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Brasil tem os mesmos fatores que criaram fenômeno Trump, diz Brian Winter
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Daniel Buarque

Revista americana publica especial de 50 páginas sobre como consertar o Brasil

Revista americana publica especial de 50 páginas sobre como consertar o Brasil

Brian Winter está preocupado com a crise política no Brasil. Editor-chefe da revista “Americas Quarterly” e autor de quatro livros sobre a América do Sul, ele diz que vê na atual crise um cenário parecido com o que deu espaço para a ascensão do populismo autoritário de Donald Trump nos Estados Unidos, país onde nasceu e mora atualmente.

Em entrevista concedida ao longo de mais de uma hora em um café no bairro dos Jardins, em São Paulo, durante uma visita ao Brasil em dezembro para lançar a edição especial da revista sobre o país, Winter disse ao Blog Brasilianismo que ainda tem esperança de que a crise seja resultado de um amadurecimento do país, mas que é preciso cuidado com este risco do autoritarismo.

Vice-presidente da Americas Society/Council of the Americas, Winter foi correspondente internacional no Brasil, no México e na Argentina por dez anos e escreveu livros como “Why Soccer Matters” (Por que o futebol importa), escrito com Pelé, “The Accidental President of Brazil” (O presidente acidental do Brasil), escrito com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, “No Lost Causes” (Sem causas perdidas), com o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe e “Long After Midnight” (Muito depois da meia noite). Ele desponta atualmente como uma das principais vozes nos Estados Unidos a analisar e comentar o que acontece no Brasil e na América Latina.

brian_winterNa longa conversa, ele falou sobre política no Brasil, mas foi além da análise sobre a atual crise e o risco de autoritarismo, tratando de corrupção, violência e da consolidação das instituições nacionais. Um dos maiores problemas da política brasileira é que as instituições estão dominadas por uma geração que deveria ter deixado o poder, e não há jovens lideranças na política do país. Questionado sobre sua aposta para a eleição de 2018, disse que vê grandes chances de Ciro Gomes crescer politicamente.

Leia abaixo a entrevista completa

Brasilianismo – Em uma reportagem da “Americas Quarterly” de agosto de 2015 você falava sobre a consolidação da seriedade e estabilidade da política brasileira ao longo de duas décadas, e do risco que a crise política representava. Hoje, depois do agravemento dessa crise, do impeachment e de um início turbulento do governo Temer, como vê essa questão da estabilidade?
Brian Winter – Estou mais preocupado agora do que estava um ano atrás. Ainda acho que é inteiramente possível que tudo isso seja parte de um processo positivo. Podemos estar vendo as dores de um avanço qualitativo na aplicação das leis, o que toda democracia precisa enfrentar. Vejo figuras do Judiciário, como o próprio Sergio Moro, e muitos outros com quem tenho tido contato. Há pessoas extraordinárias.

O desenvolvimento e progresso não acontecem de forma natural. As pessoas têm que fazer isso acontecer. Me preocupo que a destruição dessa atual guerra de poderes seja tão severa que o país fique muito vulnerável quando chegar a eleição de 2018.

O problema maior é ilustrado pelo que acontece nos EUA. Os mesmos fatores que criaram o fenômeno Donald Trump estão presentes no Brasil. Exceto que, no Brasil, as coisas estão bem piores. É fácil ver este processo que vemos agora, de guerra de poderes, levar ao aparecimento de um líder autoritário em 2018.

Brasilianismo – Uma edição especial da revista sobre o país diz que “o destino do Brasil vai depender inteiramente das decisões que estão sendo tomadas agora”. O que acha das decisões que estão sendo tomadas agora?
Winter – É difícil ver decisões corretas sendo tomadas fora do Judiciário atualmente. Há pessoas que apostaram muito dinheiro em Temer e que agora estão perdendo dinheiro. A crença de que só tirar Dilma do poder consertaria tudo de forma mágica se provou errada. Havia uma crença grande de que após o impeachment as coisas voltariam a ser como eram até 2002, e que os 14 anos de PT seriam esquecidos. Ainda acho que há chance de Temer ir bem, mas essa possibilidade está diminuindo.

Brasilianismo – Como colocar isso no contexto da decisão do STF sobre Renan Calheiros, em dezembro, que foi criticada e apontada como “prova do golpe”, do “acordão” com Supremo e tudo, e que fez com que lados opostos se juntassem em crítica ao STF. O que acha disso?
Winter – Esse é o cenário mais negativo que podemos pensar. Eu hesito em dizer isso, mas, se estivéssemos em um período anterior a 1989, os generais não já teriam tomado o poder? Eu sou totalmente a favor da democracia e não acho que eles deveriam fazer isso, mas é importante perceber que este nível de desordem institucional existiu no passado, mas que agora a intervenção militar não é uma opção. Isso que deixa no ar a pergunta ‘quem vai dar um passo à frente para corrigir esta situação?’. Meu medo é que a tentação seja de eleger alguém com instintos autoritários para assumir esta função que no passado teria sido assumida pelos militares.

Brasilianismo – A edição especial da revista fala sobre possíveis nomes para o Brasil em 2018. Bolsonaro provavelmente seria o exemplo do que você acabou de citar. Há quem fale que Moro pode se destacar dessa forma também. O que acha?
Winter – Moro não vai ser candidato. Acredito na possibilidade de outros nomes do Judiciário se destacando dessa forma, e ouvi muita gente falando em Carmem Lucia.

É difícil comentar esse tipo de coisa no Brasil por causa do que está acontecendo nos EUA. Também entramos nessa fase em que as pessoas valorizam a democracia menos do que o faziam antes, pois acreditam que o país está em crise e por isso medidas e líderes autoritários são os caminhos contra a crise. O risco de que esta mesma tendência de autoritarismo chegue ao brasil é muito elevado.

Brasilianismo – Já que você falou de Trump, como acha que a relação entre Brasil e EUA pode mudar em seu governo?
Winter – Não acho que Donald Trump deu mais do que 60 segundos da sua atenção à América do Sul. É difícil saber como a relação vai mudar na prática, mas se Trump começar uma guerra comercial com a China, o que eu duvido que aconteça, isso vai ter consequências para o Brasil. O efeito de trump no Brasil pode ser de aumentar a integração da América Latina em comércio e em diplomacia.

Brasilianismo: A ascensão de Trump pode ser um incentivo ao autoritarismo no Brasil?
Winter – Vemos na história da América Latina que as tendências globais tendem a se refletir na região, então é possível pensar que sim. Mas acredito que a democracia brasileira evoluiu de uma forma que faz com que o país não precise mais de exemplos a seguir, não precise mais aprender com os EUA o que fazer. O Brasil e a América Latina têm seu próprio centro de gravidade, ao contrário do que acontecia 25 anos atrás. Claro que há uma crise agora, mas o processo doloroso e construtivo de implementação de leis e de combate à corrupção pode ser a opção à decadência institucional e guerra de poderes que daria ascensão a um movimento autoritário.

Brasilianismo – O processo de impeachment popularizou a ideia de que “as instituições estão funcionando”, mas a crise entre poderes abriu questionamentos a isso. Matthew Taylor disse que as instituições funcionam, mas que as pessoas dentro dessas instituições estão usando as regras de forma errada. O que acha?
Winter – Quando viajo pela América Latina, vejo políticos jovens, com 30 ou 40 anos de idade, atuando de forma intensa na política local. No brasil não há ninguém assim. No Brasil não há lideranças jovens. É difícil até achar algum político ativo abaixo dos 50 anos. O governo atual é dominado por pessoas na casa do 70 anos, e isso é incrível. A forma como as eleições acontecem no Brasil dá muito poder aos partidos, e isso impede a emergência de novos partidos e novos nomes no país. São barreiras institucionais que impedem essa mudança geracional. Eu trabalhei com FHC e tenho uma relação pessoal com ele, mas o fato de o nome dele ter sido citado como uma possibilidade para uma eleição indireta é prova de total falta de imaginação e sinal do quanto o país precisa de uma mudança geracional. Ele tem 85 anos! Não existe outra solução? O fato de ele ter sido mencionado não faz sentido.

O Brasil tem instituições dominadas por uma geração que deveria ter saído de cena. O país precisa de uma mudança geracional na política. A ausência de uma nova geração na política é a grande diferença do Brasil em relação ao resto do continente. As instituições até funcionam, mas as pessoas que atuam nelas são as mesmas desde as Diretas Já. Desde antes mesmo que as instituições existissem ou funcionassem propriamente.

Brasilianismo – Entre março e abril do ano passado você deu entrevistas falando da crescente possibilidade de impeachment de Dilma Rousseff. Agora, acha que Temer termina seu mandato?
Winter – Acho que Temer vai sobreviver. Ele ainda tem muito apoio dos partidos políticos em Brasília. Estive lá e fiquei surpreso com o clima de resignação. As pessoas não estão mais mobilizadas. Não sinto o mesmo nível de rejeição e raiva que esperava. Faz sentido. As pessoas estão cansadas. A crise está entrando em seu terceiro ano. Isso aconteceu também na crise argentina. Em 2003, as pessoas odiavam Eduardo Duhalde, mas os cidadãos estavam sem energia depois de tantos protestos e mudanças no governo.

Se Temer for diretamente implicado na Lava Jato, tudo pode mudar, mas, por enquanto, acho que ele sobrevive.

Brasilianismo – E quem acha que pode substituir ele após 2018?
Winter – Se tivesse que apostar, diria que Ciro Gomes. Ele tem um pé no perfil anti-establishment, mas, na verdade é alguém que está presente na política há muito tempo. Além disso seu discurso é bem posicionado para se aproveitar da raiva da população se o país não melhorar até a eleição.

Outra opção é aparecer alguém que não está no radar até agora.

Brasilianismo – Na cobertura que a revista faz do país, qual a maior dificuldade de traduzir o Brasil para leitores no resto do mundo?
Winter – É muito difícil traduzir o país. O Brasil é um país desorientador, mas apesar de ser difícil de explicar, tem características que os americanos conseguem reconhecer, como o tamanho do território, o perfil autocentrado. Há interesse no Brasil. Vemos isso com a revista e com o site. Houve um aumento do interesse no ano passado por causa do impeachment, mas há o reconhecimento geral de que as coisas foram muito bem por um período, e estão indo muito mal agora. As pessoas estão de olho.

Brasilianismo – Como lida com a ideia de que brasileiros estão lendo e fazendo cobranças a respeito do que você escreve em inglês?
Winter – Esta semana, uma das pessoas que trabalha com redes sociais na revista me disse que nunca tinha visto ninguém ser acusado de ser tantas coisas diferentes ao mesmo tempo. Eles me chamam anti-pt, anti-tucano, de esquerda, de direita, autoritário, liberal. Espero que seja um sinal de que estou mantendo os olhos abertos e estou respeitando o país. Vivi muitos anos aqui e mantive relacionamento com as pessoas, e trabalho muito duro para acompanhar o que acontece aqui. Mesmo morando em Nova York eu ouço CBN no metrô. Eu tento ser fiel ao que acredito e tento não se partidário. Não sou a favor de nenhum partido. Acredito na democracia, na economia inclusiva, nos direitos iguais para todas as pessoas (o que me faz achar Bolsonaro detestável). Acho que o PT fez coisas boas e sei que o PSDB fez coisas ruins. às vezes eu erro, mas tento fazer o melhor possível.

Brasilianismo – Você veio ao Brasil em 2010, quando o interesse no Brasil estava em alta. Agora o país está em crise. Mudou algo no interesse internacional sobre o país?
Winter – Mudou, mas o mais importante é o que aconteceu antes disso. Em 2004, eu morava na Argentina. Recebi uma ligação de uma editora de Nova York perguntando se eu já tinha ouvido falar de Fernando Henrique Cardoso. Eles queriam um jornalista para ajudar ele a escrever um livro para o público internacional, e perguntaram se eu tinha interesse. Eu disse que sim, mas que não falava português, não conhecia bem o Brasil e nunca tinha escrito um livro. Lembrei a ele que eu morava na Argentina, e ele respondeu: “Brasil e Argentina não são basicamente a mesma coisa?”.

Este tipo de conversa não aconteceria em 2016. Nos últimos 12 anos, houve um aumento da visibilidade do Brasil e da conexão do país com os EUA. Agora é facil achar alguém nos eua que fale português e conhece minimamente o Brasil para escrever um livro assim. Isso mudou. O reconhecimento da importância do Brasil se acelerou na virada da década, e vai continuar presente, com mais pessoas familiarizadas com o Brasil.

Brasilianismo – O consultor britânico Simon Anholt dizia que a crise não mudaria a imagem do Brasil em outros países, pois o resto do mundo já via o país como sendo um país pobre. Mesmo assim o Brasil teve sua maior queda no NBI deste ano. Como acha que a crise está afetando a imagem internacional do brasil?
Winter – Agosto de 2016, de forma geral, foi ruim para a imagem do Brasil, por conta do impeachment e da Olimpíada. Acho que a Olimpíada foi boa para o país, mas as complicações que tiveram destaque na mídia podem ser ruins para a imagem. O momento atual é difícil, mas não vai durar para sempre. Se o país conseguir se recuperar nos próximos anos, sua posição em rankings assim vai melhorar. É coisa passageira.

Brasilianismo – Você escreveu sobre sua relação com o risco de violência no Brasil. Quanto a violência está conectada à imagem do Brasil nos Estados Unidos?
Winter – Muito. O Brasil é um paí muito violento, e tem coisas que parecem normais aqui que não são normais, como carros blindados, muros de 3 metros de altura com cerca eletrificada, a facilidade com que as pessoas são mortas e a falta de julgamento. Sucessivos governos desde o fim da ditadura fracassaram na tentativa em nível federal de controlar a violência. Isso acaba tendo reflexos políticos, pois a insatisfação das pessoas é com a situação de insegurança generalizada em que elas vivem. Não é uma questão fácil de lidar, mas é parte da identidade do que significa ser brasileiro e do que se pensa sobre o país no mundo.

O diretor de uma empresa de tecnologia que atua no mundo todo esteve no Brasil e visitou a Rocinha. Perguntado sobre o que achou, ele se disse surpreso com o fato de a Rocinha não ser tão pobre em um contexto global. Segundo ele, o que é sufocante é o risco de violência que se sente só de visitar o lugar. Esta é a verdadeira fonte de miséria das pessoas que vivem ali.

Brasilianismo – As pessoas têm falado sobre a corrupção no cotidiano dos brasileiros. Acha que isso é algo em que o país se diferencia do resto do mundo?
Winter – Acho que a corrupção é o estado normal dos homens, e que é preciso construir instituições e leis para retirar a corrupção da sociedade. Não acho que os brasileiros sejam naturalmente mais corruptos do que alemães ou americanos, mas que as instituições que lidam com isso ainda não foram totalmente estabelecidas aqui, como foram em outros países. Espero que isso seja que esteja acontecendo agora.

É importante perceber que há menos corrupção cotidiana no Brasil do que em outros países da América Latina. Você não vê o hábito de dar a policiais na rua 5 pesos para comprar um refrigerante como há no México, por exemplo. O que há é um sistema de corrupção que define a interação entre o setor privado e o setor público, que se tornou incompatível com a melhora das instituições jurídicas independentes. E agora chegamos ao momento de crise. A esperança é que este sistema seja reconstruído, criando uma nova forma de interação entre os setores público e privado.

Brasilianismo – Em 2010 falava-se que o Brasil se tornava um exemplo global de luta contra a pobreza e a desigualdade. isso se perdeu com a crise. Acha que o Brasil ainda é exemplo positivo de algo para o resto do mundo?
Winter – Sim, é um exemplo de tolerância. Em um contexto global, a sociedade brasileira é muito tolerante. O país recebeu muitos migrantes de forma aberta, com poucos incidentes problemáticos. Quando se vê a pluralidade da sociedade e a forma como pessoas de todas as minorias são aceitas e toleradas, percebe-se que o Brasil dá uma lição nesse sentido, apesar de haver incidentes barulhentos, e crimes de ódio contra gays. A sociedade como um todo tem uma capacidade surpreendente de assimilar. Eu senti isso quando vivi aqui. Me senti mais bem-vindo aqui do que em qualquer outro país.

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Assessor econômico de Trump já defendeu investimentos dos EUA no Brasil
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Daniel Buarque

o professor Peter Navarro, da Universidade da Califórnia em Irvine

o professor Peter Navarro, da Universidade da Califórnia em Irvine

Um dos prováveis assessores econômicos do governo do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, conhece bem a realidade econômica do Brasil, e tratou da situação do país em suas pesquisas e livros, defendendo que trata-se de uma das melhores economias do mundo –pelo menos até antes da crise.

Em uma entrevista concedida ao autor deste blog Brasilianismo em 2010, o professor Peter Navarro, da Universidade da Califórnia em Irvine, defendeu investimentos internacionais no Brasil e disse que o país permaneceria sendo o país mais importante da América Latina. Ele é apontado como um dos poucos nomes acadêmicos em um gabinete mais voltado a executivos no próximo governo, e sua visão pode ajudar a pautar a relação econômica entre os dois países nos próximos anos.

“A piada é que o Brasil tem um grande futuro e sempre terá. Parece que estamos saindo disso agora, pois o Brasil tem uma das melhores economias do mundo atual. Ele combina o tamanho e a emergência de um mercado forte com a capacidade de produzir commodities. Acho que o Brasil tem muito potencial para aproveitar esse mercado internacional e deve se consolidar como uma das principais economias do mundo”, disse Navarro na entrevista, concedida durante a pesquisa para o livro “Brazil, um país do presente – a imagem internacional do ‘país do futuro’”.

Com doutorado em economia pela universidade de Harvard, Navarro é autor de vários livros voltados para a administração de dinheiro e os investimentos no mercado financeiro. Um dos mais destacados é “If It’s Raining in Brazil, Buy Starbucks: The Investor’s Guide to Profiting From News and Other Market-moving Events” (Se está chovendo no Brasil, compre Starbucks – Guia para investidores para lucrar com notícias e outros eventos de mudanças no mercado). O foco do livro é mostrar que as notícias internacionais podem ajudar a prever os comportamentos do mercado, apontando o relacionamento entre as empresas e os fatos ocorridos em todo o mundo. O exemplo do título é bem claro: chuva no Brasil baixa o preço do café, o que aumenta os lucros da Starbucks, e consequentemente o valor das suas ações.

Interessado na análise da importância do noticiário financeiro como indicação dos movimentos dos mercados internacionais, ele via um aumento do interesse global pelo Brasil em 2010, mas dizia que o país ia precisar definir de quem gostaria de se aproximar mais –dos EUA, ou da China.

“Há um aumento no conhecimento de que o Brasil é o país mais importante da América Latina, do ponto de vista dos negócios. Acho que a atenção da imprensa é importante e acaba ajudando nos negócios entre os dois países. Politicamente, entretanto, vai haver alguma tensão entre o Brasil, os Estados Unidos e a China. E o Brasil, que em algum ponto vai precisar escolher entre os dois, agora parece estar se aproximando mais da China”, disse.

Na entrevista, Navarro contou que em suas palestras sobre mercado financeiro por todo o país sempre defendia o investimento no Brasil. “É importante ter uma diversificação geográfica de investimentos como parte da estratégia, e que é importante incluir investimentos na América Latina, o que sempre digo que significa olhar para o Brasil, pois o Brasil vai se sobrepor aos outros países da região por mais muitas décadas”, explicou.

“Acho que a atenção ao Brasil agora tem a ver com o fato de que há um forte mercado emergente para produtos americanos, e é uma grande fonte de matérias primas e commodities agrícolas. Há questões políticas também, mas o importante é que não podemos ignorar o Brasil, que é o país mais importante da América Latina”, disse.

Segundo ele, entretanto, o aumento do reconhecimento do Brasil na virada da década era limitado pelo fato de que o investidor americano não estava em uma situação muito boa – por conta da crise financeira iniciada em 2008

“O problema é que investidor Americano não está numa situação muito boa, e não está no melhor momento de atuação internacional. Houve um momento de atenção exagerada à China, seguido por uma crise, e acho que o Brasil ainda não recebe tanta atenção quanto seu mercado mereceria. Dito isso, sei que há investidores muito ativos na agricultura brasileira. Precisaríamos analisar setor por setor, mas no geral acho que poderia ter mais atenção ainda voltada ao país.”

Ao lado de declarações dadas pelo presidente eleito no passado, estas são algumas sas primeiras pistas de como o próximo governo dos Estados Unidos vão pensar sobre as relações diplomática e econômica do país com o Brasil.

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Mudança de política econômica afeta cobertura da ‘Economist’ sobre o Brasil
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Daniel Buarque

Mudança de política econômica afeta cobertura da ‘Economist’ sobre o Brasil

Mudança de política econômica afeta cobertura da ‘Economist’ sobre o Brasil

Nenhuma publicação da imprensa internacional aparenta ter influenciado tanto a imagem internacional do Brasil nos últimos anos quanto aquela capa da revista britânica “The Economist” mostrando, em 2009, o Cristo Redentor decolando como um foguete. A montagem se tornou o símbolo da ascensão econômica do Brasil na década passada, e é lembrada sempre que a emergência do país no mundo é discutida.

Apesar de marcante, a ideia de que o Brasil decolava – take off, como a revista dizia em inglês – não é uma novidade nas páginas da “Economist”. Segundo a pesquisa de doutorado da socióloga Camila Maria Risso Sales, defendida neste semestre pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a publicação alterna historicamente sua cobertura sobre o Brasil em momentos entusiasmo e de decepção dependendo do rumo tomado pela política econômica adotada pelo governo brasileiro – e até mesmo o termo “take off” já tinha sido usado antes em referência ao Brasil.

Sales concedeu uma entrevista ao autor do Blog Brasilianismo sobre sua pesquisa e a cobertura que a “Economist” faz sobre o Brasil. Sua avaliação sobre a forma como a revista acompanhou o processo de impeachment de Dilma Rousseff foi publicada na “Folha de S.Paulo” logo após a votação no Senado, que cassou seu mandato.

Na entrevista, ela explicava que a mudança de governo, e as alterações da política econômica sempre afetam a cobertura que a revista faz sobre o Brasil. “A visão da Economist é mais positiva sobre o Brasil se a política econômica do país se aproxima mais do viés liberal”, disse Sales .

Leia abaixo a entrevista completa da pesquisadora

Brasilianismo – Em sua tese de doutorado, você fala sobre a cobertura que a “Economist” fez do golpe militar de 1964 alternou críticas anteriores à tomada do poder e elogios à mudança de rumo econômica sob Castelo Branco. “Nesse cenário, entende-se que a política fica subordinada à economia. A partir do momento em que são tomadas as medidas de austeridade sempre recomendadas pela revista a postura crítica desaparece e os elogios do campo econômico estendem-se para a política, como podemos ver nessa descrição de Castelo Branco”, diz. Logo após a aprovação do impeachment de Dilma Rousseff, neste ano, a revista publicou reportagem elogiando as propostas econômicas de Temer. Pode-se falar em paralelo entre 1964 e 2016 na cobertura que a “Economist” faz do Brasil?

Camila Maria Risso Sales – Podemos dizer que há algumas semelhanças. Principalmente no que diz respeito às expectativas quanto a mudança de rumo da política econômica. Entretanto, o período mais recente não foi coberto pela pesquisa, portanto não foram aplicados os mesmos procedimentos metodológicos aos quais foram submetidos o restante do material. Mas, é possível perceber que existe uma tendência a uma visão mais positiva quanto às políticas que seriam implementadas pelo novo governo.

Em que esses dois momentos históricos se aproximam e o que há de diferente entre eles na cobertura da “Economist”?

A ‘Economist’ alterna momentos entusiasmo e de decepção com o Brasil.

Isso aconteceu em diversos momentos, em governos diferentes. O segundo governo Lula foi, por exemplo, um momento em que o noticiário era muito positivo. A gestão de Dilma Rousseff não foi vista com tanto otimismo, e o pico de negatividade veio no início desse ano. Dessa forma, sucederam-se algumas notícias em que havia expectativa de melhora do cenário.

Entretanto, é preciso notar que o momento de crise política tem sido relatado com alguma crítica, como foi possível ver em reportagem veiculada logo após a votação na Câmara dos Deputados em que a revista ridicularizava as justificativas apresentadas pelos deputados e deputadas.

Sua pesquisa incluiu a análise da cobertura do impeachment de Collor. De que forma acha que aquele momento se relaciona com 1964 e com o momento atual nas páginas da “Economist”?

O impeachment de Fernando Collor de Mello introduziu a temática da corrupção entre as preocupações da publicação inglesa. Uma aproximação entre os dois momentos é que a revista destaca a constitucionalidade do processo. Ou seja, a ‘Economist’ enfatiza que o impeachment é um processo instituído dentro das normas legais que regem o Brasil. Entretanto, não entra em detalhes sobre a forma de condução desse processo, em nenhum dos dois momentos.

Naquele momento, as expectativas de liberalização da economia diminuíam com Itamar, o que não se repete em 2016.

Uma diferença que talvez valha destacar é o tamanho da cobertura, que em 1992 foi muito menor. Apenas alguns artigos e nenhuma capa. Por outro lado, a capa da primeira edição de 2016 foi sobre a crise política no Brasil, publicada mundialmente. Além disso, saíram outras duas capas com circulação apenas na América Latina e algumas dezenas de artigos.

Apesar de criticar o governo Dilma e de ter pedido sua renúncia, a “Economist” criticou o impeachment, mas não tratou o processo como golpe de Estado. Em sua tese você diz que, para a revista, “a democracia não era um valor a ser defendido a qualquer custo. Estabilidade econômica e a abertura dos mercados interessavam mais”. Acha que este é o caso da cobertura atual também?

É muito difícil dizer isso porque são contextos muito distintos. Durante a Guerra Fria e a ditadura militar, realmente a estabilidade econômica e a defesa do capitalismo interessavam mais que a manutenção das democracias na América Latina. Atualmente, há alguma crítica sobre certos atores e a forma que estes conduzem o processo, a ‘Economist’ tem criticado também a nomeação de políticos acusados de corrupção e a ausência de mulheres no primeiro escalão. Mas, atuação da equipe econômica recebe elogios. Contudo, talvez seja possível dizer que a ‘Economist’ dá pouca voz ao outro lado, à defesa de Dilma Rousseff e àqueles que argumentam que o Brasil vive um golpe parlamentar. Estes baseados na fragilidade das acusações. Mas, não é possível dizer que os valores democráticos sejam hoje secundários para a revista.

Em entrevista à “Folha de S. Paulo”, Zanny Minton Beddoes, editora-chefe da “Economist” disse que toda a classe política decepcionou o Brasil. A revista chamou o impeachment de “jeitinho na Constituição” e tem acusado o sistema político brasileiro de ser disfuncional. De que forma você acha que o resultado da sua pesquisa, indicando o viés editorial da revista, se reflete nesta avaliação da política brasileira?

Para a revista importa estabilidade. A revista afirma que Dilma Rousseff não tem nenhuma acusação grave pesando contra ela. E que muitos dos que votaram a favor de que ela fosse retirada do cargo são acusados de corrupção. Entretanto, apoia que ela seja retirada do cargo. Advogaram a renúncia da ex-presidente em nome da eficiência do governo. Contudo, sabemos que o cenário é muito mais complexo que esse.

Mais recentemente a revista tem defendido eleições gerais, mas a pergunta é: quem teria legitimidade para convocá-las? A ex-presidente já disse algumas vezes que esta seria a forma com que ela conduziria a situação, mas a revista ainda achava que ela deve permanecer afastada.

Na sua opinião, por que a cobertura da “Economist” tem tanta repercussão no Brasil?

Essa foi a pergunta que estimulou o início da pesquisa. Por que uma publicação estrangeira, que apesar de aumentar constantemente sua cobertura sobre o Brasil nunca tratou o país como prioridade tem tanta repercussão aqui? Acredito que uma parte disso se deva ao estilo opinativo da revista. Que não se furta em colocar seu ponto de vista sobre determinados temas.

Outro fator está relacionado com a mídia local que repercute muito o que é veiculado pela Economist. Por exemplo, em um levantamento simples podemos ver que em 2013 a “Folha de S. Paulo” mencionou a “Economist” pelo menos 120 vezes. Isso é relevante, se pensarmos que a publicação da revista é semanal e que ela, em média, publica um texto sobre o Brasil em cada uma de suas edições.

Os brasileiros têm interesse pelo que se fala sobre o país no exterior, mas o que torna a “Economist” um caso à parte?

Acredito que seja exatamente essa repercussão interna do que aparece na revista.

De que forma você acha que a “Economist” reflete a reputação internacional do Brasil – há uma ligação entre a cobertura da revista e a imagem do país?

A revista é uma poderosa formadora de opinião. Entretanto, é difícil medir qual o impacto que ela tem para a imagem do Brasil em outros setores, como nas relações internacionais, por exemplo.

A capa da “Economist” com o Cristo Redentor decolando se tornou uma referência sobre a ascensão do Brasil no fim da década passada. Sua pesquisa mostra, entretanto, que a ideia de “take off” já havia sido usada pela revista para se referir ao Brasil. Trata-se de um tema que se repete? Por que isso acontece?

Foi muito interessante encontrar esse tipo de referência em textos publicados mais de 40 anos atrás. Sim, a temática da ascensão do Brasil se repete. Imagens muito similares são utilizadas no início dos anos 1970 e em meados dos anos 2000. Novamente, a revista tende a alternar momentos de alta expectativa e de decepção com a economia brasileira.

Sua pesquisa fala sobre a oscilação da cobertura da revista entre tons de otimismo e tons de pessimismo. A contrapartida do “take off’, com indicações de que o Brasil “perdeu o rumo”, também se repetiu no passado?

Sim, a gestão do General Ernesto Geisel na economia foi muito criticada.

Essa oscilação no tratamento é um reflexo da forma de trabalhar da revista, ou é um reflexo de oscilações na política econômica do Brasil?

Das duas coisas. A visão da “Economist” é mais positiva sobre o Brasil se a política econômica do país se aproxima mais do viés liberal defendido pela revista.

Seu doutorado parece ter um tom crítico ao fato de a “Economist” submeter a cobertura política em geral a questões econômicas, partindo do diapasão das regras do livre mercado. É um problema ter uma abordagem assim da realidade do Brasil? De que forma isso distorce (se é que o faz) a cobertura feita pela revista?

Não é um problema em si. A revista é sobre economia, é natural que ela dê mais ênfase aos aspectos econômicos. Entretanto, o noticiário tímido sobre as graves violações de direitos humanos que aconteceram no Brasil nos anos 1970 chama a atenção. Principalmente se comparamos com a importância que este tema teve em outros órgãos da imprensa europeia e americana.

Apesar de o Brasil aparecer na revista há tempos, seu trabalho indica que realmente houve um aumento da cobertura sobre o país ao longo do tempo. Por que isso aconteceu?

A “Economist” aumentou sua cobertura sobre toda a América Latina. A globalização da economia tornou essa região mais atrativa ao capital internacional e por consequência ao público da “Economist”. Mas, o Brasil, assim como outros países, aumentou, nos últimos anos, sua presença nos organismos multilaterais, no comércio internacional, em questões humanitárias, etc. Isso fez crescer o interesse sobre o país.

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Corrupção ajuda ‘brasilionários’, diz autor de livro sobre ricos do Brasil
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Daniel Buarque

Corrupção é importante para ‘brasilionários’, diz autor de livro sobre ricos do Brasil

Capa do livro sobre ‘brasilionários’, de Alex Cuadros

O jornalista americano Alex Cuadros usa uma palavra nova no título do seu livro: “Brazillionaires”. Mistura dos termos em inglês para “brasileiros” e “bilionários”, já que os megarricos do país emergentes são o tema central da sua obra lançada nos EUA neste mês – algo como “brasilionários: riqueza, poder, decadência e esperança em um país americano”.

O livro tem como foco a ascensão desse grupo e a euforia econômica vivida pelo país no fim da primeira década do século, quando o Brasil crescia, abria oportunidades e parecia caminhar para a glória. Cuadros se mudou para o Brasil em 2010, e foi encarregado pela agência de notícias de economia “Bloomberg” de cobrir este grupo de bilionários que crescia.

Em entrevista ao blog Brasilianismo, direto de Nova York, mas falando português fluente, Cuadros explicou que a crise econômica ajudou a moldar o ciclo de empolgação de que trata sua obra, e explica o que faz com que os ricos do Brasil mereçam um tratado próprio. “A relação entre bilionários e o Estado brasileiro ajuda a entender como o Brasil chegou onde chegou”, disse.

Alex Cuadros, autor do livro "Brazilionaires"

Alex Cuadros, autor do livro “Brazillionaires”

Segundo ele, por conta da maior presença do Estado na economia brasileira, contratos com o governo acabam tendo uma importância maior para os bolsos desses bilionários do país. Além disso, a importância de contratos estatais também tornam a corrupção mais presente no Brasil. “A corrupção era uma precondição de negócios”, explicou.

A entrevista tratou ainda do impeachment de Dilma Rousseff (que Cuadros diz não achar que é um golpe), da perda de força política do PT, da ascensão e queda de Eike Batista, da forma como os brasileiros veem os bilionários e sobre a perspectiva para os Jogos Olímpicos no país.

Leia abaixo a entrevista completa

Brasilianismo – Como os bilionários brasileiros se diferenciam de outros no resto do mundo?
Alex Cuadros – A natureza do bilionário é algo que não é nacional. É quase universal. O instinto que leva uma pessoa dessas a criar um império não é algo único do Brasil ou de outro país.

O que acontece no Brasil é que o Estado sempre teve um papel maior na economia brasileira de que nos EUA, por exemplo, então há mais oportunidades para fazer fortuna com base em contratos com o governo.

Essa relação entre poder econômico e poder político é uma versão mais extrema de uma relação que naturalmente existe em muitos países. Nos EUA existe Wall Street, que, igual a empreiteiras do Brasil, sempre doou dinheiro para campanha de políticos de todos os lados do espectro ideológico, e teve sucesso em influenciar as políticas públicas, por exemplo na desregulamentação da indústria financeira, e conseguiu evitar ações jurídicas mais fortes por parte do governo contra eles.

Brasilianismo – A corrupção é fator importante para a existência dos bilionários brasileiros?
Alex Cuadros – Sim , a corrupção é um fator importante na composição dos bilionários do país.

A corrupção era uma precondição de negócios, que todos cometiam, e seria interessante saber o quanto da riqueza se deve ao talento empresarial dessas famílias. É difícil dizer se veríamos nomes diferentes na lista dos mais ricos da revista “Forbes”, caso o Brasil tivesse melhores controles de corrupção ao longo desses anos todos. Seria interessante descobrir o diferencial dessas famílias.

Estamos vendo agora comprovadamente que sistematicamente se usou a corrupção como parte do modelo de negócios. A Odebrecht tinha um departamento de propina. Essas famílias: Odebrecht, Camargo Correia, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, OAS, são algumas das mais poderosas do país.

Brasilianismo – Como a corrupção está ligada à existência de bilionários e as desigualdades no Brasil?
Alex Cuadros – A corrupção, pagamento de propinas, não aparece tanto em um país como os EUA porque o país criou as instituições necessárias para controlar isso, então a corrupção existe em um grau diferente.

A corrupção do processo democrático, a forma como as empresas influenciam a política com o dinheiro de forma legal, existe em graus diferentes em cada lugar. Se vai acontecer, que seja não com dinheiro desviado dos cofres públicos, para que os eleitores possam tomar decisões com base nas relações que consegue ver.

Brasilianismo – Você começou a escrever o livro em uma época em que a economia brasileira crescia e prometia muito. Como a crise atrapalhou seu projeto? O que mudou?
Alex Cuadros – A crise é horrível para o país, mas foi conveniente para o livro, pois ele descreve um ciclo se fechou – os anos de euforia dos anos PT.

Fechei o contrato do livro em 2013, quando já estava evidente que o sonho brasileiro tinha problemas. Na época, não imaginava o quanto a economia ia decair, e o quanto o sonho ia basicamente morrer. No fim, acho que é coerente, pois o que já planejava escrever no livro, que era a relação entre bilionários e o Estado brasileiro ajuda a entender como o Brasil chegou onde chegou

Brasilianismo – Como é essa relação entre bilionários e o Estado no Brasil, e como ela explica a crise?
Alex Cuadros – O mais interessante da ascensão do PT é a contradição interna do partido, entre uma ideologia que supostamente é de esquerda, que se preocupa com a redistribuição, e seu grande apreço pelo desenvolvimentismo, que se baseia em transferências regressivas. Foi muito mais deletério para a economia o fato de Dilma ter dado desonerações fiscais de centenas de bilhões de reais e empréstimos do BNDES do que ter mantido a Bolsa Família ou elevado ao salário minimo.

A outra contradição é que é um partido que diz prezar pela igualdade política, mas que se aliou com o velho estalishment politico e famílias bilionárias que pertencem à pior tradição brasileira de uso do Estado para fins privados – como Camargo Correia e Odebrecht. Essa contradição acabou destruindo o movimento que eles estavam tentando fazer. O pragmatismo que tiveram em busca do desenvolvimento foi levado longe demais, e culminou na crise atual.

Brasilianismo – Os defensores de Dilma chamam o impeachment de golpe. Como você vê relação da ordem econômica, política e legal do Brasil com a atual crise no país?
Alex Cuadros – Não concordo com o uso do termo golpe para o impeachment. Acho que chega a ser ridículo o PT se colocar dessa forma, criar essa narrativa de que o partido é vitima das elites, quando na verdade fez alianças com essas elites e se converteu numa elite dentro do Brasil.

É logico que o establishment politico a certa altura abandonou o PT. O empresariado é pragmático. Ele vai se aliar ao governante que lhe pareça mais conveniente, que crie as condições necessárias para ele ganhar dinheiro. Por muito tempo, foi o PT, e o empresariado estava muito feliz com o PT. Mas é muito simplista dizer que o PT é vitima de um golpe. Eles cometeram erros políticos, econômicos e morais muito importantes. O que eles estão sofrendo é fruto disso. Isso não livra quem vem depois da possibilidade de crítica também. Não é que o PT tenha sido substituído por alguém mais limpo.

Brasilianismo – No fim da década passada, Eike Batista era um símbolo do sucesso econômico do Brasil. Como você acha que a derrocada dele está associada à crise no brasil?
Alex Cuadros – O grande sucesso do Eike foi se apropriar da euforia que havia sobre as perspectivas econômicas do Brasil. Não é coincidência que ele tenha começado a cair na mesma época em que a economia do Brasil. A imagem dele dependia muito da ideia de que o Brasil era uma nova potência mundial.

A queda do Eike me parece mais definitiva do que a do Brasil. O Brasil é maior do que ele. Eike tinha muitos fatores dele. Ele não era só um espelho do Brasil. Era um personagem típico dos empresários dos EUA, grandes vendedores de sonhos. A bolha dele se parece com várias bolhas ao longo da história do capitalismo americano, como a de 2000 e a de 2008.

Não julgaria o futuro do Brasil com base no fracasso do Eike.

Brasilianismo – O livro fala sobre como Eike representa as tensões e contradições da forma como pensamos sobre o papel da riqueza na sociedade. O que isso quer dizer?
Alex Cuadros – Ele foi uma figura muito interessante, pois vendeu a ideia de que era um empresário diferente, que destoava de Sebastião Camargo, Odebrecht e outros que sempre dependeram de capital estatal e contratos públicos. Ele teve muito sucesso vendendo a ideia de que era um ‘self-made man’. Mas, no fim, essa narrativa era problemática. Ele era filho de um ex-ministro, se beneficiou dos contatos dele. E levantou dinheiro no mercado privado, mas também buscou contratos com o governo e foi beneficiado com enormes empréstimos do BNDES.

É uma figura muito contraditória, mas são contradições muito comuns em bilionários, sempre em graus diferentes. A narrativa de sucesso que se cria levaria as pessoas a acreditar que foi so mérito da pessoa que alcançou a riqueza, o que nunca é totalmente verdade. Sempre há relações com o governo, uso do dinheiro para influenciar a política pública. Dessa forma, me pareceu emblemático não só de uma confusão sobre o empreendedorismo no Brasil, mas em outros países, como os EUA.

Brasilianismo – No Brasil existe uma cultura diferente da americana, em que se critica critica mais abertamente a riqueza. Como isso influencia a importância dos bilionários no país?
Alex Cuadros – Os brasileiros têm algumas ressalvas, sim. Nos EUA, temos uma mitologia forte, do menino pobre que vira rico, o ‘self-made man’. Vemos o dinheiro como sinal de sucesso mais do que o Brasil.

No Brasil, por conta dessa relação muito forte entre riqueza, corrupção e ligações com o Estado, se tem uma ideia diferente da riqueza. Ela é vista como algo naturalmente sujo, ou vergonhoso.

Ao mesmo tempo, muitas pessoas no Brasil admiram os bilionários – e vemos isso nas capas das revistas de negócios do país, mostrando as pessoas colocadas em pedestal. Muitos brasileiros acham que, nesse país corrupto, os únicos que fazem a coisa certa são os empresários.

Brasilianismo – O que mudou na sua forma de pensar sobre os megarricos enquanto escrevia o livro?
Alex Cuadros – Entrei com uma mente aberta no tema, tentando conciliar os clichês sobre eles dos dois lados. Minha conclusão cai no meio dos dois extremos. Não acho que sejam nem maus nem os responsáveis por todo o progresso da sociedade. São parte da estrutura que temos da economia de livre mercado, mas quando concentram muito dinheiro e controle sobre certa parte da economia acabam sendo perigosos para a democracia e para a própria economia. Quando chega a ser um monopólio, distorce o funcionamento do livre mercado. E quando usam o dinheiro para influenciar o processo político criam um problema para a democracia.

Brasilianismo – Em uma entrevista recente você pareceu otimista em relação à Olimpíada. O noticiário internacional está sendo muito negativo, entretanto. Como acha que os Jogos podem afetar a imagem do Brasil?
Alex Cuadros – Não diria que sou otimista. Acho que o evento em si vai rolar sem maiores problemas. Havia receios parecidos na Copa de 2014, de que ia ser um desastre logístico, com problemas de violência. Acho que esses receios são exagerados agora também.

O tema mais importante é o custo de montar este evento e se fazia sentido gastar dinheiro com o Parque Olímpico quando a população tem necessidades muito mais urgentes, como saneamento básico. O problema é saber o que vai acontecer depois que o evento acabar. Tenho medo do que vai acontecer até o fim do ano, depois das eleições de outubro.

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Ben Ross Schneider: Avanços históricos do Brasil não se perdem por crise
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Daniel Buarque

Avanços históricos do Brasil não se perdem por crise, diz livro do MIT

Avanços históricos do Brasil não se perdem por crise, diz livro do MIT

O professor de ciência política Ben Ross Schneider, diretor do Programa de Estudos do Brasil no Massachusetts Institute of Technology (MIT), defende que os avanços conquistados no Brasil ao longo das últimas três décadas não se perdem completamente por causa da atual crise.

Organizador do livro recém-lançado “New Order and Progress: Development and Democracy in Brazil” (Nova ordem e progresso: Desenvolvimento e democracia no Brasil), ele explicou, em entrevista ao autor deste blog Brasilianismo publicada na “Folha de S. Paulo”, que o livro é uma resposta a uma série de obras publicadas a respeito do ‘boom’ do Brasil.

Corrupção no Brasil é maior de que qualquer pessoa suspeitava, diz diretor do MIT

Corrupção no Brasil é maior de que qualquer pessoa suspeitava, diz diretor do MIT

Ele faz uma análise histórica, de longo prazo e comparativa, para entender a trajetória de longo prazo do país, mostrando transformações que vão além das partes mais visíveis em termos de economia, crescimento, exportações, mas entender a dinâmica do mercado de trabalho, as mudanças em questões relativas e regionalismos no país.

Em 2009, quando o Programa do Brasil no MIT estava sendo inaugurado, Schneider defendia a interdisciplinaridade do departamento. Depois de 6 anos, ele diz a maior conquista do Programa foi o intercâmbio de pesquisadores do MIT que foram ao Brasil e de brasileiros que viajaram ao MIT.

“Tivemos muitas trocas, com avanços em estudos de engenharia e ciência. Muito foi interrompido agora por conta da crise no Brasil, mas sem duvida vai ter um resultado duradouro.”

Schneider falou ainda sobre como a crise no Brasil afetou o interesse internacional pelo país.

“Temos bem menos brasileiros vindo com apoio financeiro do governo do Brasil. isso foi o que mais mudou com a crise. o interesse do MIT em pesquisas colaborticvas continua alto. Espero que o fim da crise faça essa relação se fortalecer ainda mais.”

Na conversa, o pesquisador analisou ainda a importância da análise sobre a situação do Brasil feita por estrangeiros, brasilianistas como ele.

“Não acho que seja necessariamente certo pesquisadores estrangeiros fazerem julgamentos e previsões sobre a politica brasileira. Há a necessidade de um papel de analisar como o que acontece no Brasil pode ser comparado com o que acontece em outros países , ou com o que já aconteceu na história do brasil. Esta é a posição do livro que publicamos, apresentando análises em vez de recomendar políticas.”

Veja abaixo alguns trechos da entrevista

Leia a entrevista completa na Folha

Folha – Seu livro fala em ordem e progresso em meio a uma forte crise no Brasil. Como ele se relaciona ao atual momento?

Ben Ross Schneider – O livro surge como uma resposta a uma série de obras publicadas a respeito do ‘boom’ do Brasil, sobre o Brasil decolando, que se tornou uma lembrança distante. A ideia era fazer uma análise histórica, de longo prazo e comparativa, para entender a trajetória de longo prazo do país, mostrando transformações que vão além das partes mais visíveis em termos de economia, crescimento, exportações, mas entender a dinâmica do mercado de trabalho, as mudanças em questões relativas e regionalismos nos país.

O título do livro olha para os últimos 10 ou 15 anos, queríamos olhar por baixo do capô e entender o motor que estava fazendo a política e a economia do Brasil funcionar. Isso nos levou a ver uma menor discriminação no mercado de trabalho, um crescimento da classe média, um maior desenvolvimento em outros estados do país. São mudanças de longo prazo que vão ser retomadas após o fim da atual crise. Precisamos ver essas mudanças além de dados sobre crescimento ou recessão.

– Nesse sentido, há espaço para otimismo em meio à complicada crise pela qual o país passa hoje?

Sim. O livro foi finalizado antes de o Brasil se afundar na crise. Estávamos em 2014 e víamos apenas o começo da crise. As razões para otimismo vêm das análises das instituições brasileiras. A ideia de que as instituições da democracia estão funcionando muito bem no Brasil mesmo em meio às crises, e isso é motivo para otimismo.

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Marshall Eakin: Tragédia do Brasil é que a corrupção é parte do sistema
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Daniel Buarque

Marshall Eakin: Tragédia do Brasil é que a corrupção é parte do sistema

Marshall Eakin: Tragédia do Brasil é que a corrupção é parte do sistema

A crise política brasileira se aproxima de um ponto crítico com a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Enquanto o país assiste ao processo dividido esperança e a irritação com o lado oposto, o problema do Brasil pode ir muito além da definição de um nome para a Presidência.

Capa do livro "Brazil: The Once and Future Country", de Marshall Eakin

Capa do livro “Brazil: The Once and Future Country”, de Marshall Eakin

“A tragédia do Brasil é que a corrupção há muito tempo é parte do sistema, e se espalhou”, disse, em entrevista ao autor deste blog Brasilianismo, o historiador norte-americano Marshall Eakin.

Eakin é um dos nomes mais importantes da mais recente onda de estudos brasileiros nos EUA. Professor da Universidade Vanderbilt, no Tenessee, ele idealizou a criação da Brasa, a Associação de estudos brasileiros nos EUA, grupo que reúne mais de 600 pesquisadores e da qual foi secretário-executivo.

Segundo ele, o fato de Eduardo Cunha, o presidente da Câmara, que está liderando o processo de impeachment, já ter sido manchado por claras e substanciais denúncias de corrupção torna o processo ainda mais desanimador.

“O nível de corrupção que está sendo descoberto pelas investigações não me surpreende, mas é espantoso. O PT aumentou a escala monetária da corrupção (especialmente pelo escândalo da Petrobras), mas políticos de quase todos os setores do espectro político estão envolvidos”, diz, alegando não ver claras alternativas aos políticos que estão ligados ao status quo.

Eakin falou sobre a disputa registrada no congresso da Brasa, entre o final de março e o início de abril, quando a decisão de apoiar um manifesto contra o impeachment e em defesa da democracia criou um racha dentro da associação de brasilianistas.

Segundo ele, houve debates intensos. Enquanto alguns defendiam o texto por serem ligados a grupos de apoio ao governo do PT, outros estavam preocupados que o processo para retirar Dilma do poder estava sendo encaminhado sem a devida transparência e legalidade, o que poderia danificar o sistema político do país. “Esta é a minha principal preocupação”, disse.

Para Eakin, a polarização política entre brasilianistas existe de forma natural, mas não é tão grave quanto pode parecer. “Assim como no Brasil, suspeito que há uma vasta gama de opiniões entre os brasilianistas a respeito da atual crise política no Brasil. Mas duvido que as opiniões sejam tão polarizadas como estão no Brasil”, disse.

Ele rejeitou a ideia de que brasilianistas têm uma relação mais distante, e por isso objetiva, sobre o país. “Não acho que sejamos nada mais objetivos de que os brasileiros. Temos o luxo de que este não é o nosso sistema político e de não sermos participantes diretos como cidadãoes e eleitores, mas nos preocupamos profundamente com o Brasil”, explicou.

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‘Não é fácil entender o Brasil’, diz criador de site em inglês sobre o país
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Daniel Buarque

'Não é fácil entender o Brasil', diz criador do plus55, site em inglês sobre o país

‘Não é fácil entender o Brasil’, diz criador do plus55, site em inglês sobre o país

“Bem-vindo ao Brasil real”. A frase aparece estampada em um muro serve de entrada para um novo portal, em inglês, sobre o país. O plus55 é um site produzido por jornalistas brasileiros e que pretende ser uma “ponte”, traduzindo o país como ele é “de verdade” para o resto do mundo. O trabalho é semelhante ao de um brasilianista brasileiro, alguém que tenha ao mesmo tempo um olhar de dentro para fora e de fora para dentro do país.

O objetivo é romper com o desconhecimento que ainda existe no resto do mundo e que é possível encontrar em muitas das reportagens publicadas na imprensa internacional sobre o país, explicou Gustavo Ribeiro, um dos criadores do portal, em entrevista este blog Brasilianismo.

Tanto é assim que um dos primeiros textos a serem publicados no portal é uma carta aberta ao “New York Times”, depois que o jornal norte-americano publicou um texto que descrevia de forma superficial, cheia de estereótipos e preconceito o carnaval brasileiro em meio ao surto de zika. “O repórter do NYT não entendeu o Brasil”, dizia. “Somos um país complexo – e qualquer análise extremamente simplificada sobre a nossa sociedade provavelmente será equivocada”, disse Ribeiro.

“O Brasil ainda é um país relativamente isolado”, explicou. “Há muitos clichês sobre nós reproduzidos na imprensa lá fora – o que é fruto, muitas vezes, de interpretações a partir de códigos que não são os nossos e preconcepções.”

Ele reconhece que há uma extensa cobertura internacional sobre o país na mídia estrangeira, mas explica que parte das reportagens mostra um certo grau de desconhecimento sobre nossa cultura, modo de vida e forma de pensar. Além disso, a mídia é só uma parte dessa imagem, e é importante levar mais informação sobre o país para um público mais amplo. “Eu morei na França nos últimos três anos e fiquei impressionado com o número de pessoas que achavam que a nossa capital era Rio ou São Paulo – e que a salsa era brasileira”, disse.

Colocado no ar recentemente, o plus55 ainda trabalha para consolidar uma voz própria e encontrar um público estrangeiro que se interesse pelo Brasil além dos seus clichês. Se conseguir este objetivo, pode ter o potencial de ajudar a formar uma imagem internacional mais próxima da realidade vivida no pais, e mais distantes da superficialidade e de preconceitos.

Leia abaixo a entrevista completa

Brasilianismo – O Brasil é citado na imprensa internacional mais de 200 vezes a cada dia. Por que é importante produzir um veículo de comunicação brasileiro para o público internacional e ‘traduzir’ o país?
Gustavo Ribeiro – Não é fácil entender o Brasil. Mesmo nós, brasileiros, temos dificuldade. O Brasil ainda é um país relativamente isolado – geográfica, linguística e economicamente… Apesar de se falar muito sobre o Brasil, muitas vezes não se fala bem. É claro que há ótimos correspondentes, que conseguem compreender as ambiguidades do nosso país. Mas uma grande parte das reportagens mostra um certo grau de desconhecimento sobre nossa cultura, modo de vida e forma de pensar. Abordamos isso, inclusive, em um artigo sobre uma matéria do NYT. Eu morei na França nos últimos três anos e fiquei impressionado com o número de pessoas que achavam que a nossa capital era Rio ou São Paulo – e que a salsa era brasileira.

Brasilianismo – A apresentação do plus55 fala em desinformação e informação equivocada sobre o país no exterior. Que tipo de erros acha que os estrangeiros cometem ao pensar sobre o Brasil?
Gustavo Ribeiro – Quando nos referimos à desinformação e informação equivocada, não falamos apenas da imprensa internacional. Há muitos clichês sobre nós reproduzidos na imprensa lá fora – o que é fruto, muitas vezes, de interpretações a partir de códigos que não são os nossos e preconcepções. Entretanto, nós também contribuímos para isso. Muito da imagem que se leva daqui para fora insiste nessas imagens consolidadas – e pouco faz para mudar a imagem do país.

Brasilianismo – O Brasil é um país múltiplo, a há nuances complicados que mesmo os próprios brasileiros têm dificuldade em entender. Que imagem internacional o plus55 pretende ajudar os estrangeiros a terem a respeito do Brasil?
Gustavo Ribeiro – Justamente que somos um país complexo – e que qualquer análise extremamente simplificada sobre a nossa sociedade provavelmente será equivocada. Nós queremos ser uma fonte de informação alternativa, um olhar de dentro para um público que tem interesse em saber mais do país. Somos o país do carnaval e futebol (ou éramos), mas também temos um povo trabalhador e empreendedor, temos uma economia relevante internacionalmente…

Brasilianismo – Os estrangeiros encontram notícias sobre o Brasil em alguns dos principais veículos de comunicação internacionais. Como o plus55 pretende atrair leitores estrangeiros? Que leitores o portal pretende atingir?
Gustavo Ribeiro – Nossa proposta é ser um olhar de dentro. Acreditamos que os brasileiros têm um ponto de vista sobre o Brasil que deve ser levado em conta – mesmo para o leitor internacional. Nossa plataforma atua em um nicho e tenta atingir um leitor que já é interessado pelo Brasil – e acha, como nós, que ouvir o que alguém de dentro fala é importante para analisar os fenômenos brasileiros.

Brasilianismo – Brasileiros são em parte responsáveis pela propagação de clichês e estereótipos sobre o país no exterior – basta ver o tipo de imagem usada em apresentações internacionais produzidas pelo próprio país. De que forma o plus55 vai lidar com a imagem superficial do Brasil ao escrever sobre o país?
Gustavo Ribeiro – Como o nosso leitor já tem, em tese, um interesse pré-estabelecido no Brasil, podemos escrever textos que o contextualizem de forma mais aprofundada.

Brasilianismo – Pesquisadores de nation branding alegam que imagem internacional poderia ser pensada como um espelho da realidade de um país, mesmo que apresente algumas distorções. Apesar de possivelmente incorrer em erros, o olhar externo sobre o país permite uma objetividade que talvez brasileiros não consigam ter a respeito da sua pátria. Ao se colocar em oposição a esta imagem internacional, o plus55 não corre o risco de se tornar um veículo de patriotismo ufanista sobre o país?
Gustavo Ribeiro – Não somos um veículo de publicidade da marca Brasil. Não criamos a plus55 para tecer loas ao país. Mas para informar o público estrangeiro sobre ele. E não hesitamos em criticar – ou o governo ou a nós mesmos, cidadãos brasileiros. Em uma matéria sobre o Aedes aegypti, por exemplo, nós falamos claramente que uma das razões para que não nos livremos do mosquito é o fato de não fazermos a nossa parte – e colocarmos tudo na conta do governo.

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Aperto do Brasil está longe do que houve na Espanha, diz analista político
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Daniel Buarque

"A construção de uma presidente", livro de Luis Tejero sobre a eleição de Dilma

“A construção de uma presidente”, livro de Luis Tejero sobre a eleição de Dilma

Quando ouve os brasileiros falando de forma dramática sobre a crise econômica no país, o correspondente e analista político espanhol Luis Tejero sente que as pessoas precisam pensar na situação do Brasil em uma perspectiva mais ampla. “O aperto econômico não é igual ao da Espanha”, disse, em entrevista ao blog Brasilianismo.

Tejero cita que seu país chegou a ter mais de 25% de desemprego, com 50% de desocupação entre os jovens. “O Brasil não está nem perto disso. Aqui ainda há mais oportunidades”, explica.

Ex-correspondente do jornal espanhol “El Mundo” no Brasil, Tejero vive no Rio de Janeiro, é diretor da Mosaiq, uma agência de comunicação e consultoria política, e escreveu o livro “La Construcción de una Presidenta: Cómo Lula convirtió a Dilma en la primera jefa de Estado de Brasil” (A construção de uma presidente: Como Lula transformou Dilma na primeira mulher chefe de estado do Brasil), sobre a primeira eleição de Dilma Rousseff.

Em meio à atual crise política no país, Tejero diz que é difícil entender a “bagunça que está acontecendo no Brasil”, e mais difícil ainda explicar isso aos espanhóis.

“A política brasileira é quase impossível de entender para o espanhol. Até pouco tempo atrás, a Espanha tinha apenas dois partidos de relevância nacional, agora são quatro, então é mais simples de que a realidade brasileira com quase 40 partidos. Fica difícil entender quem é direita e esquerda, entender os posicionamentos políticos. Há partidos que apoiam o governo, mas ao mesmo tempo apoiam o impeachment. Isso é dificil para um espanhol entender.”

Leia abaixo a entrevista completa.

Brasilianismo – Seu livro se chama “A Construção de uma Presidenta”. Considerando o momento atual, estamos vivendo a ‘desconstrução’ da presidente?

Luis Tejero – O livro foi meu trabalho de mestrado, e minha tese é que a primeira eleição de Dilma, em 2010, foi realmente a terceira vitoria de Lula. Foi ele que ganhou, e não ela. Já em 2014, foi ela que ganhou a eleição.

Agora acho que estamos realmente assistindo a um momento difícil. Não sei se podemos falar em desconstrução, pois em alguns momentos parece que estamos vendo a verdadeira Dilma. Ela é guerreira, fala de forma sincera e usa palavras duras. Talvez este seja um caminho para sair da crise, ela tendo uma posição mais forte e mais independente dos aliados. Ela continua sendo presidente, e ainda tem força e pode aproveitar seus três anos que restam do mandato. Mas ela está enfraquecida pela baixa popularidade.

Brasilianismo – Qual você acha que pode ser a saída para as crises do Brasil?

Luis Tejero – Politicamente, só tem uma solução, mas que parece impossível. Seria preciso um grande acordo entre os principais partidos políticos pela estabilidade. Mas, com esta baixa popularidade de Dilma, fica complicado achar que outros partidos vão apoiar o governo. Apoiar Dilma agora é se associar à baixa popularidade dela.

Estamos no momento em que o país está quase parado, bloqueado politicamente. Pelo menos até as eleições municipais, em outubro, o Brasil vai ficar nessa situação de incertezas.

Brasilianismo – As pessoas na Espanha conseguem entender a gravidade da crise no Brasil?

Luis Tejero – Os jornais espanhois têm pouco interesse pelo que acontece na América Latina. Os jornais espanhóis são obcecados pelo que acontece no Oriente Médio, que realmente é uma região importante. Mas a Espanha tem uma relação forte com a América Latina, e 500 anos de relações com a região, então os jornais espanhóis deveriam se preocupar mais com o que acontece com a America Latina.

Infelizmente jornais e TVs da Espanha falam pouco sobre o Brasil, e assim fica complicado explicar o que está acontecendo no país. Somos poucos correspondentes espanhóis no Brasil. O “El Pais” agora tem um escritório em São Paulo, que faz um trabalho mais intenso de acompanhar o dia-a-dia da política brasileira, mas os outros jornais falam pouco sobre o Brasil.

Além disso, a política brasileira é quase impossível de entender para o espanhol. Até pouco tempo atrás, a Espanha tinha apenas dois partidos de relevância nacional, agora são quatro, então é mais simples de que a realidade brasileira com quase 40 partidos. Fica difícil entender quem é direita e esquerda, entender os posicionamentos políticos. Há partidos que apoiam o governo, mas ao mesmo tempo apoiam o impeachment. Isso é dificil para um espanhol entender.

Brasilianismo – Outros assuntos, além de política, têm interesse da mídia espanhola?

Luis Tejero – Sim, outros temas acabam tendo mais espaço na mídia, com a imagem de Brasil como país do futebol, do samba e do carnaval. Isso recebe mais atenção. Tem uma notícia que todo ano sai em todos os jornais espanhóis, é o Miss BumBum, que tem muitas fotos, vídeos e geram muita audiência. Assim como o carnaval. Isso nunca falta, mas explicações mais profundas sobre política e economia saem mais raramente.

Brasilianismo – Há algum assunto que fique entre a cobertura séria sobre política e economia e a cobertura dos estereótipos?

Luis Tejero – Há uma cobertura relativamente grande sobre favelas. Quando cheguei no Rio pela primeira vez, em 2010, fiquei surpreso com o contraste entre o asfalto e as favelas. Moro em Botafogo e da minha janela vejo o Cristo e vejo a favela Santa Marta ao lado de prédios de luxo. É um contraste grande e isso gera atenção. As notícias sobre pacificação das favelas, invasão com tanques, isso foi muito noticiado, com muitas imagens marcantes, gerando bastante interesse.

Brasilianismo – Por que você decidiu vir ao Brasil?

Luis Tejero – Em 2010, o jornal “El Mundo” decidiu mandar correspondentes para o México, para a Argentina e para o Brasil. Isso foi logo que o Rio foi escolhido para sediar a Olimpíada, o país estava na moda, chamando mais atenção. Demorei 5 segundos para responder que queria ir para o Rio, e fui escolhido para isso. Nunca tinha tido muito interesse pelo que acontecia no Brasil. Eu acompanhava política americana, havia feito cobertura da eleição de Obama, e olhava mais para os EUA. Quando cheguei aqui, entretanto, me apaixonei. É um país enorme, com tanta coisa para conhecer, que não dá para ficar entediado em um lugar tão interessante. Isso vale para a política, para a economia, sem falar de praias, cidades coloniais, cidades modernas.
O povo aqui é muito gentil e amável, e recebe os estrangeiros de braços abertos.

Brasilianismo – O que o surpreendeu quando veio morar no Brasil?

Luis Tejero – Até hoje, depois de morar no Brasil e de viajar todos os anos para o país desde 2010, me chama muito a atenção o quanto o Brasil é parecido com os Estados Unidos. Muita gente pensa nos EUA como primeiro mundo, mais avançado de que o Brasil, mas acho que são dois países bastante parecidos. Nem sempre é por coisas boas. A violência, por exemplo, é algo que aproxima os dois países.

Brasilianismo – Você fala sobre o Brasil estar ‘na moda’. Isso é algo que se desenvolveu muito entre 2008 e 2010, mas agora o Brasil está em crise. A crise ameaça o status do Brasil como país que tem mais atenção internacional?

Luis Tejero – A “Economist” já diz que o México está tomando o lugar do Brasil como país da moda, mas não dá para negar que o Brasil é o grande país da América Latina, um gigante. Não vai ser fácil, e sabemos que a crise vai continuar no próximo ano, mas isso vai passar.

Quando as pessoas aqui falam em crise, eu entendo, mas é preciso colocar isso em perspectiva. A Espanha, por exemplo, chegou a ter mais de 25% de desemprego, com 50% de desemprego entre os jovens. O Brasil não está nem perto disso. Aqui ainda há mais oportunidades, e o aperto econômico não é igual ao da Espanha.

Pode não ser rápido, mas o Brasil é grande e vai sair da crise, talvez até melhor de que entrou. A crise pode ter um efeito positivo ao mostrar independência das instituições e indicar que os eleitores estão mais preocupados com a corrupção, deixando o país menos tolerante. Os partidos vão ter que se renovar, como aconteceu na Espanha, para convencer os eleitores de que não vão continuar roubando e vão defender uma ficha limpa.

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Brasil é tão religioso que ateus acreditam em espíritos, diz pesquisador
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Daniel Buarque

Enquanto o debate político acirra uma discussão sobre a influência de religiões na esfera pública e se intensificam os pedidos pelo respeito ao Estado laico, um pesquisador americano da Universidade do Texas aponta a forte presença de religiões na própria cultura brasileira. Um dos pontos mais surpreendentes desse perfil brasileiro, diz, é a mistura de diferentes religiões e o fato de que até ateus acreditam em espíritos.

“Os brasileiros se veem como uma mistura cultural, e isso se reflete na religião”, disse Michael Amoruso, que esteve no Brasil pesquisando temas relacionados à religião e ao sincretismo para seu doutorado, em entrevista ao blog Brasilianismo.

“Comparando o Brasil com os EUA, há uma grande força de sincretismo. Há uma fluidez e movimento entre diferentes religiões. Os brasileiros aceitam naturalmente que uma mesma pessoa vá a uma missa católica, a uma sessão espírita e a um terreiro de umbanda. Isso não acontece em outros países como nos EUA”, explicou.

Segundo Amoruso, o sincretismo se encaixa bem no mito tradicional da mistura dass três raças do Brasil. “Ninguém vai negar que três grupos de pessoas estão presentes no Brasil, e sempre que entrevisto as pessoas sobre sincretismo, elas sempre dizem que é um traço histórico no Brasil, isso se enquadra na ideologia do mito das três raças. Isso foi tao repetido que isso autoriza esse movimento entre as religiões”, disse.

“No Brasil a religião está por toda parte de uma forma que não está nos EUA. Há horóscopos no metrô, há ateus que acreditam em espíritos, e isso não faz o menor sentido para quem vê de fora. É dificil pensar uma separação entre Igreja e estado quando a religião está tão entranhada na cultura”, avaliou.

Um efeito disso, ele explica, é que a religião sempre vai estar mais presente na vida no Brasil. “O Brasil nunca vai ser laico como a Europa ou os Estados Unidos”

“Mesmo que haja religiões nos EUA ou na França, e elas tenham muita força, esses países são mais laicos. A laicidade é uma formulação de protestantes, que gostam de separar a religião do espaço secular. no Brasil parece impossível. É só olhar que os feriados são religiosos, a Igreja Católica ainda está costurada na vida cotidiana, mesmo que igrejas evangélicas estejam crescendo, assim como o número de ateus e de pessoas que não são religiosas.”

Apesar de ser um diagnóstico negativo para quem defende a ausência de influência da religião na política, Amoruso explica que isso não é necessariamente um problema e pode até revelar uma grande tolerância dos brasileiros. “Contanto que o Estado não endosse ou condene nenhuma prática religiosa, não há um problema na presença da religião na política”, disse. “O sincretismo como uma ideologia pode ser bom para o país, pois tende a ser uma cultura mais ecumênica, mais tolerante.”

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Deu no ‘Valor’: Ajuste melhora credibilidade do Brasil no exterior
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Daniel Buarque

Reportagem do 'Valor Econômico' fala em melhora na credibilidade internacional do Brasil

Reportagem do ‘Valor Econômico’ fala em melhora na credibilidade internacional do Brasil

O jornal “Valor Econômico” publicou nesta segunda-feira (22) uma reportagem e uma entrevista escritas pelo autor deste blog do Brasilianismo a respeito da imagem internacional da economia brasileira. Na avaliação de analistas estrangeiros, os ajustes econômicos por que o Brasil vem passando recolocaram o país no rumo certo, e a economia vai voltar a se recuperar a partir de 2016. A interpretação é de dois acadêmicos, do editor da revista “The Economist” e de três analistas de mercado.

Leia a reportagem completa no “Valor”.

Uma das avaliações mais interessantes é a do pesquisador Werner Baer. Entrevistado em 2010 como parte da pesquisa para escrever o livro “Brazil, um país do presente”, Baer foi o único, de uma centena de analistas, que se dizia cético em relação ao potencial do Brasil. Em um momento de clara euforia internacional, ele se dizia até mesmo preocupado com baixo investimento no país. O curioso é que isso se inverteu. Agora que o Brasil está em crise, Baer avalia que o país “voltou à realidade”, e que tem um potencial maior de acertar sua economia de que tinha enquanto o mundo via o país com empolgação.

Leia abaixo alguns trechos da reportagem e da entrevista de Baer.

“Quase seis meses depois do início do segundo mandato de Dilma Rousseff, e das mudanças na política econômica que abriram espaço para o ajuste fiscal, observadores estrangeiros começam a deixar de lado a imagem de que a economia brasileira é um problema. Segundo acadêmicos e analistas de mercado, o mundo já começou a ver com menos pessimismo o cenário para o futuro do país.

Na opinião de pesquisadores internacionais que se debruçam sobre a realidade brasileira, a presença de Joaquim Levy no comando da Fazenda desde 5 de janeiro é um “símbolo dramático” da mudança de rumo do país. A partir de então, viu-se que o Brasil deixou de lado uma política intervencionista, que afastava investidores estrangeiros, e que agora o país trabalha para reconquistar a confiança global – o que está começando a alcançar.

“O Brasil não é mais pensado como um caso problemático, em que o governo está no caminho errado, praticando políticas do passado. Hoje a visão é de que o país ficou mais realista e mais pragmático, menos ideológico economicamente. Estes sinais estão chegando ao resto do mundo”, disse Edmund Amman, professor da universidade de Manchester, que estuda infraestrutura e atualmente prepara um livro sobre os gargalos do crescimento econômico brasileiro.

Para Werner Baer, professor da Universidade de Illinois especializado em economia brasileira, a crise teve o efeito positivo de a trazer o Brasil de volta à realidade, deixando de lado o otimismo exagerado de alguns anos antes. “A combinação de novas medidas com o fato de que temos um ministro da fazenda bem conservador, que está colocando ordem na casa, mesmo com bastante sacrificio no curto prazo, vai aumentar a confiança de investidores no Brasil e fora do país, e isso pode levar a um aumento do crescimento em um ano ou dois”, disse.

O mercado internacional tem uma avaliação parecida, mas mais cautelosa. Para analistas atuando em bancos e consultorias fora do país, o Brasil mudou de direção e começa a navegar em um sentido mais positivo, mesmo que lentamente. O pessimismo maior passou, mas a situação está longe de otimismo e há a cobrança por mudanças estruturais mais fortes para que o país possa realmente alcançar seu potencial de crescimento.

“Já passamos o momento de maior pessimismo em relação ao Brasil”, disse Aryam Vázquez, economista sênior da Oxford Economics. “Três ou quatro meses atrás, as pessoas falavam sobre o Brasil com o tom de fim do mundo. Recessão, inflação, caos político, escândalo da Petrobras, tudo ia mal, mas agora já nos afastamos desse cenário e vemos estabilidade. Ainda há muitos problemas, mas o país está no caminho certo”, completou.

De acordo com o economista-chefe de mercados emergentes da Capital Economics, Neil Shearing, é importante ressaltar que o processo de reconquista da credibilidade é um processo lento, e que tem enfrentado desafios. “Ainda é um caso de dois passos adiante e um passo para trás”, disse, em referência à dificuldade do governo em projetos como o da desoneração fiscal. “A economia do Brasil ainda vai sofrer muito neste ano, mas, do ponto de vista dos mercados financeiros, as piores notícias ficaram passado”, disse.

Mesmo com as dificuldades, os analistas concordam que houve uma mudança na forma como o Brasil é interpretado no exterior. “No ano passado, depois das eleições, havia um grande pessimismo. Não se tinha a clareza que se tem hoje sobre quão crítica estaria a situação se não fossem os ajustes. A coisa está feia, e poderia estar muito piores se não fossem os ajustes”, disse Bruno Rovai, do banco Barclays. Para ele, é inegável que as mudança do time econômico representou uma mudança de atitude do governo e deu um maior otimismo aos investidores. “O que há agora é um choque de realidade”, disse.”

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Entrevista do brasilianista Werner Baer ao 'Valor Econômico'

Entrevista do brasilianista Werner Baer ao ‘Valor Econômico’

Baer vê horizonte melhor de que em 2010

O Brasil real está longe do otimismo eufórico que o mundo tinha em relação a sua economia na virada da década, mas também distante do pânico que tomou conta de investidores entre o fim do ano passado e o início deste. Na avaliação do brasilianista Werner Baer, professor de economia da Universidade de Illinois, o atual momento de ajustes ajuda a recuperar a força que o país pode ter e traz o país de volta à realidade, sem otimismo ou pessimismo exagerados.

Baer é especializado no processo de industrialização e nas privatizações que aconteceram no Brasil e na América Latina. Entre 2009 e 2010, quando a revista “The Economist” transformou o Cristo Redentor em foguete, em alusão ao Brasil que “decolava” em sua capa, o pesquisador era um dos poucos observadores estrangeiros que dizia ainda desconfiar das perspectivas do país. Agora, enquanto o país se esforça para recuperar a credibilidade perdida, ele se diz mais otimista, e nega qualquer motivo para pânico.

Valor – A economia brasileira perdeu credibilidade nos últimos anos, e o país corre risco de rebaixamento pelas agências de risco. Há motivos para desespero?
Werner Baer – Não vejo nenhum motivo para pânico. Faço um paralelo entre a situação atual e a primeira eleição de Lula, quando o mercado internacional também ficou em pânico e o real foi desvalorizado, mas aí Lula indicou [Antônio] Pallocci para a Fazenda, as coisas começaram a funcionar, e o Brasil teve um crescimento substancial, ainda que não tenha sido espetacular.

Fui pessimista em relação ao Brasil em 2010, quando a imagem do país ia bem, e, infelizmente, estava certo. Tinha muitas dúvidas em relação à economia brasileira, especialmente por conta da baixa taxa de investimentos e a fraca infraestrutura do país. 

As pessoas perdem a perspectiva histórica. Acredito que este ano vai ser difícil, com crescimento negativo, enquanto os ajustes acontecem, mas, se o governo mantiver essas políticas, o crescimento vai voltar em um ano ou dois.

Valor – Estar em uma crise hoje garante um futuro melhor para o Brasil, portanto?
Baer – Estou mais otimista em relação ao Brasil hoje de que em 2010. A crise trouxe o Brasil de volta à realidade. Assim como aconteceu no início do governo Lula, a indicação de Joaquim Levy mostra ao mundo que o Brasil pode agir de forma realista. Se for politicamente possível manter o ajuste e fazer os sacrifícios por um ano ou dois, as coisas vão melhorar no país.

A combinação da desvalorização do real com o fato de que temos um ministro da fazenda bem conservador, que está colocando ordem na casa, vai aumentar a confiança de investidores no Brasil e fora do país, e isso pode levar a um aumento do crescimento.

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