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Arquivo : Mathilde Chatin

Expansão do Brasil no mundo foi ‘ponto fora da curva’, segundo pesquisadora
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Daniel Buarque

A chanceler alemã, Angela Merkel, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (centro) e o presidente norte-americano, Barack Obama (à dir.), conversam durante a cúpula do G20, em Pittsburgh (EUA)

A retração da presença brasileira no cenário global nos últimos anos e o encolhimento da diplomacia do Itamaraty são reflexo de perda de força do Brasil no exterior por conta das crises no país. Esta retração tem causas políticas e econômicas, mas se torna mais perceptível por conta do período de expansão excepcional registrado durante os anos anteriores, especialmente durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva.

A avaliação foi feita pela pesquisadora Mathilde Chatin, que estudou a busca do Brasil pelo status de potência global e sua inserção internacional independente do seu poder militar em seu doutorado, completado no primeiro semestre no King’s College de Londres.

Para ela, a perda de força do Brasil é reflexo de uma retração visível da política externa brasileira no período mais recente em comparação com os anos do governo Lula, mas ela também acredita que o período de expansão é que foi exceção no histórico desta inserção global do país.

A pesquisadora Mathilde Chatin

“O contexto econômico e político que os sucessores enfrentaram foi drasticamente diferente do qual o Presidente Lula beneficiou. Pode ser que aquele período tenha sido um ‘ponto fora da curva’, que se regularizou com seus sucessores – inclusive por falta de interesse em política externa da Presidente Dilma Rousseff e uma diplomacia presidencial menos intensa”, disse.

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As crises políticas e econômicas pelas quais o Brasil passa atualmente afetam o andamento da política externa brasileira e da projeção internacional do país de forma mais ampla, até porque geram cortes no orçamento do Ministério das Relações Exteriores e da Defesa, segundo ela.

Apesar do encolhimento da força brasileira, Chatin defende que o potencial do soft power em colocar o Brasil como potencial emergente no mundo ainda existe. “É a forma mais efetiva para a inserção brasileira”, disse.

Brasilianismo – Como as crises política e econômicas afetam as relações internacionais do Brasil?

Mathilde Chatin – As crises política e econômica afetam o andamento da política externa. Cortes no orçamento do Ministério das Relações Exteriores e da Defesa têm impacto sobre o funcionamento das embaixadas, e diplomatas brasileiros comentam sobre a incapacidade de atender custos básicos (contas e salários) e impedidos de fazer o trabalho regular (atividades, eventos e convites importantes). Afetam também o financiamento de projetos de cooperação para o desenvolvimento, e o financiamento para projetos de defesa em andamento ou planejamento também tem dificuldades.

O Brasil acumulou dívidas com várias organizações internacionais e ultimamente perdeu seu direito a voto na Corte Penal Internacional e a Agência Internacional de Energia Atómica.

Brasilianismo – Acha que pode-se falar em encolhimento da presença do país no mundo nos últimos anos?

Mathilde Chatin – o caso do G20 é um exemplo de grande visibilidade do efeito da crise política sobre as relações internacionais do Brasil, assim como do seu posicionamento hesitante em grandes debates globais onde o papel do país é estrategicamente interessante.

O Presidente teve uma presença desbotada no G20, na Alemanha: não estava no programa porque tinha anunciado o cancelamento da viagem para aquela reunião; não realizou nenhum encontro bilateral, já que lideres interessados em se reunir com Temer remanejaram suas agendas; no meio da crise interna, voltou ao Brasil depois de apenas 30 horas e perdeu o ultimo almoço com seus pares.

O professor Oliver Stuenkel fez uma comparação interessante entre o ano 2009 e aquele G20 no qual a capacidade do Brasil de priorizar sua atuação externa e ajudar a moldar uma transformação profunda do sistema internacional através a emergência de um mundo menos centrado no Ocidente.

Oito anos atrás, o Brasil estava se consolidando como uma potência diplomática global durante as duas primeiras cúpulas presidenciais do G20, até negociar um aumento de sua representação no FMI com os outros BRICs. No mesmo ano, a primeira cúpula presidencial do BRICs ocorreu em Ecaterimburgo, refletindo um deslocamento histórico para as potências emergentes.

Brasilianismo – O governo de Dilma Rousseff foi muito criticado por não priorizar o trabalho da diplomacia brasileira. Temer assumiu com promessa de mudar isso, mas parece não ter conseguido avançar a agenda de política externa do Brasil. Como você avalia esta mudança desde Lula e o momento atual da diplomacia brasileira?

Mathilde Chatin – O Brasil experimentou uma retração visível da sua política externa no período mais recente em comparação com os anos do governo Lula, limitando o poder de atuação do país no contexto internacional.

O contexto econômico e político que os sucessores enfrentaram foi drasticamente diferente do qual o presidente Lula se beneficiou –obriga a dedicar mais intenção as dificuldades domesticas que reduzem severamente os recursos para manter um vigoroso engajamento internacional.

O período do presidente Lula também deu um forte impulso ao objetivo firme de inserir o Brasil no contexto internacional com uma política externa ambiciosa e um passo hiperativo.

Pode ser que aquele período tenha sido um “ponto fora da curva” que se regularizou com seus sucessores –inclusive por falta de interesse em política externa da Presidente Dilma Rousseff e uma diplomacia presidencial menos intensa.

Brasilianismo – O “soft power” tem sido usado para compreender a ascensão diplomática do Brasil no mundo no século XXI, mas o Brasil acabou de cair 5 posições (da 24ª para a 29ª) no ranking mais recente de soft power da Portland (soft power 30). O que explica isso?

Mathilde Chatin – Em primeiro lugar, estudiosos estão de acordo sobre o fato de que é difícil medir o poder. Ainda assim, se você olhar aqueles critérios usados pela Portland: um deles é “governo”, então crise política com vários casos de corrupção de grande visibilidade talvez tenha um impacto sobre a imagem do Brasil como ator confiável e deve ter afetado o resultado.

A avaliação também considera “engajamento”, e o menor ativismo internacional (em particular ao nível da diplomacia presidencial) e atuação mais apagada do Brasil no nível global podem ter afetado o resultado.

Brasilianismo – Sem soft power, o que sobraria como forma de o Brasil se colocar como uma potência emergente no mundo?

Mathilde Chatin – o potencial do soft power em colocar o Brasil como potencial emergente no mundo ainda existe e é a forma mais efetiva para aquela inserção brasileira, inclusive valores e princípios que tem defendido no cenário internacional (uso não excessivo da força, busca de soluções diplomáticas e investimento no desenvolvimento, multilateralismo, etc.) e a realidade que é importante demais como membro dos BRICS para ser ignorado em grandes discussões internacionais. O que talvez falte é uma maior afirmação daquele soft power no período mais recente.

Brasilianismo – Acha que este processo de encolhimento pode desfazer as conquistas internacionais do país do início do século?

Mathilde Chatin – Em uma entrevista, o ex-ministro da Defesa e das Relações Exteriores Celso Amorim comentou afirmou que “Brasil não pode desperdiçar seu soft power” e comentou: “Você não pode decepcionar, porque aquilo que você leva dez anos para criar –uma confiança, uma relação– você com um ato pode perder. Depois pode recuperar, mas dá muito trabalho recuperar”. Acho que é um bom resumo do risco.

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