Brasilianismo

Arquivo : Brasilianistas

Com pesquisa precoce, brasilianista virou referência em estudos da ditadura
Comentários Comente

Daniel Buarque

O cientista político Alfred Stepan, brasilianista morto na última semana aos 81 anos

O cientista político Alfred Stepan, brasilianista morto na última semana aos 81 anos, era uma referência importante nos estudos sobre a ditadura militar brasileira na acadêmica do Brasil e do exterior. Segundo o sociólogo, cientista político João Roberto Martins Filho, ele foi um dos grandes divulgadores dos estudos sobre a ditadura no resto do mundo.

Um dos motivos para isso é que ele conseguiu ter acesso a fontes de pesquisa muito cedo, ainda nos anos 1970, “antes mesmo que a ditadura mostrasse todas as garras”, como explica Martins Filho em entrevista ao blog Brasilianismo.

O trabalho de Stepan para entender a ditadura pode ser considerado especialmente relevante em um momento em que o apreço do eleitorado pela democracia como forma de governo caiu fortemente, segundo uma pesquisa do Datafolha. Atualmente, 56% dos eleitores concordam com a noção de que a democracia é sempre melhor do que outras formas de governo. Em dezembro de 2014, a mesma ideia tinha o apoio de 66% do eleitorado.

Professor titular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Martins Filho falou sobre a importância de Stepan para que os processos que levaram à ditadura no país fossem entendidos.

Brasilianismo – Qual a importância do trabalho do professor Alfred Stepan para o estudo da ditadura militar no Brasil?
João Roberto Martins Filho – Alfred Stepan começou sua longa carreira de pesquisador de política comparada estudando o Brasil e o Peru. Seu livro “The Military in Politics: changing Patterns in Brazil” (Os militares na política: mudança de padrão no Brasil, de 1971), além das coletâneas “Authoritarian Brazil: Origins, Policies, and Future” (Brasil autoritário: origens, políticas e futuro, de 1973) e “Democratizing Brazil : problems of transition and consolidation” (Democratizando o Brasil: problemas de transição e consolidação, de 1989) cobrem todo o período das origens do golpe até a transição para a democracia.

“Os militares na política” é considerada a obra de referência no exterior sobre o tema e mesmo na literatura brasileira tem lugar importante.

Brasilianismo – Como ele conseguiu se tornar uma referência tão relevante nesta área?
João Roberto Martins Filho – Stepan publicou muito cedo [nos anos 1970], antes mesmo que a ditadura mostrasse todas as garras. Ao mesmo tempo, teve acesso a fontes e informações difíceis de conseguir para o pesquisador brasileiro. Ainda demoraria algum tempo antes que os livros pioneiros de Alexandre de Barros, Eurico Lima Figueiredo, José Murilo e Eliezer Rizzo de Oliveira fosse publicados.

Stepan continuou a tradição dos estudos de Samuel Huntington (The Soldier and the State), mas propôs que o profissionalismo militar na América Latina não distanciava os militares da política. No começo dos anos 1970, alguns dos maiores cientistas políticos trabalhavam com a questão das ditaduras militares. Vários presidentes da International Political Science Association o fizeram.

Brasilianismo – Que diferença há entre o olhar estrangeiro de um pesquisador como Stepan e o trabalho acadêmico sobre o mesmo tema produzido na mesma época, ou mesmo mais tarde, no Brasil?
João Roberto Martins Filho – Como disse, o livro dele foi lançado precocemente. Mas o leitor atento percebe como ele se beneficiou da análise de pesquisadores brasileiros, como Cândido Mendes, embora não tenha mencionado a obra de Nelson Werneck Sodré, paradigma da análise dos militares como instrumento de classe. Para nós brasileiros, Sodré era incontornável como referência. À época, começavam apenas a ser defendidas teses de brasileiros nos Estados Unidos sobre o tema numa perspectiva mais organizacional e não marxista.

Embora “The Military in Politics” seja merecidamente visto como obra fundamental, eu particularmente me coloquei numa perspectiva crítica em relação a ela. Para mim, ao escolher a corrente que se formou em torno do presidente Castelo Branco como paradigmática dos militares no pós-64, ele não percebeu seu caráter excepcional, dada a riqueza do panorama político intramilitar, marcado depois da morte de Castelo Branco, em 1967, por conflitos constantes entre castelistas, duros, albuquerquistas e palacianos. Stepan também não deu relevo à influência da doutrina francesa da guerre révolutionnaire sobre os militares brasileiros. Mas isso não diminui a importância de seu livro mais conhecido.

Brasilianismo – De que forma acha que ele contribuiu para o debate no exterior sobre a ditadura brasileira?
João Roberto Martins Filho – Sem a menor dúvida, ele foi um dos grandes divulgadores dos estudos sobre a ditadura no exterior. Com forte laços não apenas em sua universidade de origem, Columbia, mas com Yale, onde foi professor, e Oxford, onde tirou o diploma de PPE (Politics, Philosophy and Economy), onde passou várias temporadas, ele transitava na ciência política de vários continentes.

Brasilianismo – Você chegou a conhecer o professor Stepan? Que impressão tinha dele?
João Roberto Martins Filho – Assisti sua palestra no encontro de 2009 da IPSA, em Santiago do Chile. À época, ele comentou extasiado como os brasileiros estavam autoconfiantes e orgulhoso de seus país, de modo muito diferente da época da ditadura. Depois da palestra eu conversei brevemente com ele e lhe entreguei o paper que apresentaria no congresso. Tive uma impressão pessoal muito boa dele.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Morte de brasilianista especialista em ditadura militar é ‘fim de uma era’
Comentários Comente

Daniel Buarque

O cientista político Alfred Stepan

No momento em que o Brasil vive uma das suas mais sérias crises políticas e institucionais, com surgimento de vozes que flertam com o autoritarismo e a ideia de uma intervenção militar, morreu nesta semana um dos mais profundos conhecedores do processo que levou ao golpe de 1964, à subsequente ditadura militar e a volta à democracia.

O cientista político Alfred Stepan, professor de Columbia e autor de algumas das principais referências da academia internacional a respeito da ditadura no Brasil, morreu no dia 27, aos 81 anos.

Para o professor Anthony Pereira, diretor do Instituto Brasil do King’s College de Londres, a morte de Stepan é como o “fim de uma era”.

“Stepan era uma figura inspiradora, e lembro dele ir a Harvard para um jantar com estudantes de doutorado em que ele perguntou a cada um de nós (cerca de 30 pessoautorias) o que estávamos estudando. Ele parecia relamente interessado na nossa pesquisa, e era um redemoinho de ideias e energia”, disse ao blog Brasilianismo. “Ele foi um dos pesquisadores de política comparada que mais me influenciaram”.

Pereira até hoje usa o livro “Rethinking Military Politics” (Repensando a política militar) como referência em suas aulas na universidade britânica.

“Li seu livro ‘The Military in Politics’ (Os militares na política) muito cuidadosamente na minha tentativa de entender o golpe de 64 no Brasil, no meu primeiro ano de doutorado em Harvard. Também li seu “The State and Society” (O Estado e asociedade), que é realmente interessante porque analisa uma anomalia na América Latina dos anos 1970, um golpe militar de esquerda (no Peru)”, explicou Pereira.

O diretor do Instituto Brasil ressalta que Stepan examinou cinco elementos da democracia, comparando as transições a este sistema no Leste da Europa e na América Latina. Além disso, explicou, o livro “Democratizing Brazil” (Democratizando o Brasil) inspirou o trabalho dos pesquisadores Tim Power e Peter Kingstone, que lançaram três volumes sobre a política brasileira: “Democratic Brazil” (Brasil democrático, lançado em 2000), “Democratic Brazil Revisited” (Revisitando o Brasil democrático, de 2008) e “Democratic Brazil Divided” (Brasil democrático dividido, que acabou de sair).

“O trabalho de Stepan sobre federalismo e a natureza da democracia brasileira foi tema de grandes debates sobre a democracia brasileira desde o ano 2000”, disse.

Enquanto o Brasil enfrenta o ressurgimento de argumentos a favor do retrocesso e uma onda de desinformação a respeito de um dos períodos mais tristes da política nacional, a perda de um importante pesquisador que ajudou a conhecermos nossa própria história serve como alerta de que é preciso conhecer o passado para evitar a repetição dos seus erros.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Desgosto em relação à classe política gera apatia, diz brasilianista
Comentários Comente

Daniel Buarque

Perda da credibilidade da classe política do Brasil gera apatia, diz brasilianista

A classe política brasileira perdeu a credibilidade diante da população, avalia o brasilianista Vinicius Mariano de Carvalho, professor do King’s College London, em entrevista à Radio França Internacional.

Carvalho avaliou as denúncias de corrupção contra o presidente Michel Temer e as chances dele de se manter no poder, com apoio do Congresso, e disse que há muito caminho pela frente até que o país se estabilize.

“É quase irônico falar em legitimidade do presidente que tem, segundo alguns levantamentos, 7% de aprovação popular apenas. Poucas vezes vivemos na história do Brasil um momento de tanta instabilidade, tão sensível e complexo como o atual”, diz, lembrando o impeachment de Fernando Collor como caso em que presidente se envolveu em escândalos de corrupção. Segundo ele, isso “é muito prejudicial para a democracia brasileira”.

Para o brasilianista, há um desgosto generalizado em relação à classe política brasileira, e isso afeta a capacidade de mobilização popular, gerando apatia. “Vamos nos mobilizar em favor do quê? Em favor da saída do Temer? E o que vem logo em seguida?”, disse.

“Estamos num grande processo de desconstrução de uma classe política historicamente corrupta”, disse, lamentando, entretanto, a falta de alternativa a esta classe.

Em entrevista recente ao blog Brasilianismo, Carvalho, que é brasileiro, desenvolveu uma análise sobre o papel dos pesquisadores brasilianistas em todo o mundo. Para ele, ser brasilianista não tem relação com nacionalidade, mas com a capacidade de “pensar com sotaque” e de fugir de colonialismo acadêmico. Leia a entrevista completa.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Ser brasilianista é pensar com sotaque e sem colonialismo, diz pesquisador
Comentários Comente

Daniel Buarque

Página da Associação de Estudos Brasileiros, Brasa

Especialistas em “estudos brasileiros” em universidades de todo o mundo, pesquisadores estrangeiros são citados frequentemente na mídia nacional como “brasilianistas”. Apesar da autoridade intelectual automaticamente ligada ao termo, entretanto, muitos dos próprios estudiosos que se classificam assim não sabem exatamente o que significa a palavra “brasilianista”, e o que é exatamente essa área de pesquisa acadêmica chamada de “estudos brasileiros”.

Um desses brasilianistas em “crise de identidade”, o pesquisador Vinicius Mariano de Carvalho se debruçou sobre este tema em um artigo publicado recentemente na revista acadêmica “Brasiliana”.

“É interessante ver a reação das pessoas, sejam acadêmicas ou não, quando me perguntam o que faço e eu respondo que dou aulas de estudos brasileiros. Uma segunda pergunta quase sempre se segue a esta resposta: ‘mas o que é isso?” E o momento da surpresa vem em seguida, quando digo que eu não sei exatamente o que é, mas que é esta pergunta que me atrai à área”, diz Carvalho na começo do artigo.

Brasileiro e professor do Instituto Brasil do King’s College de Londres, um departamento multidisciplinar voltado a estudos sobre o país, Carvalho é especialista em temas relacionados a segurança pública e violência.

Ele questiona a definição do dicionário Houaiss, que diz que brasilianista é “estrangeiro especializado em assuntos brasileiros”. Seu texto trata da evolução histórica do uso do termo para buscar seus conceitos, e cita um estudo que define a área de pesquisas como”thought with accent”, algo como “pensamento com sotaque”.

O pesquisador brasileiro Vinicius Mariano de Carvalho, do King’s College London

“Não entendo brasilianista como alguém que estuda o Brasil, enquanto objeto, mas que estuda o mundo desde uma perspectiva brasileira”, diz.

Em entrevista ao blog Brasilianismo, Carvalho explicou um pouco melhor sua avaliação do significado de brasilianista. Ele defende ainda que brasileiros podem ser brasilianistas tanto quanto estrangeiros e levanta uma discussão muito enriquecedora, mas evita traçar uma conclusão excessivamente limitadora do significado da palavra.

“Para mim, o brasilianista é aquele que procura incluir vozes críticas e hermenêuticas nascidas desta experiência chamada Brasil e que foram silenciadas por imposições coloniais de pensamento (que estão ainda extremamente fortes e ativas na academia, muitas até mesmo ‘travestidas em pele de cordeiro’)”, diz.

Brasilianismo – Seu artigo chama a área de pesquisas e estudos brasileiros, da qual fazem parte os brasilianistas, de “pensamento com sotaque”, o que quer dizer com isso?

Vinicius Mariano de Carvalho – Tiro esta ideia e expressão da introdução do livro da Teresa Caldeira que cito no artigo. Ela, nesta introdução, menciona a luta que é de exprimir-se em uma língua que não é sua, o inglês, e o quanto isso é relevante na sua maneira de pensar. Comparando com o sotaque que temos quando falamos outras línguas, ela faz a analogia com o pensar com sotaque, quando o fazemos também em outra língua. É como uma apropriação interessante de um modo de pensar, que já não é mais em português, nem tampouco totalmente em inglês.

Acho que nós, brasilianistas, sendo brasileiros expressando em outra língua, ou estrangeiros expressando-se em português, estão neste processo dinâmico, criativo, penoso e fecundador de expressar-se com sotaque, sem estar em busca de um purismo epistemológico, mas capaz de, por causa do sotaque, fazer soar as ideias com modulações inovadoras e provocadoras.

Brasilianismo – A mídia brasileira costuma se referir a brasilianista como qualquer acadêmico estrangeiro que estuda o Brasil. O quanto essa interpretação está errada?

Vinicius Mariano de Carvalho – Bom, a mídia, em qualquer lugar do mundo, gosta de criar categorias (e nós acadêmicos também). Eu, sendo brasileiro, me considero brasilianista porque me ocupo de promover este pensar com sotaque. Não entendo brasilianista como alguém que estuda o Brasil, enquanto objeto, mas que estuda o mundo desde uma perspectiva brasileira. E o pode fazer na literatura, na política, nas artes, na antropologia, na ciência, em qualquer área do saber.

Não vejo o Brasil como meu objeto de estudo, mas como um ambiente sócio-historico-cultural que me provoca questionamentos epistemológicos e ontológicos que, em diálogo com outras tradições críticas, podem provocar um ‘sotaque’ na maneira como olhamos para nossos objetos de estudos.

Dito isso, sei que a mídia e a academia vão começar a me chamar de ‘brasilianista’ (e já está fazendo) como se fosse o meu rótulo. O que acho também um tanto quanto curioso. Somos, em todas as universidades do mundo, mais e mais provocados a ser interdisciplinares, mas continuamos subordinados as nossas disciplinas. Parece-me que ao dizer-me brasilianista, estou na verdade aceitando que para se fazer estudos de área desta maneira, eu preciso começar a questionar esses rótulos. Mas isso é conversa longa demais

Brasilianismo – Você é brasileiro e se define como brasilianista. A existência de brasileiros entre os brasilianistas é algo novo?

Vinicius Mariano de Carvalho – Como rótulo talvez seja. No entanto, me parece que desde o momento em que acadêmicos brasileiros começaram a buscar uma inserção mais crítica em um contexto global, construindo um aparato crítico e hermenêutico em diálogo com outras tradições, mas incorporando percepções ontológicas, cosmológicas e epistemológicas resultantes deste espaço sócio-histórico-cultural chamado Brasil –em outras palavras, ‘pensar com sotaque’, provocar um pensamento com sotaque em um outro– já temos brasilianistas brasileiros.

Brasilianismo – O que diferencia um brasilianista de um pesquisador brasileiro em uma universidade brasileira estudando temas relacionados ao país?

Vinicius Mariano de Carvalho – De novo, se a questão é estudar temas relacionados ao país, estamos novamente colocando o Brasil como objeto. O que me parece curioso, no entanto, é que, muitas vezes, brasileiros, em universidades brasileiras, estudando temas brasileiros, se valem de um aparato crítico puramente eurocêntrico, como se somente pudéssemos fornecer o objeto. Parece-me que continua-se a estabelecer uma hierarquização na qual ideias eurocêntricas são mais afeitas a explicar um fenômeno. A mim, me parece ainda um certo colonialismo intelectual. Como digo no meu artigo, me parece que precisamos de uma versão brasileira do “Orientalismo” do Edward Said.

Para falar a verdade, não estou defendendo uma posição de que se deve ou não identificar-se como brasilianista e quais os critérios para se considerar alguém brasilianista ou não. Só me parece que é preciso abrir os olhos para uma multiplicidade de ontologias e hermenêuticas nascidas na forja disso que chamamos Brasil.

Chamando-se ou não brasilianista, um pesquisador como Eduardo Viveiros de Castro provocou um “pensar com sotaque” no ambiente acadêmico que ocorreu não porque este antropólogo objetificou indígenas, mas porque formulou no ambiente acadêmico uma epistemologia e ontologia de matriz indígenas e com isso provocou um repensar teórico muito profundo.

O debate, a meu ver, é como lidamos com subordinações e colonialismos na academia, no nosso modo de pensar o mundo e não só o Brasil. Para mim, o brasilianista é aquele que procura incluir vozes críticas e hermenêuticas nascidas desta experiência chamada Brasil e que foram silenciadas por imposições coloniais de pensamento (que estão ainda extremamente fortes e ativas na academia, muitas até mesmo “travestidas em pele de cordeiro”)

Neste sentido, muitos daqueles que são chamados de brasilianistas –os tais estrangeiros que estudam o Brasil– não seriam tão brasilianistas assim, se já chegam com a teoria pronta e só falta buscar a empiria no Brasil. Não é a nacionalidade que faz o brasilianista. A nacionalidade não é por si um critério para se definir quem faz estudos brasileiros.

Brasilianismo – Que contribuição a área de pesquisas em “estudos brasileiros” em universidade no exterior pode trazer para o Brasil?

Vinicius Mariano de Carvalho – Talvez promovendo de fato um pensamento crítico a partir do Brasil em universidades fora do Brasil. Talvez até mesmo as universidades brasileiras podem contribuir com isso, com mais pesquisa em estudos brasileiros, epistemologicamente falando.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Anthony Pereira: Instabilidade corroeu imagem do Brasil, mas também clichês
Comentários Comente

Daniel Buarque

Anthony Pereira: Instabilidade corroeu imagem do Brasil, mas também estereótipos

Apesar de afetar negativamente a imagem que o Brasil fortaleceu no resto do mundo na virada do século 20 ao 21, a atual instabilidade política e econômica pode ajudar a mostrar que o Brasil é um país complexo e vai além dos estereótipos mais comuns.

A análise é do cientista político Anthony Pereira, diretor do Instituto Brasil do King’s College London, em entrevista à “Folha de S.Paulo”.

“Por um longo tempo, o Brasil se beneficiou de uma imagem favorável no exterior. De 1995 até por volta de 2012, a estabilidade político-econômica era muito atraente. Mesmo naquela época, porém, muitos associavam o Brasil a coisas divertidas que não eram nada essenciais. Essa imagem foi corroída de alguma forma por anos de instabilidade, mas talvez –talvez– observadores estrangeiros também passaram a perceber que o Brasil é complicado e que está lidando com vários assuntos graves que o resto do mundo também lida. Talvez o estereótipo do Brasil como decorativo e supérfluo esteja desaparecendo aos poucos”, disse.

Esta avaliação segue a linha defendida por Pereira no prefácio que escreveu para a segunda edição do livro “Brazil, um País do Presente” (escrito pelo autor deste blog Brasilianismo). Na avaliação dele, apesar de crises e instabilidades, “o mundo está cada vez mais interessado no Brasil, e o Estado brasileiro está mais presente em assuntos internacionais do que jamais esteve antes”.

Na entrevista à “Folha” o cientista político avalia a atual crise em torno do governo de Michel Temer. Para ele, a saída do presidente e novas eleições diretas seriam a saída mais democrática para o país.

“Uma eleição indireta no Congresso poderia parecer casuística e ilegítima para muitas pessoas. Dada essa alternativa, um eleição direta parece mais robusta, do ponto de vista da qualidade da democracia brasileira.”

Questionado sobre o debate internacional sobre o impeachment de Dilma Rousseff, Pereira criticou o processo, mas disse não vê-lo como um golpe de Estado.

“Com relação ao impeachment, concordei com o que as pessoas viram como ilegítimo, não porque os procedimentos usados eram inconstitucionais, mas porque a justificativa para o impeachment parecia arbitrária, aplicada de forma inconsistente e casuística. Mas também discordei dos que chamaram de ‘golpe’.”

Em entrevista ao “Valor Econômico”, em 2015, Pereira já tentava analisar de forma objetiva a situação política brasileira, fugindo da polarização do debate nacional.

“O debate político no Brasil atualmente é muito passional. Eu tento me colocar de forma mais objetiva. Olhando de fora, conseguimos ver essa questão de forma menos passional de que os analistas que estão no Brasil, avaliando comparativamente e escapando da narrativa das pessoas que estão vivendo a crise, o calor do momento. Falar que este é o governo mais corrupto que já houve, por exemplo, é algo que não tem base comparativa real”, dizia, na época, sobre o governo de Dilma.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Com crise política, imprensa dos EUA tem pico de cobertura sobre o Brasil
Comentários Comente

Daniel Buarque

Com crise política, imprensa dos EUA tem pico de cobertura sobre o Brasil

A crise política no Brasil e as denúncias contra o presidente Michel Temer geraram um pico no número de reportagens sobre o Brasil na imprensa dos Estados Unidos, segundo Tom Reichert, chefe do departamento de publicidade e relações públicas da Universidade da Georgia (EUA).

Em entrevista publicada pela Folha, Reichert disse que minutos antes de Temer declarar que não renunciaria ao cargo, a notícia da crise política no Brasil já era o segundo tema mais falado na mídia dos EUA. Agregadores de publicações americanas indicavam que apenas a pressão política sobre Donald Trump era mais tratado na imprensa do país.

Leia a reportagem da Folha sobre o pico de cobertura sobre o Brasil nos EUA

“Os americanos estão acompanhando o noticiário sobre a política brasileira de perto desde o ano passado”, explicou Reichert. “Agora há um pico no número de reportagens sobre o Brasil, por conta da nova crise”, complementou

O pesquisador veio ao Brasil junto com seu colega Itai Himelboim, diretor do departamento de engajamento de redes sociais e publicidade da mesma universidade, para apresentar o mais amplo estudo sobre a percepção da imprensa americana a respeito do Brasil.

Ao longo de 2016, o levantamento coordenado por eles analisou 143.549 reportagens sobre o Brasil na mídia dos EUA.

Segundo Reichert, apesar de o atual escândalo estar chamando muita atenção, e de o foco na instabilidade política levantar discussões sobre as implicações econômicas dela, há uma sensação de que pode haver finalmente uma solução para a crise.

“Depois do atual pico no noticiário, haverá uma oportunidade para mostrar o Brasil no exterior sob um enquadramento novo. Pode haver a sensação de renovação, de dar um passo adiante no sentido da busca da estabilidade e da resolução da crise”, disse.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Brasil tem os mesmos fatores que criaram fenômeno Trump, diz Brian Winter
Comentários Comente

Daniel Buarque

Revista americana publica especial de 50 páginas sobre como consertar o Brasil

Revista americana publica especial de 50 páginas sobre como consertar o Brasil

Brian Winter está preocupado com a crise política no Brasil. Editor-chefe da revista “Americas Quarterly” e autor de quatro livros sobre a América do Sul, ele diz que vê na atual crise um cenário parecido com o que deu espaço para a ascensão do populismo autoritário de Donald Trump nos Estados Unidos, país onde nasceu e mora atualmente.

Em entrevista concedida ao longo de mais de uma hora em um café no bairro dos Jardins, em São Paulo, durante uma visita ao Brasil em dezembro para lançar a edição especial da revista sobre o país, Winter disse ao Blog Brasilianismo que ainda tem esperança de que a crise seja resultado de um amadurecimento do país, mas que é preciso cuidado com este risco do autoritarismo.

Vice-presidente da Americas Society/Council of the Americas, Winter foi correspondente internacional no Brasil, no México e na Argentina por dez anos e escreveu livros como “Why Soccer Matters” (Por que o futebol importa), escrito com Pelé, “The Accidental President of Brazil” (O presidente acidental do Brasil), escrito com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, “No Lost Causes” (Sem causas perdidas), com o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe e “Long After Midnight” (Muito depois da meia noite). Ele desponta atualmente como uma das principais vozes nos Estados Unidos a analisar e comentar o que acontece no Brasil e na América Latina.

brian_winterNa longa conversa, ele falou sobre política no Brasil, mas foi além da análise sobre a atual crise e o risco de autoritarismo, tratando de corrupção, violência e da consolidação das instituições nacionais. Um dos maiores problemas da política brasileira é que as instituições estão dominadas por uma geração que deveria ter deixado o poder, e não há jovens lideranças na política do país. Questionado sobre sua aposta para a eleição de 2018, disse que vê grandes chances de Ciro Gomes crescer politicamente.

Leia abaixo a entrevista completa

Brasilianismo – Em uma reportagem da “Americas Quarterly” de agosto de 2015 você falava sobre a consolidação da seriedade e estabilidade da política brasileira ao longo de duas décadas, e do risco que a crise política representava. Hoje, depois do agravemento dessa crise, do impeachment e de um início turbulento do governo Temer, como vê essa questão da estabilidade?
Brian Winter – Estou mais preocupado agora do que estava um ano atrás. Ainda acho que é inteiramente possível que tudo isso seja parte de um processo positivo. Podemos estar vendo as dores de um avanço qualitativo na aplicação das leis, o que toda democracia precisa enfrentar. Vejo figuras do Judiciário, como o próprio Sergio Moro, e muitos outros com quem tenho tido contato. Há pessoas extraordinárias.

O desenvolvimento e progresso não acontecem de forma natural. As pessoas têm que fazer isso acontecer. Me preocupo que a destruição dessa atual guerra de poderes seja tão severa que o país fique muito vulnerável quando chegar a eleição de 2018.

O problema maior é ilustrado pelo que acontece nos EUA. Os mesmos fatores que criaram o fenômeno Donald Trump estão presentes no Brasil. Exceto que, no Brasil, as coisas estão bem piores. É fácil ver este processo que vemos agora, de guerra de poderes, levar ao aparecimento de um líder autoritário em 2018.

Brasilianismo – Uma edição especial da revista sobre o país diz que “o destino do Brasil vai depender inteiramente das decisões que estão sendo tomadas agora”. O que acha das decisões que estão sendo tomadas agora?
Winter – É difícil ver decisões corretas sendo tomadas fora do Judiciário atualmente. Há pessoas que apostaram muito dinheiro em Temer e que agora estão perdendo dinheiro. A crença de que só tirar Dilma do poder consertaria tudo de forma mágica se provou errada. Havia uma crença grande de que após o impeachment as coisas voltariam a ser como eram até 2002, e que os 14 anos de PT seriam esquecidos. Ainda acho que há chance de Temer ir bem, mas essa possibilidade está diminuindo.

Brasilianismo – Como colocar isso no contexto da decisão do STF sobre Renan Calheiros, em dezembro, que foi criticada e apontada como “prova do golpe”, do “acordão” com Supremo e tudo, e que fez com que lados opostos se juntassem em crítica ao STF. O que acha disso?
Winter – Esse é o cenário mais negativo que podemos pensar. Eu hesito em dizer isso, mas, se estivéssemos em um período anterior a 1989, os generais não já teriam tomado o poder? Eu sou totalmente a favor da democracia e não acho que eles deveriam fazer isso, mas é importante perceber que este nível de desordem institucional existiu no passado, mas que agora a intervenção militar não é uma opção. Isso que deixa no ar a pergunta ‘quem vai dar um passo à frente para corrigir esta situação?’. Meu medo é que a tentação seja de eleger alguém com instintos autoritários para assumir esta função que no passado teria sido assumida pelos militares.

Brasilianismo – A edição especial da revista fala sobre possíveis nomes para o Brasil em 2018. Bolsonaro provavelmente seria o exemplo do que você acabou de citar. Há quem fale que Moro pode se destacar dessa forma também. O que acha?
Winter – Moro não vai ser candidato. Acredito na possibilidade de outros nomes do Judiciário se destacando dessa forma, e ouvi muita gente falando em Carmem Lucia.

É difícil comentar esse tipo de coisa no Brasil por causa do que está acontecendo nos EUA. Também entramos nessa fase em que as pessoas valorizam a democracia menos do que o faziam antes, pois acreditam que o país está em crise e por isso medidas e líderes autoritários são os caminhos contra a crise. O risco de que esta mesma tendência de autoritarismo chegue ao brasil é muito elevado.

Brasilianismo – Já que você falou de Trump, como acha que a relação entre Brasil e EUA pode mudar em seu governo?
Winter – Não acho que Donald Trump deu mais do que 60 segundos da sua atenção à América do Sul. É difícil saber como a relação vai mudar na prática, mas se Trump começar uma guerra comercial com a China, o que eu duvido que aconteça, isso vai ter consequências para o Brasil. O efeito de trump no Brasil pode ser de aumentar a integração da América Latina em comércio e em diplomacia.

Brasilianismo: A ascensão de Trump pode ser um incentivo ao autoritarismo no Brasil?
Winter – Vemos na história da América Latina que as tendências globais tendem a se refletir na região, então é possível pensar que sim. Mas acredito que a democracia brasileira evoluiu de uma forma que faz com que o país não precise mais de exemplos a seguir, não precise mais aprender com os EUA o que fazer. O Brasil e a América Latina têm seu próprio centro de gravidade, ao contrário do que acontecia 25 anos atrás. Claro que há uma crise agora, mas o processo doloroso e construtivo de implementação de leis e de combate à corrupção pode ser a opção à decadência institucional e guerra de poderes que daria ascensão a um movimento autoritário.

Brasilianismo – O processo de impeachment popularizou a ideia de que “as instituições estão funcionando”, mas a crise entre poderes abriu questionamentos a isso. Matthew Taylor disse que as instituições funcionam, mas que as pessoas dentro dessas instituições estão usando as regras de forma errada. O que acha?
Winter – Quando viajo pela América Latina, vejo políticos jovens, com 30 ou 40 anos de idade, atuando de forma intensa na política local. No brasil não há ninguém assim. No Brasil não há lideranças jovens. É difícil até achar algum político ativo abaixo dos 50 anos. O governo atual é dominado por pessoas na casa do 70 anos, e isso é incrível. A forma como as eleições acontecem no Brasil dá muito poder aos partidos, e isso impede a emergência de novos partidos e novos nomes no país. São barreiras institucionais que impedem essa mudança geracional. Eu trabalhei com FHC e tenho uma relação pessoal com ele, mas o fato de o nome dele ter sido citado como uma possibilidade para uma eleição indireta é prova de total falta de imaginação e sinal do quanto o país precisa de uma mudança geracional. Ele tem 85 anos! Não existe outra solução? O fato de ele ter sido mencionado não faz sentido.

O Brasil tem instituições dominadas por uma geração que deveria ter saído de cena. O país precisa de uma mudança geracional na política. A ausência de uma nova geração na política é a grande diferença do Brasil em relação ao resto do continente. As instituições até funcionam, mas as pessoas que atuam nelas são as mesmas desde as Diretas Já. Desde antes mesmo que as instituições existissem ou funcionassem propriamente.

Brasilianismo – Entre março e abril do ano passado você deu entrevistas falando da crescente possibilidade de impeachment de Dilma Rousseff. Agora, acha que Temer termina seu mandato?
Winter – Acho que Temer vai sobreviver. Ele ainda tem muito apoio dos partidos políticos em Brasília. Estive lá e fiquei surpreso com o clima de resignação. As pessoas não estão mais mobilizadas. Não sinto o mesmo nível de rejeição e raiva que esperava. Faz sentido. As pessoas estão cansadas. A crise está entrando em seu terceiro ano. Isso aconteceu também na crise argentina. Em 2003, as pessoas odiavam Eduardo Duhalde, mas os cidadãos estavam sem energia depois de tantos protestos e mudanças no governo.

Se Temer for diretamente implicado na Lava Jato, tudo pode mudar, mas, por enquanto, acho que ele sobrevive.

Brasilianismo – E quem acha que pode substituir ele após 2018?
Winter – Se tivesse que apostar, diria que Ciro Gomes. Ele tem um pé no perfil anti-establishment, mas, na verdade é alguém que está presente na política há muito tempo. Além disso seu discurso é bem posicionado para se aproveitar da raiva da população se o país não melhorar até a eleição.

Outra opção é aparecer alguém que não está no radar até agora.

Brasilianismo – Na cobertura que a revista faz do país, qual a maior dificuldade de traduzir o Brasil para leitores no resto do mundo?
Winter – É muito difícil traduzir o país. O Brasil é um país desorientador, mas apesar de ser difícil de explicar, tem características que os americanos conseguem reconhecer, como o tamanho do território, o perfil autocentrado. Há interesse no Brasil. Vemos isso com a revista e com o site. Houve um aumento do interesse no ano passado por causa do impeachment, mas há o reconhecimento geral de que as coisas foram muito bem por um período, e estão indo muito mal agora. As pessoas estão de olho.

Brasilianismo – Como lida com a ideia de que brasileiros estão lendo e fazendo cobranças a respeito do que você escreve em inglês?
Winter – Esta semana, uma das pessoas que trabalha com redes sociais na revista me disse que nunca tinha visto ninguém ser acusado de ser tantas coisas diferentes ao mesmo tempo. Eles me chamam anti-pt, anti-tucano, de esquerda, de direita, autoritário, liberal. Espero que seja um sinal de que estou mantendo os olhos abertos e estou respeitando o país. Vivi muitos anos aqui e mantive relacionamento com as pessoas, e trabalho muito duro para acompanhar o que acontece aqui. Mesmo morando em Nova York eu ouço CBN no metrô. Eu tento ser fiel ao que acredito e tento não se partidário. Não sou a favor de nenhum partido. Acredito na democracia, na economia inclusiva, nos direitos iguais para todas as pessoas (o que me faz achar Bolsonaro detestável). Acho que o PT fez coisas boas e sei que o PSDB fez coisas ruins. às vezes eu erro, mas tento fazer o melhor possível.

Brasilianismo – Você veio ao Brasil em 2010, quando o interesse no Brasil estava em alta. Agora o país está em crise. Mudou algo no interesse internacional sobre o país?
Winter – Mudou, mas o mais importante é o que aconteceu antes disso. Em 2004, eu morava na Argentina. Recebi uma ligação de uma editora de Nova York perguntando se eu já tinha ouvido falar de Fernando Henrique Cardoso. Eles queriam um jornalista para ajudar ele a escrever um livro para o público internacional, e perguntaram se eu tinha interesse. Eu disse que sim, mas que não falava português, não conhecia bem o Brasil e nunca tinha escrito um livro. Lembrei a ele que eu morava na Argentina, e ele respondeu: “Brasil e Argentina não são basicamente a mesma coisa?”.

Este tipo de conversa não aconteceria em 2016. Nos últimos 12 anos, houve um aumento da visibilidade do Brasil e da conexão do país com os EUA. Agora é facil achar alguém nos eua que fale português e conhece minimamente o Brasil para escrever um livro assim. Isso mudou. O reconhecimento da importância do Brasil se acelerou na virada da década, e vai continuar presente, com mais pessoas familiarizadas com o Brasil.

Brasilianismo – O consultor britânico Simon Anholt dizia que a crise não mudaria a imagem do Brasil em outros países, pois o resto do mundo já via o país como sendo um país pobre. Mesmo assim o Brasil teve sua maior queda no NBI deste ano. Como acha que a crise está afetando a imagem internacional do brasil?
Winter – Agosto de 2016, de forma geral, foi ruim para a imagem do Brasil, por conta do impeachment e da Olimpíada. Acho que a Olimpíada foi boa para o país, mas as complicações que tiveram destaque na mídia podem ser ruins para a imagem. O momento atual é difícil, mas não vai durar para sempre. Se o país conseguir se recuperar nos próximos anos, sua posição em rankings assim vai melhorar. É coisa passageira.

Brasilianismo – Você escreveu sobre sua relação com o risco de violência no Brasil. Quanto a violência está conectada à imagem do Brasil nos Estados Unidos?
Winter – Muito. O Brasil é um paí muito violento, e tem coisas que parecem normais aqui que não são normais, como carros blindados, muros de 3 metros de altura com cerca eletrificada, a facilidade com que as pessoas são mortas e a falta de julgamento. Sucessivos governos desde o fim da ditadura fracassaram na tentativa em nível federal de controlar a violência. Isso acaba tendo reflexos políticos, pois a insatisfação das pessoas é com a situação de insegurança generalizada em que elas vivem. Não é uma questão fácil de lidar, mas é parte da identidade do que significa ser brasileiro e do que se pensa sobre o país no mundo.

O diretor de uma empresa de tecnologia que atua no mundo todo esteve no Brasil e visitou a Rocinha. Perguntado sobre o que achou, ele se disse surpreso com o fato de a Rocinha não ser tão pobre em um contexto global. Segundo ele, o que é sufocante é o risco de violência que se sente só de visitar o lugar. Esta é a verdadeira fonte de miséria das pessoas que vivem ali.

Brasilianismo – As pessoas têm falado sobre a corrupção no cotidiano dos brasileiros. Acha que isso é algo em que o país se diferencia do resto do mundo?
Winter – Acho que a corrupção é o estado normal dos homens, e que é preciso construir instituições e leis para retirar a corrupção da sociedade. Não acho que os brasileiros sejam naturalmente mais corruptos do que alemães ou americanos, mas que as instituições que lidam com isso ainda não foram totalmente estabelecidas aqui, como foram em outros países. Espero que isso seja que esteja acontecendo agora.

É importante perceber que há menos corrupção cotidiana no Brasil do que em outros países da América Latina. Você não vê o hábito de dar a policiais na rua 5 pesos para comprar um refrigerante como há no México, por exemplo. O que há é um sistema de corrupção que define a interação entre o setor privado e o setor público, que se tornou incompatível com a melhora das instituições jurídicas independentes. E agora chegamos ao momento de crise. A esperança é que este sistema seja reconstruído, criando uma nova forma de interação entre os setores público e privado.

Brasilianismo – Em 2010 falava-se que o Brasil se tornava um exemplo global de luta contra a pobreza e a desigualdade. isso se perdeu com a crise. Acha que o Brasil ainda é exemplo positivo de algo para o resto do mundo?
Winter – Sim, é um exemplo de tolerância. Em um contexto global, a sociedade brasileira é muito tolerante. O país recebeu muitos migrantes de forma aberta, com poucos incidentes problemáticos. Quando se vê a pluralidade da sociedade e a forma como pessoas de todas as minorias são aceitas e toleradas, percebe-se que o Brasil dá uma lição nesse sentido, apesar de haver incidentes barulhentos, e crimes de ódio contra gays. A sociedade como um todo tem uma capacidade surpreendente de assimilar. Eu senti isso quando vivi aqui. Me senti mais bem-vindo aqui do que em qualquer outro país.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Robert Rotberg: Ação de Sergio Moro tem o potencial de transformar o Brasil
Comentários Comente

Daniel Buarque

Robert Rotberg: Ação de Sergio Moro tem o potencial de transformar o Brasil

Robert Rotberg: Ação de Sergio Moro tem o potencial de transformar o Brasil

O trabalho do juiz federal Sergio Moro no combate à corrupção no Brasil tem o potencial de transformar o país, segundo análise do cientista político Robert I. Rotberg, ex-professor do MIT, presidente emérito da World Peace Foundation e fundador do Programa de Conflitos Intraestatais, Prevenção e Resolução de Conflitos de Harvard.

Em um artigo publicado na prestigiosa revista de relações internacionais “Foreign Affairs”, Rotberg analisou os possíveis impactos da Operação Lava Jato, e indicou que a luta contra a corrupção tem dado passos importantes no país.

“Pesquisas recentes realizadas por mim e por pesquisadores da Alemanha, Suécia e Reino Unido confirmam que liderança comprometida faz a maior diferença na redução da corrupção, especialmente quando ela está profundamente enraizada. Isso é boa notícia para o Brasil, onde Sergio Moro está liderando o processo contra a histórica corrupção endêmica”, diz o artigo.

Robert Rotberg: Ação de Sergio Moro tem o potencial de transformar o Brasil

Robert Rotberg: Ação de Sergio Moro tem o potencial de transformar o Brasil

Rotberg é especialista em temas ligados a corrupção, falência de estados, governança e liderança política em nações falidas. Ele chegou a atuar como consultor do Departamento de Estado dos EUA em temas ligados à política na África.

Segundo ele, mesmo sem ser um político, as ações de Moro criaram um modelo de um tipo único de liderança que está tendo profundo impacto na forma como o Brasil lida com a corrupção.

“Por mais de dois anos, Moro, que está baseado no Estado sulista do Paraná, ouviu um caso após o outro relacionado ao roubo sistemático dos cofres nacionais. Neste período, ele prendeu mais de 40 políticos e executivos de empresas. As punições definidas por Moro estão perto de acabar com a tradição de impunidade entre a classe política do Brasil e deram esperança de reforma aos brasileiros comuns”, diz.

O artigo menciona que críticos acusam o juiz de liderar uma cruzada, mas diz que mesmo assim ele tem tido amplo apoio popular no país, o que tem evitado ações políticas para limitar o alcance da Lava Jato.

Segundo Rotberg, a grande questão é saber se a ação de Moro, mesmo que prenda mais 50 políticos, terá capacidade de fazer com que o Brasil se torne menos corrupto.

“Vai levar uma década até que se saiba isso. Por enquanto, as coisas parecem ser positivas pois a impunidade política foi eliminada e porque as ações exemplares de Moro permitem que brasileiros pela primeira vez possam demonstrar sua intolerância em relação à corrupção pública e empresarial. Foi isso o que aconteceu nos países nórdicos, na Nova Zelândia e no Canadá ao longo de muitas décadas nos séculos 19 e 20. Em cada caso, a transformação foi levada adiante por uma figura ou por figuras como Moro. O juiz com cara de nerd parece que vai realmente transformar o Brasil.”

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Riordan Roett: Eleição de Trump nos EUA pode ser positiva para o Brasil
Comentários Comente

Daniel Buarque

Riordan Roett: Eleição de Trump nos EUA pode ser positiva para o Brasil

Riordan Roett: Eleição de Trump nos EUA pode ser positiva para o Brasil

O Brasil pode se beneficiar da eleição de Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos, segundo a avaliação do brasilianista Riordan Roett.

Em entrevista à “Folha de S.Paulo”, o pesquisador avaliou que o fato de Trump não dar prioridade a questões relacionadas à América Latina, incluindo o Brasil, pode dar espaço para que o país se dedique a resolver seus problemas internos antes de ter que repensar a relação com a maior potência do planeta sob nova direção.

“O governo Temer tem questões internas para resolver antes da eleição de 2018. É melhor dedicar esse tempo para lidar com o ajuste fiscal e a reforma previdenciária, são políticas muito grandes e não acho que Serra queira entrar em qualquer tipo de conflito com os EUA. Sobre a crise na Venezuela, por exemplo, acho que haverá uma convergência de posições entre EUA, Brasil e Argentina”, disse Roett na entrevista.

Roett é diretor do Programa de Estudos da América Latina da universidade Johns Hopkins, em Washington, DC. Ele é autor de livros como “The New Brazil” (O novo Brasil), ”Brazil under Cardoso” (Brasil sob Cardoso) e ”Brazil – Politics In A Patrimonial Society” (Brasil – política em uma sociedade patrimonial), e recebeu a ordem de Rio Branco do governo brasileiro. Ele tem ganhado espaço na mídia internacional após comparar as propostas do presidente eleito dos EUA para a economia ao que foi feito pela ex-presidente Dilma Rousseff no Brasil.

“Os mais ricos ficarão bem sob o governo Trump e isso ocorreu com a Dilma. A ideia de grandes projetos de infraestrutura, que era muito presente sob Dilma, embora ela não tenha feito muito, também é um tema de Trump, que fala em criar empregos e reformar estradas e aeroportos. A questão é sempre o financiamento, que foi um grande problema para Dilma, porque ela gastou mais do que tinha. O grande temor é que isso é exatamente o que Trump fará, gastar mais do que arrecada com impostos, colocando pressão no balanço da conta corrente e possivelmente levando à alta da inflação. Dilma defendia um governo grande, e enquanto os republicanos falam em encolher o papel do governo, na verdade Trump também parece caminhar para o oposto, dizendo que o governo vai resolver problemas de infraestrutura, substituir o Obamacare, etc.”, explicou.

Apesar da comparação em tom negativo, Roett defende que não se deve dar espaço ao pessimismo na avaliação da situação brasileira. Em entrevista a este blog Brasilianismo em maio no ano passado, Roett avaliava que país já demonstrou historicamente que é um paciente resistente, que aguenta forte as aflições da sua política e economia. Se tudo parece muito ruim, ele se diz ainda otimista com o Brasil e a solidez das suas instituições. “O momento atual é de descer ladeira abaixo, mas eu conheço o Brasil há muitas décadas, e o país sempre se levanta depois de crises assim. O Brasil sempre sobrevive.”

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil


Evento celebra brasilianista que profissionalizou ensino econômico no país
Comentários Comente

Daniel Buarque

Evento celebra brasilianista que profissionalizou ensino econômico no país

Evento celebra brasilianista que profissionalizou ensino econômico no país

O brasilianista Werner Baer, morto em março, transformou o ensino e a pesquisa de economia no Brasil.

Por meio de trabalhos realizados no país a partir dos anos 1960, ele ajudou a moldar a estrutura do ensino e pesquisa econômicos nacionalmente, estabelecendo as bases para o que existe até hoje. Ao longo de cinco décadas, orientou e formou dezenas de profissionais, deixando como legado uma genealogia que aponta a existência de mais de 1.700 herdeiros acadêmicos do seu trabalho.

A atuação analítica de Baer já havia sido mencionada neste blog Brasilianismo após sua morte. Em entrevistas realizadas ao longo da última década, ele se mostrava sempre equilibrado e distante dos radicalismos que cercam a análise das oscilações das finanças do país.

Em um seminário dedicado a celebrar sua importância para a economia brasileira e a partir dos seus estudos para pensar saídas para a atual crise brasileira, alguns dos nomes mais importantes da pesquisa econômica do país destacaram a importância de Baer, que abriu horizontes do estudo acadêmico do Brasil e deixou um legado marcante nas universidades nacionais.

Realizado na quinta-feira (29/09) em um auditório do Senado, em Brasília, o Seminário de Economia Brasileira em Homenagem ao professor Werner Baer ganhou o título “E agora, Wener?”, numa busca por respostas para resolver problemas atuais da economia a partir do seu trabalho. Além de um panorama crítico da situação atual, com indicações de possíveis caminhos para uma retomada da economia, os palestrantes ressaltaram a importância histórica de Baer para o país.

Arquiteto da formação

“Ele criou a profissão de economistas profissionais no Brasil”, segundo Claudio de Moura Castro. Baer foi o arquiteto da máquina administrativa de formação de economistas, disse.

Sua atuação como pesquisador estrangeiro no país abriu horizontes e revolucionou o pensamento econômico brasileiro ao mudar a abordagem dos estudos dessa área e passar a cobrar pesquisas baseadas em números, o mundo real, além da teoria.

O professor Werner Baer (Ryan Fang/Universidade de Illinois)

O professor Werner Baer (Ryan Fang/Universidade de Illinois)

“Até os anos 1960, a formação dos economistas era baseada em economia política. Estávamos em Aristóteles, com boas ideias e teorias. Ali, passamos ao empirismo”, explicou Castro.

Decano entre os participantes do evento, Paulo Haddad explicou que até a chegada de Baer no Brasil, apenas um terço do que os estudantes de economia estudavam no país era realmente economia. “Todo o resto era dominado por outros temas, como direito e contabilidade.”

Segundo ele, a profissão de economista no Brasil é fruto de um projeto, e o professor Baer foi importante nisso, ajudando a implementar a Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia (Anpec). “Ele construiu um projeto de modernização do ensino e pesquisa de economia no Brasil”, disse Haddad.

Além do projeto local, Baer ajudou a desenvolver a estratégia de formar brasileiros no exterior para que desenvolvessem a área no Brasil.

Assim como demonstrou em sua avaliação mais recente sobre a economia brasileira, Baer também atuou para impulsionar a democracia de pensamento econômico do país, formando linhas variadas de pesquisas econômicas, segundo Haddad. Isso permitiu que as universidades nacionais atuassem em várias frentes e com diferentes doutrinas de pensamento econômico.

Seu trabalho para profissionalizar o estudo de economia no país acabou tendo um efeito nacionalizador, o que fez com que os brasilianistas passassem a ter um papel secundário, explicou Castro. Com o aumento no número de pesquisas “made in Brazil”, se tornaram menos importantes os estudos como o que ele mesmo fazia, com base internacional.

“Até ele, os estrangeiros lideravam estudos sobre o Brasil, mas ele puxou o tapete de gente como ele mesmo”, disse Castro.

baer2

Com várias passagens pelo Brasil, Baer foi professor de economia da Universidade de Illinois e autor de uma das principais obras internacionais sobre a economia brasileira: ”The Brazilian Economy”, cobrindo todo o desenvolvimento econômico do país desde períodos coloniais até o século XXI. Formado no Queens College e com mestrado e doutorado em Harvard, ele viveu no Rio de Janeiro e em Portugal, e recebeu título de doutor honoris causa de universidades como a Federal de Pernambuco e a do Ceará. Depois de ter começado sua carreira acadêmica pesquisando a Alemanha e Porto Rico, Baer se voltou para o Brasil no início dos anos 1960, discutindo relações entre inflação e crescimento econômico. Ele estudou ainda questões de nacionalismo brasileiro, desigualdades regionais e especialmente a industrialização do país.

Durante cinco décadas ajudando a desenvolver o estudo de economia no Brasil, Baer teve 107 alunos brasileiros nos Estados Unidos e orientou a formação de 86 doutores em economia.

Após sua morte, Baer tem 1.788 sucessores no Brasil atual, segundo uma análise de pesquisas realizadas entre 1990 e 2010, que mostra que ele deixou legado de “filhos”, “netos”, “bisnetos” e até “trinetos” acadêmicos.

O levantamento realizado por Eduardo Amaral Haddad, que também estudou com o brasilianista, traça a genealogia acadêmica de Baer, que deixou estas gerações de economistas brasileiros, sendo 107 “filhos acadêmicos”, 917 “netos”, 693 “bisnetos” e 71 “trinetos”.

E agora?

Após a celebração da importância histórica e do legado do brasilianista, o seminário se voltou especialmente a tentar traçar caminhos a partir da obra de Baer para que o Brasil possa sair da atual crise econômica.

Segundo a ex-ministra Dorothea Werneck, o idealismo de Baer fez a atuação de economistas no país avançar muito desde os anos 1970, mas continua havendo uma batalha nos dias de hoje porque as visões acadêmica e tecnocrata da economia continuam muito separadas.

“É preciso aproximar os dois para que a academia contribua para políticas públicas”, disse, ressaltando que no setor público, a velocidade dos projetos é muito maior, mas que a academia precisa formar gestores públicos.

Werneck criticou a crescente partidarização do serviço público no país, defendeu uma busca por maior eficiência do estado e propôs que a saída da atual crise depende de um tripé baseado em equilíbrio fiscal (receitas e gastos), volta ao federalismo e um trabalho para liberalizar regulamentações e burocracias.

Apesar da forte recessão no país, José Márcio Camargo defendeu que o governo de Michel Temer tem uma linguagem mais próxima da realidade dos economistas do que o da ex-presidente Dilma Rousseff, o que dá um pouco mais de previsibilidade.

Ainda assim, Camargo criticou problemas estruturais que tornam o Brasil “um inferno fiscal, trabalhista e de produtividade”, o que afasta investidores

Para Edmar Bacha, a única alternativa possível para a crise é integrar a economia brasileira ao mundo. “O Brasil é um dos países mais fechados do mundo”, criticou, indicando que o país tem a 7ª maior economia, mas apenas o 25º maior exportador.

Ele admite que o argumento pela integração é complexo, e “há oposição de interesses locais, pois os benefícios são de longo prazo, mas os custos são imediatos. Não o fazer, entretanto, é uma leitura simplista da história do país.”

Mesmo sem uma receita óbvia para que o país se recupere da crise atual, o evento serviu para mostrar a importância de Baer na formação dos que pensam sobre a situação econômica do Brasil. Em um seminário marcados por momentos de forte emoção e nostalgia por parte dos participantes, o brasilianista e seu legado foram celebrados como uma base do pensamento econômico nacional.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil