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Greves ampliam instabilidade e ameaçam confiança internacional no Brasil
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Daniel Buarque

A semana de caos nacional por conta da greve de caminhoneiros e do desabastecimento nas principais cidades do país dominou a atenção nos últimos dias. No resto do mundo, o noticiário foi em sua maior parte errático e pouco analítico, indicando a dificuldade em entender e interpretar o que aconteceu no Brasil.

Em conversas informais durante a conferência anual da Latin American Studies Association (LASA), em Barcelona, a principal sensação era de que o país mergulhou numa instabilidade profunda, o que aumenta as incertezas dos outros países em relação ao Brasil e ameaça a confiança no país –base para qualquer acordo político ou comercial em relações exteriores.

A situação da reputação brasileira já vem mal há muito tempo por conta das crises política e econômica, e da grande incerteza em torno da eleição presidencial deste ano. Ainda assim, a greve e o clima “apocalíptico” gerado por ela mostra uma fragilidade ainda maior da ordem do país, o que é uma ameaça ainda maior para esta confiança externa.

Enquanto os problemas internos dominam a atenção do Brasil, o mundo tateia tentando entender a situação confusa do que acontece no país. A imagem internacional do Brasil se consolida cada vez mais como confusa e instável, o que afasta o interesse em novos acordos.

Do ponto de vista de negociações internacionais, tudo o que países parceiros econômicos e políticos do Brasil querem é que o país entregue o que for acordado –estabilidade gera confiança, e amplia os negócios e parcerias. A relação com a China, por exemplo, depende de o Brasil ser capaz de entregar, dentro do prazo, o que vende para o país. Quando isso não acontece, negócios futuros serão repensados e talvez os compradores busquem outros fornecedores mais confiáveis.

Quando uma greve assim para o abastecimento interno, criando sérios problemas no cotidiano dos brasileiros, impede também o escoamento de mercadorias para o resto do mundo, o que acaba com atrasos e falhas no cumprimento de contratos e torna o país pouco confiável –e a confiança na entrega é chave para essa relação.

Uma reportagem publicada pela agência de notícias Reuters tocou neste ponto com destaque. Logo no início da greve, o texto dizia que os motoristas “bloquearam rodovias e portos por todo o Brasil, (…) ameaçando reduzir a velocidade da entrega de grãos e outros bens para os mercados doméstico e de exportação”.

“O Brasil é um fornecedor-chave de grãos, carnes, café, açúcar, óleo e minério de ferro –cuja maioria chega aos portos por rodovias”, explica a Reuters.

Ainda pensando do ponto de vista da imagem do país e de como a greve pode afetar as relações internacionais do Brasil, o foco principal das conversas com especialistas que observam o país de fora apontam para a necessidade de que o país retome o rumo da estabilidade, para reconquistar a confiança.

O importante para os parceiros no exterior é a perspectiva de saber o que vai acontecer no país, e por mais confusa que seja a situação política no ano eleitoral, o respeito às regras do jogo é um dos pontos centrais para esta confiança. Enquanto a instabilidade dominar o país, e enquanto houver movimentos autoritários ameaçando a ordem política, vai ser difícil conseguir retomar a confiança do resto do mundo.

Apesar de uma cobertura um tanto limitada na imprensa internacional, na “Folha” desta segunda o colunista Nelson de Sá resume bem os principais enfoques da mídia estrangeira a respeito da greve: “No título do francês Le Monde, ‘Brasil faz intervir o exército para frear a greve dos caminhoneiros’. Também em destaque, ‘Mensagem autoritária sublinha fragilidade de governo historicamente impopular’”.

Ainda da coluna Toda Mídia: “O Wall Street Journal, sob o enunciado ‘Brasil chama militares depois que caminhoneiros desafiam acordo’, publicou que a decisão veio ‘apenas três meses depois de também ter chamado os militares para enfrentar uma crise de segurança no Rio’. No Washington Post, ‘um estado de espírito apocalíptico varreu São Paulo” e outras, deixando ruas vazias e levando o governo a “ordenar que militares rompessem a greve’, sem sucesso. O jornal ouviu, de um motorista na fila de um posto paulistano, que o Brasil se tornou Venezuela.

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