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Arquivo : Fábio Zanini

Ambição por ‘Brasil Grande’ criou imagem de imperialismo em partes do mundo
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Daniel Buarque

Ambição por ‘Brasil Grande’ criou imagem de imperialismo em partes do mundo

Olga Cutipa, a presidente da Frente de Resistência à Usina de Inambari, projeto desenvolvido pelo Brasil no Peru, não tem muita simpatia pelos brasileiros: “Basta dos abusos dos brasileiros! Vêm aqui de forma autoritária, falar com as pessoas, sem aviso”, esbravejou, em entrevista ao jornalista Fábio Zanini, editor de Poder da “Folha de S.Paulo”.

Olga “detesta a arrogância dos [brasleiros] que aparecem na região tentando apoderar-se de seus recursos naturais. Ou, ao menos, é assim que ela vê as tentativas de empresas brasileiras de fazerem megaobras em seu quintal. A maior vilã é a usina de Inambari, sonho de consumo antigo do Brasil”.

O relato faz parte do livro recém-lançado “Euforia e Fracasso do Brasil Grande”, em que Zanini percorre alguns dos maiores projetos brasileiros desenvolvidos no resto do mundo a partir do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, quando o país buscou expandir sua presença internacional. Enquanto o país vivia um momento de euforia, ampliava a diplomacia e projetos de empreiteiras em outros países e inaugurava embaixadas pelo mundo, ganhando prestígio nos pricipais organismos internacionais, deixava pelo caminho um número crescente de insatisfeitos afetados por esta ambição.

Segundo Zanini, o problema de Olga com os brasileiros é um retrato do impacto gerado por essa ambição por um “Brasil Grande” na imagem do país no resto do mundo. A expansão do país fez com que ele passasse a ser associado ao imperialismo.

O livro, o autor explica, examina a forma como “o processo de internacionalização do Brasil foi recebido em algumas partes do mundo e como as ações colocadas em prática pelo governo mudaram a percepção do Brasil ao redor do planeta”.

Apesar de os principais índices internacionais que avaliam a imagem do Brasil indicarem que o país é o 20º país com melhor reputação do mundo, a avaliação é diferente nas nações afetadas pela expansão brasileira.

“Em diversos locais, nosso país atualmente é mais associado a uma ameaça. A senhora peruana que amaldiçoou parar mim a hidrelétrica brasileira não está sozinha. Como ela, há camponeses moçambicanos assustados com a concorrência do agronegócio brasileiro, burocratas na Namíbia frustrados com as estripulias de oportunistas no setor petrolífero e moradores de uma periferia em Angola irritados por terem se tornado ‘dano colateral’ de projetosde uma construtora. Todos eles compõem o retrato do que é hoje o Brasil no mundo”, diz.

A avaliação de Zanini é um importante contraponto à visão tradicional sobre a imagem internacional do Brasil. Ele vai no sentido contrário da análise mais comum, que olha para como o Brasil promove sua reputação entre os países mais ricos do mundo, como é visto pela elite Ocidental.

Enquanto a interpretação mais popular é de que o país aproveitou o boom das commodities e a política externa iniciada no governo Lula para se promover no resto do mundo e se tornar mais reconhecido, ganhando força como ator global entre as maiores potências do planeta, o livro mostra que isso teve um efeito contrário em partes do mundo mais pobres, que se sentiram exploradas e abusadas pelo Brasil.

“Seria exagero dizer que já não somos mais associados em primeiro lugar a futebol, carnaval e floresta Amazônica. Mas a imagem de país dócil e inofensivo, que carregamos durante boa parte do século XX, essa já se foi há muito tempo.”

Ao virar a “bola da vez”, o “país da moda” no resto do mundo rico ocidental, a ação brasileira afetou a vida de populações em países de menor força política e econômica global. Essa imagem do Brasil como país “imperialista” é mais recente, destoa do país que “todo mundo ama amar”, como dizia uma pesquisa sobre a reputação do Brasil, e é importante para o desenvolvimento de projetos internacionais. Ao buscar se tornar o “país do presente”, como o país fez nas últimas décadas, seria interessante não destruir a reputação nos países em que atua.

Essa interpretação alternativa da imagem do Brasil se alinha menos aos estudos de imagem que tratam a reputação dos países como se fossem marcas e mais com o ‘Índice Bom País”, que analisa o que cada nação de fato faz pelo resto do mundo. Nesta avaliação, o Brasil cai à 49ª colocação, mostrando, como disse o consultor Simon Anholt, que o Brasil ainda tem uma reputação melhor do que merece.

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