Topo

Crítico a governo, 'FT' diz que guerra à corrupção pode ser legado de Dilma

Daniel Buarque

06/08/2015 18h29

Reportagem do 'Financial Times' diz que o combate à corrupção pode ser o legado de Dilma

O combate à corrupção, a independência e a seriedade das instituições brasileiras que estão investigando e punindo os envolvidos nesses crimes têm sido os principais focos de cobertura positiva sobre o país na imprensa internacional. Em vez de mancharem a imagem do Brasil, as notícias do escândalo da Petrobras, como o Mensalão antes dele, têm criado no resto do mundo um retrato de um país que cansou de ver tudo "terminar em pizza", e que agora enfrenta o problema.

A revista de relações internacionais "Foreign Policy" recentemente elogiou os avanços na luta do Brasil contra a corrupção, indicando até a criação de mecanismos novos, como a investigação de um ex-presidente por suas atividades após deixar o governo, o que diz nunca ter acontecido no mundo. Um jornal argentino chegou até a publicar um editorial em que elogia a luta contra a corrupção no Brasil e em que torce pela expansão desta onda transparência pelo resto do continente.

O mais recente elogio à luta contra a corrupção no Brasil vem de um veículo notadamente marcado pela postura crítica em relação à situação atual do país, e em relação à política econômica do governo Dilma, o jornal britânico de economia "Financial Times", recentemente comprado pelo grupo japonês Nikkei.

Segundo o "FT", a presidente governa o país durante um declínio econômico, mas em meio ao fortalecimento das suas instituições. Para o jornal, o combate à corrupção pode se tornar o legado de Dilma para o país (mesmo considerando que o segundo mandato começou há pouco mais de seis meses, e deve durar mais de três anos).

Em uma cobertura que aborda a situação do país com regularidade, o "FT" já chamou o governo de incompetente, alegou haver hipótese de impeachment e disse que o país é responsável por criar sua própria crise econômica. Suas reportagens já disseram que o país vive um "filme de terror sem fim", já atacou altos preços, apontou as dificuldades vividas pela classe média, e não costuma elogiar as medidas do governo.

Ainda assim, a reportagem recente do jornal britânio destaca a adoção, durante o governo Dilma, de mecanismos como a delação premiada, "que podem se provar o maior legado positivo da sua presidência cheia de dificuldades", diz. As delações premiadas são até chamadas de "armas de destruição em massa contra conspirações de corrupção".

"Se isso criar uma melhora permanentemente nos sistemas legais, pode um dia até mesmo ser visto como uma conquista tão importante quanto a de seus antecessores Luiz Inácio Lula da Silva, que reduziu e pobreza, e Fernando Henrique Cardoso, que controlou a inflação", complementa.

A reportagem relata os problemas econômicos por que o Brasil vem passando, mas diz que a forma como Dilma tem lidado com a questão da corrupção é diferenciada, e destaca que até agora não há nenhuma prova de envolvimento dela em escândalos.

"Durante as investigações, Dilma tem demonstrado irritação em nome de seus camaradas acusados. Mas na maior parte das vezes ela quis assumir o crédito pela guerra contra a corrupção", diz. O jornal destaca entretanto, que as instituições que estão liderando as investigações são independentes da Presidência, e não estão agindo por influência de Dilma.

Ainda com todas as ressalvas, a postura elogiosa do "Financial Times" reforça o discurso já estabelecido na mídia internacional, elogiando os avanços institucionais do país no combate à corrupção. Em meio a um noticiário cada vez mais voltado a temas econômicos e cada vez mais negativo, ver medidas do país de hoje serem reconhecidas no resto do mundo dá um grande alívio à imagem do Brasil no resto do mundo. A economia vai mal, mas o país está melhorando através das suas instituições.

Siga o blog Brasilianismo no Facebook para acompanhar as notícias sobre a imagem internacional do Brasil

Comunicar erro

Comunique à Redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Crítico a governo, 'FT' diz que guerra à corrupção pode ser legado de Dilma - UOL

Obs: Link e título da página são enviados automaticamente ao UOL

Ao prosseguir você concorda com nossa Política de Privacidade

Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.

Mais Posts