Brasilianismo

Americas Quarterly: Crise política ameaça imagem de estabilidade do Brasil

Daniel Buarque

Análise da revista 'Americas Quaterly' sobre a crise política no Brasil

Análise da revista 'Americas Quarterly' sobre a crise política no Brasil

A atual crise política no Brasil ameaça fazer o país deixar para trás o avanço de quase duas décadas que fez o país ser visto internacionalmente como uma democracia estável e madura. Uma análise publicada na prestigiosa revista ''Americas Quarterly'' indica que em vez de um soluço no progresso registrado desde os anos 1990, os problemas atuais podem significar uma volta ao passado sombrio de instabilidades.

''Jânio está vindo: O retorno do velho e instável Brasil'', diz o título da análise escrita por Brian Winter, editor-chefe da revista ''Americas Quarterly'' e autor de quatro livros sobre a América do Sul. Ele faz um levantamento da história política do país para indicar que apesar de ainda ser possível ver sinais positivos nas instituições, o Brasil pode estar revertendo o rumo positivo tomado nos anos 1990.

''Certamente pode-se argumentar que [a crise] é apenas uma dor do crescimento. Talvez seja uma limpeza necessária, um sinal de instituições jurídicas independentes e de uma nova intolerância com a corrupção. Talvez o Brasil saia disso mais forte. É possível. Mas também tenho medo de o Brasil estar simplesmente voltando a sua forma histórica'', diz.

A transição democrática e a continuidade de políticas entre os dois governos de Fernando Henrique Cardoso e os de Luiz Inácio Lula da Silva costumam ser apontadas internacionalmente como os símbolos de amadurecimento do Brasil, de conquista da estabilidade política e social. Ali, viam estrangeiros, o país deixava para trás o passado de golpes e de rupturas institucionais que havia vigorado por quase dois séculos.

Quando realizava as entrevistas para o livro ''Brazil, um País do Presente'', em 2010, estes dois governos eram apontados como parte das razões de o Brasil estar ''bombando'', na ''moda'', sendo visto como ''bola da vez'' no resto do mundo. Em termos de política, era o ponto de transformação do país – que seria mais confiável a partir de então. Era o equivalente político do grau de investimento conquistado pela economia.

É por este motivo que, desde o início da crise política do segundo mandato de Dilma , este blog do Brasilianismo tem apontado os riscos de um impeachment para a imagem internacional do Brasil, quebrando a estabilidade conquistada no passado e fazendo o país ser visto como a velha república de bananas sem rumo.

''Não era para ser mais assim no Brasil. A estabilização das finanças do governo duramente conquistada em meados dos anos 1990, a ascensão de 40 milhões de pessoas à classe média desde então, e a organização da Copa do Mundo e da Olimpíada nesta década supostamente separavam o passado caótico e anunciava a chegada de uma potência mundial estável'', diz.

A novidade da análise de Winter na ''AQ'' é que ele diz que no fundo isso pode já estar acontecendo. O prolongamento da crise dá ao mundo a impressão de que a reversão de rumo da política do país já começou. Junto com a crise econômica e o risco de perder o grau de investimento das agências de risco, comentaristas de política começam a ver a perda do grau de confiança política do Brasil. E é difícil ver culpados diretos pelos problemas, quando todo o sistema político parece marcado por essa cultura problemática.

Mesmo que o processo pareça já ter começado, Winter indica que ele pode se tornar ainda pior com um possível impeachment. ''Retirar a presidente Dilma Rousseff do poder sem provas contra ela pode reverberar pelas próximas décadas'', diz. Segundo a ''AQ'', tirar Dilma pode dar fim à ideia de ''um novo Brasil''.

Além dos riscos para a política e economia nacionais, com fortes impactos na vida de todos os brasileiros, a atual crise ameaça trazer perda da confiança internacional nas duas esferas, levando a imagem do país de volta a aquela de instabilidade. Os estereótipos de praia e carnaval provavelmente continuarão vivos, mas o país pode ir parar longe de continuar sendo um exemplo respeitável de democracia como era no início deste século XXI.

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