Brasilianismo

Judith Butler: Protestos contra palestra foram ‘movidos pela ignorância’

Daniel Buarque

Judith Butler: Protestos contra palestra foram 'movidos pela ignorância' (Bruno Santos/Folhapress)

Alvo de uma série de protestos durante sua passagem pelo Brasil, a filósofa norte-americana Judith Butler disse que os manifestantes que a atacaram no país foram movidos pela ignorância. Em uma entrevista ao site ''Inside Higher Ed'', Butler comentou a controvérsia da sua visita ao Brasil, e disse que as pessoas que se mobilizaram contra ela não conhecem e não entendem seu trabalho.

Segundo Butler, apesar de a conferência de que ela participou ter tido discussões de alto nível, do lado de fora o clima foi perturbador.

''É motivo de preocupação ver tantas pessoas movidas pela ignorância, opondo-se a uma teoria que de modo algum se assemelha à caricatura que fazem dela e queimando de efígies, lembrando a horrenda tradição de queimar dissidentes como 'bruxas''', disse.

Para ela, os manifestantes querem defender um Brasil ''como um lugar onde as pessoas LGBTQ não são bem-vindas, onde a família permanece heterossexual (então sem casamento gay), onde o aborto é ilegal e a liberdade reprodutiva não existe. Eles querem que meninos sejam meninos e meninas sejam meninas e que não haja complexidade em questões como estas. O esforço é antifeminista, antitrans, homofóbico e nacionalista. Desta forma, eles se assemelham às formas de neofascismo que vemos emergir em diferentes partes do mundo. '', disse.

Butler explicou que antes mesmo da sua viagem ao Brasil uma petição já pedia o cancelamento da sua palestra, assumindo que falaria sobre questões de gênero, ''já que a suposição era de que sou a criadora da 'ideologia do gênero''', disse.

''Essa ideologia, que é chamada de 'diabólica' por esses oponentes, é considerada uma ameaça para a família. Não parece haver nenhuma evidência de que aqueles que se mobilizaram nessa ocasião tenham qualquer familiaridade com o meu texto ''Gender Trouble'', publicado em 1989. Mas eles dizem que ele promove a ideia de que qualquer pessoa pode escolher o gênero que quiser, que não há leis naturais ou diferenças naturais e que tanto a base bíblica como científica para estabelecer as diferenças entre os sexos seria, ou já, é destruída pela teoria atribuída a mim'', disse. ''É claro que, estudos de gênero e teoria de gênero revelam-se, na realidade, um campo muito mais complexo e não conheço ninguém dentro desse campo que detém o tipo de posição que me foi atribuída''

''O objetivo da teoria era oferecer mais linguagem e reconhecimento àqueles que se descobriram ostracizados porque não confirmaram as idéias restritivas do que significa ser homem ou mulher. Mas essa teoria nunca negou a existência de restrições e, como eu desenvolvi nos últimos anos, procurei mostrar como serviu ao propósito moral de criar uma vida mais viável para todas as pessoas que abrangem o espectro de gênero ''.

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