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Ambição por ‘Brasil Grande’ criou imagem de imperialismo em partes do mundo
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Daniel Buarque

Ambição por ‘Brasil Grande’ criou imagem de imperialismo em partes do mundo

Olga Cutipa, a presidente da Frente de Resistência à Usina de Inambari, projeto desenvolvido pelo Brasil no Peru, não tem muita simpatia pelos brasileiros: “Basta dos abusos dos brasileiros! Vêm aqui de forma autoritária, falar com as pessoas, sem aviso”, esbravejou, em entrevista ao jornalista Fábio Zanini, editor de Poder da “Folha de S.Paulo”.

Olga “detesta a arrogância dos [brasleiros] que aparecem na região tentando apoderar-se de seus recursos naturais. Ou, ao menos, é assim que ela vê as tentativas de empresas brasileiras de fazerem megaobras em seu quintal. A maior vilã é a usina de Inambari, sonho de consumo antigo do Brasil”.

O relato faz parte do livro recém-lançado “Euforia e Fracasso do Brasil Grande”, em que Zanini percorre alguns dos maiores projetos brasileiros desenvolvidos no resto do mundo a partir do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, quando o país buscou expandir sua presença internacional. Enquanto o país vivia um momento de euforia, ampliava a diplomacia e projetos de empreiteiras em outros países e inaugurava embaixadas pelo mundo, ganhando prestígio nos pricipais organismos internacionais, deixava pelo caminho um número crescente de insatisfeitos afetados por esta ambição.

Segundo Zanini, o problema de Olga com os brasileiros é um retrato do impacto gerado por essa ambição por um “Brasil Grande” na imagem do país no resto do mundo. A expansão do país fez com que ele passasse a ser associado ao imperialismo.

O livro, o autor explica, examina a forma como “o processo de internacionalização do Brasil foi recebido em algumas partes do mundo e como as ações colocadas em prática pelo governo mudaram a percepção do Brasil ao redor do planeta”.

Apesar de os principais índices internacionais que avaliam a imagem do Brasil indicarem que o país é o 20º país com melhor reputação do mundo, a avaliação é diferente nas nações afetadas pela expansão brasileira.

“Em diversos locais, nosso país atualmente é mais associado a uma ameaça. A senhora peruana que amaldiçoou parar mim a hidrelétrica brasileira não está sozinha. Como ela, há camponeses moçambicanos assustados com a concorrência do agronegócio brasileiro, burocratas na Namíbia frustrados com as estripulias de oportunistas no setor petrolífero e moradores de uma periferia em Angola irritados por terem se tornado ‘dano colateral’ de projetosde uma construtora. Todos eles compõem o retrato do que é hoje o Brasil no mundo”, diz.

A avaliação de Zanini é um importante contraponto à visão tradicional sobre a imagem internacional do Brasil. Ele vai no sentido contrário da análise mais comum, que olha para como o Brasil promove sua reputação entre os países mais ricos do mundo, como é visto pela elite Ocidental.

Enquanto a interpretação mais popular é de que o país aproveitou o boom das commodities e a política externa iniciada no governo Lula para se promover no resto do mundo e se tornar mais reconhecido, ganhando força como ator global entre as maiores potências do planeta, o livro mostra que isso teve um efeito contrário em partes do mundo mais pobres, que se sentiram exploradas e abusadas pelo Brasil.

“Seria exagero dizer que já não somos mais associados em primeiro lugar a futebol, carnaval e floresta Amazônica. Mas a imagem de país dócil e inofensivo, que carregamos durante boa parte do século XX, essa já se foi há muito tempo.”

Ao virar a “bola da vez”, o “país da moda” no resto do mundo rico ocidental, a ação brasileira afetou a vida de populações em países de menor força política e econômica global. Essa imagem do Brasil como país “imperialista” é mais recente, destoa do país que “todo mundo ama amar”, como dizia uma pesquisa sobre a reputação do Brasil, e é importante para o desenvolvimento de projetos internacionais. Ao buscar se tornar o “país do presente”, como o país fez nas últimas décadas, seria interessante não destruir a reputação nos países em que atua.

Essa interpretação alternativa da imagem do Brasil se alinha menos aos estudos de imagem que tratam a reputação dos países como se fossem marcas e mais com o ‘Índice Bom País”, que analisa o que cada nação de fato faz pelo resto do mundo. Nesta avaliação, o Brasil cai à 49ª colocação, mostrando, como disse o consultor Simon Anholt, que o Brasil ainda tem uma reputação melhor do que merece.

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Ministra da Venezuela diz que corrupção faz do Brasil a ‘vergonha mundial’
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Daniel Buarque

Ministra da Venezuela diz que corrupção faz do Brasil a ‘vergonha do mundo’

A ministra das Relações Exteriores da Venezuela, Delcy Rodríguez, chamou o Brasil de “vergonha mundial”.

A declaração foi feita durante o Fórum Anti-Imperialista Hugo Chávez, em Caracas, e diz respeito aos escândalos de corrupção envolvendo políticos do país e empresas brasileiras em outras partes do mundo.

“Hoje devemos dizer que infelizmente o Brasil é a vergonha mundial. Todos os dias seus políticos se envolvem em escândalos desde o momento em que eles realizaram um golpe contra Dilma Rousseff”, disse Rodríguez, segundo o jornal venezuelano “El Nacional” e a agência russa de notícias  Sputnik, em seu site em inglês.

Ministra da Venezuela diz que corrupção faz do Brasil a ‘vergonha mundial’

Um dia antes de criticar o Brasil, Rodríguez criou problemas com o Peru. Ela chamou o presidente do país, Pedro Pablo Kuczynski, de “covarde” e “cachorro simpático”, ao questionar comentários feitos pelo presidente nos Estados Unidos sobre a crise na Venezuela.

O Peru, por sua vez, rejeitou as observações “insolentes” do governo venezuelano e disse que enviaria uma nota de protesto.

A ministra das Relações Exteriores da Venezuela respondeu ao presidente peruano em um fórum em Caracas que “o único cachorro simpático que existe é ele (…) que se move na cola do império e pedindo a intervenção na Venezuela”.

O governo da Venezuela assumiu uma postura crítica ao processo de impeachment e o início do novo governo do Brasil, no ano passado. Além disso, o site da agência Sputnik é um dos veículos estrangeiros que mais tem dado espaço crítico à cobertura sobre a política brasileira desde antes do impeachment de Dilma. A cobertura dele trata a derrubada do governo do PT como um golpe, e constantemente critica o governo de Michel Temer e outros políticos brasileiros.

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Serra ajudou a encerrar declínio do Itamaraty, diz pesquisador australiano
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Daniel Buarque

Serra ajudou a restaurar confiança no Itamaraty, diz pesquisador Sean Burges

Ao renunciar ao cargo de ministro das Relações Exteriores, José Serra deixa o Itamaraty com mais confiança do que encontrou a diplomacia brasileira, menos de um ano antes. A avaliação foi feita pelo pesquisador australiano Sean Burges, especialista em diplomacia brasileira.

Segundo Burges, apesar de ter ficado pouco tempo no cargo, Serra conseguiu “acabar com o declínio do Itamaraty que começou sob Dilma, e restabelecer o Ministério das Relações Exteriores como uma parte importante do processo de política nacional”, disse ao blog Brasilianismo.

Vice-diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da universidade Australian National, Burges é pesquisador sênior do Council on Hemispheric Affairs e autor do livro recém-lançado ”Brazil in the World: The International Relations of a South American Giant” (”Brasil no Mundo: As Relações Internacionais de um Gigante Sul-Americano), editado em inglês pela Manchester University Press.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista sobre a saída de Serra.

Brasilianismo – Você acha que Serra deixa alguma marca na diplomacia brasileira depois de se demitir?
Sean Burges – Para ser justo com Serra, tudo o que era esperado que ele realmente fizesse era acabar com o declínio do Itamaraty que começou sob Dilma, e restabelecer o Ministério das Relações Exteriores como uma parte importante do processo de política nacional. Acho que ele teve algum sucesso nisso, embora obviamente não tenha havido muitos resultados concretos devido à combinação de restrições orçamentárias e a falta de atenção política de Temer devido às investigações Lava Jato.

Imagino que tudo o que Temer queria do Itamaraty era alguém que pudesse manter o Brasil em um trajeto global constante e que evitasse que esta área da política pública se transformasse em um problema. O fato de o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, ter pedido a Serra que o Brasil servisse como uma espécie de árbitro na questão da Venezuela sugere que houve algum sucesso nessa frente.

Brasilianismo – Qual acha que é o impacto de seu curto período como ministro das Relações Exteriores?
Sean Burges – Serra restaurou uma certa confiança no Ministério das Relações Exteriores. Houve muita reação negativa na academia e nos círculos de análise de políticas sobre algumas decisões de Serra, como rever o status de algumas das missões que foram abertas por Lula, mas acho que essas críticas podem estar equivocadas. As conversas que tive com diplomatas sugerem que isso é uma coisa boa, porque retoma o processo de pensar como a política externa pode ser usada para fazer avançar as prioridades de políticas públicas do Brasil, particularmente na frente do desenvolvimento.

A maior conquista de Serra é, portanto, de lembrar ao resto da Esplanada que o trabalho do Itamaraty é importante e pode contribuir de maneira séria para as agendas externas e às vezes internas de outros ministérios e agências governamentais. Trata-se de uma conquista silenciosa, um pouco subestimada, mas também muito importante para garantir a inserção do Itamaraty no processo mais amplo de políticas públicas.

Brasilianismo – Quando foi nomeado, Serra argumentou contra o uso da ideologia na diplomacia. Já falamos sobre isso, e você disse que era uma questão de retórica, e que o Itamaraty retomaria sua diplomacia profissional. Sua renúncia afetará a diplomacia brasileira?
Sean Burges – Temer e a maneira pela qual ele foi elevado ao Palácio Planalto são os fatores que causaram a tensão com o eixo bolivariano e significou que qualquer pretensão de continuar uma relação próxima com governantes como Maduro estava fora da mesa de discussão. Ideologia é provavelmente a palavra errada para descrever a abordagem de Serra. Eu, em vez disso, argumentaria que ele tomou uma abordagem de tomada de decisão muito mais aberta e baseada em interesses do que vimos com Lula e Dilma.

Se a ideologia é ou não um fator importante dependerá de quem Temer nomeia como substituto de Serra. Provavelmente, Temer não vai querer o alvoroço público que seria criado por um ideólogo de direita no Itamaraty e eu acho que vamos ver algum tipo de espelhamento da nomeação de Sergio Amaral para Washington.

Brasilianismo – Em entrevista anterior, você mencionou que a nomeação de Serra melhorou o moral dos diplomatas brasileiros. Acha que sua saída pode afetar a equipe do Itamaraty?
Sean Burges – A incerteza nunca é bem-vinda na burocracia e sempre traz turbulência. Além disso, é realmente difícil dizer que impacto terá. Depende de quem vai substitui-lo. Desde que Temer não deixe o cargo vago por um longo período, tenho certeza que os profissionais de carreira vão se adaptar.

Brasilianismo – Quem você acha que Temer deve nomear como novo ministro das Relações Exteriores?
Sean Burges – Em vez de sugerir um nome, prefiro apresentar uma lógica para escolher o indivíduo. O alinhamento político não deve ser um fator importante nessa decisão, e historicamente nunca foi um. O uso acertado da política externa pode agregar uma enorme quantidade de assistência a outros ministérios que perseguem as prioridades políticas da presidência.

Em certo sentido, o que eu sugiro que Temer procure é alguém que pode chegar e trabalhar construtivamente em toda a Esplanada para ajudar outros ministérios a aproveitar as oportunidades internacionais e se proteger de ameaças externas.

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Brasil quer ser líder, mas não tem objetivo diplomático claro, diz Burges
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Daniel Buarque

Em livro, pesquisador descreve 'jeito brasileiro' de fazer diplomacia

Em livro, pesquisador descreve ‘jeito brasileiro’ de fazer diplomacia

O Brasil quer ter força na mesa de decisões políticas internacionais, mas ainda não pensou sobre o que quer fazer quando alcançar isso. A avaliação é do pesquisador australiano Sean Burges, especialista em diplomacia brasileira.

Segundo ele, o Itamaraty tem um perfil profissional, que não muda com alterações de governo, e é uma parte intrínseca da diplomacia do país. “Mesmo quando o Brasil está vivendo uma séria crise, com incerteza política, o Itamaraty ainda consegue posicionar o Brasil internacionalmente de forma muito eficiente”, diz.

Vice-diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da universidade Australian National, Burges é pesquisador sênior do Council on Hemispheric Affairs e autor do livro recém-lançado “Brazil in the World: The International Relations of a South American Giant” (“Brasil no Mundo: As Relações Internacionais de um Gigante Sul-Americano), editado em inglês pela Manchester University Press.

Esta é a terceira e última parte da entrevista do Blog Brasilianismo com Burges, em que ele fala sobre a o jeito brasileiro de fazer diplomacia. Clique aqui para ler a segunda parte da entrevista, em que ele fala sobre o impeachment de Dilma e o que mudou (ou não mudou) na diplomacia brasileira após a troca de governo. Clique aqui para ler a primeira parte da entrevista, em que ele trata das relações entre o Brasil e os EUA após o impeachment de Dilma e a eleição de Donald Trump.

Brasilianismo – Seu livro “Brazil in the World: The International Relations of a South American Giant” fala em um ‘jeito brasileiro’ de fazer diplomacia. O que significa isso?

Sean Burges – O Brasil tem sete táticas usadas por seus diplomatas para gerar consenso e convencer seus interlocutores. Isso vai desde uma abordagem muito suave a uma linha mais dura de negociação. O Brasil quase nunca tem uma posição independente e única na arena internacional, e quase sempre coletiviza a abordagem, buscando formar uma coalizão em torno dos seus interesses. Além disso, a tradição legalista do Itamaraty é muito importante e usa muito bem a linguagem e a abordagem tecnocrata para despolitizar questões que podem ser muito políticas.

Esse perfil da diplomacia brasileira não muda com alterações de governo, e é uma parte intrínseca do Itamaraty. E é uma grande vantagem. Mesmo quando o Brasil está vivendo uma séria crise, com incerteza política, o Itamaraty ainda consegue posicionar o Brasil internacionalmente de forma muito eficiente.

Além disso, o Brasil tem a tradição de não antagonizar com outros países abertamente. Serra mudou isso um pouco, mas nada radicalmente.

Brasilianismo – Quanto o Brasil está conseguindo avançar seus interesses internacionais em meio à crise, e o que o país ainda tem dificuldade em conquistar?

Sean Burges – O Brasil deve ficar muito feliz com os resultados de política externa alcançados nos últimos 20 anos. O país não estava tentando mudar a ordem política internacional, mas abrir espaço para poder defender seus interesses nessa ordem global. A política externa brasileira busca os mesmos interesses que formam o sistema internacional: paz, segurança, estabilidade e crescimento sustentável. O Brasil tem feito isso.

O Brasil quer ter força na mesa de decisões internacionais. Acho que o problema é que o país não pensou sobre o que quer fazer quando alcançar isso. O Brasil quer ser um líder global, o líder da América do Sul, e a região até aceita isso, mas o Brasil não diz o que quer fazer quando se tornar um líder. O Itamaraty é muito competente em fazer a parte técnica do trabalho internacional, mas parece não haver uma discussão política clara sobre o que fazer agora que o país emergiu na cena global. Falta isso. Falta uma discussão doméstica sobre isso.

Brasilianismo – Com a decisão de Trump de tirar os EUA da Parceria Transpacífico (TPP), e a China ganhando força no comércio global, como fica a relação do Brasil com a China?

Sean Burges – O Brasil não entende a China bem o suficiente para poder ter uma agenda de política externa mais próxima dos seus interesses.

A China tem uma abordagem estratégica muito clara para o Brasil. FHC conta que, nos anos 1990, a China estava trabalhando para crescer sua presença no mundo, e o mundo não conseguiu ver o que estava acontecendo. Ninguém estava pronto para a explosão da economia chinesa, enquanto a China trabalhou duro por seus acordos.

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Esquerda deve aceitar derrota política no impeachment, diz Sean Burges
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Daniel Buarque

Esquerda do Brasil deve aceitar derrota na luta política, diz Sean Burges

Esquerda do Brasil deve aceitar derrota na luta política, diz Sean Burges

O pesquisador australiano Sean Burges, vice-diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da universidade Australian National, acha “fantasiosa” a ideia de que houve influência internacional no processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

“O impeachment foi moralmente errado, mas legalmente correto. Trata-se sempre um processo político. A esquerda perdeu a batalha política, e precisa aceitar isso”, disse, em entrevista ao blog Brasilianismo.

Burges é pesquisador sênior do Council on Hemispheric Affairs, think tank tradicionalmente voltado a defender temas da esquerda política no hemisfério. Ainda assim, segundo ele, a ideia de que a CIA planejou um golpe no Brasil não faz sentido.

Em livro, pesquisador descreve 'jeito brasileiro' de fazer diplomacia

Em livro, pesquisador descreve ‘jeito brasileiro’ de fazer diplomacia

O pesquisador acaba de lançar o livro “Brazil in the World: The International Relations of a South American Giant” (“Brasil no Mundo: As Relações Internacionais de um Gigante Sul-Americano), editado em inglês pela Manchester University Press, em que aborda o “jeito brasileiro” de fazer diplomacia.

Esta é a segunda parte da entrevista do Blog Brasilianismo com Burges, em que ele fala sobre o impeachment de Dilma e o que mudou (ou não mudou) na diplomacia brasileira após a troca de governo. Clique aqui para ler a primeira parte da entrevista, em que ele trata sas relações entre o Brasil e os EUA após o impeachment de Dilma e a eleição de Donald Trump

Brasilianismo – Mais cedo nesta entrevista, você mencionou que os EUA se interessam pelo petróleo da Venezuela. Há setores da esquerda brasileira que acusam os EUA de terem influenciado no impeachment de Dilma a fim de ter acesso ao petróleo do pré-sal. Independentemente desta acusação, o fato de o Brasil ter reservas de petróleo no pré-sal é algo que pode atrair a atenção de Trump para o Brasil?

Sean Burges – A ideia de influência internacional no impeachment é uma fantasia. O Brasil tem um sistema legal em funcionamento. O impeachment foi moralmente errado, mas legalmente correto. Trata-se sempre um processo político. A esquerda perdeu a batalha política, e precisa aceitar isso.

Não é segredo que os EUA e outros países têm interesse em uma política mais liberal do Brasil em relação ao pré-sal, mas os EUA não vão pressionar mais do que a Austrália ou qualquer outro país que também tenha interesses. Com Dilma no poder, já havia espaço para negociação, para investir.

A ideia de que a CIA está planejando um golpe no Brasil não faz sentido. Vocês não precisam de atores estrangeiros para levar adiante este tipo de mudança política no país.

Brasilianismo – José Serra assumiu o Ministério das Relações Exteriores dizendo que ia fazer política externa ‘sem partidarismo’ e prometendo focar em comércio exterior. Acha que a agenda de política internacional do Brasil mudou após o impeachment?

Sean Burges – Acho que não. Serra propôs dez pontos de mudança, mas ali não há mudanças reais. Ele fala em rever muitas coisas, mas isso não significa mudar nada na prática. Ele fala em tirar a ideologia, mas o Brasil não tem muita opção. Dizer que Lula e Dilma criaram uma diplomacia ideológica é ignorar o que há de mais importante. Por mais que pareça que Lula estava agindo para ajudar Evo Morales e Hugo Chávez, o Brasil agiu de forma calma para defender seus interesses. Quando se fala da desapropriação da petrobras na Bolívia, por exemplo, houve muito barulho, mas na prática quase nada mudou para o Brasil. Lula e Dilma tinham uma abordagem regional agressiva nos bastidores.

A mudança no discurso reflete uma realidade com a qual Serra e Temer vão ter que lidar. Lula lidava diretamente com líderes internacionais, como Chávez, para garantir a defesa dos interesses do Brasil, e pagamento para empresas brasileiras atuando nesses países. Temer e Serra não vão ter este tipo de acesso. Então não faria sentido fingir que há interesses ideológicos sobre a mesa, já que líderes como Morales e Correa não vão ter interesse em manter as aparências. Os dois vão ser hostis no discurso, mas pragmáticos nas negociações. Se o governo do Brasil não vai conseguir manter a mesma relação, não adianta tentar continuar, por isso este discurso de tirar a ideologia. Na prática, nada muda, mas a apresentação é diferente.

Brasilianismo – O governo Dilma foi muito criticado por ter encolhido a presença internacional do Brasil. Acha que isso aconteceu de fato?

Sean Burges – Sim, é verdade. O investimento pessoal do presidente tem relevância nas relações internacionais do país. Dilma tinha uma grande preocupação com a mudança econômica e social no país, mas se preocupava apenas com questões que tinham relação com isso. O Itamaraty falhou em explicar para ela como as relações internacionais podiam se relacionar com o que ela se interessava. Lula trabalhou de forma tremenda por oito anos para construir acesso e ganhar presença na África, que vai ser um grande mercado emergente, com grandes possibilidades para o Brasil. E dilma cortou essa relação, tirando dinheiro das embaixadas. Ela perdeu as conexões e isso cria um problema fundamental, que pode afetar a recuperação econômica do Brasil, pois o país precisa exportar, e a África poderia ser uma saída.

Brasilianismo – Como acha que o MRE vai agir sob Temer até 2018?

Sean Burges – Passei dez dias no Itamaraty em novembro do ano passado. As pessoas pareciam mais felizes do que nos últimos anos. Elas acham que o atual ministro tem uma voz política. Serra quer ser presidente, o que significa que vai mobilizar o Itamaraty para valorizar seu capital político.

O problema de temer é que ele tem muitos problemas internos, e precisa lutar pela sobrevivência política. Isso requer muita energia. A política doméstica roupa atenção da política externa no Brasil atual.

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Sean Burges: Falta de conhecimento sobre Brasil atrapalha relação com EUA
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Daniel Buarque

Falta de conhecimento sobre o Brasil atrapalha relação com os EUA, diz Sean Burges

Falta de conhecimento sobre o Brasil atrapalha relação com os EUA, diz Sean Burges

Uma falta de conhecimento sobre o Brasil em Washington, DC e um legado de desconfiança brasileira em relação aos Estados Unidos atrapalham o desenvolvimento de políticas e iniciativas que são do interesse dos dois países.

A avaliação é do pesquisador australiano Sean Burges, vice-diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da universidade Australian National e pesquisador sênior do Council on Hemispheric Affairs.

Burges acaba de lançar o livro “Brazil in the World: The International Relations of a South American Giant” (“Brasil no Mundo: As Relações Internacionais de um Gigante Sul-Americano), editado em inglês pela Manchester University Press, em que aborda o “jeito brasileiro” de fazer diplomacia.

Em livro, pesquisador descreve 'jeito brasileiro' de fazer diplomacia

Em livro, pesquisador descreve ‘jeito brasileiro’ de fazer diplomacia

Esta é a primeira parte da entrevista do Blog Brasilianismo com Burges, em que ele fala sobre as relações entre o Brasil e os EUA após o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Donald Trump.

Brasilianismo – Como o governo Trump pode mudar a relação entre os EUA e o Brasil?

Sean Burges – Meu livro tem um capítulo sobre as relações entre o Brasil e os EUA. Um dos meus pontos é que em 99% das vezes os interesses dos dois países estão alinhados, as intenções estão alinhadas, e não há motivo para as coisas não irem muito bem. Quando há conflito, nunca é nada muito sério.

O que atrapalha é uma falta de conhecimento sobre o Brasil em Washington e um justificado legado de desconfiança do Brasil em relação aos EUA, por conta do que aconteceu nos anos 1960 e 1970 [referência ao apoio americano ao golpe militar no Brasil]. Esses dois problemas atrapalham o desenvolvimento de políticas e iniciativas que são do interesse dos dois países.

Um exemplo é que, para os EUA, seria ótimo se o Brasil tomasse conta dos temas relacionados à segurança regional, coordenando a luta contra o tráfico, contra o contrabando e resolvendo problemas regionais para que os EUA não tivessem que se preocupar com isso. A relutância do Brasil em fazer isso se dá em parte por questões econômicas e históricas, mas também por desconfiança em relação ao verdadeiro interesse dos americanos em esperar isso do Brasil. Com o governo do PT, havia uma desconfiança automática em relação a qualquer acerto com os EUA.

Não tenho certeza de que a tensão entre os dois países vá aumentar. Com Trump no governo, veremos muitos países do mundo mantendo a cabeça baixa, se mantendo quieto. No caso do Brasil, há vácuos de conhecimento que atrapalham a cooperação entre os dois países.

O que é interessante, sob o governo Trump, é que Thomas Shannon [ex-embaixador em Brasília e atual subsecretário de Estado para Assuntos Políticos] ainda tem um papel central no Departamento de Estado dos EUA. Para o Brasil, isso é muito bom, pois ele foi embaixador no Brasil e também porque ele teve uma mão firme nas relações internacionais dos EUA nos últimos 15 anos. Por mais que Trump esteja mudando a diplomacia americana, Shannon ainda está lá. Ele tem um senso muito claro do que pode ser feito e do que não pode ser feito, conhece o jogo e sabe falar a língua de Trump.

Brasilianismo – Ele pode levar mais conhecimento sobre o Brasil para a política externa de Washington?

Sean Burges – Sim. Ele conhece o Brasil e fala a língua das pessoas que estão em torno de Trump, o que pode ajudar.

A não ser que alguém crie um problema intencionalmente, não há motivos para haver problemas. Os temas centrais para Trump são a balança comercial e a imigração, temas que não criam problema com o Brasil. A imigração brasileira para os EUA é de trabalhadores preparados para assumir funções que os americanos não têm quem assuma. Os dois países têm acordos bilaterais para o comércio, mas não chega a ser nada que preocupe Trump. A não ser que algo dê errado, é importante manter a calma e continuar (keep calm and carry on). Pode dar tudo certo.

Brasilianismo – O ministro de Relações Exteriores do governo Temer, José Serra disse, antes da eleição, que a vitória de Trump seria um desastre. Isso pode ser considerado um problema?

Sean Burges – Seria, se alguém prestasse atenção a isso. Este é o meu ponto. As pessoas tendem a pensar que o resto do mundo presta atenção ao que acontece no nosso país, mas isso não é verdade. O fato de Serra ter falado algo da eleição não significa que ninguém em Washington tenham prestado atenção. E no contexto de outros problemas que estão sendo criados com Trump, não acho que seja algo preocupante.

Brasilianismo – O que o Brasil poderia fazer para diminuir o desconhecimento de Washington em relação ao Brasil?

Sean Burges – Em certo nível o desconhecimento é causado por falta de interesse. Se você olhar os interesses comerciais que dominam a agenda presidencial, quase nada da América Latina gera interesse – a não ser, talvez, o petróleo da Venezuela.

O Brasil tem uma posição estratégica maravilhosa no Atlântico Sul, está livre de risco de invasão, não faz parte de uma ameaça logística como o Mar do Sul da China e o Oriente Médio. Então o Brasil não aparece no radar estratégico dos EUA a não ser que algo dê muito errado, ou que haja problemas com tráfico de drogas, tráfico de pessoas ou ameaça terrorista. Não acho que nenhum desses três sejam prováveis.

Quando relações bilaterais estão indo bem, elas são espetacularmente entediantes. Pode parecer que nada está acontecendo, mas isso significa que as coisas estão indo bem. A ausência de notícia é uma notícia boa, não significa que não esteja acontecendo nada. há muita negociação que não chama atenção, mas que não para de acontecer no nível prático e burocrático. Enquanto o contato pragmático funcionar nos níveis básicos da diplomacia, o Brasil não vai ter problemas com os EUA.

O problema com Trump é chamar a atenção. Qualquer coisa que atraia a atenção dele se torna um risco. O ideal é ficar quieto e fora do radar, e manter as negociações tradicionais. Ele não é um ator racional, e não podemos saber o que ele está planejando.

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Para pesquisador, ex-embaixador pode ajudar o Brasil na relação com Trump
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Para pesquisador, ex-embaixador pode ajudar o Brasil na relação com Trump

Para pesquisador, ex-embaixador pode ajudar o Brasil na relação com Trump

Em reportagem publicada na “Folha”, o pesquisador australiano Sean Burges explica que a presença do diplomata Thomas Shannon no governo Trump pode ajudar o Brasil.

Vice-diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da universidade Australian National e pesquisador sênior do Council on Hemispheric Affairs, Burges acaba de lançar o livro “Brazil in the World: The International Relations of a South American Giant” (“Brasil no Mundo: As Relações Internacionais de um Gigante Sul-Americano), editado em inglês pela Manchester University Press, em que aborda o “jeito brasileiro” de fazer diplomacia.

Segundo ele, a presença de Shannon no Departamento de Estado vai ajudar a superar um dos principais desafios da relação bilateral entre Brasil e EUA: o desconhecimento dos americanos em relação ao Brasil.

“O que atrapalha o desenvolvimento de políticas e iniciativas que são do interesse dos dois países é uma falta de conhecimento sobre o Brasil em Washington e um justificado legado de desconfiança do Brasil em relação aos EUA”, disse. Shannon, “conhece o Brasil e fala a língua das pessoas que estão em torno de Trump, o que pode ajudar”.

Shannon chegou a atuar como interino no cargo de secretário de Estado no início do novo governo dos EUA. Ex-embaixador em Brasília, ele é subsecretário de Estado para Assuntos Políticos —principal posto ocupado por diplomatas— e deve ter um papel central nas relações exteriores dos EUA no governo Trump

“Por mais que Trump esteja mudando a diplomacia americana, Shannon ainda está lá. Ele tem um senso muito claro do que pode ser feito e do que não pode ser feito, conhece o jogo e sabe falar a língua de Trump”, explicou Burges.

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Em livro, pesquisador descreve ‘jeito brasileiro’ de fazer diplomacia
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Em livro, pesquisador descreve 'jeito brasileiro' de fazer diplomacia

Em livro, pesquisador descreve ‘jeito brasileiro’ de fazer diplomacia

A política externa brasileira busca desafiar e transformar a estrutura global de poder, sem desfazer o padrão em funcionamento em vigor no mundo atual. Este é um dos exemplos do “jeito brasileiro” de fazer diplomacia, segundo um livro recém-lançado no Reino Unido.

“Brazil in the world: The international relations of a South American giant” (Brasil no mundo: As relações internacionais de um gigante sul-americano, Manchester University Press) trata dos desafios de diplomacia do Brasil no século 21, quando o país conseguiu expandir sua ação no resto do mundo, mas acabou perdendo força por conta das crises política e econômica.

O livro é resultado de anos de pesquisa de Sean W Burges, pesquisador sênior do Council on Hemispheric Affairs, vice-diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da universidade Australian National.

A obra está dividida em três partes: uma apresentando o contexto da política externa brasileira e os desafios à ordem global; outra sobre questões relacionadas a multilateralismo, comércio e segurança; e uma terceira sobre relações bilaterais com a América Latina, os EUA e a China.

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Robert Wood: Brasil não vai estar no radar do governo de Donald Trump
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Robert Wood: Brasil não vai estar no radar do governo de Donald Trump

Robert Wood: Brasil não vai estar no radar do governo de Donald Trump

O Brasil não vai estar no radar do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que toma posse nesta sexta (20).

A avaliação é do analista-chefe para a América Latina da consultoria Economist Intelligence Unit (EIU), ligada à revista “The Economist”, Robert Wood, em entrevista à Rádio França Internacional.

“O Brasil não estará no foco das políticas econômicas e comercias da administração Trump. Os Estados Unidos estarão focados nas relações com o México, o parceiro no âmbito de um tratado de livre comércio da América do Norte, e talvez com a China. Se olharmos durante a administração de Obama, o Brasil também não esteve no centro das políticas externas do governo americano. Não vai haver mudanças”, disse Wood.

Segundo ele, o Brasil pode ser afetado indiretamente pelo novo governo americano. Mas ele diz não ver motivo para preocupação, pois os EUA mais exportam para o Brasil do que importam, entãoo país pode não ser visto como adversário no âmbito do comércio.

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Deu na ‘Folha’: Relação de Obama com o Brasil foi definida por desencontros
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Deu na 'Folha': Relação de Obama com o Brasil foi definida por desencontros

Deu na ‘Folha’: Relação de Obama com o Brasil foi definida por desencontros

Ben Rhodes, o principal assessor de política externa do presidente norte-americano, Barack Obama, lamentou que as relações entre os EUA e o Brasil durante o governo do democrata, que chega ao fim nesta semana, tenham sido definidas pelos desencontros.

Em um último contato com a imprensa antes de a Presidência dos EUA ser passada a Donald Trump, Rhodes falou com a “Folha de S.Paulo” sobre a relação diplomática entre os países e a crise gerada em 2013,  pela revelação de que os EUA espionavam a ex-presidente Dilma Rousseff.

“Nunca conseguimos ter o timing certo com o Brasil. Há tantos benefícios naturais em termos cooperação. Quando chegamos [à Casa Branca], nós realmente queríamos dar prioridade a isso. Uma das primeiras conversas que o presidente Obama teve foi com Lula. É uma relação de potencial não realizado em termos do que podemos fazer em comércio e economia, e também na região.”

Segundo ele, as relações com o Brasil, porém, foram as que mais sofreram.

“Começamos a construir uma ampla base de iniciativas para cooperar em áreas como energia e os desafios do desenvolvimento em outros países. Fizemos progresso até que vieram as revelações. Não há outro país no mundo com que nossas relações sofreram mais por causa dessas revelações. Não há dúvida.”

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