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Blog do Brasilianismo

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Após um mês, Bolsonaro é alvo de críticas estrangeiras, mas empolga Mercado

Daniel Buarque

03/02/2019 07h44

A tragédia de Brumadinho e a divulgação de imagens impressionantes que mostram o rompimento da barragem em Minas Gerais dominaram a atenção da imprensa estrangeira em relação ao Brasil nos últimos dias. Enquanto o presidente Jair Bolsonaro se recuperava de uma cirurgia, o noticiário sobre o desastre acabou ofuscando balanços que analisavam com olhar externo o primeiro mês do novo governo.

A avaliação internacional dos primeiros 31 dias de Bolsonaro no poder mistura otimismo do Mercado em relação à economia, preocupação com a saúde da democracia e da diplomacia brasileiras, e reflexos dos primeiros escândalos que cercam a família do presidente. Enquanto a imprensa estrangeira de economia fala na chance de o Brasil voltar a ser o "queridinho" do Mercado, jornais mais críticos dizem que denúncias de corrupção revelam "cheiro de sujeira" no Planalto.

"Brasil reivindica status de queridinho dos mercados emergentes entre os investidores em meio a nova liderança", diz o título de uma reportagem publicada pela rede de economia dos EUA CNBC, resumindo o sentimento do Mercado internacional em relação ao primeiro mês do governo Bolsonaro.

Segundo a publicação, as ações brasileiras se tornaram um dos destinos favoritos de Wall Street para investir neste ano, enquanto investidores apostam em grandes mudanças no país. "Os investidores comemoram a possibilidade de reformas importantes serem aprovadas pelo novo presidente, incluindo a reforma da Previdência", diz.

Segundo analistas ouvidos pela CNBC, Bolsonaro está "acertando todas as notas que o mercado quer ouvir há anos. É por isso que eu acho que a reação do mercado tem sido tão positiva".

Este tom de otimismo foi frequente na mídia voltada ao Mercado desde antes mesmo da posse de Bolsonaro, e tem alavancado uma onda mais positiva em relação ao presidente enquanto a maioria das análises externas adota uma postura muito crítica em relação ao novo governo do Brasil.

Ao longo de todo o mês, grandes veículos de imprensa internacionais publicaram várias reportagens e análises criticando retrocessos e medidas vistas como problemáticas no país. O jornal americano The New York Times publicou um editorial logo nos primeiros dias criticando a falta de coerência e a ameaça do novo governo para minorias. "Um ano fatídico começou para o Brasil", dizia.

Além do próprio presidente, o olhar externo se voltou de forma crítica também contra o chanceler Ernesto Araújo e a mudança na postura do Brasil em sua política externa. Para observadores estrangeiros, o país começava a dar as costas ao mundo, e colocava em risco o seu soft power.

Apesar do otimismo com a economia, o tom crítico se repetiu também após a participação de Bolsonaro em Davos. Por mais que tenha havido alguma reação positiva sobre o anúncio do presidente de que pretendia "abrir o Brasil", a cobertura estrangeira tratou do discurso dele no Fórum como um fiasco, sem oferecer nada de concreto sobre planos reais para a economia brasileira.

Enquanto o governo chegava ao primeiro mês, entretanto, a atenção começou a se voltar para as denúncias de corrupção envolvendo seu filho, o senador Flávio Bolsonaro. Segundo reportagem publicada no jornal britânico The Guardian, o caso revela "cheiro de sujeira" em torno do presidente.

Apesar do discurso anticorrupção que ajudou Bolsonaro a ser eleito, as denúncias já levam muitos a questionar a honestidade do novo governo, segundo a publicação. "Enquanto suspeitas de armações políticas e laços com o crime organizado pairam sobre um dos filhos de Bolsonaro, alguns partidários começam a se preocupar com o começo desordenado de seu líder no poder", diz.

Segundo o Guardian, "apesar de os índices de aprovação de Bolsonaro e a confiança do consumidor continuarem altos, especialistas dizem que o estrago já foi feito."

Para o jornal de economia Financial Times, escândalos de corrupção em torno do presidente podem ameaçar as reformas que o Mercado espera ansiosamente e que geram algum otimismo em torno do governo.

A avaliação negativa aparece com destaque também em balanço do primeiro mês do governo publicado pela rede árabe Al Jazeera. "Como foi Bolsonaro em seus primeiros 30 dias no cargo? Nada bem", resume o título da reportagem.

"Trinta dias depois do início do seu mandato, Bolsonaro ainda não parece ter um plano de ação claro que lhe permita manter sua popularidade, manter todos os seus partidários felizes e mudar a sorte da maior economia da América Latina. Como resultado, apesar das pesquisas de opinião favoráveis e de um índice de ações que atingiu níveis recordes, a base de direita unida que deu à presidência de Bolsonaro parece estar se desintegrando lentamente", avalia.

Mesmo com todo o tom crítico em relação ao primeiro mês do novo governo, Bolsonaro inicialmente conseguiu escapar da cobertura negativa sobre o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho. Enquanto o processo de licenciamento ambiental e regulamentação de mineradoras no Brasil está sendo atacado por todos os lados, e por mais que seja frequente a lembrança de que o presidente se posicionou por menos regulamentação, o governo não foi responsabilizado de forma direta pelo desastre. Ainda assim, considerando que a tragédia de Mariana pesou muito negativamente contra a imagem da então presidente Dilma Rousseff, as reações de Bolsonaro sobre o caso devem continuar sendo monitoradas ao longo das próximas semanas.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Daniel Buarque vive em Londres, onde faz doutorado em relações internacionais pelo King's College London (em parceria com a USP). Jornalista e escritor, fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute da mesma universidade inglesa. É autor do livro “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e do livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners, além de outros quatro livros. Escreve regularmente para o UOL e para a Folha de S.Paulo, e trabalhou repórter do G1, do "Valor Econômico" e da própria Folha, além de ter sido editor-executivo do portal Terra e chefe de reportagem da rádio CBN em São Paulo.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.