Brasilianismo

Brasil quer ser líder, mas não tem objetivo diplomático claro, diz Burges

Daniel Buarque

Em livro, pesquisador descreve 'jeito brasileiro' de fazer diplomacia

Em livro, pesquisador descreve 'jeito brasileiro' de fazer diplomacia

O Brasil quer ter força na mesa de decisões políticas internacionais, mas ainda não pensou sobre o que quer fazer quando alcançar isso. A avaliação é do pesquisador australiano Sean Burges, especialista em diplomacia brasileira.

Segundo ele, o Itamaraty tem um perfil profissional, que não muda com alterações de governo, e é uma parte intrínseca da diplomacia do país. “Mesmo quando o Brasil está vivendo uma séria crise, com incerteza política, o Itamaraty ainda consegue posicionar o Brasil internacionalmente de forma muito eficiente”, diz.

Vice-diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da universidade Australian National, Burges é pesquisador sênior do Council on Hemispheric Affairs e autor do livro recém-lançado ''Brazil in the World: The International Relations of a South American Giant'' (''Brasil no Mundo: As Relações Internacionais de um Gigante Sul-Americano), editado em inglês pela Manchester University Press.

Esta é a terceira e última parte da entrevista do Blog Brasilianismo com Burges, em que ele fala sobre a o jeito brasileiro de fazer diplomacia. Clique aqui para ler a segunda parte da entrevista, em que ele fala sobre o impeachment de Dilma e o que mudou (ou não mudou) na diplomacia brasileira após a troca de governo. Clique aqui para ler a primeira parte da entrevista, em que ele trata das relações entre o Brasil e os EUA após o impeachment de Dilma e a eleição de Donald Trump.

Brasilianismo – Seu livro ''Brazil in the World: The International Relations of a South American Giant'' fala em um 'jeito brasileiro' de fazer diplomacia. O que significa isso?

Sean Burges – O Brasil tem sete táticas usadas por seus diplomatas para gerar consenso e convencer seus interlocutores. Isso vai desde uma abordagem muito suave a uma linha mais dura de negociação. O Brasil quase nunca tem uma posição independente e única na arena internacional, e quase sempre coletiviza a abordagem, buscando formar uma coalizão em torno dos seus interesses. Além disso, a tradição legalista do Itamaraty é muito importante e usa muito bem a linguagem e a abordagem tecnocrata para despolitizar questões que podem ser muito políticas.

Esse perfil da diplomacia brasileira não muda com alterações de governo, e é uma parte intrínseca do Itamaraty. E é uma grande vantagem. Mesmo quando o Brasil está vivendo uma séria crise, com incerteza política, o Itamaraty ainda consegue posicionar o Brasil internacionalmente de forma muito eficiente.

Além disso, o Brasil tem a tradição de não antagonizar com outros países abertamente. Serra mudou isso um pouco, mas nada radicalmente.

Brasilianismo – Quanto o Brasil está conseguindo avançar seus interesses internacionais em meio à crise, e o que o país ainda tem dificuldade em conquistar?

Sean Burges – O Brasil deve ficar muito feliz com os resultados de política externa alcançados nos últimos 20 anos. O país não estava tentando mudar a ordem política internacional, mas abrir espaço para poder defender seus interesses nessa ordem global. A política externa brasileira busca os mesmos interesses que formam o sistema internacional: paz, segurança, estabilidade e crescimento sustentável. O Brasil tem feito isso.

O Brasil quer ter força na mesa de decisões internacionais. Acho que o problema é que o país não pensou sobre o que quer fazer quando alcançar isso. O Brasil quer ser um líder global, o líder da América do Sul, e a região até aceita isso, mas o Brasil não diz o que quer fazer quando se tornar um líder. O Itamaraty é muito competente em fazer a parte técnica do trabalho internacional, mas parece não haver uma discussão política clara sobre o que fazer agora que o país emergiu na cena global. Falta isso. Falta uma discussão doméstica sobre isso.

Brasilianismo – Com a decisão de Trump de tirar os EUA da Parceria Transpacífico (TPP), e a China ganhando força no comércio global, como fica a relação do Brasil com a China?

Sean Burges – O Brasil não entende a China bem o suficiente para poder ter uma agenda de política externa mais próxima dos seus interesses.

A China tem uma abordagem estratégica muito clara para o Brasil. FHC conta que, nos anos 1990, a China estava trabalhando para crescer sua presença no mundo, e o mundo não conseguiu ver o que estava acontecendo. Ninguém estava pronto para a explosão da economia chinesa, enquanto a China trabalhou duro por seus acordos.

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