaram o Brasil sobre holofotes em um momento de crise, o que fez com que a força da reputação do país se deteriorasse um pouco.

Levantamentos sobre o que sai a respeito do Brasil na mídia do exterior aponta a inversão da qualidade da imagem nacional ao longo da última década. O país passou de uma situação em que 80% das menções a ele no resto do mundo era positiva para um momento em que 8 em cada dez referências são negativas. Segundo os principais estudos, o foco dessa imagem negativa é a cobertura da política brasileira como disfuncional.

A pesquisa do chileno Jiménez-Martínez aponta especificamente para as jornadas de Junho como o ponto de virada, momento em que a imagem do país passou de positiva a negativa. Ali, ele explica, houve uma disputa pela imagem que se construiria do Brasil, e manifestantes chegaram a levar cartazes em inglês para protestos nas ruas. Apesar de um otimismo inicial, em que estrangeiros viam nas manifestações um sinal de democracia, o que se construiu ali foi a cascata de notícias negativas que mostravam, pela direita e pela esquerda, que a política brasileira não funcionava muito bem.

A imagem negativa da política na imprensa estrangeira revelou um país em que o sistema tem muitos problemas em sua raiz, favorecendo a manipulação e o populismo. A análise internacional do impeachment de Dilma Rousseff, por exemplo, foi muito negativa. Por mais que no geral não tenha se consolidado o discurso de que houve um golpe de Estado, a avaliação mais forte foi de que não foi um processo equilibrado, justo e positivo para o Brasil.

Esta abordagem é semelhante no que se vê a respeito da condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por mais que no geral se admita que ele não seja inocente, o processo parece cheio de problemas quando analisado pela imprensa internacional, que tenta explicar o que acontece no país para um público pouco familiar com as nuances da política brasileira.

Este é um ponto central da cobertura feita pela mídia estrangeira a respeito do Brasil. Ao tratar das notícias brasileiras sob um ponto de vista externo, apresentando os fatos a um público também estrangeiro, os jornalistas do resto do mundo precisam ter uma atenção muito maior a contextos e explicações. Há uma constante tentativa de resumir e explicar para leigos, o que gera uma cobertura por vezes aprofundada e interessante.

A imprensa estrangeira se comporta, portanto, como uma “floresta”. Ela dá uma visão mais distante e contextualizada do que acontece no país, enquanto a mídia nacional se ocupa de “árvores”, pequenas pílulas de noticiário apresentadas para quem está dentro da floresta. Enquanto a imprensa nacional pode noticiar a cada dia o que acontece de novo no processo contra Lula, por exemplo, a imprensa estrangeira cuida de uma cobertura mais genérica, menos atenta a cada detalhe, e sempre preocupada em contextualizar e explicar até mesmo quem é este tal de “Lula”.

Isso acaba vindo com simplificação, naturalmente, e com estereótipos. Os clichês, por mais que possam incomodar, são usados em ampla medida para atrair o leitor estrangeiro não familiarizado com o país e com o tema. Ao lembrar que o Brasil é o país do carnaval, um jornal internacional pode conseguir fazer com que um leitor que não se interessa pelo país consiga se aproximar do que está sendo tratado, se identificar com o que ele consegue entender naquela cobertura.

É este Brasil cheio de estereótipos e simplificado, mas construído em parte com base no que os próprios brasileiros pensam e falam, que se forma no “espelho” da imprensa internacional. O país é contextualizado e explicado para quem não o conhece, e acaba ajudando a consolidar a imagem geral que o resto do mundo tem a respeito do Brasil.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Rebaixado, Brasil se afunda em crises, mas continua visto como destino sexy
Comentários Comente

Daniel Buarque

Duas reportagens publicadas em veículos diferentes da imprensa dos Estados Unidos no fim de semana parecem, juntas, resumir a imagem do Brasil no resto do mundo. Enquanto a rede de TV CNN destaca o rebaixamento da nota de crédito do país, a revista “Maxim” lista motivos por que o Brasil ainda é um dos destinos “mais quentes”, mais atraentes do mundo. O país “decorativo” está em crise, mas continua sendo “sexy” e encantador.

A agência de classificação de risco Fitch cortou a nota de crédito do Brasil de “BB” para “BB-“, o que mantém o Brasil no grupo de países considerados maus pagadores de suas dívidas.

“Incertezas políticas, o fracasso da reforma da Previdência e grandes déficits fiscais levaram ao declínio”, explica a CNN. “É um retrocesso para o Brasil, que no ano passado saiu da mais longa recessão da sua história. Sua recuperação tem sido anêmica”, diz.

Ainda assim, com tantos problemas políticos e econômicos, “entre festas enlouquecedoras, modelos sexy e maravilhas naturais, simplesmente não há lugar melhor”, como diz a “Maxim”.

A revista fala sobre o Rio de Janeiro, as modelos brasileiras, o legado de Ayrton Senna, futebol, cachaça, passeios de helicóptero e a Amazônia como sendo os ícones deste destino atraente.

As duas ideias, de crise e de atratividade, juntas, refletem o que os estudos sobre reputação do Brasil indicam há mais de uma década. O país costuma ser mal avaliado em questões sérias de política e economia, mas é sempre bem visto em termos culturais e de turismo –especialmente quando se reforçam estereótipos como sensualidade e simpatia.

O mais recente estudo global sobre reputação de países, o Best Countries, divulgado neste ano, também confirma isso. O Brasil perdeu uma posição no ranking de 80 países, e agora é o 29º “melhor país”. Ele é a nação mais bem avaliada enquanto destino para aventura, mas vai mal em termos de cidadania e qualidade de vida.

Isso é o que alguns pesquisadores chamam de “imagem decorativa, mas não útil”. Além o Brasil, a Itália seria vista de forma parecida no resto do mundo. Não é exatamente um problema, mas indica que o país precisa trabalhar para melhorar sua imagem nesses aspectos para poder ser levado mais a sério internacionalmente.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Melhor destino para aventura, Brasil perde uma posição em ranking de imagem
Comentários Comente

Daniel Buarque

Depois de terminar 2017 colecionando rebaixamentos na avaliação da sua imagem internacional, o Brasil começou 2018 perdendo mais posições nos índices que avaliam a reputação do país no mundo.

Logo no começo do ano, o Brasil havia caído ao último lugar no ranking de soft power da revista “Monocle”. Mais recentemente, de acordo com outro estudo, perdeu uma posição e é considerado o 29º “melhor país do mundo”, segundo a avaliação mais recente do ranking internacional Best Countries.

O índice é um dos mais novos levantamentos sobre a percepção internacional de diferentes países do mundo. O estudo considera a reputação de 80 nações em diferentes aspectos políticos, econômicos e sociais.

Na versão divulgada em 2017, o Brasil havia caído oito posições no ranking em apenas um ano, passando da 20ª colocação para a 28ª. Em 2018, o país perdeu ainda mais um lugar –tudo efeito de uma série de problemas na política e da economia do Brasil, o que se reflete na forma como o resto do mundo pensa sobre o país.

Além de oferecer uma classificação geral da reputação do Brasil, o estudo sobre os “melhores países” apresenta a classificação do Brasil em cada uma das categorias avaliadas no levantamento. A avaliação de cada um dos pontos revela até uma melhora relativa da imagem do Brasil, por mais que no ranking geral o país tenha perdido uma posição.

Segundo os dados divulgados em 2018, Brasil continua sendo o país mais bem avaliado do mundo enquanto um destino para turismo e aventura, no nota 10 no quesito. Manteve também a posição em termos de Cidadania (31º), Influência Cultural (8º), e Herança (14º).

A avaliação do Brasil piorou quando pensado o seu Poder (de 29º para 30º). Trata-se de uma avaliação sobre a projeção de influência de um país no palco global –ranking liderado pelos Estados Unidos, pela Rússia e pela China. “Os países mais poderosos do mundo podem não ser os mais queridos, mas são nações que consistentemente dominam o noticiário, preocupam políticos e moldam as perspectivas econômicas. De forma certa ou errada, suas decisões de política externa e econômica têm efeitos em todo o mundo”, explica o estudo de 2017.

Em relação ao ano anterior, entretanto, o país melhorou levemente sua classificação em termos de Empreendedorismo (de 38º para 37º), Movers (que mede o potencial de crescimento e desenvolvimento do país, de 11º para 9º), Abertura a Negócios (de 63º para 60º) e até Qualidade de Vida (58º para 52º).

Uma possível explicação para a perda de uma posição geral em meio a melhora em tantos indicadores é o ranking é comparativo, então leva em consideração a situação de outros países em contexto geral. Assim, a Grécia melhorou mais do que o Brasil no período, e passou da 29ª para a 28ª colocação, passando o Brasil.

Além disso, mesmo com melhoras marginais a avaliação do Brasil continua sendo muito negativa quando se debruça sobre aspectos mais sérios sobre a situação do país, lidando com questões de qualidade de vida, política e economia no cenário global.

A comparação entre os aspectos bem e mal avaliados da reputação brasileira ecoa a sempre repetida interpretação do consultor Simon Anholt de que o Brasil é um país “decorativo”. Isso significa que o país costuma ser visto no exterior como uma nação que serve bem a questões culturais e de diversão, mas mal para pontos ligados a política e economia globais.

O estudo Best Countries é desenvolvido anualmente pela consultoria Y&R’s BAV, em parceria com a Universidade da Pensilvânia e a agência de notícias US News & World Report (no levantamento de 2016, a WPP fazia o estudo). Ele analisa dezenas de características qualitativas, impressões que têm potencial de influenciar as negociações globais, viagens, investimentos e afetar diretamente economias locais.

Suíça, Canadá e Alemanha aparecem no topo do ranking de 2018 como “melhores países” do mundo. A Argélia é o último lugar da lista de 80 países, seguida, de trás para a frente, por Angola e Sérvia.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


‘Jornadas de junho’ viraram símbolo do fracasso da ascensão do Brasil
Comentários Comente

Daniel Buarque

Reportagem do jornal britânico “The Guardian” sobre a onda de protestos no Brasil

A onda de protestos que tomou conta do Brasil a partir de junho de 2013 se tornou um importante momento simbólico para a história recente do país. Foi ali que ficou claro que a narrativa de “ascensão” e “sucesso” que havia sido criada até então para o Brasil estava errada, e que as coisas não iam tão bem quanto se imaginava dentro e fora do país.

As narrativas das chamadas “jornadas de junho” no Brasil e no exterior foram o tema de doutorado do pesquisador chileno César Jiménez-Martínez, que concluiu o PhD pela London School of Economics no ano passado. As disputas sobre a imagem dos protestos e do próprio Brasil foram estudadas em detalhes em sua tese “Nationhood, Visibility and the Media: The Struggles for and over the Image of Brazil during the June 2013 Demonstrations” (algo como “nacionalidade, visibilidade e mídia: as lutas por e sobre a imagem do Brasil durante os protestos de junho de 2013”).

O pesquisador chileno César Jiménez-Martínez

Em entrevista ao blog Brasilianismo, Jiménez-Martínez discutiu alguns dos principais pontos da sua pesquisa, como a influência da mídia internacional e o impacto dos protestos na forma como o Brasil é visto no exterior. Segundo ele, a narrativa de sucesso do Brasil deu lugar a uma de decepção, e o clima de ceticismo parece ter passado a dominar a política no país.

Brasilianismo – Quase cinco anos após as “jornadas de junho”, como você acha que esses eventos impactaram na história recente do Brasil?
César Jiménez-Martínez – As “jornadas de junho” se tornaram um símbolo de que a ideia de que o Brasil estava em ascensão e sem problemas não estava correta.

Os observadores interessados no Brasil foram claros em dizer que a economia estava desacelerando, que a política arriscava tornar-se instável e que a Copa do Mundo e as Olimpíadas não seriam a festa para celebrar a ascensão pretendida para o Brasil. No entanto, mesmo aqueles observadores ​​ficaram surpresos com a escala e alcance dos protestos. Pessoalmente, reluto em chamar as jornadas de um movimento, porque elas envolviam muitas agendas diferentes e às vezes contraditórias. Da mesma forma, não coloco os protestos de junho de 2013 na mesma categoria dos protestos de 2015, mesmo que você possa encontrar alguma relação entre elas. Mas, como um correspondente estrangeiro me disse, antes das jornadas de junho, todas as reportagens sobre o Brasil começaram com algumas frases sobre o quanto o país estava crescendo, o quão bem estava a economia e como o país estava se preparando para a Copa do Mundo e Olimpíadas. Após os protestos, essas frases mudaram, e outra narrativa, de dúvidas e crises no Brasil, começou a dominar.

Brasilianismo – Quanto você acha que o clima político gerado pelas jornadas de junho pode afetar as eleições deste ano no país?
César Jiménez-Martínez – Não tenho a certeza de que posso responder a essa pergunta. No entanto, minha impressão é que entre várias pessoas no Brasil e entre os observadores há uma grande decepção.

O período que vai de meados da década de 1990 e até a primeira década do século 21 é cada vez mais visto como um período excepcional, em vez de –como foi pensado– como o início e a consolidação de um período mais estável, próspero e relativamente mais igual para o Brasil. As pessoas me disseram que, apesar de algumas de suas diferenças políticas, por dois ou três dias durante os protestos de 2013 houve uma grande sensação de esperança de que um Brasil melhor seria possível e que o poder estava nas mãos das pessoas, não da classe política. Minha impressão é que hoje em dia uma atitude mais cética prevalece em todo o espectro político.

Brasilianismo – Olhando em retrospecto, o que você acha que foi o impacto geral das “jornadas de junho” na imagem do Brasil no resto do mundo?
César Jiménez-Martínez – Eu acho que o primeiro impacto foi de surpresa. Especialistas no Brasil e os próprios manifestantes não podiam prever a escala e alcance que os protestos alcançariam. E a maioria dos grupos que estavam originalmente atrás dos protestos logo perceberam que eles não tinham controle sobre eles. Eu acho que o leitor de jornal ou o espectador de TV no exterior também ficaram surpresos, especialmente porque organizações de mídia estrangeiras enfatizaram o vínculo entre os protestos e a Copa do Mundo. Como um correspondente estrangeiro me disse, parte da reação podia ser resumida como “por que eles estão protestando? Eles não amam muito futebol lá?”.

Dito isto, por um tempo, os protestos foram vistos sob um prisma positivo e talvez até romântico. O “New York Times”, por exemplo, os chamou de “despertar social”. Era, novamente, a sensação de que as pessoas estavam ficando mais poderosas, estavam exigindo um país melhor e que talvez os protestos pudessem aprofundar a democracia no Brasil. A maioria dessas opiniões otimistas, no entanto, desapareceu gradualmente, e uma narrativa de decepção começou a dominar, em que o Brasil passou a ser visto como uma decepção. Significativamente, essa é uma narrativa que você pode encontrar em vários relatórios sobre os países BRICS nos últimos dois anos, uma narrativa de que eles não eram capazes de entregar resultados.

Brasilianismo – A sua tese argumenta que não há uma única imagem de uma nação, e há uma luta constante para desenvolver e contestar essas imagens. Como ocorre esse processo?
César Jiménez-Martínez – As imagens nacionais não são um objeto, uma coisa que viaja. As imagens, como vários estudiosos observaram, são relacionais. Você tem pelo menos um observador e alguém que é observado –mesmo que os papéis com frequência mudem. Significativamente, as imagens nacionais simplesmente não emergem do que os governos fazem através de campanhas de “nation branding” ou esforços de diplomacia pública.

As imagens nacionais também são formadas por empresas privadas, filmes e séries de televisão, meios de comunicação, movimentos sociais e assim por diante. Se você perguntar a muitas dessas pessoas, eles dirão que eles não pretendem formar uma imagem de uma nação, mas suas ações contribuem para esse processo. Essas imagens mudam ao longo do tempo. Pense, por exemplo, no fato de que em meados do século 20 o Brasil estava fortemente associado ao café, mas essa associação não é tão forte hoje em dia. E essa é uma mudança que foi produto de toneladas de variáveis ​​políticas, econômicas, culturais e geopolíticas.

Brasilianismo – Sua tese menciona que o Brasil perdeu a oportunidade de promover sua reputação internacional. Com a contínua instabilidade do país, o que seria necessário para que o Brasil voltasse a ter relevância global?
César Jiménez-Martínez – É importante reconhecer que uma série de fatores, nem todos eles sob controle do Brasil, contribuíram para a ideia de que o Brasil estava “emergindo” ou “no auge”. Claro, a economia era um elemento fundamental, mas a estabilidade política também era fundamental, juntamente com os programas sociais que ajudavam as pessoas a sair da pobreza.

Vários correspondentes estrangeiros me disseram que o sucesso econômico era muito importante, mas não era suficiente fazer do Brasil uma história atraente. Também era um sentimento de otimismo, uma história positiva de as pessoas melhorarem. Isso também foi ajudado pelo carisma de Lula. Não importa o que pensemos de sua política, acho que certamente pode-se dizer que ele –com a ajuda de sua equipe– geralmente era bastante bom em se comunicar com a mídia e com o público. Ao mesmo tempo, parte da atratividade do Brasil tinha que ver com o ambiente global. Quando os Estados Unidos e a Europa enfrentaram uma crise financeira no final dos anos 2000, o Brasil deu a impressão de mais ou menos lidar com ela. Isso, sem dúvida, contribuiu para a ideia de que as coisas estavam “indo bem” no Brasil. Por isso, não posso dizer que haja uma lista de recomendações para dar às autoridades informando-lhes como restabelecer o Brasil como um país mais relevante.

Brasilianismo – Ao ir para o Brasil e fazer entrevistas no país, o que mais o surpreendeu enquanto estudou esse momento da história recente do Brasil?
César Jiménez-Martínez – Tive uma experiência muito semelhante à da pesquisadora espanhola Esther Solano, que escreveu um livro sobre black blocs. Ela estava frustrada, porque tinha a impressão de que as pessoas estavam dentro bolhas, sem ouvir umas às outras. Entrevistei pessoas do governo, ativistas, correspondentes estrangeiros e jornalistas brasileiros. Alguns deles eram um pouco desdenhosos de algumas pessoas com quem eu estava falando. Alguns jornalistas diziam coisas assim: “como é que você está falando com esses ativistas? Eles não têm nada a dizer”. Alguns ativistas diziam “como é que você está falando com esse cara no governo? Ele ou ela não tem nada a dizer”, e assim por diante. No entanto, ao ter a chance de falar com eles em profundidade, fiquei realmente surpreso com o fato de que a maioria tinha aspirações semelhantes. Às vezes era frustrante, porque você podia ver que todas essas pessoas diferentes tinham toneladas de coisas em comum. Lembro-me de uma vez em Brasília, eu estava entrevistando uma pessoa trabalhando para o governo. E inesperadamente, um ativista se juntou à conversa. Eu não sabia o que fazer, então deixei-os falar. No final, ambos ficaram felizes por ter tido a chance de trocar opiniões e ouvir o outro, ter finalmente conversado e ouvido.

Brasilianismo – Quão importante foram os meios de comunicação estrangeiros nesse processo? Quanto você acha que eles estão relacionados à formação da imagem internacional do Brasil?
César Jiménez-Martínez – Embora seja vista ou lida apenas por um número limitado de pessoas no Brasil, a mídia estrangeira desempenhou um papel importante na contribuição para formar a narrativa dos protestos. Novamente, entre um grupo de pessoas pequeno e significativo, a mídia estrangeira foi vista como árbitro que confirmou a relevância dos protestos (“olhe, chegou ao ‘New York Times'”). Além disso, eles também foram vistos –como alguns veículos alternativos, como a Mídia NINJA– como relativamente mais confiáveis ​​do que algumas das principais mídias nacionais. Essas duas coisas –a mídia como confirmando que algo é importante e a mídia como abertura do debate– não são exclusivas do Brasil.

Claro que também havia alguns jornalistas nacionais fazendo um trabalho incrível, mas no contexto de mídia do Brasil, em que os meios de comunicação nacionais estão fortemente associados a uma parte específica da elite nacional, a mídia estrangeira, com todas as suas limitações, foi vista como outra voz que poderia oferecer uma visão menos vilanizada dos protestos. Dito isto, acho que parte da cobertura internacional os protestos foi um pouco otimista demais, talvez refletindo um pouco as aspirações legítimas de alguns repórteres por um Brasil melhor.

Ao mesmo tempo, era interessante ver como grupos diferentes exploravam a mídia estrangeira no Brasil. Se, por exemplo, “The Economist” disse que o Brasil estava indo bem, as pessoas no governo diziam “olhem, mesmo a ‘Economist’ diz isso”. Da mesma forma, se a “Economist” dissesse que o Brasil não estava indo bem, as pessoas contra o governo diriam “olhe, até a ‘Economist’ diz isso”. Na verdade, mesmo alguns ativistas tiveram um comportamento semelhante. Novamente, isso não é exclusivo do Brasil e você pode encontrá-lo em vários países em todo o mundo.

Brasilianismo – Quão diferente você acha que a cobertura da mídia estrangeira é para a mídia nacional no Brasil?
César Jiménez-Martínez – A principal diferença que encontrei foi que, no momento das jornadas de junho, a mídia estrangeira começou a cobrir os protestos somente quando eles se sobrepunham com a Copa das Confederações, ou seja, quase duas semanas após os protestos terem começado. Provavelmente por essa razão, eles enfatizaram desde o início o vínculo entre os protestos e o futebol. Essa era uma agenda importante para alguns manifestantes, mas de modo algum era a única. No entanto, essa foi a forma como alguns correspondentes tentaram fazer as pessoas no exterior “se importarem” com os protestos. Ao mesmo tempo, a mídia estrangeira não pode dedicar a mesma quantidade de tempo à cobertura do Brasil. O Brasil “compete” com histórias de todo o mundo. Apesar dessas limitações, houve alguns correspondentes que fizeram um excelente trabalho e que, novamente, foram capazes de oferecer um relato equilibrado das manifestações e suas implicações para o Brasil.

Brasilianismo – Sua tese explica que, embora muitas pessoas falem sobre mídia estrangeira no Brasil, elas realmente se referem à mídia americana e britânica. Por que você acha que esses países são vistos como mais importantes do que outros?
César Jiménez-Martínez – Isso tem a ver com muitos processos históricos que não são exclusivos do Brasil. No caso brasileiro, que considero um pouco semelhante ao chileno, as elites políticas, econômicas e intelectuais brasileiras historicamente tentaram manter laços amigáveis ​​com grandes potências internacionais, particularmente a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. As razões incluíram sentimentos de insegurança ou isolamento na América do Sul, a busca de mercados e comércio além dessa região e a relevância que o Brasil teve para os interesses comerciais do Reino Unido e dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, em diferentes momentos da história, alguns intelectuais brasileiros alegaram que sua nação estava cultural e politicamente mais próxima desses poderes globais do que de seus vizinhos sul-americanos. Esses processos históricos são manifestados e reforçados através da mídia. Apesar de alguns meios de comunicação e cooperação cultural entre os países BRICS, muitas vezes você acha que as campanhas promocionais são destinadas aos EUA e à Europa Ocidental, e que quando os jornalistas falam sobre como “a mídia estrangeira” cobre o Brasil, eles se referem às mídias americana e britânica. Mas, novamente, isso não é exclusivo do Brasil. Com diferentes ênfases e legados históricos, você pode encontrar padrões semelhantes em outros locais.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Brasil começa 2018 em último no ranking de soft power da revista ‘Monocle’
Comentários Comente

Daniel Buarque

Brasil começa 2018 em último no ranking de soft power da revista ‘Monocle’

A animação divulgada no vídeo é bem curta, mas resume a imagem do Brasil na virada do ano 2017 para 2018: Um jovem de boné se aproxima do Cristo Redentor, cobre o rosto com um lenço e aponta o dedo para a estátua como se fosse uma arma. O Cristo então levanta os braços assustado.

A cena é mostrada no trecho sobre o Brasil de um vídeo da revista “Monocle” sobre os países com mais soft power no mundo, a Soft Power Survey 2017/2018. O país aparece em 25º lugar do ranking, o último lugar da lista em que ele já foi um destaque mundial.

“O Brasil já foi uma estrela do soft power, mas ficou em último na lista deste ano. O país não aproveitou o potencial do turismo de sediar a Olimpiada. E em meio ao caso político, a criminalidade aumentou. Assim é difícil promover a marca de um país construída sobre felicidade e hedonismo”, diz o trecho sobre o país no vídeo que detalha o ranking da “Monocle”.

A avaliação ecoa o resultado de todos os principais rankings internacionais que medem soft power e a reputação global de países do mundo. Em 2017, a imagem do Brasil sofreu de forma mais grave os impactos das crises internas do país, e a “marca-Brasil” foi rebaixada em todos os estudos deste tipo. A pesquisa da “Monocle” foi a última do tipo a ser divulgada, mas confirma a tendência.

Leia também – Retrospectiva: 2017 foi o ano de rebaixamentos da imagem do Brasil no mundo

O comentário do vídeo sobre o Brasil ter uma marca baseada em “felicidade e hedonismo” também ecoa uma avaliação tradicional sobre a imagem do Brasil, a de que o país é visto como decorativo. Isso indica que ele costuma ser bem avaliado apenas em relação a questões relacionadas a lazer, turismo e diversão, mas não em temas sérios como política e economia.

A revista “Monocle” é uma das principais publicações mundiais a dar atenção a questões de reputação e imagem internacionais. O ranking mais recente destaca que os últimos anos mostraram que não é fácil manter o soft power de um país, e que ele pode cair no ranking, caso não trabalhe para manter a qualidade da sua imagem.

“Soft power é o grande jogo de 2018 e, se o ano passado nos ensinou alguma coisa, é que é preciso dar apenas alguns passos errados para para jogar a delicada imagem de um país em uma espiral”, diz. O texto se refere a o quanto Donald Trump afeta a imagem dos EUA e o “brexit” atrapalha a reputação do Reino Unido.

A França subiu no ranking, levada em parte pelo governo de Emmanuel Macron, e aparece em terceiro lugar. A Alemanha se manteve em segundo lugar entre os países com mais soft power do mundo. E o Canadá se tornou o país com a marca mais valiosa do mundo graças à atuação do primeiro-ministro Justin Trudeau, segundo o ranking da “Monocle”.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Retrospectiva: 2017 foi o ano de rebaixamentos da imagem do Brasil no mundo
Comentários Comente

Daniel Buarque

Ilustração da rede CNN sobre as crises da economia brasileira

O ano que chega ao fim no domingo vai ficar marcado pela série de rebaixamentos na reputação do Brasil no resto do mundo. A percepção a respeito do país piorou em todo o planeta nos últimos anos, segundo os principais estudos que avaliam a imagem do Brasil no exterior em 2017. Em muitas das pesquisas de opinião globais, o país apareceu em seu pior momento em mais de uma década de estudos deste tipo.

Um levantamento realizado pelo blog Brasilianismo revela que em sete das principais análises sobre a “marca” do Brasil a imagem internacional do país caiu várias posições nos rankings de nações do mundo. Em alguns dos estudos a queda foi de mais de dez posições em poucos anos, e em outros o Brasil chegou em 2017  a sua pior posição da história.

Todas as medidas de soft power (poder de convencimento sem uso da força), de reputação e sobre a forma como o Brasil é percebido no resto do mundo parecem mostrar que a imagem do país piorou no mesmo período em que mais tentava se promover globalmente, quando sediou a Copa do Mundo e a Olimpíada para atrair a atenção global. Por mais que usem metodologias diferentes, todas as pesquisas confirmam a mesma tendência: o Brasil perdeu seu potencial de atrair e encantar.

A tabela abaixo resume a queda nas percepções internacionais do Brasil de acordo com os diferentes estudos globais, mostrando as posições em que o país aparecia em rankings internacionais em 2016 e em 2017.

Embora não exista um modelo de medida e avaliação de imagem internacional de países aceita de forma unânime, pesquisadores da área argumentam que esses índices com diferentes metodologias normalmente se apoiam e se complementam, o que significa que as medidas têm alguma base no que realmente é a imagem do país.

Apesar de todos esses estudos se basearem principalmente na opinião de cidadãos em diferentes países do mundo, outras duas medidas diferentes de imagem internacional, com diferentes abordagens, também descrevem uma piora no posicionamento global do Brasil –e podem ajudar a explicar a queda de qualidade registrada nas pesquisas.

Em 2017, o país obteve a sua pior posição em mais de dez anos do Anholt-GFK Nation Brands Index, a pesquisa mais citada e respeitada da reputação das nações. Depois de passar anos classificado em torno do 20º lugar até antes da Copa do Mundo, tornou-se o 25º ano após os Jogos Olímpicos.

Em questão de quatro anos, entre 2013 e 2017, perdeu dez posições no levantamento Country RepTrak, caindo de 21º a 31º. Além disso, perdeu seu primeiro lugar como a nação com a melhor reputação na América Latina para a Argentina, no FutureBrand Country Brand Report.

Em uma medida mais diretamente relacionada ao soft power, o Brasil passou do 23º lugar em 2015 para penúltimo (29º) na lista Soft Power 30 em 2017.

Mesmo um novo ranking de reputação internacional, o Best Countries, primeiro desenvolvido após o país sediar a Copa do Mundo, mostrou que o Brasil caiu do 20º lugar em 2016 para o 28º em 2017.

Por um lado, o Índice Good Country desenvolvido mais recentemente mostrou que o Brasil caiu da 49º posição entre os países com maior contribuição para a humanidade em 2015 para o 80º lugar no ranking de 2017. Embora os acadêmicos que desenvolveram o ranking argumentem que não é correto tratar a queda como tal, uma vez que houve uma mudança de metodologia, isso mostra que o Brasil não está se esforçando para ajudar o mundo, o que está fortemente correlacionado com a percepção estrangeira de uma nação.

Por outro lado, um estudo de como o Brasil é retratado na mídia internacional mostra que, em menos de uma década, o tom utilizado pela imprensa internacional para se referir ao país foi 80% positivo para 80% negativo.

De acordo com a análise I See Brazil, entre o ano anterior à Copa do Mundo e o ano após os Jogos Olímpicos, a proporção de reportagens com tom negativo na imprensa estrangeira passou de 3,6 em cada 10 menções em 2013 para o Brasil para 8 em 10 em 2017. Para muitos pesquisadores, a cobertura da mídia está relacionada ao desenvolvimento da imagem de um país, embora seja correto avaliar que a perspectiva negativa da mídia sobre um país mostra problemas reais que a nação enfrenta.

Não existe uma explicação simples para justificar uma piora tão marcante na avaliação do Brasil no mundo em tantos rankings diferentes, mas é fácil de perceber que a situação política e econômica do país bem no momento em que os holofotes globais se concentravam sobre ele tenha contribuído para isso.

Por mais que a realização da Copa do Mundo e da Olimpíada tenham sido consideradas bem-sucedidas, ao sediar eventos globais de grande visibilidade como estes o Brasil se expôs ao mundo, com todas as suas falhas e em meio a graves crises política, social e econômica. O resto do planeta reconheceu, mais uma vez, que o Brasil sabe realizar grandes festas globais, mas reforçou a sua percepção de que este é o máximo que o país consegue fazer. O Brasil atraiu a atenção internacional, mas, por conta das duas crises, não conseguiu promover sua imagem como uma potência emergente e séria em termos de política e economia.

Alguns dos levantamentos de imagem citados acima chegam a citar a pior recessão da história, os imensos escândalos de corrupção, a crise política, o impeachment de Dilma Rousseff, a perda de credibilidade dos políticos do país, o aumento da violência e, especialmente, a piora na qualidade de vida da população, como causas para esta piora na imagem.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil