Brasilianismo

Olimpíada ajuda a revelar contrastes do Brasil real que ‘brinca com perigo’

Daniel Buarque

Assim que publicou seu primeiro livro nos Estados Unidos, a jornalista Juliana Barbassa sentiu a necessidade de escrever um texto pedindo desculpas a sua própria mãe. Lançado no fim de julho, “Dancing with the Devil in the City of God” (que poderia ser interpretado como algo na linha de “brincando com o perigo na cidade de Deus”) é o retrato de um Brasil complicado, cheio de problemas, com uma complexidade que vai além dos clichês mais populares no resto do mundo, e que tem um grande potencial muitas vezes não realizado.

devilresized_mini“Por que você não escreve coisas boas sobre o país?”, perguntou sua mãe certa vez, contrariada com o tom crítico de muitas das reportagens que Barbassa escrevia como correspondente da agência internacional Associated Press no Rio de Janeiro. Nascida no Brasil, Juliana passou 30 dos seus 40 anos fora do país, e é com este olhar ao mesmo tempo nacional e “meio gringo” que seu trabalho descreve o Brasil para quem vê o país de longe.

''Essa sensibilidade não era particular a minha mãe. Como qualquer pessoa que já tenha escrito sobre o Brasil sabe, os brasileiros são sensíveis a críticas a seu país, e reagem para defendê-lo. Isso inclui a minha família. Isso é especialmente verdade quando o que se fala vai ser lido lá fora, por estrangeiros. E para uma brasileira fazer isso – bem, aí já é de mau gosto, se não uma traição'', contou Barbassa, bem-humorada, em um texto publicado no seu blog.

Em entrevista ao blog Brasilianismo, Barbassa contou que recebeu mensagens críticas de brasileiros em relação a seu livro. ''Não li e não quero ler'', ''se não gosta do Brasil, pode ir embora'', diziam. “Há um esforço para mostrar apenas nosso melhor perfil no exterior, até o ponto em que alguns brasileiros chegam a negar os problemas que temos quando estão diante de uma platéia internacional”, explica.

Ela defende sua abordagem crítica, entretanto. “A verdade é que todo país tem problemas. Se eu escrever sobre os Estados Unidos, vou escrever sobre os problemas norte-americanos; se eu escrever sobre o Brasil, vou escrever sobre problemas brasileiros. Fazer perguntas e ser crítico é parte do papel da imprensa. Isso alimenta o debate público, lança luz sobre questões negligenciadas e ajuda a sociedade a encontrar soluções”, diz.

Escrevendo em inglês, idioma que se sente mais à vontade para usar em temas relacionados a seu trabalho, a jornalista abordou ainda a importância do trabalho da imprensa internacional na formação da imagem do Brasil no exterior, ajudando a moldar a imagem de o que o país é, de verdade, no lugar de uma noção preconcebida que os leitores poderiam ter antes.

A jornalista Juliana Barbassa

A jornalista Juliana Barbassa

Ela explicou que, ao escrever para um público internacional, é importante encontrar um ponto de conexão entre a pauta do Brasil e o leitor estrangeiro, e disse que atualmente a linha editorial da AP é “Olimpíada, Olimpíada, Olimpíada”. Nesse sentido, os Jogos vão ajudar a revelar ao mundo os contrastes do país real, buscando reforçar a imagem do Brasil e fugir dos estereótipos de sempre.

Leia abaixo a entrevista completa.

Brasilianismo – Você é brasileira e foi correspondente internacional no Brasil. Como acha que isso fez seu trabalho se diferenciar do de outros correspondentes no país? E como ele se diferenciou do trabalho dos jornalistas que escrevem em publicações brasileiras?
Juliana Barbassa – O fator que mais me diferencia de outros jornalistas estrangeiros é, naturalmente, a conexão pessoal que tenho com o país. Parte disso me faz ter um conhecimento mais profundo do lugar, da sua história, da sua cultura; mas isso é algo que também pode ser aprendido, e muitos dos meus colegas estrangeiros certamente pode falar com tanta autoridade quanto qualquer brasileiro.

Mas esta conexão de que eu estou falando é mais do que apenas ter informações sobre o país; há um cuidado e uma preocupação que vem de ter toda a minha família no Brasil, e ter o meu próprio futuro vinculado ao país que me diferencia. Quando eu escrevo sobre problemas na economia, não é só um assunto que estou cobrindo, eu também estou falando de algo que vai afetar as pessoas com quem mais me importo. Eu também tive a oportunidade de vivenciar momentos-chave na história recente do Brasil, como a transição para a democracia e os anos de hiperinflação, que me dão uma perspectiva diferente sobre os acontecimentos recentes.

Quanto aos jornalistas locais – bem, é óbvio que me falta a experiência diária do país, o tipo de contexto que você só tem se você já viveu uma vida em um lugar. Por outro lado, eu posso oferecer o distanciamento e a perspectiva diferenciada de alguém de fora para questões que são velhas e cansativas ​​para jornalistas brasileiros.

Brasilianismo – Você já conhecia bem o Brasil. Precisou se preparar antes de se tornar correspondente? Algo do Brasil a surpreendeu durante o tempo em que trabalhou no país?
Barbassa – Eu não me preparei em grande parte porque havia muito pouco tempo! Eu trabalhava cobrindo a notícias sobre imigração para a Associated Press da Califórnia até a semana antes de me mudar para o Rio, então eu mal tive tempo de arrumar minhas coisas, vender meu carro e dizer adeus aos amigos.

Muitas coisas me surpreenderam: Eu estava seguindo notícias do país no exterior, e o enorme otimismo de 2009, 2010 se refletia na imprensa estrangeira. Eu absorvi tudo aquilo. Mas logo depois que cheguei ao Rio, cobri a ocupação do Alemão, e o caos que o precedeu, e, em seguida, em janeiro, o enorme desastre que foram as inundações e deslizamentos de terra na Serra dos Órgãos, onde cerca de mil pessoas morreram. O que eu vi durante os primeiros meses, as conversas que tive com os brasileiros comuns, mostrou que muito estava mudando, mas que ainda havia grandes lacunas, enormes necessidades não atendidas.

Brasilianismo – Como você descreveria a cobertura internacional que a AP faz no Brasil? Há uma linha editorial predeterminada? Que assuntos interessam mais aos editores?
Barbassa – A linha editorial neste momento é Olimpíada, Olimpíada, Olimpíada, com um leve toque de outros temas. Não há uma agenda de interesses predeterminada, e o repórter tem liberdade para oferecer pautas de acordo com seu interesse e com o noticiário local, mas claro que é preciso manter os olhos abertos aos interesses de leitores no resto do mundo. E neste momento isso significa acima de tudo qualquer tema relacionado aos Jogos.

Brasilianismo – Que assuntos geram mais interesse entre os leitores em outros países?
Barbassa – No Brasil como em qualquer outro país, os leitores no exterior têm que encontrar um ponto de conexão – um motivo para se preocupar. Isso soa grosseiro, mas o mundo é grande, as pessoas estão ocupadas, e você tem que mostrar-lhes por que eles devem investir 15 minutos para ler a sua reportagem.

É por isso que reportagens que tratam da preparação para os Jogos Olímpicos são populares; os fãs dos Jogos querem saber o que está acontecendo na cidade e no país onde serão realizados.

Mas outros temas importam muito, desde que o leitor possa se conectar. Por exemplo, em vez de apenas escrever sobre a economia, eu escrevi uma reportagem sobre a indústria da beleza no Brasil. Os brasileiros são loucos sobre cuidados pessoais; nós tomamos mais banho do que qualquer outro povo, nós consumimos mais desodorante e xampu e condicionador que a maioria das pessoas no planeta. E a indústria cresceu enquanto o Brasil estava indo bem. Isso faz com que uma reportagem sobre a economia se torne mais interessante, mais próxima, para estrangeiros.

Outra reportagem que foi surpreendentemente popular foi uma que eu fiz sobre a escova progressiva. Como este tratamento cosmético se tornou disponível fora do Brasil, as pessoas queriam saber mais sobre isso, por isso foi uma oportunidade de não só falar sobre as controvérsias ligadas a ele, mas também para tratar do que a popularidade de alisamento diz sobre raça no Brasil e como isso estava mudando.

Brasilianismo – Que impacto você acha que a cobertura de uma agência internacional como a AP, ou a Reuters e AFP, pode ter na construção da imagem do Brasil no resto do mundo?
Barbassa – A mídia internacional desempenha um papel importante na formação da imagem de qualquer país no exterior, e isso é verdade com o Brasil também. Ela esculpe um tema grande e amplo em fatias digeríveis e tratadas repetidamente, mostrando a mudança ao longo do tempo – eu estou falando sobre grandes temas como a violência, a raça, a economia. Assim, pode ajudar a moldar a imagem de o que o país é, de verdade, no lugar de uma noção preconcebida que os leitores poderiam ter antes.

Brasilianismo – Os brasileiros são descritos como protecionistas em relação à imagem do país. Concorda com essa avaliação? Que tipo de críticas ouviu ao escrever em inglês sobre problemas do país?
Barbassa – Sim, acho que muitas vezes é verdade. Mesmo que nós mesmos sejamos muito críticos a nosso país, e possamos atacar fortemente nossas próprias falhas, muitas vezes há uma forte reação quando um estrangeiro – ou alguém que escreva para estrangeiros, como eu – diz algo negativo sobre o país.

Há um esforço para mostrar apenas nosso melhor perfil no exterior, até o ponto em que alguns brasileiros chegam a negar os problemas que temos quando estão diante de uma platéia internacional.

Quando meu livro saiu eu recebi e-mails e mensagens no Twitter dizendo coisas como ''não li e não quero ler'', ''se não gosta do Brasil, pode ir embora.''

Bem, a verdade é que todo país tem problemas. Se eu escrever sobre os Estados Unidos, vou escrever sobre os problemas norte-americanos; se eu escrever sobre o Brasil, vou escrever sobre problemas brasileiros. Fazer perguntas e ser crítico é parte do papel da imprensa. Isso alimenta o debate público, lança luz sobre questões negligenciadas e ajuda a sociedade a encontrar soluções.

Devo dizer também, e isso pode ser uma surpresa para alguns brasileiros, que o Brasil, apesar de seus problemas tem uma imagem geralmente muito positiva no exterior. Os brasileiros são muitas vezes vistos como calorosos e amigáveis, e o país como bonito e acolhedor. Portanto, não são apenas o brasileiros. Pode ser difícil dar notícias negativas sobre o Brasil sem que um 'gringo' diga algo como: ''Essa não foi a minha experiência! Passei dez dias lá em 1998 e tive uma experiência magnífica''

Brasilianismo – Em que momento percebeu que o trabalho como correspondente poderia se tornar livro? Como está sendo a recepção do livro no mundo?
Barbassa – Logo depois voltei ao Brasil, comecei a pensar que, para realmente fazer justiça ao que eu estava cobrindo, eu tinha que escrever um livro. Os temas são tão entrelaçados – a economia nacional, o peso da indústria da construção, o ambiente, a Copa do Mundo e a Olimpíada, os protestos… Escrevendo sobre isso tudo em reportagens diárias curtas, e para um público que não estava familiarizado com o Brasil ou com o Rio, tornava impossível mostrar suas conexões e suas repercussões mais amplas. O livro me deu a liberdade que a cobertura diária não permitia. Permitiu-me dar zoom em histórias individuais e, em seguida, voltar novamente para mostrar como elas se conectam a uma transformação mais ampla da cidade. Isso me permitiu escrever de forma pessoal também, e trazer minhas próprias esperanças e expectativas para o Rio e para o Brasil, bem como as minhas decepções.

Fui surpreendida com a recepção calorosa que o livro teve. Claro que eu queria que ele fosse lido, mas também sabia que o público para um livro sobre um país que não está em guerra e não é uma superpotência, como a China, é limitado. Desde o seu lançamento, no entanto, eu dei dezenas de entrevistas na imprensa americana sobre o livro e sobre o Brasil em geral. Eu acabei de fazer um lançamento na Suíça, onde eu vivo agora, e farei outro na Dinamarca. Em novembro eu estarei de volta aos Estados Unidos para fazer palestras em universidades da Califórnia da Flórida. Tem sido um pouco louco, e um desafio me acostumar a ser a única respondendo a perguntas, mas tem sido muito bem-vindo.

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