Brasilianismo

Mudança de política econômica afeta cobertura da ‘Economist’ sobre o Brasil

Daniel Buarque

Mudança de política econômica afeta cobertura da ‘Economist’ sobre o Brasil

Mudança de política econômica afeta cobertura da ‘Economist’ sobre o Brasil

Nenhuma publicação da imprensa internacional aparenta ter influenciado tanto a imagem internacional do Brasil nos últimos anos quanto aquela capa da revista britânica “The Economist” mostrando, em 2009, o Cristo Redentor decolando como um foguete. A montagem se tornou o símbolo da ascensão econômica do Brasil na década passada, e é lembrada sempre que a emergência do país no mundo é discutida.

Apesar de marcante, a ideia de que o Brasil decolava – take off, como a revista dizia em inglês – não é uma novidade nas páginas da “Economist”. Segundo a pesquisa de doutorado da socióloga Camila Maria Risso Sales, defendida neste semestre pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a publicação alterna historicamente sua cobertura sobre o Brasil em momentos entusiasmo e de decepção dependendo do rumo tomado pela política econômica adotada pelo governo brasileiro – e até mesmo o termo “take off” já tinha sido usado antes em referência ao Brasil.

Sales concedeu uma entrevista ao autor do Blog Brasilianismo sobre sua pesquisa e a cobertura que a “Economist” faz sobre o Brasil. Sua avaliação sobre a forma como a revista acompanhou o processo de impeachment de Dilma Rousseff foi publicada na “Folha de S.Paulo” logo após a votação no Senado, que cassou seu mandato.

Na entrevista, ela explicava que a mudança de governo, e as alterações da política econômica sempre afetam a cobertura que a revista faz sobre o Brasil. “A visão da Economist é mais positiva sobre o Brasil se a política econômica do país se aproxima mais do viés liberal”, disse Sales .

Leia abaixo a entrevista completa da pesquisadora

Brasilianismo – Em sua tese de doutorado, você fala sobre a cobertura que a ''Economist'' fez do golpe militar de 1964 alternou críticas anteriores à tomada do poder e elogios à mudança de rumo econômica sob Castelo Branco. ''Nesse cenário, entende-se que a política fica subordinada à economia. A partir do momento em que são tomadas as medidas de austeridade sempre recomendadas pela revista a postura crítica desaparece e os elogios do campo econômico estendem-se para a política, como podemos ver nessa descrição de Castelo Branco'', diz. Logo após a aprovação do impeachment de Dilma Rousseff, neste ano, a revista publicou reportagem elogiando as propostas econômicas de Temer. Pode-se falar em paralelo entre 1964 e 2016 na cobertura que a ''Economist'' faz do Brasil?

Camila Maria Risso Sales – Podemos dizer que há algumas semelhanças. Principalmente no que diz respeito às expectativas quanto a mudança de rumo da política econômica. Entretanto, o período mais recente não foi coberto pela pesquisa, portanto não foram aplicados os mesmos procedimentos metodológicos aos quais foram submetidos o restante do material. Mas, é possível perceber que existe uma tendência a uma visão mais positiva quanto às políticas que seriam implementadas pelo novo governo.

Em que esses dois momentos históricos se aproximam e o que há de diferente entre eles na cobertura da ''Economist''?

A 'Economist' alterna momentos entusiasmo e de decepção com o Brasil.

Isso aconteceu em diversos momentos, em governos diferentes. O segundo governo Lula foi, por exemplo, um momento em que o noticiário era muito positivo. A gestão de Dilma Rousseff não foi vista com tanto otimismo, e o pico de negatividade veio no início desse ano. Dessa forma, sucederam-se algumas notícias em que havia expectativa de melhora do cenário.

Entretanto, é preciso notar que o momento de crise política tem sido relatado com alguma crítica, como foi possível ver em reportagem veiculada logo após a votação na Câmara dos Deputados em que a revista ridicularizava as justificativas apresentadas pelos deputados e deputadas.

Sua pesquisa incluiu a análise da cobertura do impeachment de Collor. De que forma acha que aquele momento se relaciona com 1964 e com o momento atual nas páginas da ''Economist''?

O impeachment de Fernando Collor de Mello introduziu a temática da corrupção entre as preocupações da publicação inglesa. Uma aproximação entre os dois momentos é que a revista destaca a constitucionalidade do processo. Ou seja, a 'Economist' enfatiza que o impeachment é um processo instituído dentro das normas legais que regem o Brasil. Entretanto, não entra em detalhes sobre a forma de condução desse processo, em nenhum dos dois momentos.

Naquele momento, as expectativas de liberalização da economia diminuíam com Itamar, o que não se repete em 2016.

Uma diferença que talvez valha destacar é o tamanho da cobertura, que em 1992 foi muito menor. Apenas alguns artigos e nenhuma capa. Por outro lado, a capa da primeira edição de 2016 foi sobre a crise política no Brasil, publicada mundialmente. Além disso, saíram outras duas capas com circulação apenas na América Latina e algumas dezenas de artigos.

Apesar de criticar o governo Dilma e de ter pedido sua renúncia, a ''Economist'' criticou o impeachment, mas não tratou o processo como golpe de Estado. Em sua tese você diz que, para a revista, ''a democracia não era um valor a ser defendido a qualquer custo. Estabilidade econômica e a abertura dos mercados interessavam mais''. Acha que este é o caso da cobertura atual também?

É muito difícil dizer isso porque são contextos muito distintos. Durante a Guerra Fria e a ditadura militar, realmente a estabilidade econômica e a defesa do capitalismo interessavam mais que a manutenção das democracias na América Latina. Atualmente, há alguma crítica sobre certos atores e a forma que estes conduzem o processo, a ‘Economist’ tem criticado também a nomeação de políticos acusados de corrupção e a ausência de mulheres no primeiro escalão. Mas, atuação da equipe econômica recebe elogios. Contudo, talvez seja possível dizer que a ‘Economist’ dá pouca voz ao outro lado, à defesa de Dilma Rousseff e àqueles que argumentam que o Brasil vive um golpe parlamentar. Estes baseados na fragilidade das acusações. Mas, não é possível dizer que os valores democráticos sejam hoje secundários para a revista.

Em entrevista à “Folha de S. Paulo”, Zanny Minton Beddoes, editora-chefe da “Economist'' disse que toda a classe política decepcionou o Brasil. A revista chamou o impeachment de ''jeitinho na Constituição'' e tem acusado o sistema político brasileiro de ser disfuncional. De que forma você acha que o resultado da sua pesquisa, indicando o viés editorial da revista, se reflete nesta avaliação da política brasileira?

Para a revista importa estabilidade. A revista afirma que Dilma Rousseff não tem nenhuma acusação grave pesando contra ela. E que muitos dos que votaram a favor de que ela fosse retirada do cargo são acusados de corrupção. Entretanto, apoia que ela seja retirada do cargo. Advogaram a renúncia da ex-presidente em nome da eficiência do governo. Contudo, sabemos que o cenário é muito mais complexo que esse.

Mais recentemente a revista tem defendido eleições gerais, mas a pergunta é: quem teria legitimidade para convocá-las? A ex-presidente já disse algumas vezes que esta seria a forma com que ela conduziria a situação, mas a revista ainda achava que ela deve permanecer afastada.

Na sua opinião, por que a cobertura da ''Economist'' tem tanta repercussão no Brasil?

Essa foi a pergunta que estimulou o início da pesquisa. Por que uma publicação estrangeira, que apesar de aumentar constantemente sua cobertura sobre o Brasil nunca tratou o país como prioridade tem tanta repercussão aqui? Acredito que uma parte disso se deva ao estilo opinativo da revista. Que não se furta em colocar seu ponto de vista sobre determinados temas.

Outro fator está relacionado com a mídia local que repercute muito o que é veiculado pela Economist. Por exemplo, em um levantamento simples podemos ver que em 2013 a “Folha de S. Paulo” mencionou a “Economist” pelo menos 120 vezes. Isso é relevante, se pensarmos que a publicação da revista é semanal e que ela, em média, publica um texto sobre o Brasil em cada uma de suas edições.

Os brasileiros têm interesse pelo que se fala sobre o país no exterior, mas o que torna a ''Economist'' um caso à parte?

Acredito que seja exatamente essa repercussão interna do que aparece na revista.

De que forma você acha que a ''Economist'' reflete a reputação internacional do Brasil – há uma ligação entre a cobertura da revista e a imagem do país?

A revista é uma poderosa formadora de opinião. Entretanto, é difícil medir qual o impacto que ela tem para a imagem do Brasil em outros setores, como nas relações internacionais, por exemplo.

A capa da ''Economist'' com o Cristo Redentor decolando se tornou uma referência sobre a ascensão do Brasil no fim da década passada. Sua pesquisa mostra, entretanto, que a ideia de ''take off'' já havia sido usada pela revista para se referir ao Brasil. Trata-se de um tema que se repete? Por que isso acontece?

Foi muito interessante encontrar esse tipo de referência em textos publicados mais de 40 anos atrás. Sim, a temática da ascensão do Brasil se repete. Imagens muito similares são utilizadas no início dos anos 1970 e em meados dos anos 2000. Novamente, a revista tende a alternar momentos de alta expectativa e de decepção com a economia brasileira.

Sua pesquisa fala sobre a oscilação da cobertura da revista entre tons de otimismo e tons de pessimismo. A contrapartida do ''take off', com indicações de que o Brasil ''perdeu o rumo'', também se repetiu no passado?

Sim, a gestão do General Ernesto Geisel na economia foi muito criticada.

Essa oscilação no tratamento é um reflexo da forma de trabalhar da revista, ou é um reflexo de oscilações na política econômica do Brasil?

Das duas coisas. A visão da “Economist” é mais positiva sobre o Brasil se a política econômica do país se aproxima mais do viés liberal defendido pela revista.

Seu doutorado parece ter um tom crítico ao fato de a ''Economist'' submeter a cobertura política em geral a questões econômicas, partindo do diapasão das regras do livre mercado. É um problema ter uma abordagem assim da realidade do Brasil? De que forma isso distorce (se é que o faz) a cobertura feita pela revista?

Não é um problema em si. A revista é sobre economia, é natural que ela dê mais ênfase aos aspectos econômicos. Entretanto, o noticiário tímido sobre as graves violações de direitos humanos que aconteceram no Brasil nos anos 1970 chama a atenção. Principalmente se comparamos com a importância que este tema teve em outros órgãos da imprensa europeia e americana.

Apesar de o Brasil aparecer na revista há tempos, seu trabalho indica que realmente houve um aumento da cobertura sobre o país ao longo do tempo. Por que isso aconteceu?

A “Economist” aumentou sua cobertura sobre toda a América Latina. A globalização da economia tornou essa região mais atrativa ao capital internacional e por consequência ao público da “Economist”. Mas, o Brasil, assim como outros países, aumentou, nos últimos anos, sua presença nos organismos multilaterais, no comércio internacional, em questões humanitárias, etc. Isso fez crescer o interesse sobre o país.

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