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Ação de Temer contra Janot reforça comparação entre Brasil e Venezuela
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Daniel Buarque

Ação de Temer contra Janot reforça comparação entre Brasil e Venezuela

Dois dias depois de o governo brasileiro condenar a destituição da procuradora-geral da Venezuela, Luisa Ortega, e classificar a medida como “arbitrária e ilegal”, o presidente Michel Temer pediu nesta terça-feira (8) a suspeição –e impedimento– do procurador-geral brasileiro, Rodrigo Janot.

Ainda que com pesos diferentes, e com mais instâncias e instituições mais independentes no caso brasileiro, a medida pode reforçar a comparação que alguns analistas estrangeiros fazem entre os dois países em crise, pesando de forma negativa na imagem do Brasil, que pode ser percebido como menos democrático.

A tese de que os dois países, embora em realidades diferentes, vivem situações que podem ser comparáveis, foi defendida recentemente pela professora de política e relações internacionais da Universidade de Aberdeen, na Escócia, Andrea Oelsner.

Para ela, 30 anos depois do fim das várias ditaduras da América do Sul, a região ainda está lutando para consolidar suas instituições democráticas.

“O Brasil e a Venezuela estão lidando com as consequências da corrupção política maciça e, com isso, as promessas não entregues pela democracia. Ambos sofrem não apenas de funcionários corruptos individuais, nem mesmo de governoscorruptos, mas corrupção estrutural permeando seus sistemas políticos de cima para baixo”, disse a pesquisadora em artigo publicado no site “The Conversation”.

A comparação entre os dois países não é exatamente nova, mas antes costumava ser feita para favorecer a imagem do Brasil, afastando-o da realidade caótica da Venezuela.

Isso ficou evidente em julho, quando o “New York Times” e o “Guardian” trocaram de correspondentes no país, e os jornalistas que saíram do Brasil se despediram com relatos sobre sua experiência no país. Nos dois casos, a Venezuela foi citada como uma referência para que se pensasse os problemas brasileiros como menos graves.

Simon Romero, que era correspondente do “New York Times” no Brasil desde 2011 e deixou o país na semana passada, morou em Caracas antes de se mudar para o Rio de Janeiro. Enquanto o Brasil se afundava em crise e via crescer uma forte polarização política, ele olhava para o que vivenciou na Venezuela, e acabava achando que as coisas não iam tão mal no Brasil.

Relato bem parecido é o de Jonathan Watts, ex-correspondente do jornal britânico “The Guardian” no Brasil, que também deixou o país neste mês. Em seu texto de despedida da América Latina após cinco anos atuando no Brasil, contou que foi apontado pelo ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, que o chamou de “gringo”.

Apesar das comparações, e da possível aproximação a partir do pedido de Temer contra Janot, os dois países ainda estão claramente em situações diferentes.

Desde a instalação da controversa Assembleia Constituinte da Venezuela, cresceram as críticas à falta de democracia no país, e a destituição da procuradora só aumentou estas vozes contrárias.

O próprio Janot falou sobre o assunto em entrevista à “Folha”, alegando que “isso não é uma democracia.”

“Lastimável que no século 21 um país trate o Ministério Público dessa maneira. (…) É inconcebível que um órgão de controle sofra esse tipo de retaliação em um país que se diz democrático”, disse.

A discussão sobre democracia no Brasil e na Venezuela ganhou espaço de forma irônica no site da rede venezuelana (chavista) Telesur, que acusou Temer de aderir ao lema “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

“Presidente não eleito do Brasil diz que a Venezuela não é uma ‘democracia'”, diz o título da reportagem.

“Quando você pensa que um presidente imposto pelo Senado e com a popularidade no fundo do poço não tem o conceito de práticas democráticas, o presidente do Brasil declara que a Venezuela vai ser recebida de volta ao Mercosul quando voltar à ‘democracia'”, diz o texto. Em seguida, a Telesur reforça que o governo da Venezuela realiza frequentemente eleições democráticas, enquanto o próprio Temer não foi eleito para a Presidência.

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Para cientista política, crise no Brasil se parece com a da Venezuela
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Daniel Buarque

Para cientista política, crises políticas de Brasil e Venezuela se parecem

As imagens de caos em protestos quase diários e a convocação de uma Assembleia Constituinte na Venezuela podem dar a impressão de que o país vive uma situação muito diferente da aparente apatia dos brasileiros diante da sua própria crise. Mas, na opinião da professora de política e relações internacionais da Universidade de Aberdeen, na Escócia, Andrea Oelsner, os dois países vivem situações mais parecidas do que se pensa.

“Por mais diferentes que essas duas crises monumentais possam parecer, elas realmente têm muito em comum, e as semelhanças nos dizem uma ou duas coisas sobre o estado da democracia e da política na América Latina em geral”, diz Oelsner, em artigo publicado no site “The Conversation”.

Para ela, 30 anos depois do fim das várias ditaduras da América do Sul, a região ainda está lutando para consolidar suas instituições democráticas.

“O Brasil e a Venezuela estão lidando com as consequências da corrupção política maciça e, com isso, as promessas não entregues pela democracia. Ambos sofrem não apenas de funcionários corruptos individuais, nem mesmo de governos corruptos, mas corrupção estrutural permeando seus sistemas políticos de cima para baixo.”

A professora reconhece que a situação da Venezuela é muito mais grave, com mais de cem mortos em protestos muito violentos, mas alega que os dois governos empregaram os militares para tentar conter manifestantes de oposição.

Ela ressalta ainda que, apesar da situação complicada, há sinais de que a era da impunidade pode chegar ao fim. “Tanto o judiciário brasileiro quanto o venezuelano estão tomando medidas críticas para controlar pelo menos alguns dos excessos de seus governos.”

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Jornal venezuelano denuncia uso de armas brasileiras pela repressão no país
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Daniel Buarque

Jornal venezuelano denuncia uso de armas brasileiras pela repressão no país

Armas produzidas por uma empresa brasileira estão sendo usadas continuamente para reprimir manifestantes que protestam contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela, denuncia uma reportagem publicada pelo jornal local “El Universal”.

A revelação foi feita pelo periódico um dia após a morte de mais um manifestante em Caracas. Segundo a publicação, entre 67 pessoas (dados do Ministério Público) e 91 pessoas (dados de várias ONGs) foram mortas desde abril em mais de 80 dias de protestos na Venezuela. Essas manifestações sofrem forte repressão da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e da Polícia Nacional Bolivariana (PNB).

“Empresa brasileira Condor tem fornecido bombas de gás lacrimogêneo à Venezuela desde 2012. Estas compras transformaram a Venezuela em seu quarto maior cliente em volume e quantidade de compras. A mercadoria adquirida foi usada para dispersar protestos pacíficos na Venezuela”, diz a reportagem.

A empresa brasileira Condor Non-Lethal Technologies, com sede no Rio de Janeiro, reconheceu, em reportagem da agência de notícias Associated Press, que está fornecendo gás lacrimogêneo às forças de segurança venezuelanas. Depois que líderes da oposição apresentaram um documento demonstrando a compra de latas de gás lacrimogêneo pelas Forças Armadas, a Condor confirmou que está cumprindo dois contratos no país.

Segundo o “El Universal”, semanas atrás o presidente Michel Temer havia suspendido o envio de uma compra de mais de 150 mil bombas da Condor pelo governo de Maduro, mas a empresa disse que não recebeu uma ordem para suspender as vendas.

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Imprensa da Venezuela trata visita de brasileiros como ‘crônica do absurdo’
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Daniel Buarque

Capa do jornal venezuelano 'El Nacional', com destaque para a visita dos senadores brasileiros

Capa do jornal venezuelano ‘El Nacional’, com destaque para a visita dos senadores brasileiros

A visita frustrada de um grupo de oito senadores brasileiros a Caracas, para se reunir com opositores do governo de Nicolás Maduro, foi chamada de “crônica do absurdo” pelo jornal venezuelano “El Nacional”. A publicação criticou a manutenção de túneis, que causou trânsito no transporte dos senadores do aeroporto à capital, e a ação hostil de “simpatizantes do governo”.

Uma outra crítica mais séria ao caso foi publicada de forma indireta no jornal “El Universal”. O periódico publicou uma entrevista com a mulher do prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma, Mitzy Capriles Ledezma, que chamou o caso de insólito e disse que “os senadores viveram a violência que nós sofremos diariamente”.

Apesar do tom crítico das duas publicações, a imprensa venezuelana parece ter dado muito menos atenção à viagem dos senadores brasileiros a Caracas de que a mídia brasileira.

Até a manhã desta sexta-feira (19), apenas o “El Nacional”, entre as principais publicações do país, tinha algum posicionamento claro sobre o ocorrido, com destaque para o caso na capa do jornal. Os outros veículos de imprensa, incluindo jornais críticos ao governo, se limitaram a relatar o ocorrido e mencionar que o Itamaraty publicou uma nota alegando que vai pedir explicações ao governo da Venezuela.

O cerco do governo do país à imprensa é um problema antigo, e parte do que gera críticas à falta de democracia. Mesmo sem haver uma censura oficial do Estado, a mídia local sofre com pressões políticas e econômicas quando fazem oposição, o que ocorre desde a época em que Hugo Chávez era presidente. No caso da atual cobertura atual, o tom percebido soa mais próximo do desinteresse pelo caso. Não foram publicados na grande imprensa local relatos de repórteres que tivessem acompanhado a comitiva dos senadores e pudessem explicar o que realmente aconteceu. Todo o relato foi construído com base no relato dos políticos que estavam presentes no momento das hostilidades.

Baseado apenas nos relatos da visita na imprensa mundial, é difícil ter uma noção exata do tamanho da repercussão que vai ter a visita frustrada dos brasileiros para a diplomacia regional. Em todos os casos, parece haver falta de profundidade analítica ou de distanciamento ideológico para entender o que de fato aconteceu e quais devem ser as consequências.

O relato do caso no resto da imprensa internacional também foi burocrático. Agências de notícias se limitaram a publicar as informações básicas e a citar declarações dos políticos do Brasil e da oposição venezuelana, além de mencionar outros casos de visitas frustradas de líderes estrangeiros à oposição do país.

Segundo reportagem da “Folha”, o vice-presidente da Venezuela, Jorge Arreaza, enviou à mulher de um líder da oposição do país mensagens de texto debochadas sobre a visita dos brasileiros. “Se os senadores estão aqui, é porque não têm muito trabalho por lá”, disse.

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