Brasilianismo

Arquivo : janeiro 2017

Prisão de Eike é símbolo global de crise e luta contra corrupção no Brasil
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Daniel Buarque

eike preso

“Este homem já foi o mais rico do Brasil. Agora eles está preso acusado de pagar propina”.

O título da revista “Time” para a reportagem que narra a prisão do empresário Eike Batista parece ser um breve resumo da oscilação da imagem internacional do Brasil na última década.

Em menos de dez anos, o país que era “bola da vez” no mundo, com economia ascendente, entrou em decadência, enfrenta graves crises políticas e econômicas e lida até mesmo com uma série de problemas em seus presídios. A chamada serve ainda para tratar de um novo símbolo que o país está construindo na mídia do resto do mundo: o de um país que tenta lutar contra a corrupção, e no qual nem os “ricos e poderosos” conseguem mais escapar da Justiça.

Pode parecer exagero usar Eike como um símbolo do que acontece com o país, mas é natural perceber que ele um dia foi o mais rico de um país em ascensão, e agora vive a decadência em um país em crise.

Isso acontece em grande parte porque a mídia internacional costuma usar ícones como Eike para poder apresentar melhor aos leitores no resto do mundo o que acontece com a economia do Brasil, país que ainda é muito pouco compreendido.

Tanto é assim, que Eike é apresentado no livro “Brazil, um País do Presente – A Imagem Internacional do País do Futuro” como uma das faces no resto do mundo da ascensão da reputação brasileira na virada da década. Em 2010, no auge da euforia dos estrangeiros com o potencial financeiro do Brasil, Eike era o ícone da pujança econômica do país.

Ele aparecia com frequência na TV dos Estados Unidos impulsionando a visão positiva da emergência brasileira. Um dos homens mais ricos do mundo, ele era o símbolo do potencial dos investimentos no país e dizia que ia se tornar virar o maior bilionário do planeta.

“O Brasil é uma autoestrada para o crescimento. O país vai continuar crescendo de forma rápida e estável”, disse então Eike em entrevista ao “Wall Street Journal Report”, programa de TV da rede NBC.

Três anos depois, o mundo descobriu que o otimismo era exagerado. Eike Batista perdeu quase toda sua fortuna, e virou, ainda em 2013, símbolo da decadência do país que tanto prometia economicamente.

Nos últimos anos, enquanto a economia do Brasil afundava na recessão, Eike passou a ser tratado internacionalmente como “ex-bilionário”. Nas últimas semanas, foi chamado de “suspeito” e “fugitivo”, e agora a notícia da sua prisão foi destaque nos principais veículos de comunicação do mundo.

Apesar da associação estrangeira entre a decadência de Eike e as crises no Brasil, é importante não julgar o país com base apenas no que acontece com o empresário, segundo o jornalista americano Alex Cuadros, autor do livro “Brazillionaires”, que trata dos megarricos do Brasil.

“Não julgaria o futuro do Brasil com base no fracasso do Eike”, disse Cuadros em entrevista ao blog Brasilianismo, em julho.

“A queda do Eike me parece mais definitiva do que a do Brasil. O Brasil é maior do que ele. Eike tinha muitos fatores dele. Ele não era só um espelho do Brasil. Era um personagem típico dos empresários dos EUA, grandes vendedores de sonhos. A bolha dele se parece com várias bolhas ao longo da história do capitalismo americano, como a de 2000 e a de 2008”, disse.

Prisão de Eike é simbolo global de crise e luta contra corrupção no Brasil

Prisão de Eike é simbolo global de crise e luta contra corrupção no Brasil

Segundo o jornalista, o grande sucesso do Eike foi se apropriar da euforia que havia sobre as perspectivas econômicas do Brasil.

“Não é coincidência que ele tenha começado a cair na mesma época em que a economia do Brasil. A imagem dele dependia muito da ideia de que o Brasil era uma nova potência mundial.”

“Ele foi uma figura muito interessante, pois vendeu a ideia de que era um empresário diferente, que destoava de Sebastião Camargo, Odebrecht e outros que sempre dependeram de capital estatal e contratos públicos. Ele teve muito sucesso vendendo a ideia de que era um ‘self-made man’. Mas, no fim, essa narrativa era problemática. Ele era filho de um ex-ministro, se beneficiou dos contatos dele. E levantou dinheiro no mercado privado, mas também buscou contratos com o governo e foi beneficiado com enormes empréstimos do BNDES.”

Segundo Cuadros, Eike é uma figura muito contraditória. “A narrativa de sucesso que se cria levaria as pessoas a acreditar que foi so mérito da pessoa que alcançou a riqueza, o que nunca é totalmente verdade. Sempre há relações com o governo, uso do dinheiro para influenciar a política pública. Dessa forma, me pareceu emblemático não só de uma confusão sobre o empreendedorismo no Brasil, mas em outros países, como os EUA”, disse.

Um outro ponto importante a tratar sobre a prisão de Eike e sua relação com a imagem do país é a narrativa que o Brasil vem construindo no resto do mundo em relação ao combate à corrupção. A prisão do homem que já foi o mais rico do país, de empresários importantes e de políticos que até alguns anos antes tinham muito poder criam no mundo a imagem de que o país está tentando consertar seu sistema político e econômico.

Este assunto foi tema de uma outra entrevista recente neste blog Brasilianismo. Segundo Brian Winter, editor-chefe da revista “Americas Quarterly” e autor de quatro livros sobre a América do Sul, muito da crise atual no país pode ser reflexo deste acerto na rota rumo a um país em que a Justiça funciona.

“Podemos estar vendo as dores de um avanço qualitativo na aplicação das leis, o que toda democracia precisa enfrentar”, disse, citando figuras do Judiciário como “extraordinárias”.

Neste sentido é interessante perceber que a notícia da prisão de Eike foi dada no mesmo dia em que a ministra Cármen Lúcia, do STF, homologou novas delações na Operação Lava Jato, o que pode fortalecer a luta contra a corrupção e a imagem internacional do Brasil como um país que tenta se tornar menos corrupto.

Tanto é assim que o relatório anual da ONG Transparência Internacional sobre percepções de corrupção no mundo diz que 2016 foi um bom ano para a luta contra a corrupção no Brasil.

“Os ricos e poderosos foram colocados cada vez mais sob os holofotes”, diz o texto, elogiando os avanços da investigação sobre corrupção na Petrobras.

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Morte de Teori expõe força do STF na política brasileira, diz ‘Economist’
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Daniel Buarque

Morte de Teori expõe a crescente influência do Supremo na política brasileira, diz 'Economist'

Morte de Teori expõe a crescente influência do Supremo na política brasileira, diz ‘Economist’

O Brasil perdeu “um homem crucial em um momento crucial”, diz a revista “The Economist” ao tratar da morte do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki, na semana passada.

“Ele deixa para trás uma família devastada, legiões de admiradores e o dossiê mais explosivo de casos na mais alta corte do país”, diz, explicando que o ministro coordenava o julgamento de corrupção da Operação Lava Jato e estava prestes a homologar a delação premiada “que poderia levar a mais processos contra políticos”.

Segundo a revista, a decisão de Michel Temer para substituir Teori evidencia o importante papel que o STF tem nos assuntos públicos do Brasil atual.

“A popularidade da corte cresceu enquanto a dos políticos desabou. Dos 594 membros do Congresso, 35 são alvos da Lava Jato; outras dúzias são acusados de outros crimes”, diz a “Economist”. “Em pesquisas de confiança pública, ministros do STF aparecem à frente de políticos”, complementa.

Segundo a revista, o papel político cada vez maior dos ministros do STF pode ser explicado pela crescente polarização política no país, que faz do Supremo um árbitro das suas disputas.

“Mas a crescente assertividade da corte também é um perigo para a democracia”, diz, alegando que os ministros se expõem demais na mídia brasileira.

Depois de uma cobertura intensa do processo de impeachment de Dilma Rousseff e das primeiras medidas de Temer na Presidência, a “Economist” diminuiu um pouco a atenção dada ao Brasil, e tem publicado menos reportagens sobre o país nas últimas semanas.

A revista pode ser considerada uma das principais influenciadoras da imagem internacional do Brasil nos últimos anos, e a cobertura sobre o Brasil em suas páginas foi tema de uma pesquisa de doutorado pela socióloga Camila Maria Risso Sales na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Segundo Sales alterações da política econômica no país sempre afetam a cobertura que a revista faz sobre o Brasil. “A visão da ‘Economist’ é mais positiva sobre o Brasil se a política econômica do país se aproxima mais do viés liberal”, disse.

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Escândalos fazem Brasil perder 3 posições em ranking global de corrupção
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Daniel Buarque

Escândalos fazem Brasil perder 3 posições em ranking global de corrupção

Escândalos fazem Brasil perder 3 posições em ranking global de corrupção

O ano de 2016 foi bom para a luta contra a corrupção no Brasil e no restante da América Latina, segundo o relatório anual da ONG Transparência Internacional sobre percepções de corrupção no mundo. “Os ricos e poderosos foram colocados cada vez mais sob os holofotes”, diz o texto divulgado nesta quarta (25), elogiando os avanços da investigação sobre corrupção na Petrobras.

Apesar da aparente melhora sob os olhos internacionais, a percepção dos brasileiros sobre a corrupção no país se manteve estável em 2016 em comparação com o ano anterior. Ainda assim, o país caiu três posições no ranking global da Transparência, ficando no 79º lugar entre as 176 nações avaliadas (um aumento de participantes em relação a edições anteriores).

Segundo reportagem publicada pela BBC Brasil, a ONG diz que esquemas de corrupção contribuíram pra aumentar as desigualdades no Brasil. A organização destaca que a corrupção ocorre em vários níveis governamentais, causando impactos desastrosos para o desenvolvimento do país.

“O esquema da Petrobras reproduz um padrão que é sistêmico na relação entre setor privado e poder público no Brasil. Através do suborno, são criados ambientes de negócios que privilegiam certos grupos e não são favoráveis ao interesse público e da economia em geral. Isso gera grandes distorções e desigualdades”, afirma Bruno Brandão, representante da organização para o Brasil, à BBC.

Em seu relatório, a Transparência aponta que os escândalos de corrupção da Petrobras e da Odebrecht elevaram a percepção sobre a corrupção no Brasil. Entre 2015 e 2016, o Brasil melhorou ligeiramente sua pontuação sobre percepção de corrupção, mas ainda se manteve em nível classificado como “fracassado” no combate à corrupção, diz reportagem da “Folha de S.Paulo”.

Segundo o relatório, entretanto, é preciso considerar que nem sempre é ruim ter manchetes sobre corrupção em um determinado país, pois escândalos dão visibilidade e podem ajudar a combates a corrupção.

A avaliação se alinha ao que declarou o editor americano Brian Winter em entrevista ao blog Brasilianismo. “Podemos estar vendo as dores de um avanço qualitativo na aplicação das leis, o que toda democracia precisa enfrentar”, disse.

Apesar da posição ruim do Brasil no ranking, analistas internacionais, como Winter, indicam que o país não está entre os piores em termos de corrupção.

Não acho que os brasileiros sejam naturalmente mais corruptos do que alemães ou americanos, mas que as instituições que lidam com isso ainda não foram totalmente estabelecidas aqui, como foram em outros países. Espero que isso seja que esteja acontecendo agora”, disse.

Outro ponto interessante das duas análises é que o relatório da ONG internacional diz que “Nenhum país chega perto de uma avaliação perfeita no Índice de Percepção de Corrupção”.

Segundo Winter, há menos corrupção cotidiana no Brasil do que em outros países da América Latina. “Você não vê o hábito de dar a policiais na rua 5 pesos para comprar um refrigerante como há no México, por exemplo. O que há é um sistema de corrupção que define a interação entre o setor privado e o setor público, que se tornou incompatível com a melhora das instituições jurídicas independentes. E agora chegamos ao momento de crise. A esperança é que este sistema seja reconstruído, criando uma nova forma de interação entre os setores público e privado.”

A situação do país no ranking deste ano, mesmo com a perda de posições, pode ser considerada um avanço em relação ao Índice de 2015, quando o Brasil foi retratado em todo o mundo como “perdedor”, país com “maior queda”, “maior preocupação”. Por conta do escândalo da Petrobras, da recessão e da crise política, o Brasil foi o país que mais perdeu posições no ranking internacional daquele ano sobre o assunto.

O Brasil caiu sete posições no índice em relação ao ano anterior, e ocupava o 76° lugar entre 168 países analisados pela organização não governamental sediada em Berlim e especializada no combate à corrupção internacional.

O destaque dado ao caso do Brasil reforça uma imagem negativa que vem se construindo no resto do mundo nos últimos anos. Apesar de a corrupção ser um problema constante na realidade brasileira, esta questão não costuma estar intimamente associada à reputação global do país, já que trata-se de um tema frequente em todo o mundo.

Mesmo que muitos brasileiros tenham esta sensação, analistas internacionais não pensam o Brasil como um dos lugares mais corruptos do mundo. Este cenário pode mudar, entretanto, e o fato de o mundo dar atenção especial à ”queda” do Brasil no ranking sem dúvida pode tornar a associação entre Brasil e corrupção mais forte.

A Transparência Internacional vem acompanhando as investigações sobre corrupção no Brasil e premiou a Lava Jato em dezembro com o Prêmio Anti-Corrupção de 2016.

Na semana passada, a organização publicou um comunicado defendendo que o Brasil continue com a investigação da Lava Jato e indique um novo ministro do STF comprometido com ela após a morte de Teori Zavascki em um acidente aéreo. A organização também pede que as circunstâncias do acidente sejam investigadas.

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Brasil tem os mesmos fatores que criaram fenômeno Trump, diz Brian Winter
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Daniel Buarque

Revista americana publica especial de 50 páginas sobre como consertar o Brasil

Revista americana publica especial de 50 páginas sobre como consertar o Brasil

Brian Winter está preocupado com a crise política no Brasil. Editor-chefe da revista “Americas Quarterly” e autor de quatro livros sobre a América do Sul, ele diz que vê na atual crise um cenário parecido com o que deu espaço para a ascensão do populismo autoritário de Donald Trump nos Estados Unidos, país onde nasceu e mora atualmente.

Em entrevista concedida ao longo de mais de uma hora em um café no bairro dos Jardins, em São Paulo, durante uma visita ao Brasil em dezembro para lançar a edição especial da revista sobre o país, Winter disse ao Blog Brasilianismo que ainda tem esperança de que a crise seja resultado de um amadurecimento do país, mas que é preciso cuidado com este risco do autoritarismo.

Vice-presidente da Americas Society/Council of the Americas, Winter foi correspondente internacional no Brasil, no México e na Argentina por dez anos e escreveu livros como “Why Soccer Matters” (Por que o futebol importa), escrito com Pelé, “The Accidental President of Brazil” (O presidente acidental do Brasil), escrito com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, “No Lost Causes” (Sem causas perdidas), com o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe e “Long After Midnight” (Muito depois da meia noite). Ele desponta atualmente como uma das principais vozes nos Estados Unidos a analisar e comentar o que acontece no Brasil e na América Latina.

brian_winterNa longa conversa, ele falou sobre política no Brasil, mas foi além da análise sobre a atual crise e o risco de autoritarismo, tratando de corrupção, violência e da consolidação das instituições nacionais. Um dos maiores problemas da política brasileira é que as instituições estão dominadas por uma geração que deveria ter deixado o poder, e não há jovens lideranças na política do país. Questionado sobre sua aposta para a eleição de 2018, disse que vê grandes chances de Ciro Gomes crescer politicamente.

Leia abaixo a entrevista completa

Brasilianismo – Em uma reportagem da “Americas Quarterly” de agosto de 2015 você falava sobre a consolidação da seriedade e estabilidade da política brasileira ao longo de duas décadas, e do risco que a crise política representava. Hoje, depois do agravemento dessa crise, do impeachment e de um início turbulento do governo Temer, como vê essa questão da estabilidade?
Brian Winter – Estou mais preocupado agora do que estava um ano atrás. Ainda acho que é inteiramente possível que tudo isso seja parte de um processo positivo. Podemos estar vendo as dores de um avanço qualitativo na aplicação das leis, o que toda democracia precisa enfrentar. Vejo figuras do Judiciário, como o próprio Sergio Moro, e muitos outros com quem tenho tido contato. Há pessoas extraordinárias.

O desenvolvimento e progresso não acontecem de forma natural. As pessoas têm que fazer isso acontecer. Me preocupo que a destruição dessa atual guerra de poderes seja tão severa que o país fique muito vulnerável quando chegar a eleição de 2018.

O problema maior é ilustrado pelo que acontece nos EUA. Os mesmos fatores que criaram o fenômeno Donald Trump estão presentes no Brasil. Exceto que, no Brasil, as coisas estão bem piores. É fácil ver este processo que vemos agora, de guerra de poderes, levar ao aparecimento de um líder autoritário em 2018.

Brasilianismo – Uma edição especial da revista sobre o país diz que “o destino do Brasil vai depender inteiramente das decisões que estão sendo tomadas agora”. O que acha das decisões que estão sendo tomadas agora?
Winter – É difícil ver decisões corretas sendo tomadas fora do Judiciário atualmente. Há pessoas que apostaram muito dinheiro em Temer e que agora estão perdendo dinheiro. A crença de que só tirar Dilma do poder consertaria tudo de forma mágica se provou errada. Havia uma crença grande de que após o impeachment as coisas voltariam a ser como eram até 2002, e que os 14 anos de PT seriam esquecidos. Ainda acho que há chance de Temer ir bem, mas essa possibilidade está diminuindo.

Brasilianismo – Como colocar isso no contexto da decisão do STF sobre Renan Calheiros, em dezembro, que foi criticada e apontada como “prova do golpe”, do “acordão” com Supremo e tudo, e que fez com que lados opostos se juntassem em crítica ao STF. O que acha disso?
Winter – Esse é o cenário mais negativo que podemos pensar. Eu hesito em dizer isso, mas, se estivéssemos em um período anterior a 1989, os generais não já teriam tomado o poder? Eu sou totalmente a favor da democracia e não acho que eles deveriam fazer isso, mas é importante perceber que este nível de desordem institucional existiu no passado, mas que agora a intervenção militar não é uma opção. Isso que deixa no ar a pergunta ‘quem vai dar um passo à frente para corrigir esta situação?’. Meu medo é que a tentação seja de eleger alguém com instintos autoritários para assumir esta função que no passado teria sido assumida pelos militares.

Brasilianismo – A edição especial da revista fala sobre possíveis nomes para o Brasil em 2018. Bolsonaro provavelmente seria o exemplo do que você acabou de citar. Há quem fale que Moro pode se destacar dessa forma também. O que acha?
Winter – Moro não vai ser candidato. Acredito na possibilidade de outros nomes do Judiciário se destacando dessa forma, e ouvi muita gente falando em Carmem Lucia.

É difícil comentar esse tipo de coisa no Brasil por causa do que está acontecendo nos EUA. Também entramos nessa fase em que as pessoas valorizam a democracia menos do que o faziam antes, pois acreditam que o país está em crise e por isso medidas e líderes autoritários são os caminhos contra a crise. O risco de que esta mesma tendência de autoritarismo chegue ao brasil é muito elevado.

Brasilianismo – Já que você falou de Trump, como acha que a relação entre Brasil e EUA pode mudar em seu governo?
Winter – Não acho que Donald Trump deu mais do que 60 segundos da sua atenção à América do Sul. É difícil saber como a relação vai mudar na prática, mas se Trump começar uma guerra comercial com a China, o que eu duvido que aconteça, isso vai ter consequências para o Brasil. O efeito de trump no Brasil pode ser de aumentar a integração da América Latina em comércio e em diplomacia.

Brasilianismo: A ascensão de Trump pode ser um incentivo ao autoritarismo no Brasil?
Winter – Vemos na história da América Latina que as tendências globais tendem a se refletir na região, então é possível pensar que sim. Mas acredito que a democracia brasileira evoluiu de uma forma que faz com que o país não precise mais de exemplos a seguir, não precise mais aprender com os EUA o que fazer. O Brasil e a América Latina têm seu próprio centro de gravidade, ao contrário do que acontecia 25 anos atrás. Claro que há uma crise agora, mas o processo doloroso e construtivo de implementação de leis e de combate à corrupção pode ser a opção à decadência institucional e guerra de poderes que daria ascensão a um movimento autoritário.

Brasilianismo – O processo de impeachment popularizou a ideia de que “as instituições estão funcionando”, mas a crise entre poderes abriu questionamentos a isso. Matthew Taylor disse que as instituições funcionam, mas que as pessoas dentro dessas instituições estão usando as regras de forma errada. O que acha?
Winter – Quando viajo pela América Latina, vejo políticos jovens, com 30 ou 40 anos de idade, atuando de forma intensa na política local. No brasil não há ninguém assim. No Brasil não há lideranças jovens. É difícil até achar algum político ativo abaixo dos 50 anos. O governo atual é dominado por pessoas na casa do 70 anos, e isso é incrível. A forma como as eleições acontecem no Brasil dá muito poder aos partidos, e isso impede a emergência de novos partidos e novos nomes no país. São barreiras institucionais que impedem essa mudança geracional. Eu trabalhei com FHC e tenho uma relação pessoal com ele, mas o fato de o nome dele ter sido citado como uma possibilidade para uma eleição indireta é prova de total falta de imaginação e sinal do quanto o país precisa de uma mudança geracional. Ele tem 85 anos! Não existe outra solução? O fato de ele ter sido mencionado não faz sentido.

O Brasil tem instituições dominadas por uma geração que deveria ter saído de cena. O país precisa de uma mudança geracional na política. A ausência de uma nova geração na política é a grande diferença do Brasil em relação ao resto do continente. As instituições até funcionam, mas as pessoas que atuam nelas são as mesmas desde as Diretas Já. Desde antes mesmo que as instituições existissem ou funcionassem propriamente.

Brasilianismo – Entre março e abril do ano passado você deu entrevistas falando da crescente possibilidade de impeachment de Dilma Rousseff. Agora, acha que Temer termina seu mandato?
Winter – Acho que Temer vai sobreviver. Ele ainda tem muito apoio dos partidos políticos em Brasília. Estive lá e fiquei surpreso com o clima de resignação. As pessoas não estão mais mobilizadas. Não sinto o mesmo nível de rejeição e raiva que esperava. Faz sentido. As pessoas estão cansadas. A crise está entrando em seu terceiro ano. Isso aconteceu também na crise argentina. Em 2003, as pessoas odiavam Eduardo Duhalde, mas os cidadãos estavam sem energia depois de tantos protestos e mudanças no governo.

Se Temer for diretamente implicado na Lava Jato, tudo pode mudar, mas, por enquanto, acho que ele sobrevive.

Brasilianismo – E quem acha que pode substituir ele após 2018?
Winter – Se tivesse que apostar, diria que Ciro Gomes. Ele tem um pé no perfil anti-establishment, mas, na verdade é alguém que está presente na política há muito tempo. Além disso seu discurso é bem posicionado para se aproveitar da raiva da população se o país não melhorar até a eleição.

Outra opção é aparecer alguém que não está no radar até agora.

Brasilianismo – Na cobertura que a revista faz do país, qual a maior dificuldade de traduzir o Brasil para leitores no resto do mundo?
Winter – É muito difícil traduzir o país. O Brasil é um país desorientador, mas apesar de ser difícil de explicar, tem características que os americanos conseguem reconhecer, como o tamanho do território, o perfil autocentrado. Há interesse no Brasil. Vemos isso com a revista e com o site. Houve um aumento do interesse no ano passado por causa do impeachment, mas há o reconhecimento geral de que as coisas foram muito bem por um período, e estão indo muito mal agora. As pessoas estão de olho.

Brasilianismo – Como lida com a ideia de que brasileiros estão lendo e fazendo cobranças a respeito do que você escreve em inglês?
Winter – Esta semana, uma das pessoas que trabalha com redes sociais na revista me disse que nunca tinha visto ninguém ser acusado de ser tantas coisas diferentes ao mesmo tempo. Eles me chamam anti-pt, anti-tucano, de esquerda, de direita, autoritário, liberal. Espero que seja um sinal de que estou mantendo os olhos abertos e estou respeitando o país. Vivi muitos anos aqui e mantive relacionamento com as pessoas, e trabalho muito duro para acompanhar o que acontece aqui. Mesmo morando em Nova York eu ouço CBN no metrô. Eu tento ser fiel ao que acredito e tento não se partidário. Não sou a favor de nenhum partido. Acredito na democracia, na economia inclusiva, nos direitos iguais para todas as pessoas (o que me faz achar Bolsonaro detestável). Acho que o PT fez coisas boas e sei que o PSDB fez coisas ruins. às vezes eu erro, mas tento fazer o melhor possível.

Brasilianismo – Você veio ao Brasil em 2010, quando o interesse no Brasil estava em alta. Agora o país está em crise. Mudou algo no interesse internacional sobre o país?
Winter – Mudou, mas o mais importante é o que aconteceu antes disso. Em 2004, eu morava na Argentina. Recebi uma ligação de uma editora de Nova York perguntando se eu já tinha ouvido falar de Fernando Henrique Cardoso. Eles queriam um jornalista para ajudar ele a escrever um livro para o público internacional, e perguntaram se eu tinha interesse. Eu disse que sim, mas que não falava português, não conhecia bem o Brasil e nunca tinha escrito um livro. Lembrei a ele que eu morava na Argentina, e ele respondeu: “Brasil e Argentina não são basicamente a mesma coisa?”.

Este tipo de conversa não aconteceria em 2016. Nos últimos 12 anos, houve um aumento da visibilidade do Brasil e da conexão do país com os EUA. Agora é facil achar alguém nos eua que fale português e conhece minimamente o Brasil para escrever um livro assim. Isso mudou. O reconhecimento da importância do Brasil se acelerou na virada da década, e vai continuar presente, com mais pessoas familiarizadas com o Brasil.

Brasilianismo – O consultor britânico Simon Anholt dizia que a crise não mudaria a imagem do Brasil em outros países, pois o resto do mundo já via o país como sendo um país pobre. Mesmo assim o Brasil teve sua maior queda no NBI deste ano. Como acha que a crise está afetando a imagem internacional do brasil?
Winter – Agosto de 2016, de forma geral, foi ruim para a imagem do Brasil, por conta do impeachment e da Olimpíada. Acho que a Olimpíada foi boa para o país, mas as complicações que tiveram destaque na mídia podem ser ruins para a imagem. O momento atual é difícil, mas não vai durar para sempre. Se o país conseguir se recuperar nos próximos anos, sua posição em rankings assim vai melhorar. É coisa passageira.

Brasilianismo – Você escreveu sobre sua relação com o risco de violência no Brasil. Quanto a violência está conectada à imagem do Brasil nos Estados Unidos?
Winter – Muito. O Brasil é um paí muito violento, e tem coisas que parecem normais aqui que não são normais, como carros blindados, muros de 3 metros de altura com cerca eletrificada, a facilidade com que as pessoas são mortas e a falta de julgamento. Sucessivos governos desde o fim da ditadura fracassaram na tentativa em nível federal de controlar a violência. Isso acaba tendo reflexos políticos, pois a insatisfação das pessoas é com a situação de insegurança generalizada em que elas vivem. Não é uma questão fácil de lidar, mas é parte da identidade do que significa ser brasileiro e do que se pensa sobre o país no mundo.

O diretor de uma empresa de tecnologia que atua no mundo todo esteve no Brasil e visitou a Rocinha. Perguntado sobre o que achou, ele se disse surpreso com o fato de a Rocinha não ser tão pobre em um contexto global. Segundo ele, o que é sufocante é o risco de violência que se sente só de visitar o lugar. Esta é a verdadeira fonte de miséria das pessoas que vivem ali.

Brasilianismo – As pessoas têm falado sobre a corrupção no cotidiano dos brasileiros. Acha que isso é algo em que o país se diferencia do resto do mundo?
Winter – Acho que a corrupção é o estado normal dos homens, e que é preciso construir instituições e leis para retirar a corrupção da sociedade. Não acho que os brasileiros sejam naturalmente mais corruptos do que alemães ou americanos, mas que as instituições que lidam com isso ainda não foram totalmente estabelecidas aqui, como foram em outros países. Espero que isso seja que esteja acontecendo agora.

É importante perceber que há menos corrupção cotidiana no Brasil do que em outros países da América Latina. Você não vê o hábito de dar a policiais na rua 5 pesos para comprar um refrigerante como há no México, por exemplo. O que há é um sistema de corrupção que define a interação entre o setor privado e o setor público, que se tornou incompatível com a melhora das instituições jurídicas independentes. E agora chegamos ao momento de crise. A esperança é que este sistema seja reconstruído, criando uma nova forma de interação entre os setores público e privado.

Brasilianismo – Em 2010 falava-se que o Brasil se tornava um exemplo global de luta contra a pobreza e a desigualdade. isso se perdeu com a crise. Acha que o Brasil ainda é exemplo positivo de algo para o resto do mundo?
Winter – Sim, é um exemplo de tolerância. Em um contexto global, a sociedade brasileira é muito tolerante. O país recebeu muitos migrantes de forma aberta, com poucos incidentes problemáticos. Quando se vê a pluralidade da sociedade e a forma como pessoas de todas as minorias são aceitas e toleradas, percebe-se que o Brasil dá uma lição nesse sentido, apesar de haver incidentes barulhentos, e crimes de ódio contra gays. A sociedade como um todo tem uma capacidade surpreendente de assimilar. Eu senti isso quando vivi aqui. Me senti mais bem-vindo aqui do que em qualquer outro país.

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Cenário ‘apocalíptico’ faz cientistas fugirem do Brasil, diz a ‘Science’
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Daniel Buarque

Cenário 'apocalíptico' fazem cientistas fugirem do Brasil, diz a 'Science'

Cenário ‘apocalíptico’ fazem cientistas fugirem do Brasil, diz a ‘Science’

O Brasil está vivendo um grande risco de uma “fuga de cérebros”, enquanto pesquisadores acadêmicos fogem do cenário “apocalíptico” que se formou nas universidades brasileiras desde o início da crise.

Segundo uma reportagem na revista “Science”, milhares de cientistas brasileiros, especialmente no Rio de Janeiro, estão deixando a situação desesperadora do país atrás de financiamento para suas pesquisas em outras partes do mundo.

“O encolhimento do apoio federal à ciência no Brasil em meio à crise retirou fundos para bolsas de estudos e infraestrutura de laboratórios”, diz a revista.

Segundo a reportagem, muitos professores estão saindo das instituições públicas por conta dos atrasos em pagamentos.

“Isto está afetando toda uma geração de cientistas”, diz um pesquisador citado pela “Science”.

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Deu na ‘Folha’: Em carta, deputados dos EUA criticam Moro e defendem Lula
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Daniel Buarque

Deu na 'Folha': Em carta, deputados dos EUA criticam Moro e defendem Lula

Deu na ‘Folha’: Em carta, deputados dos EUA criticam Moro e defendem Lula

Reportagem publicada pela “Folha de S. Paulo” na última semana revela que um grupo de 12 deputados do Partido Democrata dos Estados Unidos publicou uma carta pública em defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O texto também acusa o juiz Sergio Moro de persegui-lo por meio de decisões “arbitrárias”.

Endereçada ao embaixador do Brasil em Washington, Sergio Amaral, a carta afirma que o ex-presidente Lula está sendo “perseguido”.

“Estamos especialmente preocupados com a perseguição do ex-presidente Lula da Silva, que viola as normas de tratados internacionais que garantem o direito da defesa para todos os indivíduos.”

“Exortamos as autoridades federais do Brasil a fazer todo o possível para proteger os direitos dos manifestantes, líderes de movimentos sociais e líderes da oposição, como o ex-presidente Lula.”

Na carta do grupo liderado pelo deputado democrata John Conyers, os legisladores afirmam que Lula tem sido alvo de uma “campanha de calúnias e acusações não comprovadas de corrupção pelos grandes veículos privados de mídia alinhados com as elites do país”.

Em julho, um grupo de deputados havia publicado uma carta contra o processo de impeachment, assinada por 39 deputados democratas e 20 organizações.

A carta mais recente foi divulgada dias depois de uma outra manifestação internacional a favor de Lula, publicada pelo jornal britânico “The Guardian”. Nesta, um grupo de mais de 20 políticos, intelectuais e ativistas britânicos declararam solidariedade ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e criticaram o que chamam de “julgamento midiático” do líder do PT.

Em abril do ano passado, um grupo de 19 pensadores e artistas escreveu no jornal que o processo para retirar Dilma da Presidência não era democrático. Em maio, um grupo de 20 parlamentares britânicos condenou o impeachment em uma outra carta no jornal.

O espaço serviu também para que o governo de Michel Temer respondesse às acusações de golpismo. Um dia após as críticas, o embaixador brasileiro em Londres, Eduardo dos Santos, publicou uma carta no mesmo jornal reagindo à acusação de parlamentares britânicos. Segundo o embaixador, a democracia brasileira ”está viva e bem”.

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Transparência Internacional cobra investigação sobre a morte de Teori
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Daniel Buarque

Transparência Internacional cobra investigação sobre morte de Teori

Transparência Internacional cobra investigação sobre morte de Teori

A organização global de luta contra a corrupção Transparência Internacional publicou um comunicado defendendo que o Brasil continue com a investigação da Lava Jato e indique um novo ministro do STF comprometido com ela após a morte de Teori Zavascki em um acidente aéreo. A organização também pede que as circunstâncias do acidente sejam investigadas.

“O governo não pode deixar que esta tragédia interrompa o importante trabalho que o ministro Zavascki estava fazendo”, diz o comunicado, se referindo à Lava Jato como “o maior escândalo de corrupção envolvendo políticos brasileiros experientes e poderosos interesses econômicos”.

“É uma terrível tragédia e uma grande perda de um homem corajoso”, declarou José Ugaz, diretor da Transparência Internacional, no comunicado. “Deve ser feita a indicação rápida de um novo ministro do Supremo competente e comprometido”, complementa.

Segundo o texto, por conta da “sensibilidade” dos casos em que Teori estava trabalhando, “é preciso ter uma investigação completa da queda do avião para confirmar que foi um acidente”.

A Transparência Internacional vem acompanhando as investigações sobre corrupção no Brasil e premiou a Lava Jato em dezembro com o Prêmio Anti-Corrupção de 2016.

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Robert Wood: Brasil não vai estar no radar do governo de Donald Trump
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Daniel Buarque

Robert Wood: Brasil não vai estar no radar do governo de Donald Trump

Robert Wood: Brasil não vai estar no radar do governo de Donald Trump

O Brasil não vai estar no radar do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que toma posse nesta sexta (20).

A avaliação é do analista-chefe para a América Latina da consultoria Economist Intelligence Unit (EIU), ligada à revista “The Economist”, Robert Wood, em entrevista à Rádio França Internacional.

“O Brasil não estará no foco das políticas econômicas e comercias da administração Trump. Os Estados Unidos estarão focados nas relações com o México, o parceiro no âmbito de um tratado de livre comércio da América do Norte, e talvez com a China. Se olharmos durante a administração de Obama, o Brasil também não esteve no centro das políticas externas do governo americano. Não vai haver mudanças”, disse Wood.

Segundo ele, o Brasil pode ser afetado indiretamente pelo novo governo americano. Mas ele diz não ver motivo para preocupação, pois os EUA mais exportam para o Brasil do que importam, entãoo país pode não ser visto como adversário no âmbito do comércio.

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Documentos secretos são liberados e revelam o Brasil visto pela CIA
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Daniel Buarque

Documentos sigilosos mostram como o Brasil era visto pela CIA

Documentos sigilosos mostram como o Brasil era visto pela CIA

Documentos recém-liberados pela agência de inteligência dos Estados Unidos mostram a visão do Brasil pelos olhos da CIA entre os anos 1940 e 1990.

Segundo reportagens da “Folha de S.Paulo“, da BBC Brasil e da revista “Carta Capital”, a CIA liberou nos últimos meses milhões de documentos antes mantidos em segredo. São telegramas, recomendações sobre política externa, análises semanais e anuais sobre o país e artigos de jornal que citam o Brasil –entre muitos outros temas. No total, 11,1 mil documentos mencionam o Brasil.

Análises publicadas pela “Folha” e pela “Carta Capital” focam na atenção dada pela CIA à ascensão do PT no país.

“Em julho de 1986, a CIA produziu um relatório secreto no qual tratou, em seis páginas, dos esforços do PT para deixar de ser um mero ‘partido de operários’ para formar uma base de militância maior e conquistar eleitores mais jovens, além de ampliar contatos no exterior”, diz a “Folha”.

“O capítulo Os problemas das lideranças trabalhistas, o documento destaca: ‘Acreditamos que a ascensão de Lula no final dos anos 70, usando o apoio de 300 mil metalúrgicos, foi o mais importante desenvolvimento do trabalhismo desde o golpe militar. O ‘fenômeno Lula’ revela que o trabalhismo não é tão dócil quanto os observadores acreditavam e que, com a liderança renovada, o movimento teria potencial como uma força política'”, diz a “Carta Capital”.

A BBC Brasil enfocou outro tema: o interesse dos EUA em defender o Nordeste do Brasil de um possível ataque soviético.

“Segundo a CIA, o Nordeste era tão importante para a segurança dos EUA quanto o Canadá e o Canal do Panamá, a conexão marítima entre o Atlântico e o Pacífico. A agência cita o general francês Lionel Max-Chassin, para quem uma hipotética ofensiva soviética contra os EUA incluiria ataques a partir do Ártico e da ‘faixa costeira entre Natal e a Bahia'”, diz a reportagem.

Os documentos antes sigilosos formam um amplo acervo para pesquisas e estudos sobre relações internacionais e a imagem do Brasil aos olhos da inteligêcia dos EUA.

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Mídia estrangeira: Onda de violência revela horror de presídios do Brasil
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Daniel Buarque

Onda de violência mostra que presídios brasileiros são um horror, diz mídia estrangeira

Onda de violência mostra que presídios brasileiros são um horror, diz mídia estrangeira

A onda de violência que se espalhou pelos presídios brasileiros e já deixou mais de cem mortos é uma clara evidência de que o sistema correcional brasileiro é um horror, segundo uma análise publicada na importante revista de relações internacionais “Foreign Affairs”.

Em um longo texto o pesquisador da ONG de direitos humanos Human Rights Watch César Muñoz Acebes descreve a péssima situação do sistema prisional, que compara a prisões da Idade Média.

“Historiadores dos tempos medievais reconheceriam muito em uma prisão dos tempos modernos no Brasil. Detentos eram tradicionalmente mantidos em celas escuras, úmidas e sem ventilação. Doenças se espalhavam; prisioneiros tinham 30 vezes mais chances de ter tuberculose”, diz.

Assim como a HRW já fez em textos divulgados nos últimos dias, o texto da revista de diplomacia defende que o país precisa reformar seu sistema prisional.

A HRW tem sido muito ativa em publicação de análises críticas à situação em que o Brasil mantém seus detentos. Após as últimas rebeliões, ela publicou um artigo defendendo que o Brasil deve retomar o controle do sistema prisional do país.

Segundo a HRW, as autoridades brasileiras abdicaram da responsabilidade de manter a ordem e a segurança nas prisões, e isso viola os direitos dos prisioneiros. “O Brasil precisa tomar das gangues o controle do seu sistema prisional e garantir a segurança de todos os detentos”, diz.

O artigo publicado na “Foreign Affairs” é a análise mais recente em uma onda recente de reportagens publicadas em veículos de comunicação estrangeiros criticando o sistema de prisões do Brasil e tratando os presídios do país como lugar de “terror”.

O massacre de mais de 50 pessoas dentro de um presídio de Manaus, a primeira da atual série de rebeliões, transformou a questão da violência nos presídios brasileiros no assunto relacionado ao Brasil mais citado no resto do mundo neste início de 2017.

Centenas de reportagens em veículos de todo o mundo denunciam a barbárie registrada em várias prisões –com grande destaque para decapitações– e reforçam no resto do planeta a péssima imagem das prisões e dos direitos humanos no país.

A situação dos presídios brasileiros é destaque frequente no resto do mundo há muitos anos, sempre revelando problemas no respeito aos direitos humanos.

“A punição ainda é vista pela sociedade brasileira como uma forma de vingança”, explicava o site da rede Al Jazeera sobre a barbaridade dessas prisões em dezembro de 2014.

A crítica internacional e a imagem negativa associada às prisões brasileiras mancham a forma como o país é visto no resto do mundo e fazem com que questões de direitos humanos como estas deixem de ser apenas do interesse de grupos ligados à sua defesa. Garantir a integridade de prisioneiros do Estado é algo que é regularmente cobrado de países que querem ter relevância no cenário internacional.

O respeito aos direitos humanos é parte fundamental do funcionamento de um país realmente democrático. “A forma como uma sociedade cuida de sua população prisional é um bom índice dos seus valores e da sua civilidade. Uma inspeção cotidiana do sistema penal do Brasil revela uma cultura que beira o sadismo”, dizia uma reportagem do jornal “Los Angeles Times” em 2014.

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