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Palestra em Londres já discute como será o governo de Bolsonaro

Daniel Buarque

18/10/2018 10h05

Para um grupo de acadêmicos estrangeiros e do Brasil reunidos em Londres para avaliar o cenário político brasileiro a menos de duas semanas do segundo turno das eleições presidenciais, a disputa já parece decidida a favor de Jair Bolsonaro.

Durante um debate sobre as eleições realizado pelo Brazil Institute do King's College London na noite de quarta, o tom da discussão se deu mais em torno do comportamento do eleitorado brasileiro e da perspectiva para o novo governo a partir do próximo ano. A possibilidade de uma virada nas pesquisas de intenção de voto a favor de Fernando Haddad sequer foi cogitada.

"Bolsonaro deve vencer por conta da insatisfação dos brasileiros com a ordem política estabelecida desde 1988", disse Matias Spektor, professor da FGV. A diferença mostrada pelas pesquisas de intenção de voto indica que ele tem uma "liderança inalcançável", disse o professor Timothy Power, de Oxford.

Um dos pontos centrais do debate foi a participação do pesquisador brasileiro Spektor, que apresentou uma tese semelhante à discutida em sua coluna desta quinta-feira na Folha. Para ele, os modelos de países em situação parecida com a do Brasil sob Bolsonaro são as Filipinas de Rodrigo Duterte, a Turquia de Recep Erdogan, e os EUA de Donald Trump.

"O cenário de Bolsonaro seguir o modelo Trump é o melhor para o Brasil", disse, analisando que assim pode haver um governo populista, mas sem destruição total da democracia, enquanto os outros modelos representariam um aumento maior do autoritarismo.

O problema, segundo Spektor, é que o Brasil ainda tem muitos desafios econômicos pela frente, o que diferencia o país da situação dos EUA. "O mais provável é que Bolsonaro invente um estilo próprio de governar, e é preciso estar atento à manutenção do estado de direito", disse.

"Bolsonaro vai vencer argumentando que vai mudar tudo na política, mas não diz como vai fazer isso num sistema que tronq necessário formas uma coalizão para governar. A forma como ele vai lidar com o Congresso e com interesses corporativos vai indicar o futuro da democracia no Brasil", disse.

Em sua avaliação, entretanto, se Bolsonaro decidir seguir um rumo de autoritarismo, as instituições brasileiras não são fortes o suficiente para impedir isso.

Segundo Timothy Power, da universidade de Oxford, é possível prever que o governo de Bolsonaro comece parecendo com o que foi feito por Fernando Collor em 1990. "No início ele pode se cercar de tecnocratas e temtar governar de forma diferente, mas acho que quando começar a enfrentar dificuldades políticas, vai voltar a se aliar aos mesmos nomes de sempre, o centrão, sem trazer muito de novo", avaliou.

O novo Congresso, avaliou Power, mantém o perfil de fragmentação que dificulta a formação de uma coalizão para governar.

O professor de Oxford analisou pesquisas que indicam que o maior apoio recebido por Bolsonaro foi de pessoas mais ricas e especialmente as mais escolarizadas. "Bolsonaro gosta de dizer que ad universidades são fábricas de esquerdopatas, mas ele está se dando muito bem com os ex-alunos delas."

A pesquisadora Fiona Macauley, de Bradford, também participou do evento, e destacou o quanto o Congresso brasileiro vai ter o aumento de dois contingentes que se tornarão mais fortes na política brasileira. A bancada da bala, formada por policiais e militares, cresceu, assim como a presença de mulheres entre os congressistas — que ela chamou de "efeito Marielle".

Para ela, essa foi uma campanha marcada pela mobilização em torno do pânico sobre questões de gênero e sobre o desgosto moral. "As pessoas votam com base em emoções, e o nojo moral é uma emoção forte."

Em uma discussão sobre a história recente do país e as perspectivas de futuro, os pesquisadores indicaram que, mesmo derrotado, o PT tem mais chances de se recuperar do que o PSDB. "Teria sido muito melhor para o PT ter perdido as eleições em 2014. Este seria o ano deles, mas a estratégia deu errado", disse Power.

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Sobre o Autor

Daniel Buarque é jornalista, escritor e fez mestrado sobre a imagem internacional do país pelo Brazil Institute do King's College de Londres. É autor de cinco livros, incluindo “Brazil, um país do presente - A imagem internacional do ‘país do futuro’” (Alameda Editorial) e escreveu o livreto “Brazil Now” da consultoria internacional Hall and Partners. Nascido no Recife, escreve regularmente para o UOL e já trabalhou como editor-executivo do portal Terra, chefe de reportagem da rádio CBN, pauteiro de Mundo da Folha de S. Paulo e repórter do Valor Econômico e do G1.

Sobre o Blog

O Brasil é citado mais de 200 vezes por dia na mídia internacional. Essas reportagens e análises estrangeiras ajudam a formar o pensamento do resto do mundo a respeito do país, que tem se tornado mais conhecido e se consolidado como um ator global importante. Este blog busca compreender a imagem internacional do Brasil e a importância da reputação global do país a partir o monitoramento de tudo o que se fala sobre ele no resto do mundo, seja na mídia, na academia ou mesmo e conversas na rua. Notícias, comentários, análises, entrevistas e reportagens sobre o Brasil visto de fora.