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Brasil vive ‘confortável contradição racial’, diz antropóloga dos EUA
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Daniel Buarque

Brasil vive ‘confortável contradição racial’, diz livro de antropóloga dos EUA

Apesar de o país ter orgulho de sua história de miscigenação racial e da ausência de conflitos raciais declarados, o Brasil mantêm uma sociedade em que estão presentes cotidianamente as ideias de superioridade dos brancos e inferioridade dos negros. Esta tese é apresentada pela antropóloga Jennifer Roth-Gordon, da Universidade do Arizona, nos EUA, em um livro recém-lançado.

Em “Race and the Brazilian Body: Blackness, Whiteness and Everyday Language in Rio de Janeiro” (Raça e o Corpo Brasileiro: Negritude e Branquitude na Linguagem Cotidiana no Rio de Janeiro), Roth-Gordon alega que o país vive uma “confortável contradição racial” no contraste entre a teoria e a prática do racismo no país que por muito tempo se propôs como uma democracia racial.

“Existe uma profunda desigualdade racial no Brasil, e mesmo assim as pessoas acham que não são racistas”, explicou a pesquisadora, em texto publicado no site da universidade do Arizona.

Segundo a reportagem, a antropóloga esteve no Brasil pouco antes dos Jogos Olímpicos e viveu de perto o preconceito ao ver seus dois filhos, que são negros, serem tratados como inferiores nas ruas do Rio.

O livro se baseia em pesquisa de campo e entrevista com brasileiros para tentar revelar como o racismo existe no país, ainda que pareça estar escondido.

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Visão estrangeira: A favela se tornou produto para consumo, diz antropóloga
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Daniel Buarque

"A favela espetacular", livro sobre  transformação das favelas em commodities, lançado nos EUA pela antropóloga Erika Robb Larkins

“A favela espetacular”, livro sobre transformação das favelas em commodities, lançado nos EUA pela antropóloga Erika Robb Larkins

A favela é um dos grandes símbolos do Brasil no resto do mundo. Imagens da precariedade e da violência nesses bairros pobres, especialmente no Rio de Janeiro, marcam muito do que se pensa sobre o país no resto do planeta. Esta forma de ver o Brasil é marcada, no entanto, por um enorme paradoxo, pois ao mesmo tempo em que é associada ao Brasil, a favela é um enorme desconhecido da maioria dos estrangeiros.

Um novo livro sobre a realidade da vida, e da violência, nesses locais pode ajudar a diminuir este desconhecimento. Escrito pela antropóloga Erika Robb Larkins, professora da Universidade de Oklahoma, nos EUA, “The Spectacular Favela” (A favela espetacular) aborda o assunto buscando ir além de estereótipos.

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A antropóloga Erika Robb Larkins, autora de ‘The Spectacular Favela’

“A favela e seus problemas tornaram-se commodities para consumo, e nós precisamos ver isso como parte do problema. O consumo de crônicas da dor e do sofrimento de outros, muitas vezes sem compaixão, também é parte do problema, pois nos tornamos insensíveis aos altos níveis de violência”, disse, em entrevista ao Blog Brasilianismo.

Leia a entrevista completa abaixo

Brasilianismo – O Brasil está no topo do ranking de homicídios no mundo. Por que você acha que tantas pessoas são mortas no Brasil? O que torna o Brasil diferente de outros países?
Erika Robb Larkins – Eu só posso falar sobre o Rio, pois acredito que outras partes do país têm diferentes dinâmicas. As taxas de homicídio são influenciadas por uma confluência de fatores: a desigualdade extrema, a impunidade da polícia, a falta de vontade ou coragem política, e partes da população que suportam (abertamente ou não) a contínua marginalização daqueles que residem em favelas e que são mais frequentemente de descendência afro-brasileira.

Brasilianismo – Seu livro é uma análise etnográfica da vida nas favelas. Qual é o impacto da violência na vida das pessoas que vivem nessas situações?
Erika Robb Larkins – Em meu livro, eu tento introduzir uma concepção de violência favela que vai além da convenção típica dela como sendo apenas um local de trocas de tiros, brutalidade de traficantes, ou assassinatos da polícia em nome do Estado. Estas coisas importam, é claro, mas apenas focar nisso não é suficiente para a compreensão da dinâmica.

Além disso, gostaria de mencionar dois outros tipos de violência que afetam a vida favela:

1) Moradores de favelas são vítimas daquilo que chamamos de “violência estrutural”, que é a violência que vem da maneira pela qual as estruturas da sociedade negam às pessoas o direito de satisfazer as suas necessidades humanas básicas, como educação, saúde, saneamento básico, o direito a moradia, o direito de ter a chance de uma vida melhor. Este tipo de violência é perpétua.

2.) A favela e seus problemas tornaram-se commodities para consumo, e nós precisamos ver isso como parte do problema. Eu não quero criticar diretamente os jornalistas, mas há uma enorme quantidade de reportagens sensacionalistas em circulação sobre a violência nas favelas. Não vejo estas representações da violência na favela como representações neutras, mas sim como formas de violência em si e por si. O consumo de crônicas da dor e do sofrimento de outros, muitas vezes sem compaixão, também é parte do problema, pois nos tornamos insensíveis aos altos níveis de violência.

Brasilianismo – Críticos dizem que a polícia é parte do problema da violência. O que acha disso?
Erika Robb Larkins – Absolutamente. A polícia está precisando urgentemente de uma reforma séria, assim como os sistemas judicial e prisional. Os níveis de violência no Brasil não vão diminuir, a menos que esta importante reforma seja realizada.

Dito isto, também quero reconhecer que muitos policiais trabalham em condições muito precárias, com baixos salários. Eles também são, em certo sentido, vítimas de uma máquina maior que os vê como tão descartáveis quanto traficantes ou outros moradores da favela.

Brasilianismo – As favelas são algumas das áreas mais afetadas pelos homicídios. Por que a maior parte da violência se restringe a áreas mais pobres?
Erika Robb Larkins – As taxas de homicídios não estão uniformemente distribuídas em todo o Brasil. No Rio, as taxas no Leblon são relativamente inexistentes, enquanto elas são altas na Baixada. É muito importante compreender esta distinção, porque a ideia de que todos, em toda parte. estão “em risco” leva ao tipo de medo de favelas e de seus moradores que piora toda a situação. Se você pensar constantemente que alguém representa uma ameaça, é muito mais fácil aceitar a violência policial contra eles, por exemplo. Temos que nos afastar deste tipo de pensamento.

Brasilianismo – Violência nas favelas faz parte do estereótipo internacional do Brasil. Quanto acha que as favelas e a violência representam a realidade do Brasil?
Erika Robb Larkins – Sim, parte da favela é violência. Mas ela é muito mais do que isso. Também é pessoas honestas, trabalhadoras, que estão tentando viver uma vida melhor e criar oportunidades para seus filhos. Desta forma, se a favela pode ser entendida como esperança e resistência em face da violência e da desigualdade, então eu diria que ela representa algumas partes do Brasil muito bem. Eu não quero generalizar, pois uma das coisas que eu amo sobre o Brasil é que em todo lugar para onde olho há um Brasil diferente para conhecer.

Brasilianismo – O que acha que da forma como a favela é representada no exterior?
Erika Robb Larkins – O consenso internacional é determinado pelas representações da mídia, que muitas vezes pinta um quadro altamente parcial da vida favela, uma imagem excessivamente centrada na violência armada. Acho que muitas pessoas no exterior realmente não sabem muito o que pensar em relação às favelas.

Brasilianismo – Você acabou de viajar para o Brasil. Você se preocupa com a segurança quando está no país?
Erika Robb Larkins – Não da maneira que você pergunta, acho. Eu passo muito tempo em favelas, mas os perigos “clássicos” da violência armada não são realmente o que me afeta. O que me preocupa é sofrer um acidente de carro ou ficar doente e não ser capaz de ter cuidados médicos adequados.

Brasilianismo – Falamos muito sobre os problemas. Existe uma solução para o que acontece no Brasil hoje?
Erika Robb Larkins – Eu acredito que o investimento na educação e na saúde, e em uma maior criação de empregos nas comunidades pobres, por exemplo, contribuiria para mudar as coisas consideravelmente mais do que as políticas de “segurança”.

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