Brasilianismo

Venezuela e China ajudam a melhorar imagem do Brasil entre correspondentes

Daniel Buarque

Comparação com crise na Venezuela faz problemas do Brasil parecerem menores para correspondentes

A comparação com quem está pior costuma ajudar o Brasil na projeção da sua imagem internacional.

A partir do relato um tanto melancólico de dois ex-correspondentes estrangeiros que se despediram do país após longo período cobrindo notícias brasileiras, o referencial de dificuldades enfrentadas em países como China e Venezuela faz com que os problemas do Brasil pareçam pequenos em perspectiva global.

Simon Romero, que era correspondente do “New York Times” no Brasil desde 2011 e deixou o país na semana passada, morou em Caracas antes de se mudar para o Rio de Janeiro. Enquanto o Brasil se afundava em crise e via crescer uma forte polarização política, ele olhava para o que vivenciou na Venezuela, e acabava achando que as coisas não iam tão mal no Brasil.

“Antes de chegar ao Brasil em 2011, passei cinco anos em Caracas, cobrindo principalmente a evolução política na Venezuela. A polarização certamente aumentou no Brasil durante o impeachment de Dilma Rousseff, mas, felizmente, o Brasil permanece menos dividido como uma sociedade do que a Venezuela”, disse Romero em entrevista ao blog Brasilianismo.

O mesmo argumento vale para sua experiência com hostilidades enfrentadas por trabalhar como jornalista estrangeiro no país. Questionado se sofreu algum tipo de pressão enquanto atuava no Brasil, Romero lembrou de ter sido criticado publicamente pelo governo Venezuelano, o que o fez achar o Brasil muito mais tranquilo.

“Felizmente, talvez eu tenha aprendido mais sobre a hostilidade em relação à mídia na Venezuela. Houve momentos em que eu fui criticado na televisão estatal ou em particular pelos ministros ou publicamente em sites associados ao governo, e isso às vezes era desconfortável”, contou.

Relato bem parecido é o de Jonathan Watts, ex-correspondente do jornal britânico “The Guardian” no Brasil, que também deixou o país neste mês. Em seu texto de despedida da América Latina após cinco anos atuando no Brasil, ele contou que foi apontado pelo ex-presidente venezuelano Hugo Chávez, que o chamou de “gringo”.

O artigo de Watts faz muita referência comparativa entre o Brasil e a China, onde ele morou antes de se mudar para o Rio de Janeiro. Em alguns momentos o tom é mais negativo para o Brasil, pois ele compara a ascensão ininterrupta da China à crise profunda em que o Brasil se encontra. Ao tratar do seu trabalho como jornalista, entretanto, o Brasil aparenta ser um país muito mais livre e democrático.

Ele comenta o contraste entre a vida na China e no Brasil, desde o contato com a natureza e as belezas do Rio de Janeiro à facilidade em ter acesso a líderes políticos do país, o que não havia na China.

''Depois dos Estados comunistas do Leste Asiático, a abertura e acessibilidade dos líderes democráticos da América Latina foram um choque bem-vindo'', diz.

Esta comparação com problemas de outros países há anos ajuda o Brasil a consolidar sua imagem positivamente no resto do mundo. Até mesmo quando o país ia bem, por volta de 2010, boa parte dos elogios que recebia no resto do mundo vinha com comparações com outros países.

Isso era comum até mesmo ao tratar da presença do Brasil entre os BRIC. Por mais que crescesse menos do que os outros países do acrônimo, analistas costumavam defender que o Brasil era o mais previsível e estável do grupo, mais pacífico do que os três, mais democrático e livre (e menos corrupto) do que Rússia e China e menos pobre do que a Índia. Na perspectiva global, o Brasil se saía melhor mesmo com economia mais frágil.

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